segunda, 28 maio 2018

A paisagem e as modas

Escrito por  Publicado em Opinião quinta, 07 maio 2015 01:42
A Paisagem é o resultado das diversas interações entre os elementos naturais e o Homem. A grande maioria das interações naturais resultam em manifestações muito bem conseguidas, de maior ou menor complexidade e de maior ou menor beleza. Excluo aqui do meu conceito de beleza o resultado de algumas catástrofes naturais, ainda que, pela sua magnitude e pela sensação de pequenez e impotência que esses fenómenos nos transmitem, as pudesse incluir na categoria de belo que muitos atribuem ao sublime.
 
Já no caso das interações entre o Homem e a Natureza, também elas de maior ou menor dimensão, simplicidade ou beleza, em muitos casos o resultado não é tão feliz. É claro que o conceito de belo é talvez o mais subjetivo dos conceitos, na medida em que depende do gosto pessoal de quem observa e da forma como cada objeto é apreendido e interpretado pelo observador. Ainda assim, há uma tendência para um grande número de pessoas ter maior ou menor afinidade com uma ou outra situação, o que acontece também na forma como interpretamos a Paisagem. Quantas vezes não gostamos de um determinado edifício, de um determinado espaço ou elemento escultórico, e milhões de outras pessoas os adoram?
 

...o Homem não soube compreender a Natureza e o espírito do lugar, construindo fora de contexto e agindo apenas de acordo com a "moda"

 
 
Apesar desta heterogeneidade de gostos, que nos leva a atribuir ao conceito de belo a tal subjetividade, o que é certo é que, também na Paisagem e tal como em muitas outras situações da vida, orientamos o nosso gosto por aquilo que "está na moda". Dessa atitude resultam, muitas vezes, alguns dos casos menos felizes da interação entre o Homem e os fenómenos naturais, todos eles porque o Homem não soube compreender a Natureza e o espírito do lugar, construindo fora de contexto e agindo apenas de acordo com a "moda". Uma linha, um ponto, um volume, uma espécie, um material ou um qualquer outro elemento dissonante e não enquadrado com o meio envolvente pode resultar numa catástrofe maior, em termos de imagem que nos é apresentada, do que o efeito de algumas catástrofes naturais na Paisagem.
 
Por exemplo, parece que está agora na moda substituir um dos elementos que melhor caracterizam e definem as paisagens mediterrânicas, a oliveira, por outras espécies que, alegadamente, também se adaptam às nossas condições edafoclimáticas, sob o pretexto de que daí poderão resultar maiores rendimentos económicos. Passo diariamente por um desses exemplos, uma extensa plantação de Figueiras-da-Índia e questiono-me todos os dias acerca da viabilidade e dos efeitos desta moda na Paisagem. É verdade que a Figueira-da-Índia parece prometer muito a quem opta pela sua introdução nas paisagens alentejanas, mas será que estamos cientes do quanto melhor estavam integradas as oliveiras nestas paisagens? Será que estamos cientes do quanto esta cultura contribuía para combater a erosão dos solos e para a regulação do ciclo hidrológico? Estaremos cientes dos efeitos que esta moda vai ter no futuro da paisagem a longo prazo?
 
Poder-me-ão dizer que o olival já não dava rendimento, ou que a nova cultura permite uma série de oportunidades inalcançáveis com a cultura da oliveira, mas continuarei com a opinião de que tudo não passa mesmo de uma moda e que os efeitos na imagem e na sustentabilidade da paisagem serão devastadores. Principalmente quando todos quiserem tirar proveito desta nova moda e as oportunidades se transformarem em fragilidades, sem espaço para todos tirarem rendimento. Não sou contra que se tirem proveito das oportunidades, mas há que fazê-lo com conta, peso e medida.
 

Pior que uma moda, a propaganda política prolifera pela paisagem urbana e, qual parasita, surge acorrentada às árvores e aos postes de iluminação pública, ou colada nas fachadas de edifícios históricos

 
Mas não só no espaço rural nos deparamos com exemplos de interações infelizes entre o Homem e a Paisagem. Também no espaço urbano vemos todos os dias manifestações humanas que atentam contra a boa imagem dos espaços públicos. Uma das que mais me aflige é devida à proteção que a nossa legislação dá aos partidos políticos e lhes confere o direito de espalhar cartazes, mupies, pendões e mil e um outros tipos de propaganda por onde lhes apetece.
 
Se qualquer pessoa tiver a infelicidade de visitar, por exemplo, o centro da cidade de Estremoz, irá deparar-se com uma centena de "elementos escultóricos" partidários, uns apelando ao voto, outros incentivando à queda do Governo e outros com apelos à revolução. Ou seja, mais do mesmo e igual a qualquer outro lugar deste "paraíso à beira-mar plantado", descaracterizando e ofuscando toda a beleza que o Homem construiu.
 
Pior que uma moda, a propaganda política prolifera pela paisagem urbana e, qual parasita, surge acorrentada às árvores e aos postes de iluminação pública, ou colada nas fachadas de edifícios históricos. Destrói árvores, mobiliário e monumentos, cuja aquisição e manutenção é custeada por todos nós. Interfere na leitura e na fruição da Paisagem, o que também é um direito de todos. Em suma, contribui para uma imagem negativa do espaço público e isso é bastante para a considerar também como uma das maiores catástrofes da intervenção do Homem na Paisagem. 
 
Tenho esperança que, um dia, também os políticos entendam o significado de fazer política e percebam que há outras formas de fazer chegar a mensagem. Se todos pensarem como eu, com este tipo de propaganda a mensagem chega de uma forma perturbadora e, por isso, não chega a ser consumida.
 
Uma vez que são as lições do passado que nos mostram os caminhos do futuro, resta-me acreditar na aprendizagem humana  e na extraordinária capacidade de resiliência da Paisagem e esperar que, tal como acontece noutros casos, também estes exemplos passem de moda.
 
* António Serrano - Arquitecto Paisagista

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