
Portugal vai passar a aproveitar órgãos e tecidos de doentes que morram em Cuidados Intensivos, como por exemplo em casos de morte cardiorrespiratória. Até agora apenas era permitido em casos de morte cerebral.
Numa altura de escassez de órgãos para transplantação, os especialistas preveem um aumento de 20% no arranque do programa que entra em fase piloto em quatro hospitais do país.
O despacho, a que a RTP teve acesso, consagra critérios clínicos e éticos.
Nos cuidados intensivos do Hospital de São João, no Porto, está tudo pronto para a mudança. Nada muda nos procedimentos de avaliação mas na prática muito se altera.
Em declarações à RTP, Roberto Roncon, Coordenador do Centro de Referência ECMO do Hospital de São João, refere que “para termos uma ideia da magnitude do impacto que esta medida legislativa pode ter, em Espanha, cerca de metade dos transplantes cardíacos já são de dadores em paragem cardiorrespiratória controlada e não de dadores em morte cerebral, que é, como sabemos, o único enquadramento que neste momento existe em Portugal”.

É o fim de muitas oportunidades perdidas. O despacho, a que a RTP teve acesso, consagra a dádiva de órgãos e tecidos de pessoas em paragem circulatória. E nesta fase piloto, de seis meses a um ano, ao Hospital de São João, juntam-se as ULS de Coimbra, do Hospital de São José e do Hospital de Santa Maria, em Lisboa. Com isso há já um potencial aumento de 20% de dadores.
Também à RTP, Jorge Lamelas, Coordenador Nacional de Transplantação, salienta que “podemos ter, até 50 a 100 dadores extra por ano. Se tivermos 50, e sendo conservador, 150 pessoas têm a possibilidade de serem transplantadas. Qualidade de vida, saúde, recuperarem a esperança é para nós fundamental”.
Também com mais transplantes renais, pulmonares, hepáticos, de córnea ou de tecidos, é um avanço determinante face à evidência científica mas também pela escassez de órgãos, apesar de Portugal estar no top cinco mundial da transplantação. O aumento de doenças crónicas, do envelhecimento, e dos critérios para transplante, impõe a mudança com a salvaguarda dos critérios clínicos e éticos.
Jorge Lamelas assevera que este é “um modelo que já é implementado em toda a Europa. Doentes que têm uma doença grave, que é absolutamente irreversível, que estão em Cuidados Intensivos e que os Cuidados Intensivos decidem não continuar ou fazer uma limitação de suspensão das medidas de suporte evasivo de vida”.
“Muitas vezes, quando explicamos à família, que apesar de todo o esforço terapêutico e de todo o empenho das equipas, não estamos a conseguir reverter, muitas vezes são os próprios familiares que perguntam porque é que não podemos transformar uma notícia péssima numa notícia com esperança para outros doentes” assegura Roberto Roncon.
A mudança pode ter demorado 10 anos a consolidar em Portugal, mas os resultados na vida de muitos doentes vão começar a surgir já nos próximos meses.
Imagem: RTP

