quinta, 26 abril 2018

Museu de Évora vai passar a ser nacional

Escrito por  Publicado em Região quinta, 16 fevereiro 2017 00:48
O actual director, António Miguel Alegria, diz que “fazer deste museu um museu nacional é da mais elementar justiça” O actual director, António Miguel Alegria, diz que “fazer deste museu um museu nacional é da mais elementar justiça” PAULO RICCA / PUBLICO

Na sequência da proposta de lei de transferência de competências para as autarquias, documento datado de 9 de Janeiro, que está em discussão e que volta hoje, quinta-feira, a Conselho de Ministros, muitas eram as vozes que se insurgiam e muitos mais aqueles que temiam que o Museu de Évora passasse a ser gerido pelo município eborense. Mas eis que a situação se inverte. O Museu de Évora não só não passará a depender de um órgão local, como vai ser promovido a museu nacional.

Fonte do gabinete do Ministro da Cultura, Luís Filipe Castro Mendes, disse ao jornal diário Público, ao início da tarde do dia de ontem, quarta-feira, que “a decisão política está tomada – a classificação do Museu de Évora como museu nacional vai mesmo acontecer. Agora aguardamos que se cumpram os procedimentos necessários, entre eles o do parecer consultivo, mas obrigatório, da Secção dos Museus, da Conservação e Restauro e do Património Imaterial do Conselho Nacional de Cultura". Segundo conseguimos apurar, esta é uma secção que dificilmente deixará de concordar com a alteração de estatuto, mas cuja próxima reunião está ainda por agendar.
 
Numa visita de trabalho realizada ao Alentejo, em Dezembro passado, já Castro Mendes tinha sido confrontado com esta promoção, uma espécie de reivindicação antiga. A fonte ministerial garantiu que a decisão, “tomada recentemente”, nada tem a ver, no entanto, com a proposta de descentralização em debate. “Tudo isto estava já a ser considerado antes desta discussão. O senhor ministro entende, com base na informação técnica de que dispõe, que a colecção do museu tem valor nacional e que, por isso, a classificação é mais do que merecida” acrescentou.
 

"O senhor ministro entende, com base na informação técnica de que dispõe, que a colecção do museu tem valor nacional e que, por isso, a classificação é mais do que merecida" por Ministério da Cultura

Para Castro Mendes, a situação do Museu de Évora não é diferente da do Museu Grão Vasco, em Viseu, elevado à categoria de museu nacional em 2015. “A lógica de promoção do museu de Évora é a mesma do de Viseu – trata-se de reconhecer o valor de uma colecção”.
 
Quando o museu viseense passou a museu nacional não faltou quem se manifestasse contra o facto de o de Évora não ter recebido semelhante promoção. Joaquim Caetano, o conservador de pintura do Museu Nacional de Arte Antiga que dirigiu o museu alentejano durante dez anos, entre 2000 e 2010, reivindica há muito esse estatuto, tal como acontecera já com os seus antecessores, a começar por Mário Tavares Chicó, responsável pelo Museu de Évora em meados do século XX.
 
O actual director, António Miguel Alegria, diz que “fazer deste museu um museu nacional é da mais elementar justiça”. Acrescenta ainda que “sem desprimor para os colegas e para as colecções do Museu Grão Vasco, promover Viseu sem promover Évora foi um erro. Viseu não tem a história nem a diversidade do espólio do Museu de Évora, e não tem na sua génese uma colecção e uma figura como a de Frei Manuel do Cenáculo, absolutamente fundamental para a educação e a cultura em Portugal”.
 
Uma colecção singular
O Museu de Évora, que tem um importante acervo, sobretudo de pintura e de escultura, e que inclui muitos dos chamados “tesouros nacionais”, foi formalmente constituído em 1916, na sequência do plano republicano de munir cada capital de distrito com um museu público. Na sua origem está, no entanto, uma outra instituição, a biblioteca-museu criada por Frei Manuel do Cenáculo Vilas-Boas e Sampaio (1724-1814), influente intelectual do período pombalino e Arcebispo de Évora, o homem que fora já decisivo para a criação da Biblioteca Pública da Corte, mais tarde convertida em Biblioteca Nacional.
 

...o sucessivo atraso no reconhecimento do carácter nacional do Museu de Évora só pode explicar-se por "motivos políticos" por António Miguel Alegria

Para António Miguel Alegria, o sucessivo atraso no reconhecimento do carácter nacional do Museu de Évora só pode explicar-se por “motivos políticos”. “Esta colecção tem um valor que ultrapassa a região e isso é evidente” sublinhou. Basta lembrar que o acervo de 20 mil peças inclui, por exemplo, o retábulo flamengo que ocupava a capela-mor da sé da cidade, representando cenas da vida da Virgem (c. 1500), A Virgem com o Menino, de Álvaro Pires de Évora (c. 1410), obras de importantes pintores luso-flamengos como Francisco Henriques e Frei Carlos, assim como de portugueses de relevo, com destaque para Gregório Lopes e Diogo Contreiras. Na escultura, salienta o director, há “peças de grande qualidade”, como as de Nicolau de Chanterene (primeira metade do século XVI) ou o túmulo de Fernão Gonçalves Cogominho (c. 1364).
 
E depois há a arqueologia e as coisas naturais, das ciências, muito próprias do coleccionismo da época”, acrescenta, falando do espólio romano, reunido por Cenáculo, e, muito mais tarde, dos artefactos recolhidos nas primeiras escavações na área hoje ocupada pela Albufeira de Alqueva e na Anta Grande do Zambujeiro.
 
É por causa desta qualidade do acervo e da história do próprio museu que Alegria considera que seria “uma desgraça” vê-lo entregue à gestão camarária, “desgarrado de uma política nacional” e sem acesso ao acompanhamento técnico que exige.
 
Marcial Rodrigues, vice-presidente do Grupo Pro-Évora, acrescenta “uma desgraça” que poria “em risco” um “espólio incrível”. O Grupo Pro-Évora é uma associação que se bate pela defesa do património da cidade há quase 100 anos, e já no passado dia 1 de Fevereiro tinha divulgado, no seu site, um texto em que explicava por que razões seria “inteiramente desajustada” a transferência do museu para a autarquia.
 
Ao contrário do municipal, o museu nacional responde, naturalmente, à Direcção-Geral do Património Cultural, o maior organismo sob tutela do Ministério da Cultura, e obedece a uma série de regras e de procedimentos que tendem a fazer dele uma instituição de referência no país no que toca à divulgação e ao estudo das colecções.
 
Marcial Rodrigues diz que “é uma bela notícia este reconhecimento que já tardava e que devia ter sido feito na anterior alteração legislativa”. Explica que “estranhámos ver o Grão Vasco promovido e Évora não, mas não nos preocupámos muito porque, nessa altura, não havia uma intenção declarada de municipalização do nosso museu, o que seria gravíssimo porque a câmara não tem, de todo, meios para garantir a protecção e a valorização deste património”, explica.
 
Carlos Pinto de Sá, presidente da Câmara Municipal de Évora, concorda com Marcial Rodrigues. Também ele ficou “preocupado” com a possibilidade de assumir a gestão do museu, cenário que esta promoção vem afastar. “Há muitos anos que o município reivindica este reconhecimento para o museu, pelo espólio, mas também pela sua história e pela localização que tem numa cidade que é património mundial”, disse ao Público, alargando de imediato o âmbito da reflexão à proposta de lei em discussão, que promove a transferência de competências nas mais diversas áreas. “Esta proposta de lei põe em causa a capacidade de os municípios darem resposta a uma série de situações. Nós continuamos na expectativa de que o Governo aceite fazer o seu trabalho, que faça um estudo conveniente e que proponha uma descentralização verdadeira, real, e não uma mera desconcentração dos problemas”.
 
Marcial Rodrigues alerta que nesta proposta de lei, prevê-se ainda o fim das Direcções-Regionais de Cultura, a integrar, progressivamente, nas Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional. Para o vice-presidente do Pro-Évora este é “outro erro”. Sublinha que as Direcções-Regionais de Cultura “são indispensáveis à aplicação de uma política cultural que se quer nacional, coerente, com objectivos bem definidos, e independente dos pequenos poderes regionais e locais”.
 
c/ Lucinda Canelas (Público)

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