sexta, 02 dezembro 2022

Pensar "Fora da Caixa"

terça, 18 outubro 2016 11:57
Gosto de pensar “Fora da Caixa”. Pensar “Fora da Caixa” pode ser assim como que deter uma capacidade de resistência à tentação do óbvio, pode ser conseguir esquecer ou pôr de parte, ali num cantinho, aquilo que nos inflama, aquilo que, de certa forma nos enraivece, aquilo que nos dá a volta às entranhas e nos pode fazer reagir sem reflectir, “disparar” por impulso - que é uma coisa que não faz muito parte da minha forma de ser. Se calhar às vezes até perco por isso, umas vezes por não conseguir outras por não querer. Quantas vezes não fico irritado comigo mesmo por não responder de imediato a determinada provocação? Penso sempre “porque é que não disse isto… e aquilo… e o outro”, mas o que é certo é que não digo e há certas coisas que deixam de fazer sentido ditas num momento posterior. De certa forma, e como acredito que nada acontece por acaso, entendo que talvez tenha mesmo que ser assim, no fundo também serve como forma de aprendizagem e crescimento pessoal.
 

Quantas vezes não fico irritado comigo mesmo por não responder de imediato a determinada provocação? Penso sempre “porque é que não disse isto… e aquilo… e o outro”, mas o que é certo é que não digo e há certas coisas que deixam de fazer sentido ditas num momento posterior.

Quem vai lendo o que por aqui escrevo já percebeu, certamente, que poucas vezes escrevi sobre a actualidade. Tento sempre fugir àquilo que os “opinion makers” trazem à luz do dia diariamente nas televisões, nos jornais, na blogosfera ou nas redes sociais, até porque eu acho que, não raras vezes, o que os mesmos pretendem é tentar influenciar opiniões e, desse modo, não existe, para mim, compatibilidade com o pensamento que quero independente e racional. Seria muito fácil opinar sobre a crescente tensão entre russos e norte americanos sobre o que se passa na Síria, sobre o orçamento de estado para o próximo ano, sobre a recente eleição do engenheiro António Guterres para Secretário-geral da Organização das Nações Unidas, sobre a forma absurda como os agentes de autoridade portugueses são tratados pelos sucessivos governos, cuja autoridade é posta em causa a cada acção mais… tensa, digamos assim, ou até mesmo sobre se o Prémio Nobel da Literatura foi ou não bem atribuído ao letrista e cantautor Bob Dylan. 
 
Mas pensar “Fora da Caixa” não é só o que referi anteriormente, pensar “Fora da Caixa” é pensar alternativamente, é sair do convencional, quebrar convenções, é não seguir ideias pré-concebidas, é ter a liberdade para ousar pensar diferente… pensar “Fora da Caixa” é imaginar mundos de vida, sonhos de canela, calçadas de estrelas, céus de algodão, grãos de areia falantes – Jesus!! Se os grãos de areia falassem ninguém poderia estar na praia, dificilmente se conseguiria entender o que quer que fosse, nem o som das ondas do mar se faria ouvir. Pensar “Fora da Caixa” é mesclar a imaginação com a memória e recorrer a ela e às vivências passadas… é ter a capacidade de criar, inventar, sujar o pensamento com pinceladas de tudo e de todas as cores… é falar sobre o pêlo da marta, sobre o cheiro do campo, a cor da cidade, a textura dos mundos, o sabor da vida… pensar “Fora da Caixa” é contar histórias fantásticas, viver os sonhos sonhados, saborear o som do silêncio, observar o toque do tempo. No fundo é baralhar os sentidos, misturá-los e encadeá-los no mundo.
 
Já várias vezes aqui escrevi sobre a forma como o mundo em que vivemos está e sobre o resquício de valores adjacentes à vida dos nossos dias. Na realidade há algo que me faz acreditar que esta decadência pode ser revertida. Essa reversão só pode mesmo passar pelo facto de podermos pensar “Fora da Caixa”. Se calhar tudo dará mais trabalho mas acredito que esta pode ser a medida mais eficaz e duradoura para um mundo menos mau.
 

Se há coisa que eu adoro são letras e palavras. A este propósito, quantas letras e palavras não se juntaram já e se tornaram “best sellers” por haver um escritor com a capacidade de desenvolver mecanismos intelectuais que potenciaram esse pensamento “Fora da Caixa”?

Quantos medicamentos e curas, por exemplo, não foram já descobertos pelo simples facto de ter havido um mero investigador que se lembrou de pensar “Fora da Caixa”?
 
Quantas soluções simples não foram já apresentadas para resolver problemas complexos só porque alguém arriscou a pensar “Fora da Caixa”?
 
Quantas vidas não foram já salvas porque o bombeiro, o enfermeiro ou o médico decidiram algo não convencional pensando “Fora da Caixa”?
 
Quantos novos cheiros não se sentiram só porque houve alguém que pensou “Fora da Caixa” e decidiu aquela mistura de fragâncias que ditaram um novo perfume?  
 
Quantos sabores novos e bons não se saborearam pelo simples facto do cozinheiro ter pensado “Fora da Caixa” e ter experimentado adicionar aquele ingrediente que ninguém imaginava?
 
Se há coisa que eu adoro são letras e palavras. A este propósito, quantas letras e palavras não se juntaram já e se tornaram “best sellers” por haver um escritor com a capacidade de desenvolver mecanismos intelectuais que potenciaram esse pensamento “Fora da Caixa”?
 
Percebem agora, só por estes simples exemplos, o motivo pelo qual eu acho que uma das soluções para o mundo é pensar “Fora da Caixa”? Sinceramente eu sou daqueles que não acreditam que só consegue pensar “Fora da Caixa” quem conhece muito bem o interior da mesma. Para mim não é preciso conhecer cada canto interior da “Caixa”, é preciso é fazer com que a tampa da “Caixa” salte, ainda que de quando em vez, e o pensamento se espalhe para fora dela, pelo mundo fora.
 
* Professor Luís Parente
Modificado em terça, 18 outubro 2016 15:39

Feliz Ano Novo!

quinta, 15 setembro 2016 18:55
Feliz ano novo numa altura destas? É verdade! Para quem está, como eu, ligado à educação o ano civil confunde-se muitas vezes com o ano lectivo. E digo mais, se calhar, quem está deste lado, até dá mais importância ao ano que inicia em Setembro do que àquele que começa em Janeiro. É certo que tudo dependerá da intensidade com que se vive a educação e da forma como a transportamos na nossa vida. Hoje começa mais um ano lectivo para milhares de crianças e jovens do nosso país. O planeamento de um ano lectivo inicia-se muito antes do mesmo ter iniciado, tudo começa ainda dentro do ano anterior com o balanço emanado de inúmeras reuniões de debate sobre o que correu bem e menos bem durante o tempo efectivamente lectivo. Quando ouço, muitas vezes, as pessoas a comentarem a “boa vida” dos docentes fico, de certa forma, triste porque não considero essas críticas justas. Só quem está na área pode, com clareza e objectividade testemunhar o que aqui descrevo. O trabalho dos professores é intenso e, muitas vezes esgotante. Quando digo esgotante refiro-me ao sem número de funções burocráticas que o docente tem que desempenhar no seu dia-a-dia, ao preenchimento de inúmeros documentos que muitas vezes não se lhe reconhece utilidade. Com isto não quero dizer que alguns não sejam, na realidade, necessários e que facilitem posteriores situações. Se o professor só ensinasse e os alunos só aprendessem tudo seria menos complicado e menos esgotante. O que eu critico é o tempo que o professor dedica aos alunos. Na minha opinião o docente gasta demasiado tempo com essas tarefas burocráticas e administrativas e deixa para segundo plano aquilo que, no meu ponto de vista é essencial, o trabalho para e com os alunos. Eu que até reconheço e valorizo as virtudes das novas tecnologias chego a pensar que em muitos casos elas vieram dificultar ao invés de facilitar. Mas a realidade da educação nos dias de hoje é esta mesmo e é com ela que temos que viver, o que não quer dizer que não tenhamos opinião e não a possamos manifestar.
 

Ainda há dias aqui em casa, em conversa com amigos, alguns deles também ligados à educação, eu barafustei, resmunguei com o papel que o professor hoje desempenha, com o facto de haver colegas desterrados e longe das suas famílias e cheguei mesmo a manifestar a intenção de abandonar “tudo isto” se porventura o futuro me afastar do mais importante da minha vida que é a minha família.

Desde que iniciei a minha carreira já vi “passar” pela tutela da educação mais de uma dezena de ministros. Cada equipa que chega muda tudo e mais alguma coisa, de mandatos para mandatos andamos de experiências em experiências e a consolidação dessas mesmas experiências nunca é feita e nunca se sabe a médio/longo prazo o resultado das mesmas. Talvez por aí também o trabalho dos docentes não seja beneficiado em prole dos seus alunos e comece a haver uma certa desmotivação no próprio corpo docente. Quando ainda recentemente li que grande parte dos docentes, se pudesse, mudava de vida, reflecti e cheguei à conclusão de que o que acabei de descrever podem ser alguns dos motivos para que isso aconteça. Confesso que às vezes eu próprio também me apetece “sair”. Ainda há dias aqui em casa, em conversa com amigos, alguns deles também ligados à educação, eu barafustei, resmunguei com o papel que o professor hoje desempenha, com o facto de haver colegas desterrados e longe das suas famílias e cheguei mesmo a manifestar a intenção de abandonar “tudo isto” se porventura o futuro me afastar do mais importante da minha vida que é a minha família. Mas depois caio na real e penso que existem milhares que gostavam simplesmente de estar no meu lugar e, para ser sincero, não sou pessoa de desistir assim às primeiras. Vou lutar! E vou lutar porque gosto disto, não das papeladas e burocracias que me passam pela frente a toda a hora mas dos alunos e da relação que se estabelece com eles. Nós, muitas vezes conhecemos melhor as crianças e jovens que passam os seus dias connosco do que propriamente as suas famílias. Quando há pouco falava das injustas acusações com que muitas vezes os professores são confrontados referia-me ao papel, muitas vezes invisível que o professor desempenha no seu dia-a-dia. A educação não é só ensinar e aprender, a educação de hoje tem um sem número de vertentes e variáveis que se devem ter em conta. O descrédito dado aos docentes, a sua perca de autoridade, a forma como muitas das vezes os mesmos são tratados na opinião pública, pelos meios de comunicação social, por alguns pais, famílias, encarregados de educação e até mesmo pelas sucessivas equipas ministeriais não valoriza nem credibiliza a complexa miríade de funções que o docente desempenha junto dos seus alunos. Ser professor é ser professor, é ser psicólogo, pai, mãe, tio, avó, amigo, vizinho, assistente social, juíz, transmissor de afectos, educador, confidente… ser professor é ser um guia, um confessor, um sociólogo, um analista… ser professor é ser dono do tempo, é viajar até ao fim do mundo, é rir, chorar, cantar, dançar, correr… ser professor é perguntar, responder, transformar, pintar, crescer… ser professor é motivar, é ensinar a lidar com os sucessos mas também com os fracassos… é ter convicção, inovar, abraçar, é alargar horizontes, é mostrar caminhos… ser professor é lidar com bons comportamentos mas também com comportamentos disruptivos, é mediar expectativas, é trabalhar para resultados, é usar distintas terminologias, é falar de diferentes formas… ser professor é trabalhar sem recursos, é trabalhar com manuais, com recursos multimédia, é avaliar processos, fazer introspecção, é ter a capacidade de fazer uma constante auto-avaliação, é ser capaz de trabalhar tanto com métodos quantitativos como qualitativos, é fazer formação para melhorar estratégias de acção, é viver com rotinas, sem rotinas… ser professor é ultrapassar obstáculos, é trabalhar com turmas grandes e com turmas pequenas, é trabalhar com brancos, pretos, amarelos, ciganos, russos, árabes, é trabalhar com ricos, com pobres, com pessoas com dificuldades cognitivas, de locomoção, com deficiência visual e auditiva… ser professor é tudo isto e mais uma panóplia de coisas. Digam-me agora que a profissão docente não é intensa, muitas vezes esgotante e de uma enorme exigência! Acredito piamente que mais de noventa por cento dos professores têm a preocupação em dar tudo isto aos seus alunos, acredito que eles dão o melhor de si, não só transmitindo-lhes os seus conhecimentos mas dando-lhes, inúmeras vezes, a tal orientação de que as famílias muitas vezes se “esquecem” de dar. Sobre tudo isto até me podem dizer que, como sou professor, estou unicamente a defender a minha classe. Meus amigos, se há classe mais desunida, é a nossa. Basta vermos a quantidade de sindicatos que existem para nos defender. Se fossemos realmente unidos um bastava para defender os nossos interesses.
 

Uma vez que os docentes têm a capacidade de fazer tudo isto, têm que ter a capacidade para também entenderem que cada vez mais as aulas não podem ser iguais para todos os alunos. Cada pessoa é uma só e os alunos não fogem à regra. Cada vez mais me convenço que o ritmo de cada um é distinto e a experiência tem-me revelado precisamente isso. O professor não pode fechar-se no seu “ninho” e ousar pensar e acreditar que é sempre eficaz nas suas decisões e na forma como vive a sua Educação. Também erramos, também falhamos mas uma coisa é certa, temos que ter a capacidade de nos renovarmos. Não estou aqui, de forma alguma, a pôr em causa as capacidades e a competência pedagógica de cada um, unicamente acho que temos que ter a capacidade de reconhecer o erro.
 
Fala-se muito na educação da Finlândia como sendo a que melhores resultados apresenta em todo o mundo. Acerca disto às vezes ponho-me a pensar: Será que os nossos alunos não estarão fartos do nosso tipo de ensino com demasiado tempo na escola, com um currículo demasiadamente cheio e sem tempo para poderem sequer brincar, tal não é o conjunto de actividades escolares e extra escolares que eles têm? Será que não seria mais benéfico se lhes dessemos a liberdade de os deixarmos brincar até chegarem ao ponto de se “aborrecerem” para que eles próprios sentissem individualmente a necessidade de procurar saber mais e mais? Será que resultava num tipo de ensino mais apelativo? Será que no nosso país funcionaria? Se querem que vos diga também não sei mas com tantas experiências que já foram feitas não me chocava nada se apostassem numa desta natureza.
 

O sucesso dos nossos alunos não pode passar só pela parte académica, esta é importante, sem dúvida, mas o que nos interessa sermos superinteligentes e saber tudo e mais alguma coisa se depois não temos a capacidade de sermos humildes e ajudar os outros, de reconhecermos erros, de assumirmos responsabilidades, de sermos bem-educados, cordiais, simpáticos.

A este propósito e dado o extenso currículo do ensino em Portugal parece-me que por vezes se dá pouca importância àquilo que considero primordial que é a aposta na formação pessoal de cada um dos alunos que nos passam pelas mãos, o tentar fazer com que sejam pessoas equilibradas, responsáveis e assumam sem subterfúgios e receios as suas responsabilidades… o tentar fazer com que sejam honestos e humildes, dinâmicos, activos, trabalhadores e esforçados, respeitadores e justos, solidários e empreendedores. No fundo tentar fazer com que sejam boas pessoas.
 
O sucesso dos nossos alunos não pode passar só pela parte académica, esta é importante, sem dúvida, mas o que nos interessa sermos superinteligentes e saber tudo e mais alguma coisa se depois não temos a capacidade de sermos humildes e ajudar os outros, de reconhecermos erros, de assumirmos responsabilidades, de sermos bem-educados, cordiais, simpáticos. Na minha opinião a humanização da educação é tão importante quanto a importância que se dá aos currículos e às metas.
 
É certo que não há maior satisfação profissional como aquela que sentimos quando vemos que os alunos que um dia estiveram connosco a partilhar também os seus conhecimentos (sim porque eu não consigo ensinar sem deles também aprender todos os dias) – a partilhar as suas dúvidas, as suas alegrias, tristezas, os seus segredos, as suas birras, os seus primeiros namoricos, no fundo a infância e a adolescência das suas vidas, não há, efectivamente, maior satisfação para nós do que vê-los vencer na vida… dá-nos um gozo especial, é certo, quando entram na Universidade mas, quer entrem na faculdade e se tornem investigadores, médicos, enfermeiros, gestores, professores, arquitectos, quer façam um percurso diferente e sigam a vida militar, as artes, a música, quer criem o seu posto de trabalho ou trabalhem por conta de outrem, quer sejam cozinheiros, empregados fabris, agricultores, sapateiros ou até varredores, a maior satisfação é vê-los pessoas… pessoas na verdadeira acepção da palavra com todos os verbos, substantivos e adjectivos que a si se podem agregar.
 
Sabemos que deixamos “marcas” nos nossos alunos quando nos encontram em qualquer lugar e se dirigem a nós para nos cumprimentar e falar um pouco sobre as conquistas das suas vidas.
 
Li algures que ser professor também é isto… “sentir-se realizado e feliz com as conquistas dos nossos alunos”
 
Para o ano lectivo que hoje se inicia desejo a todos: docentes, técnicos que colaboram nas escolas, alunos, assistentes operacionais e técnicos (que desempenham um papel importantíssimo no dia-a-dia das escolas) parceiros e famílias um Feliz Ano Lectivo!!!
 
* Professor Luís Parente
 
Modificado em quinta, 15 setembro 2016 19:04

Este mundo está uma “merda”!

quinta, 18 agosto 2016 15:46
Quem lê um título como este imagina que a pessoa que o escreve é uma pessoa triste, desiludida com a vida, que liberta fel por todos os poros, ou então que está cansada, chateada, stressada, sozinha ou mesmo desiludida com o seu mundo. Na realidade, apesar de ser o oposto de tudo isto, sinto-me efectivamente magoado com este mundo. Depois de ver e ouvir as constantes notícias de barbaridades que se passam por este planeta fora, pergunto-me muitas vezes… que mundo é este em que vivemos?... o que está a humanidade a criar?
 
Vejamos então… Ainda que cada pessoa deva ter a sua 
forma de pensar e ter o direito de usar o seu pensamento para aquilo que lhe aprouver, não consigo compreender como é que as pessoas têm dificuldade em utilizar essa maravilhosa capacidade de pensarem por si próprias e preferem enveredar pelo fácil seguidismo. Nos Estados unidos da América, por exemplo, foi recentemente nomeado pelo partido republicano, como candidato à presidência do país, uma pessoa que, na minha opinião, é desprovida de qualquer tipo de sensibilidade e como consequência sem capacidade para presidir um dos países mais influentes do mundo. Pior do que isso é a sociedade que foi criada para que essa situação fosse hoje possível, não se conseguindo discernir um propagandista, aproveitador e ainda por cima xenófobo que se arrisca a ser presidente (lagarto… lagarto… lagarto) daquele que por muitos é considerado o país mais multicultural e multiétnico do mundo. Será que as pessoas não vêem que o mundo não é um reality show? Aliás, esse fácil seguidismo parece que é uma regra e existe por todo o espectro político-partidário, pelos vistos, e obviamente, não só no que à realidade nacional diz respeito. É por isso que a política cada vez mais me desilude. Porque é que uma proposta de lei que beneficia os cidadãos e é apresentada por um partido seja de direita ou de esquerda não permite ao cidadão eleito pelas pessoas, “vulgo” deputado, decidir em sua consciência e não ir atrás do que o seu partido quer? Poder-me-ão dizer que são as regras dos partidos e que o cidadão/deputado quando foi eleito já as conhecia e teria que as cumprir. E pergunto eu… mas afinal não é uma pessoa que é eleita? É mais importante um partido ou as pessoas? Mudem-se as regras dos partidos então! A própria palavra “partido” já nos diz que há algo que está fragmentado, dividido. Então se assim é porque não pode expressar o cidadão/deputado o seu voto em plena liberdade de consciência, mesmo que “o seu fragmento” seja diferente dos do seu partido? Na minha singela opinião, todo o mundo teria a beneficiar se assim fosse. Dir-me-ão que assim os partidos políticos não faziam sentido, talvez seja verdade. Mas as pessoas quando são eleitas não servem para tentar resolver os problemas dos eleitores? Porque será então que muitas vezes os complicam só para fazerem oposição partidária?
 

O mundo não é perfeito, meus amigos, não é mesmo! A este propósito ouvi ou li, não posso precisar, uma frase que ficou retida na minha memória, é qualquer coisa deste género: “Nós nunca veremos um mundo perfeito nem justo”. Na realidade isso não vai mesmo acontecer, mas o que é certo é que foi neste mundo que nós nascemos e é aqui que podemos e devemos enfrentar o que nos incomoda…

Quando verificamos que há na nossa sociedade valores tão simples que estão completamente distorcidos, e posso abordar alguns dos mais básicos como são, por exemplo, o cuidar… o tão simples e puro gesto de cuidar do outro, que nestes tempos tem passado muitas vezes para um plano quase invisível, vemos efectivamente que há algo que não está bem neste mundo. Exemplo disso mesmo é o facto de na nossa própria Assembleia da República ter sido aprovada uma lei que penaliza o abandono de animais, da qual eu concordo em absoluto, e não ter sido aprovada uma outra que penaliza quem abandona os idosos. Meus amigos, desde quando é que os animais são mais importantes que as pessoas? Por muito que se goste de animais, as pessoas têm sempre que estar primeiro. Até me podem dizer que não conheço a proposta dos partidos “X” e “Y” sobre este assunto. A minha resposta é simples: “Estou-me lixando para os partidos!” O que sai cá para fora é a penalização de quem abandona um hamster e o fechar dos olhos, como que fingindo que não se vê, quando um velhote é abandonado num qualquer lar, no seu próprio lar, em hospitais, casas de repouso ou outros sítios que nem quero imaginar. Não me venham com a história das propostas muitas vezes utópicas das esquerdas ou das muitas vezes radicais das direitas. Para a “pessoa” não interessam esquerdas nem direitas, à “pessoa” só interessa que até ao fim dos seus dias lhes seja dada dignidade e afecto.
 
A nossa sociedade está de tal forma doente que, há relativamente pouco tempo, cheguei a ler comentários de pessoas que, muito bem, defendem os animais em qualquer circunstância, mas que depois têm a rudeza ou a crueldade (para não lhe chamar estupidez) de se vangloriar com a morte de uma pessoa numa praça de touros. Meus amigos, o extremismo não é bom nem para um lado nem para o outro, aliás, os próprios tempos dizem-nos que nunca o foram. Há que haver equilíbrio e esse é um dos grandes problemas deste mundo, a falta de equilíbrio. E a falta desse equilíbrio leva precisamente ao extremismo que pode trazer o ódio, o egoísmo, que pode abarcar inúmeros substantivos e adjectivos mas todos com uma conotação negativa.
 
Pelo mundo há pessoas que, em nome de um qualquer Deus, são capazes de criar um terror de tal maneira atroz que repugna só de se pensar no sofrimento causado por atrocidades que nem o pior dos vilões criados pela dramaturgia ou pela literatura eram capazes de imaginar. Os ataques terroristas têm crescido exponencialmente de ano para ano e desde que apareceu o “daesh” as atrocidades têm crescido ainda mais.
 
MAS O QUE PRETENDE DO MUNDO ESTA GENTE? Criar o medo? Radicalizar tudo e mais alguma coisa? Potenciar o terror? Criar tensão? Paralisar tudo e todos? Controlar a moral das pessoas? PORQUE MATA ESTA GENTE? Porque os acha imorais? Porque os sente como almas perdidas? Porque os acha inimigos do seu Deus? DEUS NÃO TEM INIMIGOS!!! Acredito que nem mesmo o demónio é Seu inimigo!!! COMO É QUE ALGUÉM É CAPAZ DE MATAR EM NOME DE DEUS? Não acredito que algum Deus, se é que existe mais do que um e, seja ele qual for, mande, nos seus ensinamentos matar alguém e espalhar o terror.
 
O mundo tem, de facto, as prioridades trocadas. Naturalmente que a Europa também se enquadra neste rol. Como diz o meu irmão “Enquanto a Europa brinca aos castigos” dos países “incumpridores” há atrocidades como as de Paris e de Nice em França, como as de Bruxelas, na Bélgica, como as que acontecem diariamente na Síria, como as que aconteceram no Mali, na Tunísia, no Líbano, no Quénia, na Nigéria, no Kuwait, na Indonésia, no Burquina Faso, na Turquia e até nos Estados Unidos, como as que regularmente acontecem no Paquistão, no Afeganistão e no Iraque.
 
Desculpem-me os mais sensíveis mas este mundo está, na realidade, uma “merda”! Hoje mesmo li que o dia 8 de Agosto de 2016 foi a data limite, deste mesmo ano, em que a humanidade consumiu os recursos naturais de que o planeta é capaz de produzir ao longo de um ano, ou seja de Janeiro a Agosto gastámos tudo o que devíamos gastar em 12 meses. Mais recentemente, no que ao nosso país diz respeito, e infelizmente de há demasiados anos a esta parte, assistimos, Verão após Verão, a um país a ficar em cinzas, grande parte das vezes devido a encapuzados interesses económicos ou a mentes completamente enfermas que pelo simples prazer de ver tudo a arder, realizam deliberadamente acções absolutamente revoltantes como as que aconteceram na lindíssima ilha da Madeira e que provocam o sofrimento de centenas de pessoas ao verem as suas casas e os seus pertences a serem levados com o vento, no fumo que leva também os sonhos e as recordações dessas mesmas pessoas. É triste ver, nestas circunstâncias, a impotência das populações e das heróicas corporações de bombeiros, completamente exaustas a lutarem, muitas vezes em vão, para salvar pessoas e bens dos terríveis incêndios que a política, seja de esquerda ou de direita, continua insistentemente a enviar para segundo plano, não fazendo o “trabalho de casa” para tentar evitar tragédias como estas que todos os anos acontecem de norte a sul do país.
 
Enfim, é o que temos, um mundo de abusos e desigualdades. Mas apesar deste mundo estar como está, e de eu próprio me sentir magoado com ele, é nele que vivemos e é aqui que temos que fazer o que estiver ao nosso alcance para o podermos melhorar um pouco. Nós não somos donos do mundo mas temos o dever de o proteger, não só para nós mas sobretudo para o deixarmos melhor para os nossos filhos.
 

A nossa sociedade está de tal forma doente que, há relativamente pouco tempo, cheguei a ler comentários de pessoas que, muito bem, defendem os animais em qualquer circunstância, mas que depois têm a rudeza ou a crueldade (para não lhe chamar estupidez) de se vangloriar com a morte de uma pessoa numa praça de touros. Meus amigos, o extremismo não é bom nem para um lado nem para o outro, aliás, os próprios tempos dizem-nos que nunca o foram.

O mundo já esteve pior, é certo. Apesar do caos que hoje se vive, tenho a noção de que antes era bem pior, basta recordarmo-nos daquilo que a história nos ensinou, da agressividade da forca ou do chicote, por exemplo. Sim porque a sociedade já “patrocinou” penalizações horríveis ao longo dos tempos. Felizmente o mundo foi evoluindo, lentamente, é verdade. Mas se observarmos o que o mundo era e o que é, se fizermos uma análise bem mais abrangente, entendemos que essa evolução existe, ainda que aqui e ali vejamos situações que nos fazem duvidar disso mesmo.
 
O mundo não é perfeito, meus amigos, não é mesmo! A este propósito ouvi ou li, não posso precisar, uma frase que ficou retida na minha memória, é qualquer coisa deste género: “Nós nunca veremos um mundo perfeito nem justo”. Na realidade isso não vai mesmo acontecer, mas o que é certo é que foi neste mundo que nós nascemos e é aqui que podemos e devemos enfrentar o que nos incomoda… há claramente algo que nós podemos fazer, escolher a forma para podermos precisamente enfrentar esses incómodos. Uma das formas com que enfrento os meus é com um sorriso, não um sorriso sarcástico ou de indiferença, um sorriso de acção, de contágio. Sabem, eu sou daquelas pessoas que acredita que o contágio pode ser bom. Ora, se o mal, como dizem, pode ser contagioso, o sorriso também o será… e se o sorriso também o é, acredito que a bondade também seja. O mundo está assim mas reconheçamos que também há milhões de coisas boas no mundo, há que as aproveitar e desfrutar, tudo com o equilíbrio necessário. Há que equilibrar o mundo, meus amigos… Há que ter esperança num mundo melhor.
 
* Professor Luís Parente
Modificado em quinta, 18 agosto 2016 16:32

Um dia todos seremos velhos

sexta, 27 maio 2016 15:48
Há dias, ao ver na SIC o programa “E se Fosse Consigo?” sobre os maus tratos a idosos fiquei estupefacto, revoltado mas também desiludido com as atrocidades inimagináveis que são perpetradas contra os idosos. Não que não soubesse que elas existem, porque sei, mas senti-me de tal forma desiludido com a regressão da espécie humana. Sim porque neste sentido tem havido um claro retrocesso e, Deus queira que não cheguemos aos tempos da Grécia Antiga em que a velhice era pouco valorizada ou mesmo a determinada altura da “Época Romana” em que essa mesma velhice era mesmo rejeitada. Estou em crer que isso não voltará a acontecer, pelo menos enquanto acreditar que a esperança existe.
 
O tipo de vida que se vive nos nossos dias em que tudo “é para ontem”, onde se valoriza mais a economia do que a vida humana, onde não há tempo para parar e reflectir porque o tempo corre incessantemente atrás do próprio tempo, é um tipo de vida que permite ao mundo ver atrocidades tais que envergonham qualquer ser humano que possua um espírito de comprometimento com os valores da humanidade, da solidariedade, da amizade, da compaixão, da cumplicidade, do reconhecimento.
 

Há dias, ao ver na SIC o programa “E se Fosse Consigo?” sobre os maus tratos a idosos fiquei estupefacto, revoltado mas também desiludido com as atrocidades inimagináveis que são perpetradas contra os idosos.

Depois de ver aquele programa fui, por curiosidade, ao site da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) e aí descobri que em Portugal todas as semanas, em média, cerca de 20 idosos são vítimas de violência. Segundo a APAV a idade média dos idosos vítimas de maus tratos ronda os 75 anos e a grande maioria dos casos são do sexo feminino. Observei ainda que estas médias são muito superiores quando comparadas com outros países da União Europeia. Descobri que a maioria das agressões são feitas por familiares e que existem vários tipos violência contra idosos, desde logo a violência física, a psicológica, a sexual, de índole financeira, a negligência ou a violação dos seus direitos.  Todos estes tipos de violência estão bem expressos e explicados no já mencionado site da APAV, ainda assim, a estes, eu acrescentaria, só mesmo para reforçar o que pretendo, e mesmo estando já implícita nos outros, a violência contra os valores morais. Quando vejo os números da APAV questiono-me de imediato: E os outros velhotes? Aqueles que por um qualquer tipo de receio não se conseguem libertar da teia de pressão em que vivem? Aqueles que sofrem repetidamente abusos em casa ou em contextos institucionais? Aqueles que são explorados e extorquidos pelos seus próximos, sejam eles familiares, vizinhos, “amigos” ou cuidadores? Aqueles que sofrem de doenças, sejam elas incapacitantes fisicamente ou não? Aqueles a quem a medicação ministrada serve também para os prostrar? Tenho a certeza que se todos os casos fossem contabilizados estaríamos aqui a falar de números absolutamente abismais. 
 
Sobre esta problemática há uma outra coisa que me aflige ainda mais, a cumplicidade dos silêncios, o virar de costas, a inércia dos que vêem e fingem não ver. Este é um problema social e há que assumi-lo como tal. Há que aumentar e desenvolver mecanismos e estratégias de protecção da pessoa idosa de forma a evitar os abusos de que diariamente ouvimos relatos em tudo o que é comunicação social. Sinceramente não faço ideia de como se poderão desenvolver esses mecanismos mas já que temos tantas mentes brilhantes no nosso país, talvez seja a altura de os pôr a agir e não só a pensar e a mandar uns “bitaites” ou então começar a direccionar o seu próprio pensamento para aquilo que realmente tem importância… as pessoas, e neste caso particular as pessoas idosas. 
 
Na minha opinião não sei se será eficaz unicamente a aplicação de medidas legais de punição dos infractores/agressores ou somente fazendo alterações da própria legislação nesse sentido. Acho que é preciso actuar antes da velhice como forma de prevenção, não se pode actuar só depois, é preciso haver uma concertação de esforços para o agora e sobretudo para o antes, quem sabe se através de planeamentos e/ou programas que exijam aos adultos não séniores a própria preparação de auto defesas para a velhice; quem sabe talvez começando, ainda nas escolas e de uma forma mais incisiva e acentuada, a preparar uma cidadania de respeito pelos mais velhos. A este propósito eu mesmo, fruto da minha actividade profissional, já tenho vivenciado programas de excelente partilha de vivências entre idosos e jovens. Talvez seja por aqui que deve começar o apoio, talvez seja dando ao idoso o que fazer e não deixá-lo ali a um canto da casa, do lar, ou de onde quer que seja a definhar até a infinita noite chegar. Quiçá o segredo não seja aumentar a auto estima do idoso? Parar é morrer e a idade tem que voltar a ser um posto como se diz na gíria popular.
 
Ao longo da vida os nossos cabelos mudam de cor e a cor branca que adquirimos não é só física, os cabelos brancos trazem consigo a experiência, os ensinamentos. Os mais velhotes, é certo, andam mais devagar, mas muitas vezes pensam muito mais rápido, é essa tal experiência a falar do alto da idade.
 
Quando falamos em velhotes lembramo-nos certamente dos nossos avós. Eu lembro-me da minha avó “Bidá” – Claridade era difícil de dizer – (os meus outros avós, infelizmente, pouco os conheci) deliciava-me a ouvir as suas histórias sobre os seus tempos áureos de “menina e moça”. Com a minha avó aprendi a cozinhar um frango com cenouras soberbo, com ela aprendi, imagine-se, a coser à máquina numa daquelas máquinas SINGER antigas. Como já tinha muitas dificuldades de visão pediu-me para, com a sua supervisão, lhe virar um enlutado vestido de Verão que já estava muito ruço. E eu não me fiz de rogado e avancei.
 
Na casa da minha avó tudo era mais saboroso. Tive a felicidade de viver 18 anos na casa ao lado da dela e às vezes bastava a mãe passar a sopa pelo muro, para a avó, e utilizar uma mentirinha piedosa dizendo que a sopa era dela para que a mesma soubesse divinamente. Na verdade os cozinhados das avós são sempre os melhores. Há sabores e odores que ainda hoje sinto, com saudade é verdade, mas ainda os sinto. Acho que toda a gente tem na memória sabores e cheiros dos cozinhados dos avós. Têm mãos de fada os avós, adoram fazer coisas com os netos à escondida dos pais, inventam teatros, têm uma paciência de Jó. Mas quem fala em avós pode falar em pais e em tios, pode falar em avós que não o são geneticamente mas que contribuem em muito para a felicidade e para a formação pessoal e social dos “netos”. Todos eles deixam marcas profundas no coração, mesmo aqueles que não sendo nada em termos familiares acabam por ser pessoas que passam por nós e deixam atrás o seu rasto.
 

Para ajudarmos os idosos é preciso despendermos do nosso tempo, é verdade. Mas não gastaram já eles o seu próprio tempo connosco? Esta é a altura de retribuir!

Os mais velhos transmitem-nos paz, conhecimento, sabedoria, dão-nos sábios conselhos, demonstram amadurecimento, são vigilantes, dão-nos afecto, são em muitos casos almofada, confortam-nos, dão-nos carinho, divertem-nos, dão-nos prazer, colo, são super defensores, ensinam-nos músicas, lengalengas, contos, são portadores de valores de amor incondicional, de determinação e respeito. Eles sabem benzeduras que nos tiram o “cobranto”, sabem mezinhas que nos aliviam as dores e passam de geração em geração, eles deixam raízes no mais fundo de nós.
 
Obviamente que nem tudo são rosas, com a idade vêm também problemas associados à saúde mas esses, esses não os podemos evitar, os outros sim, os tais que são afectos à violência, esses sim podemos evitá-los. Os meus velhotes sempre me disseram “Não faças aos outros aquilo que não gostavas que te fizessem a ti.” Tento seguir este ensinamento ao máximo e se as minhas faculdades mo permitirem continuarei sempre a fazê-lo.
 
Congratulo-me, na realidade, com o que já existe no campo da prevenção, com os apoios concedidos pela APAV, por instituições como a PSP e a GNR, pelas Misericórdias, pelos Centros de Saúde, Centros de Dia, Lares e até mesmo pelas Universidades Séniores que fazem com que a 3ª idade passe com muito mais suavidade. Ainda assim é preciso mais não só porque UM DIA TODOS SEREMOS VELHOS mas para fazer ver àqueles que mesmo sendo novos são mais velhos que os próprios velhos pela forma absolutamente irracional como agem e pensam.
 
Para ajudarmos os idosos é preciso despendermos do nosso tempo, é verdade. Mas não gastaram já eles o seu próprio tempo connosco? Esta é a altura de retribuir!
 
A infinita noite cairá para todos e nem a lua, ainda que cheia e brilhante iluminará o que quer que seja. Até lá aproveitemos para agir, para ajudar, contribuindo para um mundo melhor e façamos com que a vida seja só o dia e a noite para que, quando essa infinita noite cair, possamos dizer num último suspiro: “Valeu a pena!” 
 
Nota: No dia 15 de Junho comemora-se o Dia Internacional de Combate à Violência Contra a Pessoa Idosa         
                                                                                                                                                                                                                         
                                                                                                                                                                                                                              * Professor Luís Parente  
Modificado em sexta, 27 maio 2016 16:26

Até sempre… nossa gente!!!

sexta, 29 abril 2016 13:06
Acho que não sou muito dado a superstições. Para mim uma sexta-feira pode ser treze… o gato pode ser preto e atravessar-se à minha frente… os talheres podem estar cruzados… posso até entrar com o pé esquerdo em qualquer lugar… abrir um guarda-chuva dentro de casa… contar as estrelas até me apetecer… pendurar um quadro e deixá-lo torto… uma ferradura, para mim, não é nenhum amuleto… o trevo de quatro folhas é só um capricho da natureza… se a minha orelha está quente é só porque não está fria… se vestir uma peça de roupa do avesso é só uma chatice porque tenho que a despir e voltar a vesti-la das “direitas”… não encontro problema algum em brindar com bebidas não alcoólicas… para além de mim podem estar mais doze pessoas na mesma mesa sem qualquer receio… nunca parti um espelho mas acredito que não dê sete anos de infortúnio… enquanto solteiro varreram-me os pés e sentei-me inúmeras vezes a um canto da mesa e no entanto casei… já visionei centenas de estrelas cadentes e formulei o mesmo número de desejos, ainda assim, só como mero exemplo, ainda não me saiu o euromilhões… cada vez que comemoro mais um aniversário peço também um desejo e, sinceramente, não sei se algum me foi atendido… contudo, a este respeito, há uma coisa que não consigo fazer, passar por baixo de uma escada. Não me perguntem porquê que nem eu próprio consigo responder. Esta coisa das superstições tem muito que se lhe diga. Quem é que, por exemplo, nunca bateu três vezes na madeira para afastar o azar?
 

...para além de mim podem estar mais doze pessoas na mesma mesa sem qualquer receio… nunca parti um espelho mas acredito que não dê sete anos de infortúnio… enquanto solteiro varreram-me os pés e sentei-me inúmeras vezes a um canto da mesa e no entanto casei…

Na realidade, com o constante progresso que o nosso mundo vai evidenciando, é surpreendentemente estranho que, nas sociedades desenvolvidas dos dias de hoje, se continuem a valorizar as crendices e as superstições. Muitos não concordarão comigo, mas o que é certo é que elas existem e até mesmo nos países mais desenvolvidos.
 
No mundo do futebol as superstições, as rezas, as crenças são mais que muitas e a esse respeito, na ordem do dia, há até um jogador do Arsenal de Londres, chamado Aaron Ramsey, que dizem carregar consigo uma maldição, o que acontece é que cada vez que o mesmo marca um golo, há uma dita celebridade que morre. Obviamente que para mim são meras coincidências, no entanto como as pessoas ouvem isto repetidamente nos órgãos de comunicação social começam a partilhar da coincidência e a acreditar que tal pode ser verdadeiro.
 
Mesmo sem partilhar dessas crenças ou superstições, que são por vezes exacerbadas, tenho que reconhecer que, para já, este ano de 2016 tem sido surpreendentemente fértil em acontecimentos trágicos para o mundo do “show business”, sendo por esse facto motivo de análise em tudo quanto é sítio. Deste modo, dada a actualidade do assunto, pode ser interessante escalpelizar um pouco o sentimento que nos assola quando vemos partir do nosso dia-a-dia personagens, intérpretes, sítios ou sons que mais não são do que pessoas como nós, por vezes endeusados é certo, mas simples mortais que fizeram e fazem parte do nosso passado, do nosso presente e até do nosso futuro através de uma coisa tão fantástica que é a memória de cada um de nós. No fundo essas pessoas são parte das nossas vidas, temo-las quase como fazendo parte das nossas próprias famílias e também sofremos com a sua ausência física, chegamos mesmo a ficar chocados com o seu desaparecimento. Na verdade, nem sequer os conhecemos pessoalmente e ainda que só os conheçamos unicamente através de uma pequena caixa mágica, o tal ecrã de televisão ou o monitor do computador, parece-nos irreal que tal individualidade tenha a ousadia de desaparecer assim sem mais nem menos.
 
Este ano tem sido pródigo em desaparecimentos de gente da “família”. Todos os anos acontece, é verdade. Sempre irá acontecer, é um facto. Contudo, para a minha geração, tudo se torna um pouco mais inquietante, se assim lhe posso chamar. Ver partir referências da música, da representação, da arte, do humor, da cultura, faz com que nos apercebamos ainda mais que “todos somos pó” e que uma simples brisa nos pode levar para longe, num ápice. Na realidade todos somos iguais, não há ricos nem pobres, altos nem baixos, pretos ou brancos, muçulmanos ou católicos, ainda mais quando o que mais certo temos é mesmo a morte, e essa, calha a todos. Aí não há discriminações de qualquer género.
   
Para mim não existem celebridades ou famosos, para mim existem indivíduos que se evidenciam um pouco mais do que os outros na sua actividade profissional e com as quais as pessoas se vão identificando, quer seja pela forma como agem, como falam, como cantam, como vivem, como representam, como escrevem, como desenham. De alguma forma, houve algo nessas pessoas que despertou emoções, sentimentos… uma letra de uma canção sentida num momento especial (quem não tem uma música que considera a sua?)… um livro que descreveu de uma forma de tal maneira real determinada situação que nos fez entrar nele e fazer de nós próprios a personagem principal…  um simples conjunto de traços que formaram um desenho que nos fez soltar um “Uau!!” … um filme que nos levou às lágrimas e nos fez suspirar por determinada atriz (ou actor)… uma peça de teatro que também nos levou às lágrimas mas de tanto rirmos… uma jogada de génio de um futebolista, basquetebolista ou jogador de ténis… uma dança de tal forma harmoniosa que nos fez levitar como uma pena ao vento… uma voz de arrepiar numa simples emissão de rádio.
  

Superstições à parte, e mesmo sendo um ano bissexto, 2016 está a ser difícil, e difícil pelo partir das tais referências. Ainda assim, essas mesmas referências, deixam um legado que faz com que se tornem imortais, nem que seja nas nossas próprias memórias.

Nos nossos dias são principalmente as redes sociais que fazem com que o luto sentido com o desaparecimento de uma dessas pessoas, que denominam de “famosos”, seja ainda mais intenso e prolongado no tempo. Proliferam os comentários, os “posts” de vídeos, as imagens com os rostos com pequenas frases associadas aos indivíduos, tudo isso se revela um motivo para o homenagear e assim prolongar no tempo a memória do mesmo.
 
Quando num acidente de viação no tão propalado “Tunnel de l’Alma” em Paris faleceu a princesa Diana de Gales, o mundo ficou em estado de choque, não só por ser a pessoa mais fotografada por “paparazzis” em todo o mundo, mas por ser uma pessoa boa de quem toda a gente gostava e dotada da humildade que normalmente a sobranceira realeza não tem.
 
Superstições à parte, e mesmo sendo um ano bissexto, 2016 está a ser difícil, e difícil pelo partir das tais referências. Ainda assim, essas mesmas referências, deixam um legado que faz com que se tornem imortais, nem que seja nas nossas próprias memórias. Em Portugal José Boavida, Nicolau Breyner e Francisco Nicholson deixaram o sorriso, a simpatia e os ensinamentos a muitos realizadores e escritores, actores e actrizes em ascensão… Nuno Teotónio Pereira deixou o nosso país mais rico pela sua arquitectura… O mundo ficou melhor com o legado musical deixado pelo camaleónico David Bowie e pelo multi-instrumentista Prince… beneficiou com o brilhantismo de Johan Cruijff no futebol, com a voz e a extraordinária representação de Alan Rickman no teatro e no cinema e com o fantástico discorrer de palavras do notável Umberto Eco.
 
E porque esta gente merece e todos somos gente… até sempre, nossa gente!!!
 
* Professor Luís Parente
Modificado em sexta, 29 abril 2016 13:16

Alguém se voluntaria?

segunda, 04 abril 2016 02:08
Quando esta pergunta é formulada por alguém, sinto que a maioria, para não dizer 99% das pessoas, tenta esconder-se atrás de quem está à frente para não ser visto ou, estando na primeira fila, desviar o olhar para não o cruzar com quem formulou a questão, “não vá o diabo tecê-las” e decidir o interlocutor chamar-nos e tornar-nos voluntários à força. A este propósito relembro que há uns anos atrás fui com as minhas filhas ao circo e, num número de um palhaço, perante uma assistência “praí” de 200 ou 300 pessoas, o palhaço escolheu 3 pessoas… adivinhem quem era uma dessas pessoas… pois é, eu mesmo. Logo eu que estava na última fila lá mesmo no cimo… Não me fiz de rogado e lá fui com o meu espírito de brincalhão aceder às palhaçadas propostas pelo palhaço-mor. Acabou por ser uma experiência divertida que pôs toda a gente a rir mas, para ser sincero eu fui um daqueles 99% a tentar esconder-se atrás dos outros. Pois é, nem sempre o facto de nos escondermos nos serve de muito, aliás, acredito mesmo que não é por nos escondermos que as coisas não nos podem acontecer.
 

O voluntariado pode ser exercido em casa, junto da família, dos amigos, na rua, no bairro, na escola, na igreja de cada um, no clube, na política, nos demais movimentos associativos. De certa forma em qualquer lugar e hora esse exercício de cidadania pode ser realizado.

Isto de ser voluntário para coisas que aparentemente nos escapam por não sabermos para o que vamos, tem muito que se lhe diga. Mesmo para aquilo que se sabe já parece ser difícil ser-se voluntário. Muitas vezes diz-se “- Mais valia estar sossegado no meu cantinho que tinha com certeza menos trabalho!”. Até pode ser verdade mas o sal da vida pede-nos para intervirmos, eu pelo menos dificilmente rejeito um desafio onde sinto que posso ser útil. É importante sentirmo-nos úteis e contribuirmos para o bem estar dos outros. Aliás, a convivência social e as nossas próprias vidas impelem-nos para isso mesmo, para a partilha de serviços, de ajuda, de comunicação. No fundo, por intermédio desse voluntariado, há relações sociais que evoluem, relacionamentos que se solidificam.
 
Segundo a lei portuguesa voluntariado é “… o conjunto de acções de interesse social e comunitário realizadas de forma desinteressada…”. Na realidade o voluntariado está ligado umbilicalmente ao trabalho, ainda que o mesmo seja não remunerado e funcione como um complemento ao trabalho que é desenvolvido pelas administrações, sejam elas públicas ou privadas.
 
O voluntário vê-se em todo o lado, cruza-se diariamente connosco. Ainda que oculto nas horas e nos minutos que passam por nós, ele está ali, alerta, pronto a intervir e, se assim for, disposto a dar a vida pelos outros. Veja-se o caso dos Bombeiros que para salvarem os nossos bens arriscam a vida, eles que, de quando em vez, tanta dificuldade têm em arranjar voluntários, a Cruz Vermelha, a Cáritas, as Misericórdias, enfim uma panóplia de instituições que funcionam com o apoio voluntário de muitas pessoas que continuam a despender o seu tempo em prole do bem estar comunitário. Foram-se criando os úteis Bancos do Tempo para simplesmente o trocar. Esse tempo é tempo também voluntário, tempo trocado por serviços e acções que ajudam o próximo.
 
O voluntário não tem idade. Ainda que muitas das leis internacionais restrinjam a ajuda voluntária a menores de 18 anos, eu acredito que o voluntário também é criança e jovem, não somente adulto e até mesmo idoso. O voluntariado pode ser exercido em casa, junto da família, dos amigos, na rua, no bairro, na escola, na igreja de cada um, no clube, na política, nos demais movimentos associativos. De certa forma em qualquer lugar e hora esse exercício de cidadania pode ser realizado. No entanto há que ressalvar a diferença entre o voluntariado formal e informal. O primeiro é aquele que é feito junto das organizações sem fins lucrativos, o outro é o individual, o do dia-a-dia. 
 
O altruísmo acaba por ser, consequentemente com o voluntariado, um dos grandes impulsionadores das organizações não-governamentais, as chamadas ONG’s. Elas desenvolvem papéis de extraordinária importância num mundo demasiadamente desigual como é o nosso. 
 
Todos somos um bocadinho voluntários quando, por exemplo, doamos sangue, quando oferecemos livros, quando ajudamos a limpar florestas, quando contribuímos como “curadores” de idosos, quando ajudamos o velhote a atravessar a rua, ou quando simplesmente reciclamos. São demasiados os actos voluntários que o comprovam, basta intervirmos civicamente, de uma forma simples ou até científica, educativa, saudável, cultural, desportiva, protectora, tolerante. O voluntário pode sê-lo por inúmeros motivos, por convicção, por caridade, por educação, por fé, por amor, no fundo basta que no ADN esteja um bocadinho de personalidade, basta que se tenha prazer em ajudar os outros, os mais vulneráveis, os mais necessitados. O que é certo é que nunca saberemos se esses necessitados não poderemos ser nós um dia. Talvez como forma de agradecimento, não raras vezes, o acto voluntário é replicado por quem já um dia usufruiu directamente da ajuda.
 
Trabalhar de forma a poder minimizar o impacto do mundo na vida das pessoas é com certeza uma das gratificações que o voluntário sente, outra será a de se sentir bem consigo próprio depois de ter cumprido esse seu desígnio.
 
Mais do que nunca, nos dias de hoje é importantíssimo constar num simples curriculum vitae de candidatura a um emprego, a participação voluntária em actividades colaborativas ou de cooperação social. 
 

Trabalhar de forma a poder minimizar o impacto do mundo na vida das pessoas é com certeza uma das gratificações que o voluntário sente, outra será a de se sentir bem consigo próprio depois de ter cumprido esse seu desígnio.

Talvez pelo facto de trabalhar com crianças e jovens, eu próprio seja sensível ao trabalho voluntário desempenhado em prole da sua ocupação de tempos livres. Desde o trabalho desenvolvido em instituições religiosas, clubes desportivos e culturais e associações de diversa índole, destaco a transmissão de valores como elemento preponderante de cada uma das acções por eles desenvolvidas. 
 
Para o desenvolvimento da minha personalidade tenho que dar enfase aos movimentos católicos por onde andei, dos grupos de jovens aos escuteiros (dos quais fiz parte do primeiro grupo da minha cidade há mais de trinta anos), devo realçar o fantástico trabalho voluntário prestado por aqueles monitores, um trabalho que moldou consciências, formou pessoas, desenvolveu em muitos de nós o companheirismo, a lealdade, a fraternidade, a solidariedade, os laços de amizade que ainda hoje perduram, a entreajuda, a moral, a ética, a resistência, apurou-nos os sentidos, trouxe-nos humildade, honestidade, liberdade, fez-nos procurar a verdade, fez com que nos “desenrascássemos”, desenvolveu-nos a criatividade, o respeito pelo próximo e pela natureza, trouxe-nos sobretudo humanidade, responsabilidade e capacidade de intervenção.
 
Dos muitos ensinamentos que retirei na minha juventude partilho convosco um excerto da última mensagem de Baden-Powell, o fundador do escutismo, palavras essas que, ainda hoje, fazem parte da forma como vivo a minha vida: “Contentai-vos com o que tendes e tirai dele o maior proveito que puderdes. Vede sempre o lado melhor das coisas e não o pior. Mas o melhor meio para alcançar a felicidade é contribuir para a felicidade dos outros. Procurai deixar o mundo um pouco melhor de que o encontrastes e quando vos chegar a vez de morrer, podeis morrer felizes sentindo que ao menos não desperdiçastes o tempo e fizestes todo o possível por praticar o bem.
 
O trabalho voluntário daqueles monitores conseguiu que cada um de nós moldasse o seu próprio carácter e conseguisse ter a capacidade para agradecer. Eu fiquei com a capacidade de reconhecer essa gratidão e por isso mesmo, a todas as pessoas que caminharam ao meu lado só lhes posso expressar uma palavra… OBRIGADO!
 
*Professor Luís Parente
 
 
Modificado em segunda, 04 abril 2016 09:08

O Mundo num Sorriso

domingo, 06 março 2016 17:17
O sorriso enriquece quem o recebe, sem empobrecer quem o dá.” 
                                                                                    Autor Desconhecido
 
O sorriso dura somente um instante, mas os seus efeitos perduram no tempo.
                                                                                                          Autor Desconhecido
 
"Não critique, ajude; não grite, converse; não acuse, ampare e… não se irrite, sorria.
                                                                                                                     Autor Desconhecido
 
Ainda que haja noite no coração, vale a pena sorrir para que haja estrelas na escuridão.
                                                                                                                     Arnaldo Alvaro Padovani
 
Por acaso já sorriram hoje? 
 
Já fizeram alguém sorrir hoje?
 
Experimentem, vão ver que é tão bom como sempre! Sim, eu sei que há gostos para tudo e esses, dizem, não se discutem. Haverá provavelmente pessoas que não gostem de sorrir. Eu adoro sorrir! Se calhar às vezes até faço figuras de parvo, desmesuradamente mesmo, mas como não me preocupo nem um bocadinho com o que cada um pensa da minha pessoa, não tenho qualquer tipo de problema em assumir que as faço, e digo mais, como sou uma pessoa brincalhona e extrovertida, até gosto, por vezes, de desempenhar esse papel, por estranho que possa parecer.
 
Existem, naturalmente, diferenças entre sorrir, rir e gargalhar, mas apesar dos seus significados diferirem e serem tão distantes, os mesmos são igualmente próximos, nem que seja na íntima proximidade do sentimento. Da parte que me toca nutro uma grande afectividade, na mesma medida, por ambas as acções, tento sempre, a este propósito, viver a minha vida seguindo o meu lema “Rir é o melhor remédio, para tudo… mesmo”. Quem me conhece minimamente sabe que é este o meu espírito.
 

A minha perspectiva é a de que o mundo só evolui com sorrisos. Como optimista que sou, tenho para mim que o rosto das pessoas foi criado para sorrir, para sorrir com o coração, não só com os lábios, mas com o coração. Sorrir é como o abrir a boca, contagia. E sempre que esse contágio acontece o mundo vai melhorando um pouco.

Quem diz um simples riso, diz uma sonora gargalhada ou um discreto sorriso, ambos são importantes para o meu bem-estar não só emocional, mas também físico. Na verdade, segundo a ciência, sorrir liberta uma substância natural chamada endorfina, que no fundo é uma espécie de hormona responsável pelo tal bem-estar. Assim sendo, e posto isto, está mais que provado que sorrir faz bem à saúde. Aliás, existem mesmo estudos que dizem que o sorriso pode ser responsável pela redução do stress, da própria tensão arterial e até do risco de Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC), para além de que estimula o cérebro, promove o bom humor, a confiança e consequentemente faz aumentar a concentração e a produtividade. Há quem diga mesmo que faz bem à circulação sanguínea, à digestão e até à pele. Por isso mesmo existem inúmeras terapias nos dias de hoje que fazem, precisamente o apelo ao riso, uma das mais propaladas é o Yoga do Riso que, basicamente funciona como uma técnica que começa por provocar um riso forçado, mas que a pouco e pouco o vai tornando espontâneo. No fundo serve para aumentar a auto-estima e, de certa maneira, reduzir os estados de ansiedade e até de dor.
 
Pensando bem, como é possível que um ligeiro movimento dos lábios possa provocar tanta coisa? Como é possível tanto efeito colateral só por causa de um simples movimento de músculos?
 
Ainda assim, e no que diz respeito ao sorriso, há que o saber distinguir. Nenhum sorriso se iguala a outro. Sim, o sorriso pode mudar! Aquele que é esboçado de dentro para fora não é igual ao que vai de fora para dentro, este último pode ser sarcástico, o chamado sorriso amarelo, falso, malicioso, o cínico, o forçado, o hipócrita, ao passo que o primeiro é o espontâneo, o da alegria, do prazer, da satisfação, o descontraído, o solidário, o da contemplação e até mesmo o sorrisinho da vergonha, o sorrisinho tolo, o sorriso sentido que pode trazer lágrimas ou mesmo o sorriso iluminado que faz ler o coração.
 
O acto de sorrir não deve, na minha opinião, ser um acto egoísta. O sorriso, o riso e até a gargalhada, apesar das evidentes diferenças, devem ser actos partilhados despudoradamente, sem qualquer tipo de receio do ridículo. Nem sempre as pessoas o conseguem fazer e desculpas como as que se seguem são por demais evidentes daquilo que vos digo: “- Eu tenho uma gargalhada muito alta!”, “- O meu riso é muito estridente!”, “- Eu ronco quando estou a rir!”, “- Detesto o meu sorriso, tenho uma boca muito feia!”, “- Os meus dentes são horríveis!”, “- E eu que nem sequer tenho dentes…”. E daí? Não sentem todos o prazer de uma boa gargalhada? Desdentados ou não, com boca bonita ou feia, com sorriso metálico, rindo com altos ou baixos decibéis e até mesmo roncando, sorrindo de boca escancarada ou fechada, o que nos interessa mesmo é a sensação que o acto nos transmite. O sorriso está intrinsecamente ligado à sensação de satisfação, de prazer.
 
A minha perspectiva é a de que o mundo só evolui com sorrisos. Como optimista que sou, tenho para mim que o rosto das pessoas foi criado para sorrir, para sorrir com o coração, não só com os lábios, mas com o coração. Sorrir é como o abrir a boca, contagia. E sempre que esse contágio acontece o mundo vai melhorando um pouco.
 
Que bom que é ver o primeiro sorriso no rosto de uma criança…
 
Que bom que é presentear alguém com o nosso sorriso… Já experimentaram? E quando há retorno desse sorriso?
 
Que bom que é fazer sorrir… Que bom que é ver sorrir…
 
Que bom que é sorrir assim, sozinho, acompanhado, a pares, em grupo…
 
O sorriso não tem cor, não tem raça, nem credo e muito menos clube… é ele que vai iluminando os caminhos.
 
Eu não me canso de sorrir! Quem sabe não será este o meu pequeno contributo para um mundo melhor?
 
A este propósito vem-me à ideia uma daquelas frases que nos vão surgindo em tudo quanto é rede social mas que por qualquer motivo ficou na minha memória, se não me engano é de Shakespeare e é qualquer coisa comoÉ mais fácil obter o que se deseja com um sorriso do que com a ponta de uma espada. Eu, honestamente, acredito!
 
Se acreditar nisto e sorrir assim é sinónimo de imaturidade então eu sou um puto que nunca vai crescer!
 
* Professor Luís Parente
 

Modificado em domingo, 06 março 2016 17:41

Os meus lindos olhos azuis

sexta, 05 fevereiro 2016 12:04
Talvez seja muito pretensiosismo da minha parte mas os textos que escrevo, por norma, falam sobre mim e sobre aquilo que penso e sinto. Este, naturalmente, não fugirá à regra e trará, com certeza, arrastado a si um misto de sentimentos que, invariavelmente, abordarão a tristeza mas também a alegria. Neste caso em particular talvez vá expôr um pouco mais da minha vida do que aquilo que eu próprio considero que deveria, ainda assim, como esta minha vida tem sido gerida por sentimentos (impulsos não, sentimentos…) sinto que é assim que devo fazer.
 
Pensei escrever sobre o Carnaval e até sobre o amor visto este ser o mês, per si, dedicado ao amor. No entanto, as circunstâncias da vida fizeram com que efetivamente escrevesse sobre o amor mas noutra perspectiva.
 
Este ano de 2016 não tem sido um ano particularmente positivo para mim. Eu não tenho por costume dividir as acções ou os acontecimentos que envolvem a minha vida por anos, prefiro encará-los por fases, umas mais positivas outras nem por isso, mas o que é certo é que este curto período que compreendeu o início do ano e o momento actual tem sido bastante difícil para mim e para os meus. De hospitais a funerais tem sido “um ver se te avias”. Quero acreditar que é só mais uma fase, mais uma etapa que fará com que haja mais aprendizagem e crescimento. Contudo, para se crescer assim, inevitavelmente haverá sofrimento, sofrimento que pode esbarrar de frente num muro e ficar ali estatelado e guardado num qualquer cantinho do coração sem sequer haver hipóteses de nos reerguermos, ou um sofrimento que, mesmo esbarrando de frente nesse muro nos obriga a levantar e a transpô-lo sem apelo nem agravo com a ansia de o ver atrás das costas e o mais longe possível de forma a esquecer o choque.
 

Pensavas o quê? Que era para ires? Então não vês que não era a hora? Tu não vês que fazes cá falta?

De certeza que à maioria das pessoas o muro já lhe apareceu à frente e o próprio chão já lhes fugiu debaixo dos pés mais do que uma vez. Quando digo isto não o digo por me referir a qualquer tipo de queda, refiro-me aos pontapés que a vida nos dá, às vicissitudes que nos vão surgindo ao longo do nosso percurso.
 
Foi assim que me senti, com o chão a fugir-me debaixo dos pés, quando um médico nos disse, há cerca de duas semanas, que havia rebentado um vaso sanguíneo no cérebro de uma das mais importantes pessoas da minha vida, provocando uma hemorragia cerebral e que a situação se afigurava como grave. As horas que se seguiram a esta notícia foram como se fossem anos, duros anos! Neste tempo tudo nos passa pela cabeça, acreditem, tudo mesmo! E o que mais nos incomoda é a dolorosa pressão de tentar afastar o pensamento de uma possível perda e não conseguir, incomoda-nos o facto de tentar controlar aquele saco lacrimal e o mesmo não respeitar a tentativa fazendo escorrer o líquido incessantemente e sem qualquer tipo de controle. Outra coisa que nos incomoda de sobremaneira é o silêncio, é a ausência de palavras, a ausência de respostas, o porquê. Ao mesmo tempo imaginamos um milhão de respostas, terá sido stress? – sabemos que o stress afecta claramente o cérebro, está provado que o mesmo faz a pressão sanguínea ser maior… terá sido um acumular de tensões? Enfim, um milhão de respostas que não nos dão garantia absolutamente nenhuma de estarem correctas.
 
De entre tantas respostas surgem medos, surgem sensações de completa impotência, surgem arrependimentos… sim arrependimentos por pensarmos que passamos pouco tempo com as pessoas que amamos, por pensarmos que, não raras vezes, nos aborrecemos com situações fúteis, sem qualquer tipo de importância.
Quando às seis da manhã desse dia 24 de janeiro nos dizem que um aneurisma cerebral havia rebentado e que a tentativa de resolução desse problema passaria por uma intervenção cirúrgica a realizar daí a duas horas, nós só queremos que o tempo passe depressa. Só de imaginarmos que num outro fim de semana, com este mesmo problema, um jovem perdeu a vida num qualquer outro hospital de Lisboa por falta de assistência médica, os arrepios sucedem-se, uns a seguir aos outros. De certeza que em circunstâncias idênticas, se crentes, todos rezarão ao seu Deus, senão, pelo menos acreditarão na competência dos profissionais que realizam o seu trabalho em prol dos outros. No meu caso específico, rezei ao meu Deus imaginando que as suas mãos eram as mãos daqueles profissionais, daqueles homens e mulheres do Serviço de Neurocirurgia do Hospital de Santa Maria. E elas estiveram lá… AQUELAS MÃOS ESTIVERAM LÁ, não para levar a esperança para outro lado mas para a trazer até nós.
 
Os serviços de saúde são muitas vezes criticados na praça pública, justa ou injustamente, por eventuais acções de negligência. Quando as boas práticas médicas são na realidade motivo de serem elogiadas, não deve haver pejo em fazê-lo, devem ser enaltecidas e divulgadas. Nesta situação em concreto, aos profissionais de saúde de serviço nesse dia nas urgências do Centro de Saúde de Estremoz, aos do Hospital do Espírito Santo de Évora e até aos do Hospital de Santa Maria em Lisboa é devido o reconhecimento por tudo terem feito para rapidamente serem desenvolvidos todos os mecanismos de apoio a esta situação em si.
 
Situações deste género servem para perceber que somos unidos, servem para perceber que o apoio da família foi precioso para ultrapassar cada degrau e aí, o papel do mano, da esposa e da cunhada têm sido fulcrais para o compreender. Estas situações também servem para perceber que temos amigos e que eles estão cá para o que for preciso.
 
Toda a gente diz que a sua mãe é a melhor do mundo. Vão desculpar-me mas terei que discordar, também tenho a certeza que todos discordarão de mim, e estão no seu direito mas, na realidade, é a minha que é a melhor mãe do mundo! Sim, tu mãe… és a melhor do mundo!
 

Quando às seis da manhã desse dia 24 de janeiro nos dizem que um aneurisma cerebral havia rebentado e que a tentativa de resolução desse problema passaria por uma intervenção cirúrgica a realizar daí a duas horas, nós só queremos que o tempo passe depressa.

Pensavas o quê? Que era para ires? Então não vês que não era a hora? Tu não vês que fazes cá falta? Ainda tens que ensinar as contas de multiplicar e dividir a muita gente… ainda tens muitos teatros para ver… ainda tens que ir muitas vezes aos bailados clássicos e ao cinema… ainda tens que partilhar o teu bom coração com muita gente… ainda tens muito para ensinar e aprender… ainda tens que passear… passear muito.
 
Tu não vês que há muitas pessoas que gostam de ti e que gostam de estar contigo?
 
Muita gente diz que tiveste uma sorte tremenda, parece que foi como se te tivesse saído o euromilhões, eu acredito mais em competência e, sinceramente, acredito que as mãos Dele estavam cá em baixo a guiar as mãos dos outros. O nosso Deus estava contigo, mãe!
 
Já imaginaste como nós nos sentiríamos se ficássemos sozinhos? Sem ti que nos geraste, que nos criaste, que nos ensinaste muito do que somos e do que sabemos, a mim até a ler e escrever foste tu que me ensinaste (esses 4 anos foram difíceis, é verdade. E sempre te disse que preferia ter sido aluno de outro professor… era tudo mentira, não trocava esses anos por nada!)
 
Será que não vês que não poderia amar mais ninguém desta maneira? (E olha que era um desperdício, a sério!)
 
Ainda não percebeste que os meus lindos olhos azuis não são os meus, são os teus?
 
* Professor Luís Parente
 
Modificado em sexta, 05 fevereiro 2016 15:15

O Tempo dos nossos Tempos

domingo, 10 janeiro 2016 02:03
A visualização de um pequeno vídeo do surpreendentemente humilde ex-presidente da república do Uruguai, José Mujica sobre os valores da sociedade actual e a forma como vivemos o tempo, fez com que eu próprio explorasse um pouco este assunto. Mas, para que melhor se entenda aquilo a que me refiro, talvez seja melhor reproduzir aqui as suas próprias palavras:
Inventámos uma sociedade de consumo em que a economia tem que crescer ou acontece uma tragédia. Inventamos uma montanha de consumos supérfluos… mas o que se gasta é tempo de vida. Quando compro algo, ou tu, não pagamos com dinheiro, pagamos com o tempo de vida que tivemos de gastar para ter aquele dinheiro. Mas com uma diferença, tudo se compra menos a vida. A vida gasta-se e é lamentável desperdiçar a vida para perder a liberdade.”
 
De facto, esta azáfama em que se vive e estes valores temporais que nos tentam incutir nos dias de hoje, só nos faz mesmo… passar tempo. Não conseguimos sequer aproveitá-lo para as coisas que realmente interessam, para as coisas que nos dão gozo, para as coisas que são efectivamente importantes para nós.
 

Não queiramos que o tempo passe tão depressa, há coisas que nos vão fazer ter saudades, mesmo sabendo que tudo valeu a pena vão fazer-nos ter saudades. Todo o tempo passado já não volta a passar pelo nosso tempo (pelo menos tal como o conhecemos), mas se o vivermos à pressa nem sequer conseguiremos saborear o momento.

O tempo consome-nos, as distracções desta e de outras vidas são mais que muitas.
 
O tempo voa e muita gente não consegue encontrá-lo para simplesmente ser feliz. 
 
O tempo passa, e passa tão velozmente que quando nos apercebemos que queremos chorar, que queremos rir, estar, amar, sorrir, que queremos tão somente olhar ou viver, o tempo já passou por nós e o tempo que passa já não regressa, só tem bilhete de ida. Quando nos apercebemos disso já ele nos ultrapassou a toda a velocidade e levou também consigo a vida que não vivemos. De certa forma, por vezes, chega a deixar-nos um amargo de boca o facto de não conseguirmos recuperá-lo, mas não conseguimos mesmo, já se perdeu, e aquele que se perdeu foi aquele que já passou.
 
O tempo urge e outros gostariam de ter mais tempo… mais tempo para perder, mais tempo para ganhar, gostariam de ter a liberdade de poder gastá-lo, vivê-lo, aproveitá-lo, senti-lo e até mesmo poder matá-lo. Mas será que não se tem mesmo essa liberdade? Eu não acredito, de todo! Cheguei à conclusão que a frase “Não tenho tempo!” pode ser uma autêntica treta! Toda a gente tem, à partida, o mesmo tempo, a sua forma de gestão é que pode diferir… o ritmo com que o mesmo se gasta é que pode ditar a liberdade que se tem para o gerir. Esqueçamo-nos então da ideia de que não se tem tempo e façamos nós o nosso próprio tempo.
 
Se repararmos o tempo está em tudo o que fazemos, está naquilo que sentimos, no que lemos. Quem não reconhece o trava-línguas “O tempo perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem, o tempo respondeu ao tempo que o tempo tem tanto tempo quanto tempo o tempo tem”? O tempo está em todo o lado. Aqui por Estremoz, por exemplo, está inscrito aos pés da imagem do deus Saturno, num dos ex libris da cidade, no conhecido Lago do Gadanha, o texto “Corre o tempo velozmente, como a água da corrente. Nós também da mesma sorte, correndo vamos à morte.”
 
O tempo é, na realidade, o momento, desaparece num ápice, é verdade, mas é o momento. Uns dizem que é dinheiro, outros classificam-no de ouro. Nenhuma destas classificações se pode deixar de considerar verdadeira, porém, para mim é muito mais do que isso, para mim o tempo é professor. Ele ensina-nos tanto! Traz-nos tanta coisa!… A mim trouxe-me responsabilidade, trouxe-me a maturidade que quase não tive quando, por exemplo, nasceu a Mariana, trouxe-me a maturidade que começou a desenvolver-se mais rapidamente quando depois apareceu a Matilde e mais tarde o Miguel. Se querem que vos diga, 28 anos de tempo passado não me trouxeram a capacidade de ter a maturidade necessária para perceber, nessa altura, o que era um filho. Agora sim tenho a noção de a ter desenvolvido, foi também o tempo que ma trouxe, mas não ma trouxe sozinha, transportou consigo a experiência para que hoje o possa compreender.
 
Para ser sincero imagino o tempo de cada pessoa incrustado num chip dentro de cada um dos nossos corpos com uma espécie de cronómetro que começa a funcionar num acto de amor e que vai passando, segundo a segundo, minuto a minuto, hora a hora, dia a dia… sem nunca sabermos quando a energia acaba, sem nunca sabermos sequer quando se desliga, quiçá para sempre.
 

Se querem que vos diga, 28 anos de tempo passado não me trouxeram a capacidade de ter a maturidade necessária para perceber, nessa altura, o que era um filho. Agora sim tenho a noção de a ter desenvolvido, foi também o tempo que ma trouxe, mas não ma trouxe sozinha, transportou consigo a experiência para que hoje o possa compreender

É por isso que o tempo enquanto é tempo tem que ser doce, suave… o tempo enquanto é tempo tem que ser vivido calmamente e o nosso foco tem que estar cada vez mais direccionado para a positividade, para o que nos faça bem, para as nossas pequenas conquistas, para a simplicidade de um sorriso, de um gesto, de um abraço.
 
Não queiramos que o tempo passe tão depressa, há coisas que nos vão fazer ter saudades, mesmo sabendo que tudo valeu a pena vão fazer-nos ter saudades. Todo o tempo passado já não volta a passar pelo nosso tempo (pelo menos tal como o conhecemos), mas se o vivermos à pressa nem sequer conseguiremos saborear o momento.
 
O melhor tempo da minha vida é aquele que aproveito para passar com os meus filhos. Eu tento, a sério que tento que ele não passe tão depressa, chego mesmo a pensar que a pressa dele não é a minha pressa, mas o que é certo é que ele corre mais depressa do que eu e quando dou por isso ele já foi, no fumo dos dias, das horas, dos minutos, dos segundos e a única coisa que fica é o rasto da memória. Na verdade nós aprendemos a viver com isto mas reflectindo bem, o que efectivamente mais importa é sabermos viver o tempo que aí vem, ainda que guardemos as memórias do que se esfumou.
 
Professor Luís Parente
 
Modificado em domingo, 10 janeiro 2016 02:19

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