quarta, 23 maio 2018

Estremoz e o seu espaço aberto

Escrito por  Publicado em António Serrano quinta, 03 setembro 2015 17:04
No dia 31 de agosto a minha cidade completou 89 anos. Isto enquanto cidade, pois a povoação de Estremoz é muito mais antiga e já existe nesta paisagem há vários séculos. Merece, por isso, que este artigo seja dedicado à paisagem urbana de Estremoz e àquilo que a História conta sobre o seu desenvolvimento urbano.
 
Há referências ao termo de Estremoz que remontam ao século XIII, sendo muito provável que já existisse um qualquer outro povoado neste lugar, pelo menos desde o período de ocupação romana do território que hoje conhecemos como Portugal.
 
Há certezas da exploração das pedreiras de mármore pelos romanos e são dessa época a estrutura hidráulica conhecida como Tanque dos Mouros e a Villa rústica de Santa Vitória do Ameixial, o que atesta a ocupação deste território há, pelo menos, 2000 anos.
 

Na minha opinião é nesta diversidade de largos e praças, no espaço aberto de Estremoz, que reside a singularidade desta cidade e a razão porque tantas pessoas se encantam por ela. A sensação de espaço infinito, de luminosidade e de abertura proporcionam, a quem a percorre com atenção aos seus pormenores, uma sensação de liberdade que não se experimenta em mais nenhum lugar do Mundo.

No centro interpretativo de Medina Azahara, a cidade palatina da Córdoba islâmica do século I d.C., encontrei uma curiosa referência ao facto de muitos dos seus edifícios terem sido construídos com mármore da região de Estremoz. Parece-me que se não existisse neste lugar uma povoação, com este ou com outro nome, conhecida pelos seus mármores de elevada qualidade, certamente não teriam os árabes do Califado de Córdoba viajado tantos quilómetros para carregar pedra. Por isso, acredito piamente que já existia uma povoação neste lugar, no tempo da ocupação muçulmana do território, mas naturalmente tal facto só poderá ser um dia comprovado se forem realizadas escavações arqueológicas no núcleo mais antigo da cidade.
 
Sobre este núcleo primordial existem inúmeras referências ao seu desenvolvimento durante o período tardo-medieval, nomeadamente à construção da torre de menagem, dos paços do concelho medievais e de um conjunto de edifícios civis e religiosos que foram implantados na acrópole, notavelmente protegida por uma cintura de muralhas. De grande imponência e com uma forte presença na paisagem seria a estrutura defensiva denominada Couraça e que garantia a segurança no acesso às fontes de água potável, no sopé da colina. Esta couraça ligava o núcleo medieval às duas torres que protegiam a fonte e que ainda hoje subsistem. Curiosamente, como muitas outras coisas, também a maior parte da estrutura da couraça não resistiu à ação do tempo e dos homens, tendo sido destruída.
 
A abundância de água no vale a norte da colina determinou a fixação de vários conventos nesta zona baixa, como foi o caso de S. Francisco, dos Agostinhos e das Maltezas. Tal facto determinou que a vila transpusesse as suas muralhas medievais, incluindo as que cercavam o Bairro de Santiago, e começasse a ocupar toda a vertente norte da colina a partir do século XVI.   
 
Foi precisamente a partir de meados dos século XVI e início do século XVII, durante as Guerras da Restauração da Independência, que foi construída a segunda linha de fortificações, com o objetivo de proteger o casario e, principalmente, a abundância de água que importava garantir aos exércitos portugueses que aqui assentaram praça. Esta nova cintura de muralhas consistia num aparatoso sistema defensivo, composto por baluartes, revelins, cavaleiros e outras estruturas militares, num perímetro que chegou a alcançar cinco quilómetros e que excedia em muito aquilo que hoje é visível. O desenho das fortificações foi determinado pelas suas funções militares e pelo seu papel na defesa das fontes de água e na definição das praças e largos que hoje existem. 
 
A fonte da Couraça foi tapada e a sua água conduzida para uma fonte no centro do Largo do Espírito Santo, fonte essa que foi mais tarde decorada com motivos barrocos construídos em mármore.
 
Junto ao Convento de S. Francisco as fontes estiveram na origem da emergência do Largo de S. Bento (hoje Largos Dragões de Olivença e General Graça). Era neste local que as pessoas se juntavam para se abastecerem de água, para dar água aos animais, para lavar a roupa nos tanques, para vender e para comprar produtos nas feiras que ali existiam e, mais tarde, para passear junto ao Lago.
 

Estremoz completou 89 anos como cidade. Não se fizeram comemorações de show off, para alimentar o ego de meia dúzia de intelectuais, iluminados ou pretensas personalidades culturais da cidade. Não foi preciso. Ninguém notou, exceto provavelmente esta meia dúzia de personalidades. Tenho a certeza de que a cidade continuará a sobreviver sem este tipo de manifestações, pois já tem características intrínsecas mais do que suficientes para nos continuar a surpreender todos os dias.

O grande Lago, conhecido como "do Gadanha", foi construído em 1688 no lugar de uma fonte que ali existia, tendo a fonte da Couraça perdido a sua importância na organização da estrutura urbana. A presença do grande Lago determinou que até ao século XVIII o espaço público mais importante de Estremoz fosse o Largo de S. Bento.
 
Apenas no século XVIII, com a construção do Convento dos Congregados, foi definido o limite sul da grande praça que hoje conhecemos como Rossio Marquês de Pombal, a qual passou desde então a ser o principal espaço público de Estremoz. A construção da Fonte do Sátiro e a mudança das feiras para o Rossio reforçaram o seu papel de praça principal, que deixou de ter apenas uma função militar.
 
Junto à antiga Igreja de Santo André, que também o tempo e os homens demoliram, desenvolvia-se o Largo do Pelourinho e um outro espaço público, onde existia uma fonte e um mercado permanente que viria a ser posteriormente deslocado para o Rossio, aquando da demolição da Igreja.
 
Hoje em dia a vida social, cultural e económica da cidade de Estremoz continua a desenvolver-se em torno destes largos e destas praças, adaptadas obviamente às novas realidades e aos tempos que vivemos.
 
Na minha opinião é nesta diversidade de largos e praças, no espaço aberto de Estremoz, que reside a singularidade desta cidade e a razão porque tantas pessoas se encantam por ela. A sensação de espaço infinito, de luminosidade e de abertura proporcionam, a quem a percorre com atenção aos seus pormenores, uma sensação de liberdade que não se experimenta em mais nenhum lugar do Mundo.
 
Foi a brancura do seu casario e a imensidão dos seus espaços abertos que me fizeram apaixonar por esta cidade e hoje até já sinto que ela também me pertence, ao ponto de, quando aqui não estou, sentir saudades das suas ambiências. Sentir saudades de Estremoz.
 
Estremoz completou 89 anos como cidade. Não se fizeram comemorações de show off, para alimentar o ego de meia dúzia de intelectuais, iluminados ou pretensas personalidades culturais da cidade. Não foi preciso. Ninguém notou, exceto provavelmente esta meia dúzia de personalidades. Tenho a certeza de que a cidade continuará a sobreviver sem este tipo de manifestações, pois já tem características intrínsecas mais do que suficientes para nos continuar a surpreender todos os dias.
 
António Serrano - Arquitecto Paisagista
 

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