sábado, 04 dezembro 2021
terça, 26 janeiro 2021 22:39

Enfermeira estremocense publica fotografia no Facebook que se torna viral

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A imagem desta enfermeira estremocense, mãe de dois filhos, tornou-se viral, tendo tido cerca de 4 mil partilhas A imagem desta enfermeira estremocense, mãe de dois filhos, tornou-se viral, tendo tido cerca de 4 mil partilhas DR
A nossa entrevistada nasceu em Estremoz, há 45 anos, tendo saído da cidade onde foi criada aos 18 anos, para cumprir o sonho de estudar Enfermagem na Universidade de Coimbra. Depois de concluir o curso foi trabalhar alguns meses para Lisboa, mas quis o destino que em 1997, rumasse até Viseu, para “inaugurar” o Hospital de São Teotónio, unidade hospitalar onde se mantém a trabalhar nos Cuidados Intensivos.
 
Na passada semana, e após mais um turno de oito horas, a enfermeira Helena Beliz publicou na sua página pessoal na rede social Facebook uma fotografia onde eram visíveis, quer no seu rosto mas também numa das suas mãos, as marcas de mais um dia intenso de trabalho nesta luta contra o inimigo invisível chamado Coronavírus.
 
A imagem desta enfermeira estremocense, mãe de dois filhos (uma rapariga com 17 anos e um rapaz com 13 anos) tornou-se viral, tendo tido cerca de 4 mil partilhas.
 
Nesta breve entrevista ao Ardina do Alentejo, Helena Beliz fala do que a levou a publicar a foto que se tornou viral na rede social Facebook, de como tem vivido estes dias de pandemia, das situações difíceis de gerir que tem vivido nestes 23 anos a trabalhar nos Cuidados Intensivos e se a palavra “desistir” já ecoou na sua cabeça.
 
ARDINA DO ALENTEJO  Quando começaram a surgir fotos como a tua, de outros colegas teus espalhados pelo mundo, por muitas vezes se pensou que eram montagens... Mas não é uma montagem... 
HELENA BELIZ (HB)  A foto não é uma montagem, nem a maior parte das que se vêem são... Infelizmente, esta foto é apenas do final de um turno de oito horas.
 
ARDINA DO ALENTEJO  O escrito que colocaste na tua página de Facebook é um desabafo, um grito de revolta. O que te levou a escrever aquele texto?
HB  Estamos a viver esta pandemia há quase um ano... desde Março a trabalhar com aqueles fatos horríveis (que agradeço por não nos faltarem, por enquanto), máscaras que magoam e fazem feridas no nariz, nas orelhas. Horas seguidas sem poder sequer fazer as necessidades mais básicas... É muito tempo... sem descanso... muita pressão e stress em cima dos profissionais de saúde... turnos seguidos sempre com medo de levares o vírus para os teus... E depois vês pessoas que não respeitam absolutamente nada nem ninguém, a acharem que a Covid-19 é uma brincadeira, uma gripezinha...  No final de um turno da tarde (em que era suposto sair à meia-noite mas que à uma e tal da manhã ainda lá estava), "passei-me" e coloquei as fotos no Facebook. A verdade é que estava tão zangada que me contive muito para não escrever coisas ainda mais feias. Nunca pensei que tanta gente visse e fosse partilhar uma publicação parecida com milhares de tantas...
 
ARDINA DO ALENTEJO  Quando concluíste o teu curso e posteriormente começaste a trabalhar, alguma vez pensaste passar por uma situação destas?
HB  Não! Nem pensar... Nunca sonhei sequer passar por uma situação destas, acho que ninguém pensava...
 
ARDINA DO ALENTEJO  A situação está caótica?
HB – Sim, definitivamente sim. A situação em muitos hospitais, inclusive o meu, estão, está caótica. Acrescentam-se camas e mais camas, máquinas e ventiladores mas o pessoal não aumenta em proporção. É como um elástico: estica, estica, mas brevemente vai partir. Não se aguentam os turnos seguidos, abrir unidades de cuidados intensivos improvisadas em sítios sem condições, mais turnos, mais doentes. O limite não é o céu... estamos mesmo a trabalhar no fio da navalha. Não estou só a falar de enfermeiros… todos os profissionais estão exaustos, os auxiliares, os médicos, os técnicos, administrativos, seguranças...
 
ARDINA DO ALENTEJO  O que achas que está a faltar ou o que é que na tua opinião poderia ser feito de maneira diferente?
HB  Faltou planeamento a sério e estratégias acertadas da parte dos hospitais e dos governantes. A sensação que temos é que durante a "acalmia" do verão toda a gente se sentou à espera que não houvessem segundas ou terceiras vagas... E faltou, e continua a faltar discernimento às pessoas que continuam a desrespeitar tudo o que se poderia fazer para parar a contaminação, logo o aparecimento de mais doentes.
 

Não somos heróis, não há heróis, só fazemos o melhor que podemos pelos doentes, mas precisamos da ajuda de todos... Não vamos aguentar assim muito mais tempo!

ARDINA DO ALENTEJO - Qual a situação mais difícil com que já lidaste nestes últimos tempos?
HB - Trabalhando em Cuidados Intensivos há tantos anos, já presenciei e vivi muitas situações difíceis, como podes imaginar... Aquilo que diferencia estes últimos tempos é a Solidão… dos Doentes, aqueles que se apercebem do que se está a passar sabem que podem nunca mais ver os seus familiares; dos Familiares, que não podem acompanhar os seus entes queridos em situação grave, e que embora falem com o médico todos os dias estão sempre com o coração nas mãos; dos Profissionais, que muitas vezes nos sentimos desesperados e sozinhos, no meio do caos, e na sociedade, onde muitas vezes nos vimos a pregar para as paredes...
 
ARDINA DO ALENTEJO  A palavra desistir já ecoou na tua cabeça?
HB – Desistir, se calhar não... já me apeteceu muitas vezes "mandar tudo às urtigas", atirar tudo ao ar e sair dali a correr...  Depois respiro um bocadinho (dentro das nossas máscaras não dá para respirar muito) e volto à carga... até conseguir...
 
ARDINA DO ALENTEJO  Como é que se gere uma casa, com filhos menores, com tantas horas passadas  na unidade hospitalar e debaixo de uma pressão tremenda?
HB  A casa, os filhos... É muito complicado... Os filhos são os mais sacrificados... Entre os meus turnos e os do pai (que também é enfermeiro, no Serviço de Urgência) eles vão andando de casa em casa, conforme o que está menos carregado de turnos. São espetaculares, pois eles percebem a nossa vida e a situação que estamos a passar. Tenho a sorte de ter uma Super-Mãe, que resolveu deixar o sossego e o conforto da sua casa em Estremoz e vir para perto de mim. Ela tem sido o meu braço direito (e esquerdo) nestes últimos tempos.
 
ARDINA DO ALENTEJO  Que mensagem deixas a quem for ler esta breve entrevista?
HB  A única coisa que eu quero dizer às pessoas é que isto é mesmo a sério... Por favor, respeitem as indicações da DGS, o distanciamento social, o confinamento... Temos que fazer o possível e impossível para parar este vírus... Vai morrer muito mais gente... E os profissionais de saúde não aguentam e vão começar a cair também... E depois? Quem cuida de vocês se partirem uma perna, se tiverem uma apendicite, ou se tiverem uma pneumonia?
Não somos heróis, não há heróis, só fazemos o melhor que podemos pelos doentes, mas precisamos da ajuda de todos... Não vamos aguentar assim muito mais tempo!
 
Modificado em segunda, 01 fevereiro 2021 16:45

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