sábado, 29 janeiro 2022
quarta, 01 abril 2015 01:16

Sobre rodas, "Sorrindo às Dificuldades"

Escrito por
Francisco Alegria Chouriço, "Zé da Gata", Januário Gonçalez, António "Puskas", João Pedro Cascais, Mário Lagartinho, Zé Miguel, Adriano Chouriço, Ângelo Madeira, Jorge Nunes, Emanuel Caldeira. Mais recentemente, Joaquim Serra, José Alberto Fateixa, José "Sapo", Francisco Alberto Chouriço, Rui Serrano, José Gonçalez, "Tonico", João e Rui Mata. Faltam aqui muitos. As minhas deculpas aos que não são aqui referenciados mas não cabem aqui todos. Quem tem acompanhado o Hóquei em Patins em Estremoz, rapidamentente percebe o porquê de surgirem aqui estes nomes.
 
Fico triste. Acompanho a modalidade há quase 30 anos e tenho sensação de que esta é uma chama que se tem apagado. Noutros tempos, o dia em que havia hóquei em Estremoz era, para a cidade, um dia especial. As conversas nos cafés andavam em redor do adversário ou daquelas que deveriam ser as apostas iniciais. Esclareço, desde já, que não acompanhei os tempos da primeira divisão. Pelo que me contam, "isso era uma loucura". Garantiram-me que era o público que fazia a diferença. Além das sticadas fortes do "Chouriço", das defesas impossíveis do "Zé da Gata" e do Emanuel, dos desarmes do "Serrinha" e da técnica do Januário, era o público que na grande parte das vezes empurrava a equipa para a vitória. 
 
Jogar em Estremoz não era para todos. Tanto na "Esplanada" como no Pavilhão, quem nos vinha visitar estava consciente de que levar daqui uma vitória era uma tarefa difícil. Dizem-me, alguns adeptos desses tempos, que "os que cá vinham, começava logo a perder, só de perceberem o ambiente que os esperava". Os estremocenses eram conhecidos pela sua garra e pelo seu talento. Diziam-se que em Estremoz se nascia com "jeito" para o Hóquei. Todos os jovens queriam experimentar. Jogava-se nos bairros, principalmente no que está mais próximo do Pavilhão, hóquei na rua, utilizando as sarjetas como balizas. Os que já jogavam, tentavam levar amigos e vizinhos para o pavilhão. Os pais que tinham jogado, incentivavam os filhos a começar. 
 
Noutros tempos, ser jogador de hóquei do "Estremoz" era uma honra. Era para todos um orgulho vestir aquela camisola. Os que jogavam menos, não baixavam os braços e esperavam ansiosamente uma oportunidade. Poderia dar vários exemplos, mas prefiro generalizar. O Pavilhão e a "Esplanada" receberam grandes jogos, grandes craques. Muitos dos estremocenses não têm noção que já por aqui passaram os melhores de Portugal e alguns dos melhores do Mundo. Ainda há bem pouco tempo, há cerca de 14 anos, o nosso Pavilhão ia "rebentando pelas costuras" com a recepção ao Benfica para a Taça de Portugal. Nessa equipa encarnada estavam alguns dos melhores de sempre: Panchito Velazqués, Luis Ferreira, Filipe Gaidão, Vitor Fortunado, Ricardo Pereira, Zé Carlos Califórnia. Todos estes já foram Campeões do Mundo. Estavam cerca de quatro mil pessoas nas bancadas.
 

Este texto pode ser entendido como um alerta. Uma chamada de atenção de quem está por dentro e vê um futuro difícil para a modalidade nesta terra

 
Há dois anos atrás, a equipa principal esteve perto de regressar à 2ª Divisão. Jogava em casa e tinha de pontuar para que tal acontecesse. O público respondeu à chamada e o pavilhão voltou a ter ambiente. A equipa falhou, perdeu de forma clara, e muitos dos que compareceram nunca mais voltaram. Esta época, já vi um jogo da equipa principal que acabou com cerca de uma dúzia de adeptos nas bancadas. Os jogos das camadas jovens têm, claramente, mais público.
 
Já ouvi várias teorias sobre o facto de hoje tudo ser diferente. Até agora, nenhuma delas me convence. Primeiro como praticante e agora como treinador, tenho acompanhado de perto todos os acontecimentos. "Estamos no interior e aqui é difícil". É verdade, mas há equipas aqui perto que estão descansadamente na segunda divisão e outras a fazerem prestações dignas na terceira. "Os jovens depois vão para a universidade". Pois vão, e felizmente, mas os das outras equipas também vão. "Estremoz é uma cidade pequena". Turquel, tem cerca de 4500 habitantes e tem uma equipa na 1ª Divisão. "Isto só ia para a frente se houvesse dinheiro para ir buscar jogadores fora". Podia ser uma solução. No entanto, os de cá, se quisessem, devem bem conta do recado. 
 
No que toca à formação, sendo suspeito para opinar, penso que o caminho é o que está a ser seguido. No entanto, era preciso mais gente para trabalhar e, também, para patinar. Na iniciação, estão cerca de 20 crianças. É um número bom, mas deviam ser 40 ou 50. Entendo que este não é um desporto fácil em várias vertentes, mas acreditem que os frutos aparecem. Aprender a patinar correctamente e aliar isso ao manuseamento de um stick e uma bola, não é fácil e leva tempo. Um jogador de hóquei não se faz de um dia para o outro. É certo, também, que não é um desporto barato. No entanto, com boa vontade de pais, direção do clube e das empresas que colaboram, tudo se pode resolver. É preciso é vontade.
 
Este texto pode ser entendido como um alerta. Uma chamada de atenção de quem está por dentro e vê um futuro difícil para a modalidade nesta terra. No caso dos mais jovens, cabe aos pais e treinadores incutir-lhes que o respeito que os adversários têm por esta camisola demorou muitos anos a construir. Todos são poucos para ajudar. É preciso que os que por lá passaram, façam pelos outros aquilo que um dia alguém fez por eles. Também esses, deveriam ir mais vezes ao Pavilhão apoiar os sucessores. Está nas nossas mãos. Vamos todos, sobre rodas, sorrir às dificuldades.
 
* José Lameiras - jornalista
Modificado em quarta, 01 abril 2015 01:23

2 Comentários

  • Ligação de comentário João Manuel Araújo Fonseca quarta, 01 abril 2015 23:04 postado por João Manuel Araújo Fonseca

    a minha opinião é que ,por irem buscar jogadores fora e não darem valor aos da terra é que o hóquei em Estremoz deu no que deu.

  • Ligação de comentário António José Ramos quarta, 01 abril 2015 21:25 postado por António José Ramos

    está tudo aí, da primeira divisão apenas tenho as memórias de descer o caldeiro pela mão do meu pai, chovesse ou fizesse frio e em noites de "dias de semana", de grandes noites de segunda divisão em que o Estremoz era o único clube fora do circulo lisboeta... eram finais todos eles! apenas joguei o hóquei da rua, apesar das muitas insistências do meu vizinho Raio, que assim que chegava da oficina e enquanto eu comia uma sandes de mortadela feita pela D. Olga me tentava convencer a calçar os patins, como faziam os Zé Ruis, os Turibios, os Nunos Lopes, os migueis Brites, os Bigas, os gonçalez, do meu bairro... mas sem sucesso, o hóquei era o meu desporto de adepto, o Estremoz o meu orgulho... bem, quando falamos de hóquei... ainda é assim! "bora lá então Encarnados"

Deixe um comentário