terça, 23 outubro 2018

Não castiguem o Futebol

Escrito por terça, 02 outubro 2018 09:48
O futebol não é apenas um jogo entre 11 jogadores de cada lado, com uma bola e duas balizas. O futebol, se não for visto por ninguém, apenas é um prazer para 22. Do futebol faz parte a emoção, o ambiente. Tantas vezes já ouvimos dirigentes a mostrarem a sua preocupação pela falta de público nas bancadas e a arranjarem mil e uma desculpas para isso. 
 
O público, aquele que leva o cachecol, bandeira e vai, apenas, apoiar a sua equipa, faz muita falta ao futebol. É por isso que eu, juro, não entendo qual o objetivo de quem "inventou" os jogos à porta fechada. Pergunto mesmo, para que serve assim o futebol, uma atividade que cada vez mais se tornou um espetáculo e que envolve muitos milhares de pessoas e de euros.
 

Temos problemas com claques? Resolvam-se. Impeçam de entrar em recintos desportivos aqueles que têm um histórico de prevaricações. Aquelas coisas que são atiradas para dentro do campo, e que dão direito depois a estes castigos, não nascem nas bancadas dos estádios. Alguém as mete lá dentro ou alguém passa com elas pelas portas.

Grande parte dos jogos à porta fechada acontecem devido ao mau comportamento dos adeptos. Muita gente dirá que tem de haver castigos e que certos atos praticados em estádios de futebol, ou nas suas redondezas, têm que terminar. Mas alguém acha que quem faz este tipo de coisas está minimamente importado se o clube é ou não castigado? E que tal encontrar esses senhores, prendê-los e levá-los a tribunal? Hoje em dia, com a vigilância que existe nos principais estádios portugueses, não será assim tão difícil encontrar e castigar quem se porta mal. 
 
Em vez de isso acontecer, e a UEFA também gosta muito de fazer isto, castigam-se os outros 50 mil que se portam bem. Castigam-se, também, os cofres dos clubes, os jogadores e os árbitros que ficam desolados com o ambiente que encontram. Para mim, jogos à porta fechada, não fazem qualquer sentido. 
 
Temos problemas com claques? Resolvam-se. Impeçam de entrar em recintos desportivos aqueles que têm um histórico de prevaricações. Aquelas coisas que são atiradas para dentro do campo, e que dão direito depois a estes castigos, não nascem nas bancadas dos estádios. Alguém as mete lá dentro ou alguém passa com elas pelas portas. 
 
É claro que falo nisto pois o Benfica e o Braga foram castigados desta forma. Será preciso acontecer mesmo, para se perceber que é muito devastador jogar, ou ver jogar na televisão, um jogo sem público. Castiguem quem quiserem, só não castiguem é a emoção. Não castiguem o Futebol.
 
* Jornalista José Lameiras
 
 

E agora, quem é que vai fazer de Éder?

Escrito por quarta, 13 junho 2018 00:29
Para os verdadeiros amantes do futebol, do jogo, da técnica e da tática, o Mundial é um momento solene. É o verdadeiro torneio e até é pena que só aconteça de quatro em quatro anos. Geralmente, por razões óbvias, o último vencedor do Europeu é sempre candidato a vencer o Mundial. Assim, Portugal é favorito. Não temos obrigação, nem pouco mais ou menos, de vencer a prova mas o estatuto ninguém nos tira.
 
As redes sociais, sempre elas, já estão a fazer o seu papel. Basta um empate ou derrota num jogo de preparação e pronto: "está tudo perdido, não jogamos nada e só lá vamos gastar dinheiro". Lembro-me de ler o mesmo há dois anos atrás. Desta vez mais contidos, é certo, mas "os velhos do Restelo profissionais" já por aí andam, apesar de terem abrandado depois da vitória categórica frente à Argélia.
 
Portugal, para mim, é mesmo favorito, independentemente de ter vencido o Europeu. Sei que esses "profissionais da desgraça" têm várias teorias, nomeadamente "a sorte", como se essa mesma sorte não fizesse parte do futebol e até da vida. O problema é que grande parte das vezes nos esquecemos que essa tal sorte dá muito trabalho. Portugal foi campeão, com mérito, fez um grande jogo na final e uma fase final muito inteligente que fez acreditar até o mais pessimista dos portugueses. No jogo decisivo, fizemos uma grande exibição mesmo depois de perder o nosso melhor jogador, tivemos um grande guarda-redes na baliza e marcamos no momento exato, através de um herói improvável. Quando se fala de lógica no futebol, é por isto mesmo que eu gosto mais de falar de momentos. É de momentos que se fazem os campeões e é nos momentos certos que se ganham as competições. O que Herrera fez este ano na Luz, só confirma precisamente o que estou aqui a escrever.
 

Portugal, para mim, é mesmo favorito, independentemente de ter vencido o Europeu. Sei que esses "profissionais da desgraça" têm várias teorias, nomeadamente "a sorte", como se essa mesma sorte não fizesse parte do futebol e até da vida.

Em dois anos, este herói improvável deixou de "caber" nos 23. E, curvo-me perante Fernando Santos pois não "cabe" mesmo. Foi um grande ato de gestão, de inteligência, de pragmatismo do nosso selecionador. Seria sempre mais fácil "fazer o favor" ao Éder de o levar e assim premiar aquele momento que ficará para sempre na nossa memória. A questão, é mesmo essa. É que esse momento vai ficar para sempre e há coisas que só acontecem uma vez na vida. Olhando ao que temos, Éder não tem lugar e essa é a realidade. 
 
Fernando Santos corre um risco, pois quando estiver a perder a 10 minutos do fim vai ouvir da bancada, "agora não tens o Éder", mas ele sabe disto e sabe que tem outras soluções que dão outro tipo de garantias. Ser selecionador é isto mesmo, é fazer opções que nem toda a gente concorda. Éder merece ficar para sempre como o héroi do Europeu. Isso ninguém lhe vai tirar.
 
Temos Guedes e Bernardo em forma, Gelson, André Silva, Quaresma e, claro, Ronaldo. Temos bons centrais, bons médios e um bom guarda-redes. Temos seleção para lutar pela taça, sem ter obrigação de a vencer. Os 23 que Fernando Santos escolheu, são os que terão o nosso apoio. Quem vai fazer de Éder, não sei. No entanto, desconfio que esse papel estará guardado para alguém. 
 
* Jornalista José Lameiras
 
 

Um Justo Campeão

Escrito por quarta, 09 maio 2018 09:57
O FC Porto foi um justo campeão. Para fazer esta análise, olho só para o que se jogou em campo, ignorando tudo aquilo que aconteceu fora das quatro linhas neste campeonato, e que deveria envergonhar e muito os principais responsáveis do futebol em Portugal.
 
Sérgio Conceição merece este título. O Porto não pôde comprar jogadores, fez regressar emprestados, teve jogos em que claramente não deu mais, mas outros houve, como o da Luz ou o da Madeira, em que quis muito ganhar e acabou por ser feliz. O Benfica conseguiu o que parecia impossível, recuperando o primeiro lugar já na recta final, mas depois faltou arte e engenho para o reforçar ou até mesmo segurar. Por isto ou por aquilo, o Benfica acaba por ser um digno vencido e agora o segundo lugar, que só serviu para apimentar o derby eterno, é uma questão secundária pois a hipótese de entrar na Liga dos Campeões, e os milhões, não servem como prémio de consolação para uma equipa que dominou o futebol em Portugal nos últimos quatro anos.
 
Dito assim, até parece que falamos de clubes ricos. Claro que não. Tanto um como o outro precisam de dinheiro e da Liga dos Campeões, mas, para mim, o segundo é sempre o primeiro dos últimos e isso faz mais sentido ainda se nos lembrarmos que estamos a falar de um clube que ganhou quase tudo em Portugal nos últimos tempos. É certo que para os clubes é muito importante, mas para os adeptos, só aqueles que fazem questão de ficar à frente do eterno rival é que são capazes de achar que o segundo lugar é positivo. Olhando com clareza, é até bem mais positivo para o Sporting, do que para o Benfica, isto se não olharmos aos montantes envolvidos. Para quem tem festejado títulos, ser segundo nunca poderá ser um bom resultado.
 

O que faltou ao Benfica? Faltou assumir que o Penta não se ganha com as camisolas. Faltou planear a época como deve ser e entender onde estão as lacunas da equipa e as posições para onde é preciso comprar jogadores. Faltou um treinador mais exigente para com a estrutura.

O que faltou ao Benfica? Faltou assumir que o Penta não se ganha com as camisolas. Faltou planear a época como deve ser e entender onde estão as lacunas da equipa e as posições para onde é preciso comprar jogadores. Faltou um treinador mais exigente para com a estrutura. O Benfica jogou, por exemplo, uma época inteira sem saber se tinha ou não guarda-redes. Parece pouco, mas é muito. O seu "abono de família" lesionou-se e o Benfica perdeu aquilo que só Jonas estava a trazer: qualidade no último terço do terreno. Vontade, não significa qualidade. O Benfica começou a perder este campeonato no dia em que vendeu Mitroglou.
 
O Sporting, só depende de si para ficar em segundo lugar. Se juntar esse lugar à Taça de Portugal e à Taça da Liga, acabará por fazer uma época positiva, para um clube que tem ganho muito pouco nos últimos tempos. No entanto, a aposta milionária em Jorge Jesus foi claramente para ser campeão e fica, mais uma vez, a faltar isso. São já três anos com este treinador e, curiosamente, foi no seu primeiro ano que esteve mais perto de conquistar o título. Se ficar em segundo e ganhar a Taça de Portugal, acaba por ser positiva, para o Sporting, esta época, mas o título voltou a ficar distante.
 
Isto foi o que eu vi ao longo do ano. Numa prova de regularidade como é o campeonato, acho sempre que o Campeão acaba por ser justo, pois falamos de trinta jornadas e todos são beneficiados e prejudicados pelas arbitragens, todos têm lesões e castigos e todos têm excesso de jogos. Sérgio Conceição foi inteligente na forma como resolveu os problemas que teve durante a época, nomeadamente a falta de Danilo e os problemas com Soares e Casillas. Percebeu o que tinha, arriscou, quase perdeu, mas ganhou e foi campeão no seu primeiro ano no Porto. Não é, ainda, um grande treinador, mas é alguém que sabe bem como funciona o futebol e os balneários de clubes grandes. Teve uma oportunidade e agarrou-a. É isto que fica para a história. 
 
* Jornalista José Lameiras
 
 

Conversas do Futebol de hoje e de outros tempos

Escrito por quarta, 11 abril 2018 18:57
Nos anos 90 dois amigos iam ao futebol, o João e o Manel
João: Então bebemos uma fresca antes do jogo?
Manel: Só uma? Vê lá que eu tenho sede...
João: Bebemos duas, para não irmos coxos...
Manel: Podes crer, para coxo já basta aquele central que lá temos...
João: Qual deles??? São os dois… aliás, por isso é que eles são defesas… Viste no último jogo? Aquele passe que fez para o avançado? Estava mesmo a dormir...
Manel: A dormir? Achas? Não sabe é mais… É muito bom a cortar as bolas, mas depois tem dois pés que parecem dois madeiros.
João: Podes crer… A ver se não demoramos muito pois eu gosto de ver o aquecimento. Estou curioso para ver quem ele vai meter de início.
Manel: Também eu, bebe lá isso para irmos embora.
 
Já no estádio
João: Não me digas que ele vai meter aquele guarda-redes?
Manel: Não sei, eles estão a aquecer os dois… Mas deve ser.
João: É perigoso, eles nas bolas paradas são fortes e aquele é baixote.
Manel: Mas salta bem… O pior é a jogar com os pés. 
João: E dentro dos postes é muito bom… Não viste no último jogo? Se não fosse ele… Não sei não...
Manel: Ora, é para isso que lá está. Dá uns frangos mas não é mau de todo. Olha, é mesmo ele que joga, não ouviste o gajo ali a dizer?
João: Qual gajo? Eu estava a ver se ouvia aqui o da rádio.
 
Durante o jogo
Manel: PENALTI, PENALTI! Este gajo não marca nada pá! Era penalti!
João: Como conseguiste ver daqui? Eu não vi, é muito rápido!
Manel: Mas o gajo está mais perto que nós… Não viu?
João: Achas? Se visse tinha marcado… ou talvez não!
Manel: Ora deixa, belo árbitro este… Aliás, são todos bons. Contra nós marcam sempre todos os penaltis.
 
Fim do jogo
João: Outro empate… Assim não vamos lá!
Manel: É preciso é calma… Ainda falta muito jogo.
João: Não se podem falhar golos assim… E aquele penalti não sei não.
Manel: Ora, pois, deixa. Agora é tarde. Não se podem é falhar golos daqueles. É uma vergonha! E o treinador também parece que tem medo de meter avançados.
João: Bom, vamos mas é comer um prego e para a semana há mais...
 

O futebol passou a ser sério demais e destila-se ódio de forma normal. É o que temos, é o que sentimos. Há muita coisa em redor do futebol que não faz falta nenhuma, aliás, até atrapalha. Será assim por mais uns tempos… Até ao dia em que muitos percebam que isto é apenas um jogo e que para uns ganharem, outros têm de perder.

 
Os mesmos amigos, vão ver um jogo em 2018
João: Bebemos uma antes?
Manel: O quê? 
João: Então não me estavas a ouvir? Ora pois, estavas aí de volta do telemóvel...
Manel: Estava a ler as últimas… A ver se já havia equipa inicial e se o Presidente tinha mandado mais alguma boca.
João: Achas, ele agora já não diz nada… Nem ele nem o Diretor. Esse é que é um grande senhor, já ouviste ele a falar daquele árbitro?
Manel: Já pois, ele é que tem razão. Isto anda tudo comprado e nós a ver passar os navios.
João: Aqueles gajos compram tudo! Até os guarda-redes, vais ver quando jogarem amanhã.
Manel: Tem calma, temos é de ganhar hoje… Se o árbitro deixar e aquele VAR que está sempre a dormir.
João: Quem é hoje?
Manel: Sei lá, são todos iguais, não ouviste ontem o nosso comentador naquele programa?
João: Sim sim, esse também fala bem, ele lá sabe...
 
Já no Estádio
João: Vai começar… Olha quem é o árbitro, aquele manhoso que nos tirou já quatro pontos...
Manel: São sempre os mesmos. Ele devia era descer… Ele e os amigos dele, das bandeiras.
 
Durante o jogo
Manel: PENALTI! ÉS UM LADRÃO! JÁ DEVES TER O BOLSO CHEIO DE NOTAS! CHULO!
João: Grande porco. Espera aí que eu vou ligar ao meu irmão que ele está a ver na TV. 
Manel: Era, de certeza, aposto!
João: O meu irmão diz que não é claro, é difícil… Que tem a ver com a intensidade. Diz que em quatro canais estão a dizer que é e em quatro dizem que não é!
Manel: Ora deixa, são os canais que estão controlados por esses mafiosos, não viste o que disse o Presidente!
 
Fim do jogo
Manel: Mais dois pontos que se foram!
João: Podes crer, somos sempre roubados, o Presidente e o Treinador é que têm razão. Isto é uma grande máfia!
Manel: Pode ser que amanhã os outros percam...
João: Estás a sonhar, eles têm aquilo tudo controlado. Não ouviste já falar no jogo da mala? Mas olha que este não é o do António Sala. Neste sai sempre...
Manel: Pois, se aquilo tiver complicado como da outra vez, aquele defesa que era deles dá-lhe a bola e pronto.
João: Bem, vou para casa ver a televisão para ver o que dizem desta roubalheira.
Manel: E eu, isto é uma vergonha! Fomos roubados mas estes gajos também têm de correr mais. Até logo.
 
As diferenças notam-se bem. A forma como vimos o futebol hoje é assim. Não fomos nós que a escolhemos, fomos sendo "educados" para isto por agentes irresponsáveis e que não fazem falta nenhuma ao futebol. Está criado um clima de desconfiança para tudo e para todos. Não se trata de clubes. Este "diálogo" pode acontecer em qualquer estádio e com dois ou com mais adeptos. O futebol passou a ser sério demais e destila-se ódio de forma normal. É o que temos, é o que sentimos. Há muita coisa em redor do futebol que não faz falta nenhuma, aliás, até atrapalha. Será assim por mais uns tempos… Até ao dia em que muitos percebam que isto é apenas um jogo e que para uns ganharem, outros têm de perder.
 
* Jornalista José Lameiras
 
 

Perigosas Barbaridades

Escrito por segunda, 19 fevereiro 2018 23:52
Escrevo este texto pois, apesar do seu estilo fraturante, foi a primeira vez que um discurso de Bruno de Carvalho me revoltou. Todos nós já sabiamos qual era a forma de estar do Presidente do Sporting. Já todos entendemos a sua estratégia e a forma como pensa, se é que pensa, na sua comunicação. Mas este último discurso, depois de um cheque em branco que lhe foi passado pelos sócios do Sporting, foi o pior de todos e, mais grave ainda, o mais perigoso.
 
Tenho muito respeito pelo Sporting e pelos meus amigos que são adeptos deste clube. Reconheço, também, o bom trabalho de gestão desportiva que Bruno de Carvalho tem feito. Não posso aceitar, enquanto jornalista e cidadão português, esta enorme falta de respeito. Ninguém que quer ser levado a sério pode dizer aquelas barbaridades. É preciso perceber que cargo ocupamos e aquilo que representamos, quando num pavilhão cheio de gente declaramos guerra aos jornalistas, aos jornais, às televisões. No final houve, claro, animosidade e jornalistas ofendidos. Não houve, talvez por milagre, violência. 
 

Eu sempre tenho defendido que há muita gente que não se devia chegar, nem perto, de um microfone. Bruno de Carvalho é um bom exemplo disso. Gosta de ser fraturante, gosta de disparar em várias direções, fazendo lembrar, em mau, ou em muito pior, o que fazia Jorge Nuno Pinto da Costa nos seus tempos de ouro. Só que há aqui uma grande diferença. Podem apontar muitos defeitos ao Presidente do FC Porto, mas ele sempre teve nível, até quando enfrentava de forma mais áspera alguns jornalistas.

Será que Bruno de Carvalho tem noção do que diz? Será que ele tem a perfeita noção do que lucram os seus patrocinadores com as imagens dos equipamentos do Sporting na comunicação social? Será que ele tem noção de quanto vale um logotipo atrás de um treinador a falar em direto para a televisão? E se tudo isso acabasse? E se houvesse união de todas as empresas em Portugal que detêm orgãos de comunicação social e ninguém fizesse uma única notícia sobre o Sporting? E se o clube fosse rigorosamente ignorado? Seriam a Sporting TV e o jornal do Sporting suficientes para informarem os seus adeptos? 
 
Eu sempre tenho defendido que há muita gente que não se devia chegar, nem perto, de um microfone. Bruno de Carvalho é um bom exemplo disso. Gosta de ser fraturante, gosta de disparar em várias direções, fazendo lembrar, em mau, ou em muito pior, o que fazia Jorge Nuno Pinto da Costa nos seus tempos de ouro. Só que há aqui uma grande diferença. Podem apontar muitos defeitos ao Presidente do FC Porto, mas ele sempre teve nível, até quando enfrentava de forma mais áspera alguns jornalistas. Sempre soube qual era a altura certa para passar as suas mensagens e por vezes dizia coisas bem piores mas de maneira diferente. Qual é a diferença de entrevistar Bruno de Carvalho ou um qualquer adepto à porta de Estádio de Alvalade antes de um jogo? Se repararem, o registo é o mesmo e, parece-me, não são os adeptos que estão mal. Aos adeptos esse tipo de discurso é permitido, a um presidente de um clube não é. 
 
Podia aqui dizer que Bruno de Carvalho também se esqueceu da quantidade de pessoas que ganha a vida a trabalhar na comunicação social. Mas penso que não vale a pena porque as pessoas sabem pensar pela sua cabeça e irão continuar a comprar jornais e a ver televisão, até mesmo os programas com "paineleiros e cartilheiros". O que Bruno de Carvalho ganhou com isto foi mais um motivo para ser caricaturado nas redes sociais e falado pelos piores motivos. Digo eu, que nem sou do Sporting mas que respeito muito a instituição, que este senhor já não faz falta ao futebol português pois até se pode tornar perigoso. Só pediu o cheque em branco aos sportinguistas, porque sabia que não havendo nesta altura alternativa visível, os sócios iriam aprovar tudo. Quando oiço muita gente dizer que ele escolheu a pior altura para fazer isto, digo que esta, de facto, foi a pior altura para o Sporting mas, para ele, como ficou provado, foi mesmo a melhor. Se isto tem acontecido no final da época, Bruno de Carvalho, assim como qualquer treinador, estaria dependente dos resultados.
 
* Jornalista José Lameiras
 
 

Viver o Natal

Escrito por quinta, 21 dezembro 2017 00:06
"O Natal não é uma data histórica, é uma vivência". Muitas vezes o Padre Júlio disse isso aos microfones da sua rádio e, com o andar dos anos, vamos percebendo que isso é mesmo verdade. O Natal não é uma data que o calendário obriga a que seja comemorada e assinalada. Muitos de nós não estamos prontos, nem disponíveis, para viver um Natal que está muito longe de ser uma correria entre supermercados e embrulhos.
 
Tudo isso faz parte do Natal e a expressão de uma criança a receber a prenda que pediu na carta que escreveu ao Pai Natal é uma coisa única. Esta é a magia do Natal. As crianças são mesmo a parte mais importante desta quadra e agora entendo isso perfeitamente. Tive o "meu Natal" em Julho, quando peguei pela primeira vez na minha filha. Tenho percebido, ao longo deste tempo, aquilo que os meus pais gostam de mim.
 

As crianças são mesmo a parte mais importante desta quadra e agora entendo isso perfeitamente. Tive o "meu Natal" em Julho, quando peguei pela primeira vez na minha filha. Tenho percebido, ao longo deste tempo, aquilo que os meus pais gostam de mim.

Isso para mim é Natal. Gostar de alguém e querer estar por perto. Proteger, cuidar, entender alguém. Conviver com a família, com os amigos e até esquecer os inimigos. Celebrar o Natal é ter a mesa cheia, mas de gente. É olhar para as cadeiras vazias e perceber, mas aceitar, que falta alguém que queríamos muito que ali estivesse mas que o tempo não volta para trás. É perceber que ontem eramos os netos que esperavam pela meia-noite para abrir as prendas e hoje somos os pais que tratamos de tudo para que nada falte às nossas crianças. É perceber agora porque é que os nossos pais gostavam tanto de estar nesta época com os nossos avós. É olhar para os olhos dos nossos pais e perceber o que sentiam os nossos avós quando olhavam para nós. Para mim, isto é o Natal. É dar graças as Deus pelo que temos e não pensar que queríamos mais ou melhor. É aceitar o Natal como ele verdadeiramente é, não pensando que falta isto ou aquilo na mesa. Havendo o suficiente para nos alimentarmos nesse dia como noutro dia qualquer, o Natal depois é a amizade que colocamos na conversa e o convívio que promovemos com os outros. Esses são os momentos que verdadeiramente ficam.
 
Cada vez temos mais exemplos de que tudo passa muito depressa e que de um dia para o outro as coisas podem mudar. Por isso, vale e pena viver cada momento intensamente e o Natal é uma boa oportunidade para isso. Viver o Natal é diferente de passar a noite da Consoada. Viver o Natal é aceitar que todos somos diferentes mas ao mesmo tempo somos muito iguais. Parar estes dias para pensar no que fizemos, no que podemos fazer ou no que a vida nos tem dado ou pode dar, é também fazer Natal.
 
Este não é um texto de opinião, longe disso. É uma reflexão de alguém que tem visto o seu Natal mudar ao longo dos tempos. Tenho muitas saudades dos meus avós, tenho saudades do meu Natal em Vila Boim. No entanto, tenho acrescentado pessoas à minha vida e elas, felizmente, estão comigo nesta altura. Uma delas, a mais pequena, é o meu verdadeiro Natal deste ano.
 
Amigos, Façam Natal. Boas Festas para todos!
* Jornalista José Lameiras
 
 

Joguem à bola

Escrito por sexta, 24 novembro 2017 02:28
Nos últimos tempos os protagonistas teimam em tentar acabar com a paixão pura e sincera que os adeptos têm pelo futebol. Parece que há uma campanha conjunta para afastar, ainda mais, as pessoas dos estádios de futebol. Está também ao rubro uma campanha para descredibilizar os árbitros. Como em quase tudo nesta vida, o problema parece estar mesmo dentro e não fora.
 
Os Diretores de Comunicação dos clubes assumem papéis principais. Os presidentes ficam na sombra e assistem a tudo serenamente, escolhendo depois o momento certo para aparecer. Aquilo que em tempos era uma rivalidade, perfeitamente normal e assumidamente saudável, é agora apenas ódio ao rival. O que interessa agora é disfarçar erros com as culpas dos outros e teorias da conspiração. Basicamente, só perdemos, ou não ganhamos, porque os outros têm tudo comprado. 
 
Ao contrário do que estes dirigentes de hoje pensam, os adeptos gostam é de futebol. Gostam, é verdade, acima de tudo que o seu clube ganhe. Mas, acredito também, serão poucos aqueles que aplaudem a conduta atual e estratégia dos três principais clubes portugueses. Hoje, digo eu, ninguém pode "cuspir para o ar". Todos estão a fazer o mesmo caminho e a palavra "investigue-se" nunca foi tão referida em programas de televisão que são, imagine-se, produzidos mesmo para isto nos canais dos clubes.
 
Todo este, desculpem-me a expressão, "circo que está montado", revela que afinal o problema não está em video-árbitros ou na falta deles. O problema é a cultura, o modo de estar no futebol e o facto de que ganhar dá muito mais dinheiro do que perder e resultados negativos não enchem bolsos. O problema é que estes "comunicadores" do hoje não são do futebol nem nunca deveriam ter sido. Os emblemas que representam, são muito maiores que tudo isto e os fundadores destes clubes não os criaram a pensar que um dia seria assim.
 

Já tenho saudades daqueles domingos em que o Domingo Desportivo passava os resumos de todos os jogos e se falava de futebol, de tática, de grandes golos, de grandes jogadores, de grandes guarda-redes e de histórias do futebol. Não gosto, nem concordo, que os clubes se prestem a este papel e sejam eles a marcar aquilo que é atualidade desportiva, provocando este clima de desconfiança.

É claro que vivo neste mundo e sei que isto nem sempre é tudo legal. Sei que há influências, que há bons e maus lugares, que há boas e más comissões e que nem tudo é só jogado dentro das quatro linhas. Agora, é preciso que se entenda, ou que seja passada essa mensagem, que tudo isto muda porque a bola entra ou não entra. Ganhar é mesmo muito mais fácil do que perder e esta "caça às bruxas" a que temos assistido só prova que o futebol passou para um patamar diferente daquele que nos fez apaixonar por este jogo.
 
Sei que há árbitros mais sérios que outros, mas também há uns mais competentes que outros. Tal e qual como há avançados e defesas bons e outros que nem por isso. Isto é futebol. Compete aos dirigentes da arbitragem fazerem, seriamente, essa seleção. Com o video-árbitro, pensaram alguns que os erros iam acabar no futebol. O que temos agora com essa dita "tecnologia", é árbitros principais a sacudirem a responsabilidade das decisões mais complicadas para outros que estão a ver o jogo pela televisão. Sou a favor do chip dentro da bola, para entendermos se entrou ou não. Essa é uma tecnologia que nos dá uma certeza da decisão e não dá mais margem para discussão. Agora, por exemplo, num lance de grande penalidade ou na anulação de um golo devido a falta, há sempre a questão da subjetividade e com duas cabeças podem existir duas visões diferentes dos lances. O que é que isso provoca? Mais discussão e mais desconfiança. Não duvido que a intenção até fosse boa, mas penso que não resulta. O jogo tem 90 minutos e as equipas têm de entender que os árbitros erram porque têm de decidir. O caminho, digo eu, é falar de futebol. Se há algo ilegal, como em tudo na vida, devem ser as entidades competentes a investigar. Se eu acho que estou a ser prejudicado por algo ilegal, devo fazer queixa no local apropriado e deixar que as autoridades façam o seu trabalho. 
 
Já tenho saudades daqueles domingos em que o Domingo Desportivo passava os resumos de todos os jogos e se falava de futebol, de tática, de grandes golos, de grandes jogadores, de grandes guarda-redes e de histórias do futebol. Não gosto, nem concordo, que os clubes se prestem a este papel e sejam eles a marcar aquilo que é atualidade desportiva, provocando este clima de desconfiança. Bandidos e gente menos séria sempre houve e vai haver no futebol ou noutra atividade qualquer, é mesmo assim. É preciso é fazer com que a justiça, desportiva ou cívil, afaste essa gente do futebol. Aquilo que tem acontecido, é apenas enviar foguetes para o ar e mãos cheias de nada. É só mais motivos para polémicas, ódios e mais preocupações para a polícia quando os rivais se encontram. Para a História, como em tudo nesta vida, ficarão as vitórias, os títulos, os grandes jogos. É isso que verdadeiramente conta.

 
* Jornalista José Lameiras
 
 

Vai ser só mais um jogo

Escrito por quinta, 12 outubro 2017 10:51
Depois do sorteio da Taça de Portugal os alentejanos festejaram. Um 'grande' vir jogar ao Alentejo é sinónimo de festa rija e a verdadeira essência da Taça. A Taça de Portugal serve, digo eu, para isto mesmo. Serve para colocar em pé de igualdade, durante 90 minutos, amadores e profissionais.
 
Falo com algum conhecimento de causa, apesar de ser noutra modalidade. Sei bem da alegria, e da festa, que foi quando recebemos o Benfica no nosso pavilhão para a Taça. O Pavilhão de Estremoz, que todos dizem que é muito grande, foi pequeno nesse dia e até jogámos numa quarta-feira à noite. O nosso piso, na altura, era sempre criticado e até diziam que era um aliado nosso. Não foi preciso obras nem torniquetes. O Benfica jogou nas condições que havia.
 

Se fosse por opção, por uma questão de receita, até entendia o Lusitano, porque esta é também uma oportunidade única para pagar toda a época. Agora, por imposição, é só mais uma lei e uma medida, como tantas outras que existem, para proteger os grandes e dar esmolas aos pequenos.

Sei das distâncias, a vários níveis, entre um desporto e outro. Sei o que representa o futebol e o que não representa o hóquei. Mas, quando faço esta comparação, estou a pensar na Festa que afinal não vai existir. Estou também a pensar nos jogadores do Lusitano. É certo que eles vão, de qualquer forma, ter a oportunidade de defrontar um clube como o Porto e até jogar num terreno de Primeira Liga. Mas, digo eu, falta o principal que é nós recebermos as visitas na nossa casa e a oportunidade que vão perder de fazer parte de uma festa memorável. Para jogarem no Estádio do Restelo, mais valia que jogassem no Dragão. A receita seria superior e tinham a oportunidade de jogar num estádio de um "grande".
 
Envergonha o Distrito de Évora, e talvez o Alentejo, o facto de não exisitir um campo para receber um jogo deste tipo. No entanto, custa-me muito entender que existam jogadores que não possam jogar em certas condições e que outros o tenham que fazer semana após semana. Então um estádio é homologado para receber jogos referentes a campeonatos nacionais e depois chumbado para receber "um grande"? O que têm os jogadores do Porto, do Sporting ou do Benfica de especial? É por estas e por outras que eu não gosto da expressão "equipas de outro campeonato". Cá para mim, se estão na mesma competição estão em igualdade de circunstâncias e por isso são do mesmo campeonato.
 
Se fosse por opção, por uma questão de receita, até entendia o Lusitano, porque esta é também uma oportunidade única para pagar toda a época. Agora, por imposição, é só mais uma lei e uma medida, como tantas outras que existem, para proteger os grandes e dar esmolas aos pequenos.
 
Um Lusitano - Porto, em Évora, às 10 horas da manhã de sábado,  seria uma festa para a cidade e para o Distrito. Assim, numa sexta-feira, em Belém às 20h15, é só mais um jogo de futebol.
 
* Jornalista José Lameiras
 
 

Descanse em paz, meu amigo

Escrito por segunda, 09 outubro 2017 18:49
Lembro-me bem do meu primeiro dia na Rádio Despertar. Lembro-me do sorriso com que me recebeu e da oportunidade que me deu. Já lhe agradeci, Padre Júlio. Lembro-me das conversas que tivemos e do respeito que tinha, e tenho, por si.
 
Tantas vezes me disse: "tens de ir um dia à minha aldeia e tens de ver a Tourada". Quis o destino que só fosse à sua terra na sua última viagem. Esta é a prova que devemos fazer as coisas no momento exacto e que não temos que esperar a altura que pensamos ser a melhor ou a mais cómoda. Como dizia muitas vezes, "os bons momentos são para ser vividos".
 
Há várias coisas que me deixam descansado. Uma delas, é que sei que teve uma vida boa, de partilha, de convívio, de realizações pessoais e profissionais. O seu sonho de criar uma rádio de referência foi cumprido com muito brilhantismo. Foi um autêntico visionário e, quando pensou colocar o nosso emissor no alto da Serra D'Ossa, a sua rádio "deu o salto" definitivo. A sua ânsia de comunicar, valeu a Estremoz uma rádio da qual se pode orgulhar e que é uma das suas grandes obras.
 
Muita gente passa por esta vida sem deixar a sua marca. Não é o seu caso, nem pouco mais ou menos. Nem sempre os seus actos e palavras criaram unanimidade, muito pelo contrário. Era preciso conhecê-lo para o entender. Tinha defeitos como todos nós temos mas sempre soube que não agradava "a gregos e a troianos". Tinha essa consciência e vivia bem com isso, sempre recebendo as críticas, as que tinham fundamento e eram sérias, com muito desportivismo.
 

Então passa bem, Zé Lameiras

Era exigente consigo e, por isso mesmo, muito exigente com os que o rodeavam. Não gostava de falhar nem gostava que os outros falhassem. Não era perfeito, nem pouco mais ou menos. Era um ser humano perfeitamente normal, com os seus defeitos e as suas virtudes. Como grande comunicador que era, facilmente chegava às pessoas e sabia escolher as palavras certas em cada ocasião e para cada público. Nunca deixou de dar, como dizia, "as alfinetadas" que eram necessárias e fosse a quem fosse. Era o seu estilo, que nem sempre agradava a todos.
 
A sua "Janela Indiscreta" mexeu com Estremoz. Nunca um programa da rádio foi tão controverso nesta terra. Era o seu programa e sempre será recordado, também, por isso. Quis o destino que fizesse comigo o seu último programa de rádio. Vou ficar, para sempre, com o que me disse assim que chegou ao estúdio: "Então as tuas meninas?" e também com o que me disse quando se foi embora : "Então passa bem, Zé Lameiras".
 
Descanse em paz, meu amigo.
* Jornalista José Lameiras