domingo, 07 junho 2020
quinta, 30 abril 2020 20:20

Este ano não há FIAPE

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Quem me conhece sabe que não sou pessoa de guardar saudade por aquilo que não aconteceu. Tento viver o dia-a-dia, aproveitando ao máximo o agora e aprendendo com o passado, tentando não pensar muito no futuro e, como disse, nas coisas que nunca chegam a acontecer-me. Tento seguir à risca aquilo que, desde muito cedo, sempre ouvi o meu pai dizer: “Quem vai, vai e quem está, está”.
 
Mas hoje tenho que confessar uma coisa. Hoje bateu-me a saudade por algo que não chegou a acontecer. Hoje (e nos últimos dias, para falar a verdade) senti em mim um enorme vazio, pois apercebi-me que este ano não iria ter a minha FIAPE.
 
Sim, a minha FIAPE. Já a considero minha e não me censurem por isso, pois ontem teria começado a sua 34.ª edição e eu já convivo com ela há pelo menos 19 anos, por isso posso perfeitamente dizer que é um bocadinho minha. Um bom bocadinho…
 
Lembro-me tão bem das primeiras edições da FIAPE, no Rossio, quando ainda nem sequer imaginava que um dia viria a ser a minha FIAPE… Nos primeiros anos de escola em Estremoz adorava atravessar a feira e ver os animais e a maquinaria agrícola, quando fazia o meu trajeto diário até à antiga Rodoviária, no regresso a Évora Monte. Depois, já no secundário, a minha formação em agropecuária fez-me olhar para ela ainda com mais atenção. Os panfletos nos stands (sempre adorei beber informação), a maquinaria e os animais que estudávamos nas aulas, as visitas à feira com a professora de produção vegetal e zootecnia… Sinto que talvez a FIAPE tenha contribuído muito para a escolha da minha primeira formação zootécnica , ou provavelmente não, mas atrevo-me a pensar que teve alguma culpa no cartório.
 
Regressei a Estremoz em fevereiro de 1998 e logo aí me colocaram nas mãos programar alguns aspetos da animação cultural e desportiva da FIAPE desse ano. E desde aí, tenho estado (quase) sempre lá. Acompanhei de perto as diversas evoluções que ainda teve no Rossio, a sua mudança para o Parque de Feiras (então resumido ao Pavilhão Central) e as sucessivas adições que ganhou ao longo do tempo, fruto do enorme investimento municipal naquele que muitos consideraram um elefante branco à época, mas que hoje reconhecem orgulhosamente como um dos melhores parques de feiras e exposições da região.
 
Involuntariamente, interrompi por três anos a minha presença assídua na organização da FIAPE. Tal como noutras situações, também aí não tive saudade, porque não aconteceu. Mas regressei novamente (a vida não é tramada?) e desde então gosto de acreditar que eu e a minha equipa das feiras temos acrescentado muito ao certame, fruto obviamente daquilo que têm sido as opções do executivo municipal e a aposta forte que tem tido na projeção da FIAPE e de outros eventos temáticos como forma de valorização social e económica do concelho. Claro que sem os ovos que o executivo nos proporciona não conseguiríamos fazer as omeletes que têm sido feitas e agradeço todos os dias por nos ser dada essa possibilidade de poder fazer sempre mais e pela confiança que em nós depositam nesta tarefa.
 
Ontem teria sido inaugurada mais uma edição. A tal que estava planeada e que não chegou a acontecer. Estaria a mentir se dissesse que não me deixa pena não a podermos realizar. Por muito trabalho que desse, por muitas dores de cabeça e noites mal dormidas que proporcionasse, por muita entrega que tivesse que acontecer da nossa parte, por muitos quilómetros que tivessem que ser percorridos, valeria sempre a pena, pois é sempre com muito agrado que vemos a nossa feira crescer e ganhar a projeção que hoje tem nas nossas vidas e na de milhares de pessoas. Basta olhar para o número de pessoas, visitantes e expositores, que já manifestaram nas redes sociais a sua tristeza por este ano não terem a sua FIAPE.
 
Como disse há pouco, lembrei-me muito da minha FIAPE nos últimos dias: “Hoje estaria a receber os senhores da montagem das tendas e a explicar que ainda não tinha conseguido acabar a planta, porque há sempre alterações de última hora”; “Hoje já teriam vindo montar o palco e a tenda dos espetáculos. Não me podia esquecer da suspensão dos equipamentos de som na estrutura…”; “Hoje começavam a chegar os primeiros expositores e, com eles, os primeiros pedidos de mudança de lugar”; “A equipa do som chegaria hoje”; “Hoje estaria a ter a reunião com a equipa de segurança e a lidar com os stresses do responsável por essa área”; “Por esta altura, já me teriam pedido dezenas de vezes para ir ver o stand da câmara e lá estaria a minha equipa num frenesim. Eventualmente já teria torcido o nariz também uma dezena de vezes, mas no final daria sempre o braço a torcer quando visse o resultado”; “A reunião com a ASAE e as novidades legislativas que há todos os anos. Qual seria este ano?”; “Os prémios dos concursos…”; “O alinhamento da cerimónia de inauguração… Como sempre, metade dos convidados não iria confirmar e depois não teriam lugar sentados…”; “O telefone já tinha tocado milhares de vezes”; “As pulseiras…os bilhetes… os trocos…”; “Os expositores… os 400 expositores, cada um a puxar para o seu lado. Arranjar 400 soluções para 400 problemas”; “A chuva, a sempre presente chuva”... Parece complicado? Sim, é mesmo complicado.
 

Acredito que este ano teria tido uma grande FIAPE. Estavam reunidas todas as condições: as datas, os espetáculos programados, as inscrições que já havia em todos os sectores económicos da feira, o investimento que estava previsto na melhoria de algumas áreas da feira, a promoção que estava delineada, a boa fase que o sector agropecuário atravessava e algum poder de compra que as pessoas ainda tinham… Estou convencido que tudo isto iria contribuir para mais um grande sucesso.

Mas depois teríamos a inauguração e todas estas complicações se desvaneceriam. A inauguração, que, como quase sempre e este ano não teria sido exceção, viria acompanhada da chuva. Mas a partir daí tudo fluiria normalmente e durante cinco dias Estremoz teria a sua FIAPE. Graças a um conjunto de pessoas (executivo, técnicos, administrativos, operacionais, expositores e fornecedores de serviços) que trabalham de forma incansável para que tudo corra bem e que estão lá a dar o seu melhor para que tudo funcione e garanta experiências únicas aos visitantes. É claro que há sempre, neste conjunto de pessoas, um conjunto mais restrito, com quem lido diretamente e que, se lerem isto, saberão perfeitamente que é deles que falo e que de certeza já sentiram muitas saudades do meu mau feitio…
 
Acredito que este ano teria tido uma grande FIAPE. Estavam reunidas todas as condições: as datas, os espetáculos programados, as inscrições que já havia em todos os sectores económicos da feira, o investimento que estava previsto na melhoria de algumas áreas da feira, a promoção que estava delineada, a boa fase que o sector agropecuário atravessava e algum poder de compra que as pessoas ainda tinham… Estou convencido que tudo isto iria contribuir para mais um grande sucesso.
 
Mas, sem nos pedir autorização, o Covid entrou nas nossas vidas e tudo isto e muito mais nos retirou. Já nos tirou a FIAPE, vai-nos tirar o Festival da Rainha e muitas mais iniciativas que estavam previstas para animar o verão na nossa cidade. Está a tirar rendimentos a quem vive da restauração, dos bares, das cafetarias, dos alojamentos turísticos e de tantos outros pequenos negócios que foram obrigados a encerrar; a quem se vê obrigado a ficar em casa em layoff ou a acompanhar os filhos nos seus estudos, devido ao encerramento das escolas. Está a tirar saúde mental a quem tem que estar em casa em teletrabalho e a retirar os poucos anos de vida que restam aos milhares de idosos que estão em isolamento e privados de verem os seus familiares. Priva-nos da companhia de todos aqueles que infelizmente já partiram por sua causa. Priva-nos daquilo que tanto gostamos de fazer: conviver com os nossos familiares e amigos, de circular livremente, de passear, de viajar e de conhecer coisas novas.
 
Todas estas privações acabam por matar-nos aos poucos, devido à insegurança em que vivemos e à impotência que sentimos perante esta ameaça invisível e sem fim à vista. Mas irão ajudar-nos a olhar para o futuro com outros olhos, pois certamente todos tiraremos uma grande lição desta experiência negativa, que mais não seja a de passarmos a dar mais importância às pequenas coisas das nossas vidas e aprendermos a dar-nos mais tempo para as vivermos. Afinal, com tudo isto, todos já nos apercebemos que é possível viver mais devagar e privados de bens não essenciais.
 
O Covid já nos roubou dois meses das nossas vidas. Dois meses que não nos serão devolvidos. Dois meses que não foram vividos intensamente, que não deviam ter acontecido e que, por isso, também eles não me deixarão saudade…
 
Como o Covid ainda não me retirou a possibilidade de fazer atividade física ao ar livre, fui correr, como se ontem tivesse sido uma quarta-feira normal. Casualmente, ou talvez não, passei pelo Parque de Feiras. Lá estava ele: vazio, silencioso e sem movimento. Apenas um ou outro pardal chilreava nas olaias, naquele fim de tarde que despertava após uma chuvada intensa. 
 
E voltei-me a lembrar que este ano não há FIAPE, pois faltava ali o movimento das pessoas, o barulho dos carrinhos de choque, o teste de som no palco principal e a luz acesa no gabinete que costumo ocupar no pavilhão. 
 
Não sei bem se aquela coisa salgada que rolou pela minha face foi suor da corrida ou uma lágrima de tristeza. Mas sei que saí dali a correr como nunca, de regresso a casa, e a pensar: “Este ano não houve… Mas para o ano vai haver, será muito melhor e irá compensar tudo aquilo que perdemos.” Fica a promessa…
 
* Arquiteto Paisagista António Serrano
 
Modificado em sexta, 01 maio 2020 22:47

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