quinta, 12 dezembro 2019

O Campeonato do Senhor Rui

quinta, 26 maio 2016 00:47
O futebol é um fenómeno fantástico. Mesmo com tudo aquilo que traz de mau, ou menos bom, é preciso saber tirar a parte positiva e as lições que este fenómeno nos dá. No caso do campeonato principal desta época em Portugal, há uma lição que podemos transportar para outras áreas da nossa vida: As contas fazem-se no fim.
 
A Educação e o Respeito pelos outros são valores incontornáveis. São valores que devemos sempre preservar. Todos nós temos adversários ao longo da nossa vida e não podemos viver sem eles. No caso particular do desporto, seja no futebol ou não, são os adversários que valorizam as nossas vitórias. São eles que nos ajudam a sermos melhores e mais competentes. É fundamental respeitar e entender quem luta connosco por este ou aquele objectivo.
 
No Benfica, Rui Vitória não poderia ter tido pior começo. Exibições sofríveis da equipa na pré-temporada trouxeram as primeiras desconfianças dos adeptos e dos comentadores. Depois, a derrota com o Sporting na Supertaça, ainda por cima treinado por Jorge Jesus e com uma exibição muito pobre, fizeram com que grande parte dos adeptos temesse por uma época desastrosa. Na segunda jornada do campeonato, o Benfica perde com o Arouca. Quase tudo correu mal até ao jogo em casa com o Sporting. Nesse jogo, apesar do Benfica ter perdido por 3-0, e já com o resultado feito, foram os adeptos a puxar pelos jogadores numa demostranção clara que o futebol não se joga só dentro do campo. Quando se esperava uma séria reprovação pela exibição e resultado, das bancadas veio um coro dizendo "Eu amo o Benfica". 
 
Começa aqui a conquista do campeonato. Depois desse jogo, o Benfica apenas empatou na Madeira e perdeu em casa com o Porto, apesar de ter feito uma das melhores exibições na Liga. Em Alvalade, frente ao eterno rival que até tinha tudo para dar um passo de gigante rumo ao título tão desejado, o Benfica marcou e soube sofrer. Depois desse jogo, as duas equipas ganharam todos os que se seguiram. É notável.
 

O Senhor Rui, acreditou sempre que seria possível. O Senhor Rui fugiu muitas vezes de polémicas, nunca deixando que a sua imagem se desgastasse e deixando que outros assumissem esse papel.

Não acredito muito na sorte quando se fala de futebol, acho sim que há trabalho e competência. Rui Vitória, neste Benfica, nunca se desviou do seu objectivo. Foi já um pouco tarde que a equipa começou a acertar, mas foi bem a tempo. Foi a tempo de fazer uma segunda volta fantástica no campeonato e uma campanha bastante positiva na Europa. Mudavam os jogadores, mas não as ambições. Em cada jogo, era possível perceber a união que havia no grupo e a unanimidade em torno do treinador. Para isso, digo eu, terá também contribuído Jorge Jesus. Desclassificando o seu colega, Jesus fez com que o grupo de trabalho tivesse ainda mais motivação e vontade de conquistar o título.
 
O Senhor Rui, nunca chamou a si os feitos, entregando todo o mérito aos jogadores e aos adeptos. O Senhor Rui percebeu, com humildade, que teria de aproveitar o melhor do seu antecessor. O Senhor Rui, acreditou sempre que seria possível. O Senhor Rui fugiu muitas vezes de polémicas, nunca deixando que a sua imagem se desgastasse e deixando que outros assumissem esse papel. O Senhor Rui reconheceu, e provou, que é uma boa estrutura que faz os campeões e não apenas os treinadores. O Senhor Rui mereceu, e muito, este campeonato.
 
* Jornalista José Lameiras
Modificado em quinta, 26 maio 2016 01:04

As Voltas que dou ao Rossio

quarta, 13 abril 2016 01:41

Conversar é sempre uma boa alternativa. Num mundo em que estamos cada vez mais isolados, apesar de estarmos ligados de mil e uma maneiras, o simples acto de conversar é gratificante. No À Volta do Rossio, programa que conduzo há três anos na Rádio Despertar e onde tive a responsabilidade de substituir o José Gonçalez, tenho essa possibilidade. Tenho a possibilidade de convidar alguém e conversarmos, aparentemente sozinhos, mas muito bem acompanhados.

O acto de, simplesmente, conversar, é hoje uma coisa rara e este programa permite isso mesmo. Permite que se conheça quem por vezes estã tão próximo de nós mas que conhecemos mal. Permite dar a conhecer alguém que, simplesmente, é bom no que faz e pode servir de exemplo para tantos outros.

Este programa tem sido, também, uma excelente oportunidade de perceber o trabalho e a carreira de muita gente. Tenho percebido que há muito talento, trabalho...e pouca sorte. A sorte dá muito trabalho e em cada convidado entendo isso. A sorte procura-se e é uma mistura de talento, oportunidade e trabalho. Tenho conhecido homens e mulheres que são bons naquilo que fazem. Tenho conhecido jovens, por exemplo de Estremoz, que estão a dar cartas na área em que sonharam trabalhar. Grande parte deles, são bons exemplos e admirados pelos mais próximos. 
 
Nas voltas que dou ao Rossio, também cresço. Aprendo bastante e divirto-me. Tiro, acreditem, bastante partido destas conversas. Aprendo porque saio de cada conversa a saber mais. Divirto-me, porque tenho muitas vezes a oportunidade de entrevistar amigos pessoais e estar com os amigos é sempre divertido. Também, na maior parte das vezes, fico a admirar ainda mais a pessoa que convidei para conversar. Lembro-me, por exemplo, de ver a emoção nos olhos de muitos deles. Lembro-me do Sr. Humberto Frade a recordar, com lágrimas nos olhos, os tempos de jogador de futebol em Angola. Registo, com muito agrado e orgulho, a presença no programa de antigos colegas de escola. É bom sinal. Com colegas de profissão, que tenho também trazido ao programa, tenho aprendido bastante. Com empresários de sucesso, tenho percebido o porquê desse mesmo sucesso. Temos conhecido também o outro lado de políticos. Com músicos, ouvimos música, conversamos e percebemos o caminho da cada um. Com professores, voltamos a aprender e recordamos os tempos de estudante. Com amigos, por vezes esquecemo-nos que estamos na rádio. 
 
Há três anos atrás, quando comecei a dar estas voltas ao Rossio, não tinha noção do que iria ter para frente. Numa época tão marcada pelo isolamento em redor das novas tecnologias, a rádio permite que apenas se converse. Parece pouco, mas não é. O acto de, simplesmente, conversar, é hoje uma coisa rara e este programa permite isso mesmo. Permite que se conheça quem por vezes estã tão próximo de nós mas que conhecemos mal. Permite dar a conhecer alguém que, simplesmente, é bom no que faz e pode servir de exemplo para tantos outros. É um programa feito pelos convidados e para os ouvintes. A rádio, felizmente, permite essa relação única.
 
*Jornalista José Lameiras
 
Modificado em quarta, 13 abril 2016 01:50

Boa Sorte, Presidente

sexta, 11 março 2016 00:57
Marcelo Rebelo de Sousa, tal como se esperava, pouco teve de fazer para vencer as Presidenciais. Gastou pouco, e bem, até porque sabia que era desnecessário. Homem experiente, e bastante habituado a ter holofotes na sua direção, Marcelo soube bem aproveitar o "palco" que teve ao longo dos últimos anos. No entanto, digo eu, não foi só por isso que venceu as eleições. Durante a campanha, leu-se aqui e ali que se tratava, apenas, de um comentador. Não concordo. Marcelo preparou-se para este desafio, traçou uma meta e chegou ao fim em primeiro. 
 
Teremos, acredito, um Presidente mais activo, mais presente, mais abrangente. Tal e qual como eu esperava, o seu primeiro discurso foi brilhante. Foi um discurso de união, de motivação nacional. Logo na primeira vez que falou ao país, Marcelo olhou para o que temos de bom e que é preciso aproveitar. No dia da sua vitória, já se havia mostrado disponível para "unir aquilo que as conjunturas dividam". Parece ser essa a sua grande bandeira.
 

Marcelo disse também, no seu discurso, que não quererá ser "mais do que a Constituição permite", mas também não será "menos do que a Constituição impõe". A meu ver, este foi um recado bastante importante. Não se tratou apenas de protocolo, tratou-se de um aviso muito sério de que Belém vai ficar mais próximo de São Bento.

Marcelo percebe bem os problemas do pais. No seu discurso de posse, lembrou o "jovem que quer exercitar as suas qualificações e, debalde, procura emprego", a "mulher que espera ver mais reconhecido o seu papel num mundo ainda tão desigual", o "pensionista ou reformado que sonhou, há trinta ou quarenta anos, com um 25 de Abril que não corresponde ao seu atual horizonte de vida", o "cientista à procura de incentivos sempre adiados", o "agricultor, o comerciante, o industrial, que, dia a dia, sobrevive ao mundo de obstáculos que o rodeiam", o "trabalhador por conta de outrem ou independente, que paga os impostos que vão sustentando muito dos sistemas que legitimamente protegem os que mais sofrem no nosso Estado Social", a "IPSS, da Misericórdia, da instituição mais próxima das pessoas – nas Regiões Autónomas e nas Autarquias –, que cuida de muitos, de quem ninguém mais pode cuidar melhor". Esta parte do seu brilhante discurso, atesta que Marcelo conhece perfeitamente o país onde vive e o desafio que agora tem pela frente.
 
Marcelo disse também, no seu discurso, que não quererá ser "mais do que a Constituição permite", mas também não será "menos do que a Constituição impõe". A meu ver, este foi um recado bastante importante. Não se tratou apenas de protocolo, tratou-se de um aviso muito sério de que Belém vai ficar mais próximo de São Bento. 
 
Num Estado Democrático, ninguém é obrigado a aplaudir ninguém. Defendo, até, que os aplausos devem ser sempre sinceros. No entanto, há momentos em que devemos aplaudir por respeito. Podemos não concordar com o que ouvimos, mas deveremos respeitar... aplaudindo. Assim como em 2006, aquando da primeira eleição de Cavaco Silva, também em 2016 houve bancadas quietas. Palmas, dessas mesmas bancadas, apenas se ouviram quando Marcelo falou numas "Forças Armadas sempre fiéis a Portugal" e recordou que "assim foi, também, em 25 de Abril de 1974, com os jovens capitães, resgatando a liberdade, anunciando a democracia, permitindo converter o império colonial em comunidade de povos e estados independentes, prometendo a paz, o desenvolvimento e a justiça para todos." Esta foi uma "ponte" que Marcelo, e bem, quis fazer. Acho mesmo, que as bancadas de que falo foram surpreendidas. PCP e Bloco não esperavam este discurso do novo Presidente.
 
Esperar para ver, é sempre melhor. Se "nem Deus agradou a toda a gente", não será Marcelo Rebelo de Sousa que irá agradar. A meu ver, tem tudo para ser um bom Presidente. Tem tudo para ser mais activo que o normal e não ser peça decorativa. Isso, acho eu, já deu para perceber. A forma activa como tem estado na vida e na política atesta que assim será. Teremos, a meu ver, um Presidente atento e disposto a intervir. Não será criador de roturas e mostrou, até agora, ser um defensor de consensos. Já no seu primeiro discurso, Marcelo aconselhou-nos a ter orgulho no país onde vivemos e a olhar de frente para os grandes problemas sociais. Sinceramente, gostei. Não estava lá mas, se estivesse, teria com toda a certeza o meu aplauso, sincero... e de pé. Boa sorte, Presidente.
 
José Lameiras - Jornalista
Modificado em sexta, 11 março 2016 01:14

A Magia da Rádio

quinta, 11 fevereiro 2016 01:16
Há um meio de comunicação que chega, pelo menos, a 75% da população mundial. Chama-se rádio. É de fácil acesso e barato. Ouve-se no carro, em casa, no telemóvel e também na internet. Tem uma ampla cobertura que faz com que em certos locais só a rádio chegue. É, e tem sido ao longo dos anos, uma companhia única para quem dela necessita. 
 
A rádio alterou, para melhor, a forma como comunicamos. Encurtou distâncias e tem espalhado cultura. Apenas tendo o som como arma, do pouco se tem feito muito. Tem sido uma enorme escola para os profissionais da comunicação. Veja-se por onde passaram os comunicadores de maior sucesso em Portugal e alguns ainda por lá andam. Outros, até voltaram. A rádio não tem imagem, nem precisa. Quando apareceu a televisão, pensou-se que era o fim da rádio. Não foi. A rádio manteve o seu público fiel, devido ao compromisso que desde sempre tem assumido com os seus ouvintes. Ligamos o rádio e sabemos que alguém nos fará companhia.
 

A rádio manteve o seu público fiel, devido ao compromisso que desde sempre tem assumido com os seus ouvintes. Ligamos o rádio e sabemos que alguém nos fará companhia.

Apareceu a internet e a rádio fez questão de se reinventar. Aquilo que parecia ser um inimigo, tornou-se um aliado. Com a internet, a rádio fortaleceu-se e ganhou ouvintes. As emissões de rádio online, vieram fazer com que em qualquer parte do mundo, por exemplo, um emigrante possa ouvir a rádio da sua terra. Temos noção do que isso significa? Com a internet, a rádio passou a disponibilizar conteúdos que podem ser descarregados e aproveitados quando o público quiser. É certo que aí já poderemos discutir se ainda é rádio ou não, mas o que é certo é que aquilo que é produzido na rádio vai chegando a cada vez mais pessoas.
 
O Dia Mundial da Rádio, assinalado a 13 de Fevereiro, serve, também, para pararmos para pensar nisto. Aquilo que temos sempre à nossa disposição, por vezes não é valorizado. As rádios locais, principalmente essas, fazem uma ginástica mensal para ter sempre as suas emissões no ar. É um constante desafio, principalmente devido a regras impostas por quem não sai dos gabinetes, manter uma rádio local 24 horas a funcionar. Há apoio estatal, é verdade, mas este "serviço público" poderia e deveria ser mais valorizado. Existem projectos de apoio ao desenvolvimento dos meios de comunicação locais, mas nem todos conseguem concorrer. O trabalho desenvolvido pelas emissoras locais é muitas vezes banalizado por quem tem o poder de decisão a nível nacional. Olha-se para os grandes e bate-se nas costas dos pequenos. Quantos mais jornais e rádios locais serão precisos fechar para que se valorize o trabalho que é feito? As rádios e os jornais locais ajudam a resolver problemas que são pequenos para alguns, mas enormes para outros. Divulgam-se iniciativas, criam-se ondas de solidariedade, informa-se a população, encurtam-se distâncias. É graças às rádios e aos jornais locais que qualquer um de nós poderá ter voz. 
 
Naturalmente, serei suspeito e corro o risco de não ser imparcial ao tocar neste assunto. Fui mordido muito novo por este "bicho" que fica dentro de nós para o resto da vida. Hoje em dia, percebo o significado da expressão "A Magia da Rádio". Foi precisamente essa "magia" que fez milhares de pessoas estarem coladas ao rádio enquanto Artur Agostinho gritava os golos de Eusébio ou enquanto Joaquim Furtado lia um comunicado na noite do 25 de Abril. Apenas a rádio permitia a Olga Cardoso, que morava no mesmo prédio onde trabalhava, fazer a primeira parte do "Despertar" ainda de pijama. 
 
Já corremos de mãos dadas
a mais secreta noite do mundo.
Já subimos ao alto da montanha.
Sabemos todos os nomes do medo e da alegria.
Em ti me transcendo.
Podia morrer nos teus olhos
se nestes dias de cigarras doidas
perderes de vista o meu coração vagabundo.
Dá-me um sinal.
Abraçar-nos-emos de novo
antes dos rigorosos frios.
De novo o grande sobressalto.
O formidável estremecimento dos instantes felizes.
Podia morrer nos teus olhos, amada rádio
Fernando Alves.
 
* José Lameiras - Jornalista
 

Para ti, "Rei das Tabelas"

quinta, 14 janeiro 2016 23:56
Uma vez disseste-me: "Isto é duro mas eu vou conseguir". Acreditei. Acreditei mesmo. E não acreditei só porque sim. Acreditei porque conhecia a tua força. Conhecia a tua forma de encarar a vida e as contrariedades. Sabia que ias lutar contra a doença com a mesma força que levantavas pesos no ginásio que montaste na parte de cima da tua casa. Conhecia-te como um lutador. Eu e os nossos colegas do hóquei brincávamos contigo quando dizíamos que eras o "Rei das Tabelas". O que é certo, é que era aí que tu mostravas a tua força e os adversários ficavam colados ao chão. A bola era sempre tua, apesar de às vezes os árbitros acharem que era falta. Gostavas de te colocar à prova. Gostavas de ver quem era o mais "cavalão".

Já passou um ano. Um ano sem ouvir as tuas "parvoeiras". Sim, tu fazias questão de chegar e dizer qualquer coisa. Nem que fosse: "Epá, tens uma blusa do caparro, mas só te falta o caparro". Fazias questão de dizer sempre algo para melhorar o ambiente. Quando nos juntávamos, e ultimamente já eram poucas vezes, surgiam logo as histórias de outro tempo acompanhadas de gargalhadas. Basicamente, tínhamos outra vez 10 ou 15 anos. A mim, particularmente, volta e meia dizias-me:"estás mais magro...aí uns 200 gramas". 
 
Fizeste bem a muita gente. Não era preciso ver o Facebook no dia em que foste embora para perceber isso. Foste um exemplo pela luta que travaste contra um adversário que tinha outro tipo de argumentos. Argumentos esses, que muitas vezes, e com muito sofrimento, conseguiste contornar. Lembro-me de te visitar no IPO, através de uma janela de vidro e de aí falar contigo ao telefone. Saí de lá, desejando nunca mais lá voltar e muito triste por ver um amigo assim. Foi já há algum tempo, é certo, mas nunca mais esqueci esse dia. 
 

Um abraço, "Rei das Tabelas", daqui até ao céu.

Há um ano atrás veio a notícia inesperada. Não queria acreditar, pois tinha estado contigo há relativamente pouco tempo e tal desfecho não me parecia possível. Mas aconteceu. O "Rei das Tabelas" tinha perdido a guerra contra um adversário terrível. Ganhaste muitas batalhas mas perdeste a guerra. Caíste, é certo, mas de pé. Tal e qual como nos tempos em que jogávamos hóquei. Nós até podíamos perder, e perdemos muitas vezes, mas eles tinham de ser muito mais fortes do que nós, porque nós lutávamos muito. Foi assim que tu lutaste, até ao fim.
 
Um ano depois, não mereces ser esquecido. Nunca o vais ser. Fosse no trabalho, no hóquei, ou noutro sítio qualquer, nunca foste apenas mais um. Eras tu. 
 
Um abraço, "Rei das Tabelas", daqui até ao céu.
 
* Jornalista José Lameiras
Modificado em sexta, 15 janeiro 2016 09:05

O que me faz lembrar o Natal...

terça, 15 dezembro 2015 18:31
Gosto do Natal. Gosto de recordar outros tempos do Natal, tempos que já não voltam. Gosto de me lembrar das noites passadas em Vila Boim. Tenho saudades de chegar à casa da minha avó e sentir aquele cheiro único. Lembro-me da lareira acesa, pronta para nos aquecer e para depois fazer o cacau que acompanhava com os "anéis" que a minha avó fazia. Nunca mais comi. 
 
Tenho saudades desses tempos. Tenho saudades de depois mudar, sempre em Vila Boim, para a casa de outra avó, com uma família bem mais numerosa, com muitos primos. Lembro-me dos cantares ao menino e dos homens que percorriam a vila a fazê-lo. 
 
Para mim, nesse tempo, o Natal era outra coisa. Era o esperar pela altura das prendas e comer doces como se não houvesse amanhã. Para nós, crianças, era quase tudo permitido. Era ter a sorte de chegar a Vila Boim ver os meus avós a terminarem de preparar tudo para comermos a sopa de cação, da qual eu nem gostava e que hoje adoro. Era espreitar para dentro de um alguidar e ver os tais "anéis" cheios de açucar à volta. Era receber o verdadeiro envelope, em que a minha avó colocava o dobro do que colocava para os outros, pois nasci perto do Natal. Como já sabia quanto ia trazer, esse dinheiro já tinha um brinquedo à espera assim que as lojas voltassem a abrir.
 

É preciso viver o Natal e não, apenas, passá-lo. São coisas diferentes. Viver o Natal é aproveitar. É aproveitar o facto de estarmos juntos este ano sem sabermos se no próximo estaremos. É aproveitar cada momento e viver esta quadra como se fosse a última vez. É estar pronto para fazer Natal, para voltar à infância.

O Natal é a prova de que por vezes não damos valor aos bons momentos que vivemos. Os momentos mais simples são os melhores. Hoje, quem me dera viver só cinco minutos daquele tempo. Quem me dera voltar a receber um envelope daqueles, geralmente aproveitados depois de se pagar a luz ou a água, com um "Z" e um "R". Quem me dera aquecer-me só mais uma vez naquele lume do qual não podíamos mesmo estar perto, pois queimava as pernas. Para mim, é verdade, é dos meus avós que me lembro nesta data. Lembro-me sempre da canção que António Sala escreveu e que o José Gonçalez e o António Pinto Basto cantaram: "O Natal é lembrar os avós e as noites da aldeia". Nada mais certo.
 
É preciso viver o Natal e não, apenas, passá-lo. São coisas diferentes. Viver o Natal é aproveitar. É aproveitar o facto de estarmos juntos este ano sem sabermos se no próximo estaremos. É aproveitar cada momento e viver esta quadra como se fosse a última vez. É estar pronto para fazer Natal, para voltar à infância. É olharmos para as crianças a abrirem os presentes e voltarmos atrás no tempo para perceber o que estão a sentir. Eles não sabem, mas estão agora a viver o melhor tempo das suas vidas. É comer de todos os doces que estiverem em cima da mesa, porque depois durante o ano vamos dizer :"agora é que me apetecia aquele doce que não comi no Natal". Aproveitar, é ouvir pela vigésima vez aquela história do mais velho que está na mesa e que ele conta sempre no Natal, porque é quando tem mais ouvintes. Temos de ouvir, como se fosse a primeira vez. Aproveitar o Natal, é fazer com que as crianças recebam uma prenda do Pai Natal, mesmo que elas desconfiem que estão a ser enganadas. 
 
Sei que falo de um Natal bom. Falo de um Natal onde há possibilidade, pelo menos, de colocar comida na mesa e de dar um brinquedo às crianças. Sei, que em muitas casas tal não é possível. É triste, muito triste mesmo. Por vezes, queixamo-nos sem dar valor ao que temos. O Natal também nos pode dar essa lição de vida. Podemos, e devemos, aprender a dar valor ao que temos. Devemos dar valor a quem temos connosco e ao que estamos a viver. O Natal também é isso. 
 
Meus amigos, façam Natal. Boas Festas para todos!
 
* jornalista José Lameiras
Modificado em terça, 15 dezembro 2015 18:34

O Costa do Escadote

quarta, 25 novembro 2015 01:40
Agora, é mais fácil entender a boa disposição de António Costa, na noite das eleições de 4 de Outubro, quando os resultados apontavam para uma derrota do seu partido. Aliás, diga-se em abono da verdade, uma derrota sua. António Costa foi o grande derrotado dessas eleições. Seria relativamente fácil, para António José Seguro, vencer uma Coligação que estaria, por essa altura, a dar tiros nos pés. Não foi fácil, nem de perto nem de longe, o caminho que Passos e Portas tiveram de fazer juntos. A juntar às decisões impopulares que tomaram, e que só por si tiram votos nas urnas, algumas "rixas" internas deixaram o Governo muitas vezes a abanar e quase a cair. A Coligação renasceu das cinzas, mobilizou-se e venceu as eleições. António Costa tirou a António José Seguro o direito de lutar pelo lugar de primeiro-ministro, dizendo que este tinha conseguido um resultado "fraquinho" nas Europeias, e foi ele para a frente de combate, abandonando a Câmara de Lisboa com a certeza que São Bento seria a próxima paragem. No dia 24 de Novembro, chegou a confirmação de que afinal tudo valeu a pena.
 

António Costa rasteirou, em pouco tempo, três adversários políticos. Seguro, Passos e Portas foram ultrapassados por Costa nas suas ambições. Conseguiu alianças impensáveis e que serão muito difíceis de manter e de levar até ao fim. Quando vê as portas fecharem-se à sua frente, António Costa agarra no escadote e entra pela janela. Não é normal alguém estar tão bem disposto depois de levar nas urnas a "tareia" que Costa levou. Ele estava. Aí começava o seu plano B. António Costa sabia que só precisava de garantir que a Coligação não tivesse maioria no parlamento. Depois, era garantir entendimentos para ir para o poder. Conhecedor da Constituição, António Costa lançou uma caça ao Governo, sabendo que seria fácil convencer o PCP e o BE, partidos que passaram a legislatura a pedir a demissão de Passos Coelho.
 
É claro que as Legislativas servem para eleger Deputados e não Governos. Esse é o argumento para quem agora defende esta solução para uma "estabilidade governativa". No entanto, eu vi, e ouvi, dois debates entre Costa e Passos, um na televisão e outro na rádio. Eram debates para que os portugueses escolhessem o primeiro-ministro. Passos conseguiu ser mais votado, foi indigitado e depois rejeitado. Costa foi considerado o grande derrotado e vai ser o líder do governo.
 

Quando vê as portas fecharem-se à sua frente, António Costa agarra no escadote e entra pela janela. Não é normal alguém estar tão bem disposto depois de levar nas urnas a "tareia" que Costa levou. Ele estava. Aí começava o seu plano B.

Há muita gente dentro do PS que não concorda com isto. Uns dizem, outros nem por isso. Os portugueses nunca irão perdoar se algo correr mal. Seria mais seguro, e até mais lógico, o PS deixar passar o Governo da força política mais votada e depois tentar no parlamento fazer aprovar algumas das suas ideias, negociando também com o Governo os diplomas fundamentais. A grande questão é que António Costa jogou a sua sobrevivência política e liderar a oposição não era suficiente para as suas aspirações. Traçou como objectivo ser primeiro-ministro e vai conseguir. De regresso ao Governo, estarão alguns dos que lá estavam quando Portugal pediu um resgate ao FMI. Quatro anos depois, parece que nada aconteceu.
 
Desejo, honestamente, sorte a António Costa. Portugal precisa de alguém que olhe para o país, não no imediato, mas no futuro. Há muitos jovens desiludidos com os últimos anos de sucessivos governos especialistas em trapalhadas e governantes metidos em esquemas. De um lado e do outro, há poucos inocentes. Apesar da falta de dinheiro, ainda é bom ter poder em Portugal pois, se não o fosse, António Costa não tinha usado, mais uma vez, o seu escadote.
 
* jornalista José Lameiras
Modificado em quarta, 25 novembro 2015 01:46

Queridos inimigos, eternos rivais

quarta, 21 outubro 2015 12:46
Em 1907, em Carcavelos, o Sport Lisboa e o Sporting Clube de Portugal defrontaram-se pela primeira vez. Pelo Sporting, alinharam oito jogadores que teriam deixado o Sport Lisboa, reza a história, em busca de melhores condições, nem só financeiras. O Sporting ganhou 2-1, um dos jogadores (Cândido Rodrigues) que tinha mudado para o outro lado da rua marcou um golo e o da vitória leonina acabou por acontecer através de um autogolo, imagine-se, de Cosme Damião. Este é apenas o primeiro episódio de uma rivalidade centenária. 
 
Nesse primeiro jogo, entre esses oito jogadores que mudaram de lado, estavam dois fundadores do Sport Lisboa. Ou seja, isto não começou agora, nem há dez ou vinte anos. Tem sido uma rivalidade regada, fortalecida e, por vezes, alimentada e acentuada por atitudes irresponsáveis de alguns dirigentes que nunca o deveriam ter sido.
 

Mas, nem tudo é mau quando se trata destas rivalidades. Quando a mesma é racional, responsável e apenas no campo competitivo, alimenta a paixão que os adeptos têm pelo futebol. No campeonato de Lisboa, de 1908\1909, o nessa altura já Sport Lisboa e Benfica deslocou-se ao campo do Lumiar para defrontar o rival e ganhou por 2-1 com o golo da vitória a ser marcado depois de uma grande penalidade mal assinalada. Os "leões" protestaram muito depois do jogo, o Benfica reconheceu que o lance teria sido mal julgado e pediu que o jogo fosse anulado e repetido. A organização não permitiu e o resultado foi mesmo homologado. Alguém imagina que isto pudesse acontecer nos dias de hoje?
 
Em 1918, o Sporting apresentou-se no campo do Benfica apenas com 9 jogadores disponíveis para jogar. Foi atribuída a vitória ao Benfica, pois o Sporting não quis jogar com menos elementos. O Benfica não aceitou vencer desta forma e marcou-se nova data para o encontro que os encarnados haveriam de ganhar por 5-2.
 
Todos nós, que gostamos de futebol, esperamos sempre ansiosamente pelo dia do derby. Todos temos um amigo ou familiar que sofre pelo outro clube e isso é sempre motivo de conversa. É sempre um momento alto da época. Aconteceram, e acontecerão muitos mais, derbies históricos. Todos nós nos lembramos onde vimos aquele jogo que ficou na memória. Todos sabemos onde vimos os 6-3 com recital de João Pinto ou os 7-1 de Manuel Fernandes. O ambiente, em qualquer estádio, muda num jogo destes. Já assisti a alguns ao vivo e a atmosfera é completamente diferente. Em causa não está só a vitória numa competição, está a honra, está a história. Antes de começar, não sabemos o que vai acontecer. A história já mostrou que é impossível saber o que pode acontecer quando se defrontam estas duas equipas. Já vi goleadas, jogos sem golos mas muito intensos, jogadores que se revelaram num jogo como este e construíram, por isso, uma carreira, empates com muitos golos... enfim, a história já provou que neste jogo tudo pode mesmo acontecer. É precisamente por isto que este clássico é especial.
 

Tenho muita vontade que o "meu" clube ganhe no domingo por muitas e variadas razões. No entanto, tenho também muita vontade que toda a gente esteja em segurança a ver o jogo, seja no estádio ou num café onde existam adeptos dos dois lados, e que se grite muito, que se apoie muito durante os 90 minutos e que depois a vida prossiga normalmente.

Este texto vem nesta altura por um motivo óbvio: Domingo há jogo. Arrisco a dizer, que a época que estamos a viver ficará na história como um capítulo importante nesta rivalidade. Está num ponto alto e perigoso. O Sporting foi buscar um treinador que estava na Luz há seis anos e isso "incendiou", ainda mais, a segunda circular. Depois vieram as acusações e suspeitas, processos movidos em Tribunal, troca de acusações e gasolina para a fogueira. O derby do próximo domingo, vale muito mais que três pontos, parece que vale 30. Está, graças a tudo o que é dito e escrito, criado um ambiente que ultrapassa largamente a missão do futebol. Temos visto pouca gente preocupada sobre quem vai jogar de início ou a estratégia a utilizar por cada uma das equipas. Com o aproximar da hora do jogo, isto vai piorar.
 
A rivalidade, quando é saudável, é muito boa para o futebol. Ganhar ao rival faz com que as segundas-feiras sejam muito mais agradáveis. Faz com que se renove a confiança na equipa e na época. Agora, os dirigentes têm de perceber uma coisa: Apesar de tudo o que gira à volta do futebol, isto não é uma guerra. É certo que, para uns ganharem, outros têm de perder. No entanto, é apenas futebol, é apenas um jogo. É legítimo que se discuta se houve ou não penalty, se era ou não fora de jogo ou se a falta era para vermelho ou amarelo. Tudo isto é normal, dentro das regras da boa educação. Já não é normal, nem pouco mais ou menos, provocar o ódio entre apoiantes e não entender o que pode acontecer num local onde se juntam 65 mil pessoas, grande parte a puxarem para um lado e algumas para o outro.
 
Não é preciso falar em casos concretos ou trazer exemplos. De ambos os lados há responsabilidades para este clima, para esta "guerra". A luta deveria ser apenas dentro do campo. Tenho muita vontade que o "meu" clube ganhe no domingo por muitas e variadas razões. No entanto, tenho também muita vontade que toda a gente esteja em segurança a ver o jogo, seja no estádio ou num café onde existam adeptos dos dois lados, e que se grite muito, que se apoie muito durante os 90 minutos e que depois a vida prossiga normalmente. Afinal, o futebol serve para isto mesmo. Não deveria servir para albergar, tapar e amnistiar criminosos, gente sem caráter e mal formada. Viver o futebol ou, por outro lado, viver no futebol, deveria ser para quem pode...e não para quem quer. Que ganhe o melhor e mais competente, apenas isso.
 
* jornalista José Lameiras
 
Modificado em quarta, 21 outubro 2015 12:51

A foto que chocou o Mundo

quarta, 23 setembro 2015 12:06
Fomos alertados, da pior forma, para um problema sério, gravíssimo, que a Europa atravessa. Colocando-me no lugar do editor que decidiu publicar a foto, admito que talvez não o tivesse feito. Talvez me faltasse a coragem para o fazer. Talvez pensasse nas crianças que comigo convivem e de quem gosto bastante. Talvez pensasse que, resumindo, se tratava de uma foto muito "forte". Eu, dificilmente a publicaria, alguém o fez e ela tornou-se, como se diz agora, "viral".

 
A foto veio abrir consciências. Veio fazer com que muitos pais olhassem para os filhos e percebessem, afinal, que eram uns privilegiados. Nós, que passamos o tempo a queixar-nos, afinal vivemos num país pobre, que foi resgatado, que tem muitos problemas sociais, mas que está em paz. Não somos obrigados, pelo menos, a fugir desta forma. Fugimos de outras, é certo. Mas desta, para já, não.
 
O problema que a Europa enfrenta, no que toca aos refugiados, é mais sério do que pensamos e não se resume questões políticas, religiosas e de segurança nacional. Falamos de pessoas, falamos de seres humanos que querem uma vida. Sim, eles querem ter uma vida, eles fogem da guerra. 
 
Uma imagem que também me emocionou, foi a de uma mãe a pedir a um jornalista para levar a filha, pequena, para a Alemanha: "Gosto muito dela e por isso quero que tenha um futuro...leve a minha filha, por favor". Só um coração de pedra pode ficar indiferente a isto. Este é um exemplo. Este é apenas um exemplo de tantas outras histórias que devem existir nos campos onde muito lutam, acima de tudo, pela vida.
 
Alguns virão para Portugal. Estima-se que quase cinco mil pessoas poderão fugir para Portugal, em busca de um futuro. Este mês, através do Facebook, foi marcada uma manifestação em frente à Assembleia da República, contra a "Invasão da Europa". 11 mil pessoas disseram, nessa rede social, que iriam...foram 150. “Portugal aos portugueses”, “Dois milhões em pobreza à espera de igualdade social”, “Primeiro os nossos”, “Mais apoio para os portugueses”, “Refugees not welcome” (“Refugiados não são bem-vindos”), foram as mensagens que tentaram passar. Algo me diz, que devemos estar mais atentos ao que vimos na televisão ou lemos nos jornais e menos ao que é passado no Facebook. Ser patriota, é muito bonito...mas temos de o ser nestas e em outras ocasiões. 
 

De Portugal, país de gente, no geral, solidária, já seguiram 50 toneladas de donativos para os refugiados. Roupa de adulto e criança, calçado confortável, comida não perecível, artigos de higiene, medicamentos de venda livre, brinquedos. É destes gestos que nos devemos orgulhar e não de outros que roçam o racismo e a xenofobia.

Felizmente, têm acontecido outras iniciativas em sentido contrário. De Portugal, país de gente, no geral, solidária, já seguiram 50 toneladas de donativos para os refugiados. Roupa de adulto e criança, calçado confortável, comida não perecível, artigos de higiene, medicamentos de venda livre, brinquedos. É destes gestos que nos devemos orgulhar e não de outros que roçam o racismo e a xenofobia.
 
Não sei o que o futuro nos reserva, mas penso que os terroristas não andam a passar fome, a lutar por comida e a saltar arames farpados. Se algum dia sofrermos alguma "invasão árabe", não deve ser desta maneira. Os terroristas já mostraram que têm os seus próprios meios para entrar onde lhes interessa. Estranho é, que não pensemos que todos temos um amigo ou um familiar que saiu de cá, de forma pacífica, para procurar uma vida melhor noutro país. Os portugueses, de um modo geral, têm sido bem acolhidos no mundo. Não temos o direito de impedir outros de terem uma vida. Pensar que se fecha um país ao terrorismo, não deixando cá entrar refugiados sírios, é pura demagogia.
 
No entanto, esta chegada terá de ser monitorizada. Têm de ser cidadãos com direitos mas também com obrigações. Têm de ser registados e devidamente acompanhados. Devem ser integrados, mas devem sentir que têm de respeitar o espaço onde foram inseridos. Resumindo, devem respeitar para serem respeitados. Essa é também uma obrigação, por alguns não cumprida, daqueles que por cá nasceram.
 
* José Lameiras
Modificado em quarta, 23 setembro 2015 15:00