quarta, 30 novembro 2022
domingo, 06 março 2016 15:35

Encontro com Freud - Crónica X

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…hoje fui ao serviço de oncologia do hospital de Évora. Tranquilos, fui entregar uma carta, embora uma carta de um dos meus. Entrei no serviço e gelei por completo, quase como quando entrei pela primeira vez no IPO de Lisboa, com a minha amiga Ana Bastos, e dessa vez por um dos dela, que de alguma forma se tornam nossos, porque o que nos liga é mais forte e porque “O” dos nossos, através desse laço, passam a ser nossos também.
 
Ou quando a minha amiga Lena me deu o diagnóstico, acabadinhas de nos conhecermos, ou quando o meu tio Jaime entrou nessa viagem de luta e desespero, ou quando a minha madrinha de Crisma, Lina, recebe a notícia por telefone que iria travar uma nova batalha, ou quando soube do nosso André e um “acreditar coletivo” se instalou nos nossos corações… e quando a luz se apagou… ou quando… entre tantos outros, mais ou menos próximos, (desculpem os que não nomeei, a memória já falha) nos deram momentos de tranquilidade, de serenidade, de paz, porque as batalhas foram sendo vencidas, porque o final feliz estava cada vez mais perto…e sorri, por Vós mas também por mim e talvez tenha tido apenas isto para Vos dar, o meu Sorriso, mesmo interior, principalmente para os que não conheço tão bem.
 

A senhora do atendimento / informação, respondeu a uma das utentes como se estivesse a falar com uma familiar, gostei. Quando me dirigi ao balcão, sorriu, gostei. Quando saí e um senhor se aproximava da máquina das senhas, entreguei a que não cheguei a utilizar, sorriu, gostei. Pequenos gestos, diante de um turbilhão de sentimentos, medos, angústias, tristeza…

… hoje em cada olhar quis tanto ver esperança, Fé, entrega e um sorriso, apenas um sorriso que me dissesse que apesar de tudo, estamos bem, hoje estamos bem. Egoísmo o meu, é difícil confrontar-nos com o sofrimento dos outros e com o nosso, claro! E ser Psicóloga(o) não nos dá imunidade nem tão pouco nos torna vazios de sentimentos e empatia… ainda bem. 
 
A senhora do atendimento / informação, respondeu a uma das utentes como se estivesse a falar com uma familiar, gostei. Quando me dirigi ao balcão, sorriu, gostei. Quando saí e um senhor se aproximava da máquina das senhas, entreguei a que não cheguei a utilizar, sorriu, gostei. Pequenos gestos, diante de um turbilhão de sentimentos, medos, angústias, tristeza… Sorri e quis ficar, quis tanto ficar ali, não, não para saber nada em especial de nenhuma daquelas pessoas, porque sei o suficiente para ter vontade de ficar ali, só ficar. 
 
Enquanto a vida passa, cá fora, entre atropelos, muros, zonas cinzentas, lá dentro o peso da Vida que se quer agarrar é tão grande, que às vezes e quase sempre tem de ser a quatro, seis, oito e infinitas mãos para a segurar e eu quis tanto ficar, só para serem mais duas e sorrirmos! 
 
A todos quanto trabalham, se dedicam, vivem com a Dor do Outro e a Todos quanto nos ensinam que difícil não é impossível.
 
* Psicóloga Helena Chouriço
 
Modificado em domingo, 06 março 2016 16:45

1 comentário

  • Ligação de comentário Sónia Fernandes domingo, 18 março 2018 22:28 postado por Sónia Fernandes

    Pequenos gestos de humanidade são aconchegos em momentos de fragilidade...
    Gostei muito deste teu texto Lena.

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