Oitenta e um anos de história, mais de 260 atletas inscritos e uma vontade inabalável de resistir ao esquecimento. O Sport Clube Borbense é, hoje, uma das mais sólidas referências do futebol de formação no distrito de Évora – e o seu presidente, Joaquim Trincheiras, não esconde o orgulho nisso, nem as cicatrizes do caminho.
Em conversa franca e sem rodeios com o Ardina do Alentejo, o dirigente que há quase uma década lidera os destinos do clube de Borba faz um balanço da sua presidência, fala das conquistas que o enchem de satisfação – do futebol feminino ao regresso ao futsal -, mas também não foge aos problemas que teimam em persistir: a falta de espaço para treinar, a escassez de voluntários disponíveis para “dar sem esperar receber” e os constrangimentos financeiros que são, afinal, o retrato de tantos clubes do interior do país.
Num Alentejo que luta contra o despovoamento e a falta de recursos, Trincheiras assume abertamente o seu bairrismo como motor e deixa um recado claro à comunidade e às instituições: o futuro do Borbense – e de territórios como este – depende do envolvimento de todos. “Estamos no interior do interior“, diz. E isso, reconhece, exige uma ajuda redobrada.
Ardina do Alentejo – 81 anos de vida… O SC Borbense está bem e recomenda-se?
Joaquim Trincheiras (JT) – Pode dizer-se que sim. Apesar de todas as dificuldades com que convivemos – algumas resultantes da nossa vontade de fazer sempre mais e melhor, o que se traduz em desafios logísticos, e outras transversais a todos, como as dificuldades financeiras – creio que o clube se pode recomendar.
Estamos a competir em todos os escalões, desde a iniciação aos seniores. Contamos com três escalões de futebol feminino e mantemos também actividade no futsal, este ano com seniores. No total, ultrapassamos os 260 atletas inscritos, sendo este o melhor ano dos 81 de existência do clube.
Ardina do Alentejo – Não é fácil, no interior do país – ainda mais no Alentejo -, com todas as dificuldades inerentes, levar este “tipo de barco” a bom porto… É carolice, bairrismo ou teimosia?
JT – É um pouco de tudo isso. Sempre estive ligado ao associativismo no meu concelho e o futebol é um “amor” de infância. O SC Borbense tornou-se, naturalmente, um objectivo. Servi o clube como atleta e agora como dirigente – vejo isso como o percurso natural de quem gosta do que faz.
Sim, assumo: sou bairrista. E tudo o que estiver ao meu alcance fazer por Borba, farei – mesmo que, por vezes, isso implique abdicar de momentos em família que também merecíamos ter.
Ardina do Alentejo – Quais são as principais dificuldades com que o SC Borbense se depara?
JT – Infelizmente, enfrentamos uma grande crise de “carolas”, de pessoas disponíveis para dar sem esperar receber. Há muitos que dizem que fariam, mas, quando surge a oportunidade, falta disponibilidade – por causa do trabalho, da família… E nós? Também temos família, também trabalhamos, também temos vida.
Para além disso, há dificuldades logísticas, nomeadamente ao nível do transporte. Recorremos frequentemente aos pais para transportar os filhos e colegas. Contamos também com o apoio do Município de Borba e da Junta de Freguesia Matriz para deslocações mais longas.
Outro problema sério é a falta de espaço para treinar e jogar. O Campo Municipal de Borba já não consegue dar resposta às necessidades. É urgente que o Município olhe para esta realidade e avance com a criação de mais um campo relvado. Para se ter uma ideia, o Campo Municipal é utilizado por mais de 300 atletas, sete dias por semana, de forma ininterrupta.
Ardina do Alentejo – E qual é a sua proposta?
JT – Sei que será sempre uma decisão política e que dificilmente agradará a todos, mas defendo a continuidade do projecto de ampliação do Parque Desportivo de Borba. Tenho consciência de que essa não é, neste momento, a prioridade do Município, mas considero que deveria ser reavaliada.
Não sou contra a criação de espaços relvados nas freguesias, mas trata-se de uma questão de números e de prioridades. O que se pretende para o concelho de Borba? Um parque desportivo capaz de servir todos ou vários espaços dispersos que sirvam apenas alguns?
Ardina do Alentejo – São praticamente oito anos de Joaquim Trincheiras como presidente do SC Borbense. Que balanço faz deste período?
JT – O balanço só pode ser positivo. Nesta última década, o SC Borbense atingiu os melhores números de atletas alguma vez registados. Foi também neste período que conseguimos, pela primeira vez, ter equipas em todos os escalões, desde a iniciação aos seniores.
Foi ainda nesta década que o futebol feminino passou a ser uma realidade no clube e que regressámos ao futsal. São factos objectivos que devem ser reconhecidos.
Ao nível desportivo, a formação tem estado regularmente nas decisões e na luta por títulos distritais, com presenças em competições nacionais.
Ardina do Alentejo – Olhando para estes oito anos: qual o momento mais marcante e qual o que preferia esquecer?
JT – O mais marcante foi ter contribuído para tornar o SC Borbense uma referência no futebol de formação do distrito e ter a oportunidade de defrontar, oficialmente, algumas das mais emblemáticas equipas do futebol nacional.
Para esquecer, sinceramente, nenhum. Mas há aspectos negativos a reter, nomeadamente os obstáculos que frequentemente surgem quando tentamos desenvolver uma atividade maioritariamente direcionada aos nossos jovens – os homens de amanhã.
Ao longo destes anos, sempre defendi que “o Borbense será sempre aquilo que os borbenses quiserem”, e continuo a acreditar nisso. O futuro pode ser positivo – tudo dependerá da vontade e do envolvimento da comunidade.
Joaquim Trincheiras, Presidente do SC Borbense
Ardina do Alentejo – E o futuro? O que reserva ao SC Borbense?
JT – Ao longo destes anos, sempre defendi que “o Borbense será sempre aquilo que os borbenses quiserem”, e continuo a acreditar nisso. O futuro pode ser positivo – tudo dependerá da vontade e do envolvimento da comunidade.
Ardina do Alentejo – Que mensagem deixa a quem vai ler esta entrevista?
JT – Estamos no interior do interior, afastados dos grandes centros, onde é necessária uma ajuda redobrada, dentro das possibilidades de cada um. Não sendo uma obrigação, não podemos permitir que estes territórios fiquem cada vez mais esquecidos. Há aqui muito valor que merece ser apoiado.