sábado, 24 junho 2017

Estremoz: uma paisagem de sensações

Escrito por  Publicado em António Serrano sábado, 06 agosto 2016 16:43
Acabadinho de chegar de férias, de regresso à cidade que tem mais encanto, decidi fazer uma das coisas que me dá mais prazer: caminhar pela paisagem urbana de Estremoz. E, descansem, não o fiz à procura de Pókemons, pois orgulho-me de a minha sanidade mental ainda estar intacta.
 
Caminhar pela cidade é algo que sempre me deu muita satisfação. Faço-o com o intuito de proporcionar a mim mesmo uma vida saudável, mas também porque gosto de apreciar os encantos que se escondem para além de cada rua, de cada edifício e de cada pedra. Quando o faço, gosto de olhar e ver, não gosto de apenas olhar. Às vezes olhamos muito para as coisas e não vemos nada. E em Estremoz há tanto para ver…
 

Começo por percorrer a Avenida Rainha Santa Isabel, o novo passeio público da cidade, e delicio-me com o vai-e-vem de pessoas, umas a pé, outras de bicicleta, que diariamente passeiam pelo calçadão de mármore. Sigo, consciente de que a conceção daquela ciclovia foi a única possível, dadas as circunstâncias em que foi projetada, mas se calhar penso assim porque compreendo em pormenor essas circunstâncias e não porque me apeteça simplesmente armar em conhecedor da verdade absoluta sobre tudo e mais alguma coisa.

Começo por percorrer a Avenida Rainha Santa Isabel, o novo passeio público da cidade, e delicio-me com o vai-e-vem de pessoas, umas a pé, outras de bicicleta, que diariamente passeiam pelo calçadão de mármore. Sigo, consciente de que a conceção daquela ciclovia foi a única possível, dadas as circunstâncias em que foi projetada, mas se calhar penso assim porque compreendo em pormenor essas circunstâncias e não porque me apeteça simplesmente armar em conhecedor da verdade absoluta sobre tudo e mais alguma coisa. Ao caminhar, reparo na satisfação dos transeuntes por terem aquele espaço de lazer e vejo que é isso que realmente importa quando projetamos paisagem, pois de nada servem espaços extraordinariamente bem concebidos se não forem do agrado dos seus utilizadores.

 

Depois, subo a Avenida de Santo António e fico maravilhado com a beleza que a calçada de mármore e os canteiros ondulantes de arctotis e ginkgos, conferiram a uma das principais vias de acesso ao centro da cidade e que outrora mais pareceu a triste entrada de uma cidade fantasma. Em boa hora se fez esta reabilitação, que tanto serviu para adicionar mais encanto a Estremoz.
 
Passo pelo Rossio, detenho-me frente-a-frente com a imponência da Igreja dos Congregados e sinto esperança. Esperança de que seja possível, através do Plano Estratégico de Desenvolvimento Urbano de Estremoz, recentemente aprovado pela Câmara Municipal, dar continuidade à recuperação da Grande Praça. Da praça que, todos os sábados, é palco do nosso mercado tradicional, aquele que é constantemente referido em publicações nacionais e internacionais, como um dos mais pitorescos e encantadores mercados do Mundo, pelas suas características únicas, pela explosão de sensações que proporciona a quem o visita e pela forma como faz relacionar o campo com a cidade. O Rossio merece uma intervenção paisagística que lhe confira ainda mais valor e estou convicto de que é esta a oportunidade para a concretizar. 
 
Sigo em direção ao castelo, pela Porta da Frandina, e o meu coração bate mais forte. Não devido ao cansaço da subida, mas pela emoção que sinto a cada vez que entro no Largo D. Dinis, o núcleo medieval de Estremoz – a acrópole, como gosto de lhe chamar. Inspiro o ar que ali se respira e sinto a história e as estórias que são transmitidas por cada bloco de pedra mármore que dá sustento às paredes da Torre de Menagem. É impressionante a harmonia existente entre cada edifício naquele espaço. É quase indescritível a vista panorâmica sobre o vale da Ribeira de Têra e a Serra d’Ossa, com o (meu) castelo de Evoramonte a coroar a sua extremidade ocidental, enquadrado pelo verde-escuro dos montados de sobro e de azinho, pelos tons quentes de um pôr-do-sol ou pelas centenas de pontos brilhantes que, à noite, dão mais luz àquele vale, que de dia se veste do amarelo-torrado das pastagens estivais e, cada vez mais, do verde vivo das vinhas donde se extrai o excelente vinho de Estremoz.
 
Enquanto ali estou, lembro-me que mesmo ao lado, no Museu Municipal, mora a Coleção Reis Pereira de Bonecos de Estremoz, que também acredito que um dia será classificada como Tesouro Nacional, assim como a Produção de Figurado em Barro será Património da Humanidade. No cantinho da Praça, escondida por detrás de um trabalhado portão de ferro, vejo a Capela da Rainha Santa, a Isabel de Aragão, que ainda hoje continua a inspirar os estremocenses. Por vezes, dou uma espreitadela à cidade a partir de uma janela que ali foi deixada propositadamente naquele miradouro e não me admira nada se ela estiver ocupada por um casalinho qualquer, tão apaixonado pelo seu par como pela vista que tem à sua frente.
 
Desço quase sempre pelo Bairro de Santiago, deixando para trás a Porta do Arco de Santarém. Encanta-me a Rua Direita e a matriz ortogonal das restantes ruas, com a Igreja de Santiago ao fundo e o casario abraçado pelas fortificações seiscentistas. Um bom exemplo, que ainda hoje se conserva, de cidade medieval planeada, tão ao estilo das bastides francesas.
 
Algures pelo caminho, já não me lembro bem onde, mas também não tem qualquer importância, há um cheiro de grelhados no ar. Na cozinha ou no quintal de uma habitação ou de qualquer restaurante, assam-se carnes ou peixes, temperados com ervas aromáticas e acompanhados de sabores e saberes ancestrais. Também na gastronomia Estremoz é rainha.
 
Depois de me refrescar na fonte do Espírito Santo, que ali está no largo do mesmo nome, à sombra das Torres da Couraça, lamento que esta última tenha sido sacrificada para dar lugar à Rua D. Afonso III. Sei de que nada vale lamentar-me, pois isso faz parte da normal evolução dos lugares, mas confesso que gostava de poder ter caminhado também por entre as paredes desta estrutura medieval, que há de ter sido impressionante.
 
Chego ao Lago do Gadanha e logo a presença da água me dá novo ânimo. A luz que emana do plano de água, o enquadramento que proporciona ao castelo lá no alto e o som da água em movimento constante nos repuxos, faz do Gadanha um dos espaços que considero mais espetaculares em Estremoz. Nunca me canso de por ali passar, de olhar para todo aquele espaço aberto, enquadrado pelo verde da vegetação, pela singular fachada da Igreja de São Francisco e pelo mármore. Sempre o mármore…
 
A minha caminhada por Estremoz continua sobre as calçadas do mesmo mármore, adornadas com dezenas de motivos, algumas evocando marcos históricos da vida estremocense ou das suas tradições. Aceno de fugida ao Teatro Bernardim Ribeiro, rodeado de bonitos exemplares de edifícios Art Noveau e alcanço a Avenida 9 de Abril, quase no fim deste meu périplo pela urbe.
 

Podem até achar estranho que goste muito da minha cidade e que tenha a minha opinião sobre este ou aquele assunto. Podem insurgir-se das mais diversas formas, mas as emoções e opiniões são minhas. Não as tenho por fazer parte de qualquer tipo de entourage com que me identifique. Espelharão sempre os sentimentos de alguém que nunca se cansará de apregoar que Estremoz tem mais encanto!

Terminada a caminhada, enquanto regresso a casa e já ao volante do meu carro, penso nas boas sensações que experimentei durante esta hora em que olhei para a cidade com olhos de ver. Também experimentei sensações menos boas, é verdade, pois Estremoz também as tem, como qualquer cidade. Registo-as e denuncio-as no sítio certo, sempre com a intenção de lhes pôr um fim ou de as melhorar. Nunca com qualquer outro tipo de motivação. Para isso, já cá temos os do costume.
 
Prefiro fazer uma abordagem positiva, pois Estremoz assim o merece, pela sua excecional singularidade, pela diversidade de estilos artísticos que está presente na sua arquitetura e urbanismo, pela monumentalidade dos espaços e edifícios, pela forma como é vivida pelas pessoas. Mas merece-o principalmente porque é nela que experimentamos a sensação de habitar. É ela o palco em que se desenrolam as nossas vidas e é a ela que retornamos sempre. Merece, por isso, o nosso respeito e que gostemos dela.
 
Podem até achar estranho que goste muito da minha cidade e que tenha a minha opinião sobre este ou aquele assunto. Podem insurgir-se das mais diversas formas, mas as emoções e opiniões são minhas. Não as tenho por fazer parte de qualquer tipo de entourage com que me identifique. Espelharão sempre os sentimentos de alguém que nunca se cansará de apregoar que Estremoz tem mais encanto!
 
* Arquiteto-paisagista António Serrano
 

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  • Francisco Martinho Garrido Ramos
    Francisco Martinho Garrido Ramos
    domingo, 07 agosto 2016 17:05

    Como é bom ler artigos com sabor a conhecimento, que esclarecem em vez de confundirem, que mostram positivismo em vez do contrário. Como é bonito ler elogios à nossa terra de que tanto gostamos, em vez de ler derrotismo...

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