sábado, 24 junho 2017

Evoramonte: a paisagem e as memórias

Escrito por  Publicado em António Serrano sexta, 30 setembro 2016 01:42
A paisagem constrói-se também através das memórias daquilo que foi antes de a conhecermos. Uma das principais “regras” da intervenção na paisagem, seja à escala do projeto, seja à grande escala do ordenamento do território, é o respeito pelos seus antecedentes, por aquilo que já existia muito antes de sequer pensarmos em intervir. Por isso, podemos dizer que o carácter, ou espírito, de um lugar é definido, em grande parte, pelas memórias que transmitiu àqueles que o habitam ou vivem.
 
Todos temos memórias acerca dos lugares onde vivemos ou por onde passamos. Boas ou más, serão as memórias que nos acompanharão sempre e que definirão aquilo que pensamos acerca desses lugares.
 
Quando penso em Evoramonte, as memórias fazem-me regressar à minha infância e à minha juventude. Nesses tempos, tive o privilégio de acordar todos os dias e de, ao abrir a janela, poder deslumbrar-me com o imponente castelo que tinha à minha frente e que já então me enchia o meu pequeno coração de orgulho, ao saber que era único no Mundo. Mais: por ter crescido ali, tive ainda o privilégio de poder percorrer as suas muralhas muitas vezes e de me sentir regalado com a policromia e com a beleza da paisagem que se avista daquele lugar altaneiro.
 

Quando penso em Evoramonte, as memórias fazem-me regressar à minha infância e à minha juventude. Nesses tempos, tive o privilégio de acordar todos os dias e de, ao abrir a janela, poder deslumbrar-me com o imponente castelo que tinha à minha frente e que já então me enchia o meu pequeno coração de orgulho, ao saber que era único no Mundo.

Quem faz todo o circuito das muralhas, certamente não fica indiferente à diversidade de formas e texturas que a natureza e os homens construíram na envolvente de Evoramonte: de um lado a leve ondulação da peneplanície, salpicada por montados de sobro e de azinho, por olivais ou por campos de pastagem, outrora povoados por culturas cerealíferas; do outro, a Serra d’Ossa a marcar a sua presença, com a sua mancha escura de eucaliptal, lembrando-nos que estamos na sua extremidade, que é ali o seu derradeiro limite.
 
Ainda me lembro de como era a paisagem desse lado da serra, antes de ser devassada, primeiro pela autoestrada e depois, mais recentemente, pela linha de muito alta tensão. Sinais de modernidade e de evolução, que hoje aceito com naturalidade, pois dá-me muito jeito chegar mais rapidamente aonde aquela estrada me leva e vivo numa era em que não dispenso os benefícios da luz elétrica, mas que nunca se irão sobrepor à imagem da Ermida de Santa Margarida com o vale da Ribeira de São Brás por detrás, quando ainda não existiam nem o comprido viaduto nem os altos postes de metal. Como era delicioso o assado de borrego, na segunda-feira de Páscoa, comido à sombra de uma figueira (que hoje ainda lá está!), vendo a procissão, com a imagem de Santa Margarida e a imensidão da serra como pano de fundo, até onde a vista alcançava. A vastidão da serra que muitas vezes me fez percorrer montes e vales, a pé ou de bicicleta, com o objetivo de chegar ao São Gens e, dali, poder admirar o meu castelo.
 
Já naquele tempo, durante a minha tenra juventude, despontava em mim um grande gosto pelo desenho e por construir paisagem. Eu ainda não o sabia, mas aqueles desenhos que eu fazia eram já qualquer coisa parecida com arquitetura paisagista… nas folhas dos meus cadernos eu planeava a Evoramonte ideal, que viria a ser construída no futuro, com as suas grandes avenidas, os seus prédios de cinco andares, os seus jardins, estádio, piscinas, escolas e equipamentos capazes de albergar uma população muito superior àquilo que Evoramonte alguma vez teve ou terá. Incapaz, ainda, de perceber que aqueles planos só noutra dimensão ou noutro mundo paralelo poderiam acontecer, eu continuava a sonhar com uma Evoramonte à altura das grandes cidades que conhecia e que, na verdade, também ainda eram muito poucas nessa época. Também de memórias utópicas alimentamos a nossa existência.
 
A verdade é que, desde muito cedo, sempre acreditei no potencial daquela terra. Não é para menos, pois é inegável a riqueza do património de Evoramonte, com o seu castelo recheado de História, construído para gáudio dos Duques de Bragança e para afirmação do seu poder no Reino de Portugal. Não foi à toa a inserção de Evoramonte na paisagem, como que a coroar aquela colina, avistando-se de tudo quanto é lugar a muitos quilómetros de distância. “Depois de Vós, Nós”, o lema da Casa de Bragança, está bem vincado nos laços que abraçam a Torre/Paço Ducal, lembrando-nos que apenas a Casa Real estava acima dos Braganças, àquela época. 
 
A Torre de Evoramonte é uma obra de arquitetura militar renascentista, sem antecedentes nem precedentes em Portugal e, por isso, sempre acreditei que devia ser mais valorizada pela entidade que sempre teve a sua tutela – antes o IPPAR, depois o IGESPAR e hoje a Direção Regional de Cultura do Alentejo. Infelizmente, tirando as controversas, mas necessárias, obras de recuperação de que foi alvo durante os anos oitenta do século passado e a valorização da envolvente, já no início deste século, pouco tem sido feito para valorizar este monumento. As obras de recuperação da Torre são outra das minhas memórias. Nessa altura, quando abria a janela e olhava para o castelo, uma imensidão de andaimes envolvia a Torre e as muralhas, não deixando antever aquilo que estava para acontecer. Recordo-me que foi complicado convencer os Evoramontenses de que aquele reboco amarelo era semelhante ao que tinha sido aplicado no século XVI. Ainda hoje não sei se estão convencidos, pois a imagem de um castelo com a pedra à vista, sem rebocos, estará para sempre presente na memória das gerações que, tal como eu, ainda vivem e se recordam do castelo da outra forma.
 
Mas Evoramonte encerra em si muito mais que a Torre de Menagem dos Braganças! A Igreja Matriz, que esteve durante muitos anos em ruína e que abriu recentemente ao culto, depois de obras realizadas, em boa hora, pela Paróquia de Evoramonte, e que possui um altar de talha dourada extraordinariamente belo; a pequenina Igreja da Misericórdia, com o seu altar e nave revestidos a azulejos que nos relembram as obras de misericórdia; a graciosa casa onde, na tarde de 26 de maio de 1834, os representantes de D. Pedro IV e D. Miguel assinaram a Convenção que restabeleceu a paz em Portugal, após vários anos de sangrenta guerra civil; os antigos Paços do Concelho, com a sua torre do relógio e as ruínas do pelourinho. E depois disto tudo, o caminhar pelas suas ruelas de pedra, admirar o pôr-do-sol lá do alto e sentir o cheiro da giesta ou da esteva, “ver os milhanos pelas costas”, envolvido por um silêncio e uma calma que em poucos lugares se encontram, são experiências únicas que estarão para sempre na minha memória.
 

Estou convencido que Evoramonte ainda tem muito para dar. Mas há um longo caminho a percorrer. É preciso recuperar mais património, público e privado, reabilitar espaços e criar mais motivos de atratividade turística. Essa atratividade já existe no património monumental, mas por si só não é suficiente.

Foi devido a tudo aquilo que Evoramonte tem para oferecer que dediquei parte da minha vida a tentar contribuir para o seu desenvolvimento, através da participação ativa nas coletividades locais, na autarquia e na vida desta terra que me viu nascer e crescer, e à qual regresso sempre que posso, através das minhas memórias.
 
Estou convencido que Evoramonte ainda tem muito para dar. Mas há um longo caminho a percorrer. É preciso recuperar mais património, público e privado, reabilitar espaços e criar mais motivos de atratividade turística. Essa atratividade já existe no património monumental, mas por si só não é suficiente. Sem investimento privado na criação de condições de acolhimento turístico, nada do que se faça de investimento público será suficiente. São necessários investimentos privados que abram restaurantes típicos, espaços de venda de artesanato e alojamentos, acompanhados de investimentos na reabilitação do património e do espaço público, sustentados pela posterior criação de espaços museológicos, estruturas de acolhimento turístico e criação de oferta cultural capaz de captar visitantes. Mas, acima de tudo, é necessário que estes investimentos sejam também um convite a que mais pessoas vivam em Evoramonte e no seu centro histórico, hoje com menos de 20 habitantes.
 
O PEDU – Plano Estratégico de Desenvolvimento Urbano de Estremoz abre novas perspetivas para Evoramonte, através de diversas iniciativas de reabilitação urbana do seu centro histórico e é, por isso, um momento único para esta vila. Na vida existem duas coisas importantes: o motivo e o momento. É certo que os motivos poderão repetir-se ao longo da História, mas os momentos são únicos. Este será o momento para Evoramonte renascer das cinzas.
 
É necessário que Evoramonte invista em si própria, que a maioria dos seus habitantes deixe de olhar para o castelo e veja apenas “um monte de pedras”. Que veja nessas pedras do passado, nestas memórias, a oportunidade de construir o futuro. Eu não tenho dúvidas de que é possível construir outro futuro para Evoramonte.
 
* Arquiteto Paisagista António Serrano

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