domingo, 16 dezembro 2018

A paisagem e a identidade

Escrito por  António Serrano Publicado em António Serrano sexta, 03 julho 2015 14:35
Apesar de ter estudado durante sete anos da minha juventude em Estremoz, nessa época nunca me apercebi da riqueza cultural desta cidade. Acontece assim com a maior parte dos naturais de Evoramonte, cujas vidas estão sempre mais relacionadas com Évora e não têm qualquer sentido identitário com Estremoz. Aqui apenas estudam (alguns), tratam de assuntos na Câmara ou nas repartições públicas e aqui se deslocam no sábado de manhã ao tradicional mercado. Sempre assim foi e assim continuará a ser. Até costumo dizer que a Ribeira de Têra parece constituir um enorme fosso intransponível que separa e afasta os habitantes de Estremoz e de Evoramonte, apesar de partilharem o mesmo concelho.
 
Ainda assim, tal acabou por não acontecer comigo e, apesar de continuar a guardar um considerável espaço para Evoramonte no meu coração, sinto hoje que pertenço muito mais a Estremoz do que à terra que me viu nascer e crescer.
 
Vem isto a propósito da identidade dos espaços e da forma como esta influencia o modo como vemos uma determinada paisagem, como a apreendemos e como posteriormente a recordamos. As paisagens possuem determinados atributos e potencialidades que nos chamam a atenção, originando que a elas nos prendamos, ao ponto de desenvolvermos um sentimento de pertença. Esses atributos podem ser materiais ou imateriais, naturais ou culturais e mais ou menos trabalhados pelo Homem, mas o que importa é que determinam aquilo a que habitualmente chamamos o espírito do lugar, o genius loci.
 
Ainda há dias, na cerimónia de fundação do Centro UNESCO para a Valorização e Salvaguarda do Boneco de Estremoz, no Museu Municipal, dei comigo a pensar que, curiosamente e apesar da minha juventude estar ligada, por via dos estudos, à cidade de Estremoz, nessa altura nunca me apercebi da importância da barrística estremocense. Para a minha ignorância nesta matéria muito contribuiu o facto de nunca, em momento algum da minha formação, os meus professores terem tido a audácia de nos dar a conhecer os Bonecos. Como foi possível tal ter acontecido? Estamos a falar de uma arte secular, de uma tradição das nossas gentes, de uma arte única no Mundo! Não faria sentido que nos tivesse sido dada a conhecer?
 
Felizmente despertei a tempo para a importância dos Bonecos de Estremoz e hoje sou daqueles que acreditam que, um dia, esta manifestação artística será reconhecida como Património Cultural Imaterial da Humanidade. Que me perdoem os defensores dos tapetes de Arraiolos, da Arte Chocalheira (também com raízes em Estremoz), das Festas do Povo ou das jangadas de São Torpes e de mais uma catrefada de situações que almejam receber esta classificação, mas acho que o Figurado de Barro de Estremoz tem muito mais condições para ser Património da Humanidade.
 

Em meu entender são os Bonecos de barro que melhor definem o carácter e a identidade de Estremoz.

 
Contudo, para lá chegarmos é necessário reunir ainda uma série de condições que julgo serem fundamentais para o sucesso desta candidatura. Em primeiro lugar, os artesãos da barrística, que são cada vez menos, não podem continuar de costas voltadas uns para os outros. Nesta jornada terão de caminhar de mãos dadas e lutar por um objetivo comum, tão ou mais importante que o da sua divulgação: perpetuar a arte, através da captação de novos aprendizes.
 
Em segundo lugar, depois de criadas as condições para a salvaguarda da tradição barrística, deve ser realizado um vasto trabalho de promoção por parte do Município, das Freguesias, do Museu Municipal e das Escolas, em todos os níveis de ensino, para que daqui a vinte anos ninguém se queixe, tal como eu, de que pouco sabe acerca dos Bonecos de Estremoz. Felizmente já existe muito deste trabalho promocional em desenvolvimento, tanto ao nível da promoção turística que o Município faz dos Bonecos, como ao nível das atividades educativas do Museu Municipal ou da integração das técnicas de modelação do barro nas disciplinas de expressão artística nas Escolas. Mas é preciso fazer mais.
 
No outro dia dizia-me um empresário estremocense que Estremoz precisa de se afirmar enquanto destino turístico, através daquilo que a diferencia de todas as outras cidades. Concordo em absoluto. É bem verdade que o mercado de sábado, o mármore, o urbanismo, o património arquitetónico, a nossa história, a gastronomia e os vinhos são tudo marcas identitárias da paisagem de Estremoz, que lhe conferem beleza e singularidade por todos reconhecidas. Mas em meu entender são os Bonecos de barro que melhor definem o carácter e a identidade de Estremoz, pela sua singularidade e pela forma como reproduzem os usos e tradições alentejanos, ou seja, pela forma como também eles reproduzem parte da nossa paisagem e das emoções humanas que a caracterizam. São, sem qualquer sombra de dúvida, uma das manifestações culturais que mais contribuem para a definição do espírito deste lugar e que lhe conferem um carácter único.
 
Por essa razão, deverão ser também os Bonecos os nossos embaixadores no Mundo e os principais atores na definição da estratégia que venha a ser desenvolvida, a curto ou a médio prazo, para a criação do destino turístico Estremoz.
 
* António Serrano - Arquitecto Paisagista
 

Deixe um comentário