domingo, 07 junho 2020
quarta, 18 dezembro 2019 11:54

Estranho Sábado, este…

Escrito por
Antes de escrever este texto refleti de forma a saber se faria algum sentido expô-lo aqui, publicamente, no Ardina do Alentejo por se tratar de um assunto muito particular que mais não é do que um misto de agradecimento mas que também envolve afectos. Como não consigo escrever sem afecto, talvez tenham sido mesmo eles que me fizeram tomar esta decisão, os afectos de barro mas também de coração (já todos vão perceber porquê).
 
É dia 14 de Dezembro… que sábado estranho este! Desde Setembro que os meus sábados se tornaram uma verdadeira azáfama… uma boa azáfama, diria. Melhor ainda, não foram só os sábados, foram também as quintas e sextas-feiras à noite. Para dizer a verdade todos estes dias passaram num ápice, de Setembro até agora… estranhamente hoje está mesmo a custar a passar, parece que me falta algo.
 
Em Setembro iniciei uma nova experiência na minha vida que, de certa forma a alterou. Todos os dias há coisas e experiências que alteram a vida das pessoas, é certo, mas esta situação em específico revelou-se, de certo modo, inspiradora a diferentes níveis.
 
Como certamente saberão, os “Bonecos de Estremoz” fazem parte, desde 7 de Dezembro de 2017, do Património Cultural Imaterial da Humanidade. Sempre tive um especial afecto por esta forma de arte popular tão característica e peculiar que sai das mãos de autênticos artistas e, na minha profissão, não raras vezes, a levei às escolas por onde andei. O barro não era, por isso, uma matéria-prima estranha para mim. Uma proposta de trabalho trouxe-me ao Município de Estremoz para colaborar na área da Cultura precisamente na promoção desta forma de arte junto da comunidade escolar e dos idosos. As acções educativas nesta área já existem há quase duas décadas. São promovidas pela equipa do Museu Municipal Professor Joaquim Vermelho de forma absolutamente exemplar e a Isabel Borda d’Água é a cara desse sector, ela que, com a sua subtileza, credibilidade, sapiência, disciplina e sensibilidade já proporcionou a centenas de crianças e jovens o primeiro contacto com o barro e, naturalmente, com o “Boneco de Estremoz”. Ela própria diz, inúmeras vezes, que não se considera nem se sente professora por não ter tido cadeiras pedagógicas para o ser. Ainda assim, tomara que muitos que as tiveram se pudessem orgulhar de ter metade da capacidade que ela demonstra dia após dia junto das crianças que se deslocam àquela oficina do Museu Municipal. Ela vai, certamente, perdoar-me por isto… eu sei que ela gosta mais de estar na sombra mas não seria justo da minha parte que, ao falar sobre os “Bonecos de Estremoz” não falasse dela e na sua extraordinária importância para o Museu Municipal e para o próprio figurado de Estremoz não só junto da população escolar mas no contacto diário que tem com todos os artesãos que trabalham na área. Não existe, de certeza, qualquer jovem no concelho que não tenha aprendido pelo menos a fazer um apito ou outra figura com a Isabel. É também por este motivo que entendo reconhecer, publicamente, o fantástico trabalho por ela desenvolvido, por ser, precisamente, mais do que justo.
 

Para além de tudo, e não menos importante, são os laços de amizade que se criaram durante estes cerca de três meses e que, estou convicto, ficarão para a vida. Tenho a certeza que não mais esqueceremos o quão formidáveis foram os dias desta formação. Para dizer a verdade também tivemos uma sorte tremenda com o grupo de formandos que nos calhou, um grupo com sede de saber, plenamente motivado, disciplinado e disposto a aprender mais e cada vez mais.

A Isabel acompanhou-me nesta jornada especial e foi uma peça fundamental em todo este processo onde ambos, juntamente com o responsável técnico da candidatura dos “Bonecos de Estremoz” a Património Cultural Imaterial da Humanidade e autor de diversas publicações nesta área como o livro “Figurado de Estremoz – Produção Património Imaterial da Humanidade” editado em 2018, o meu caro amigo Hugo Guerreiro, mas também com o fantástico artista Jorge da Conceição, artesão de reconhecidíssimo mérito e qualidade, tivemos a responsabilidade de organizar um curso de formação no âmbito das Técnicas de Produção de “Bonecos de Estremoz”, numa parceria entre o Município e o CEARTE – Centro de Formação Profissional para o Artesanato e Património. Foram muitas as reuniões de preparação desta formação, foram muitas as ideias partilhadas, foram inúmeras as opiniões formuladas até se conseguir chegar ao que se pretendia. E o que é que se pretendia? Basicamente fazer o que não se fazia há mais de sessenta anos… ensinar um grupo de pessoas a fazer “Bonecos de Estremoz” de forma tradicional. A última vez que algo desta natureza aconteceu foi com o Mestre Mariano da Conceição, avô do Jorge (que curiosamente foi professor de Olaria do meu pai). Quando se começou a falar deste curso com mais insistência, a Senhora Vereadora da Cultura, Drª Márcia Oliveira, que foi uma das grandes entusiastas e impulsionadoras do mesmo, não precisou de muito para convencer o Jorge, até porque ele se disponibilizou de imediato a seguir as pisadas do seu avô para partilhar com todos os formandos a sua experiência no sentido de fazer com que esta arte pudesse ter seguidores para o futuro. Já que falo em disponibilidade, é da mais elementar justiça que se enalteça aqui o papel imprescindível do Jorge nesta formação… ele foi como que a pedra basilar de todo este curso, não só pela sua sapiência, sagacidade, dedicação, determinação e profissionalismo mas também por uma transparência de conteúdos absolutamente espantosa. O Jorge não ocultou o que quer que seja e esteve, durante estas cento e muitas horas, de espírito impressionantemente aberto partilhando toda a sua sabedoria e experiência com todos sem sequer se recusar a qualquer solicitação ou dúvida. Quando popularmente se diz que “o segredo é a alma do negócio”, neste caso específico, uma frase como esta não poderia ser mais errada… aqui, para haver evolução no “negócio”, todos os segredos deveriam ser revelados. E foram! O Jorge não só ensinou aquilo que lhe era solicitado como foi muito para além disso. Na realidade todos ficaram a ganhar com este curso de formação e, ainda que fisicamente tenha sido desgastante para todos (mais ainda para o Jorge em virtude das inúmeras deslocações a Estremoz)… ainda que o espaço individual de trabalho de cada um fosse limitado… ainda que o cansaço depois de um dia de trabalho se apoderasse de todos… ainda que estivesse calor, frio ou a chover… ainda que no início se tivesse receio de apertar o barro… ainda que as dificuldades iniciais tenham levado alguém a ponderar desistir… ainda que certos panos turcos de cor vermelha tenham espalhado fiozinhos por todo o lado… ainda que certo alarme se lembrasse de tocar àquela hora… ainda que tudo e mais alguma coisa, o que é certo é que, chegando ao fim, tudo valeu a pena, até o mais ínfimo pormenor valeu a pena. Nós, formadores, saímos com a plena consciência do dever cumprido e com o orgulho de podermos afirmar que, tal como todos os formandos, talvez tenhamos até entrado na história do figurado de barro de Estremoz (alguns, reconhecida e justamente, já lá estavam). Ainda assim, nada disto nos pode fazer “embandeirar em arco”… há que, agora, revelar humildade e dar o passo em frente trabalhando com rigor e afinco para proteger e valorizar o nosso próprio trabalho e fundamentalmente os nossos “Bonecos de Estremoz” que podemos também afirmar, orgulhosamente, têm o futuro garantido.
 
Para além de tudo, e não menos importante, são os laços de amizade que se criaram durante estes cerca de três meses e que, estou convicto, ficarão para a vida. Tenho a certeza que não mais esqueceremos o quão formidáveis foram os dias desta formação. Para dizer a verdade também tivemos uma sorte tremenda com o grupo de formandos que nos calhou, um grupo com sede de saber, plenamente motivado, disciplinado e disposto a aprender mais e cada vez mais. Tudo isso cria relações muito mais próximas e com este grupo de pessoas isso evidenciou-se de sobremaneira. A relação foi de tal maneira desprendida de qualquer forma erudita que se tornou tão mas tão simples ao ponto de, na nossa última sessão, ter falado mais a emoção por se ter chegado ao fim de uma etapa não só com os objectivos concretizados mas também com alguns sonhos realizados.
 
Na memória de todos ficará a lucidez, organização, talento e racionalidade do Pedro Cravo… a amabilidade, o empenho e o entusiasmo da Luísa Batalha… a competência, a distinção e a integridade da Vera Magalhães… a reacção e positivismo da menos rápida mas muito empenhada Carla Correia… a criatividade, a perspicácia e o experimentalismo da Joana Oliveira… a forma de trabalhar suave, objectiva, resolvida e equilibrada da Ana Pereira… a sagacidade, a distração, a rapidez e a diversão da Sofia Luna… a verticalidade, a reserva e o esforço do Manuel Broa… o proteccionismo, rigor, conservadorismo e apoio do Zé Carlos Rodrigues… a curiosidade, determinação e ansiedade da Madalena Bilro Martins… a gentileza, paciência e educação da Ana Godinho… a irreverência, jovialidade e imaginação da desconcertante Sara Sapateiro… a surpreendente, amável, sensata e cristalina Inocência Lopes… a generosidade, discrição e dedicação da Ana Catarina Grilo… a fragilidade, atenção e credibilidade da Fátima Dias… e a competência, compreensão e trabalho da Sílvia Cuco.
 
Na memória de todos ficarão, não só, inúmeros momentos de tentativas, de erros, de reformulação de ideias, de objectivos frustrados e falhados mas também ficarão momentos de reflexão, de trabalho árduo, de dedicação, de concretização, de partilha de ensinamentos, de amor à arte, de alegria, de amizade, de união. Na nossa memória ficará a sensibilidade e seriedade com que todos encararam este projecto e o amor e respeito com que, acreditamos, todos levarão o “Boneco de Estremoz”. E ainda que tivéssemos dúvidas bastava olharmos para aquele conjunto de mais de cem peças feitas com grande dignidade, não só com as mãos mas com alma e com o coração… peças, que, como diz o Jorge, “não envergonham ninguém” tal a qualidade apresentada. É justo que se reconheça que todos, com as suas imperfeições, foram absolutamente perfeitos. A todos… colegas formadores e formandos deste Curso de Formação só vos posso dizer… OBRIGADO!!
 
A porta da sala da formação fechou-se por agora… quem sabe um dia não voltará a abrir-se!! E talvez numa próxima oportunidade consigamos pôr o Hugo com as mãos na massa!!!
 
Para já… continuemos com a tradição!! “Toca a fazer Bonecos!!!”
 
Enfim… voltar aos sábados de antes de Setembro vai ser difícil… ai vai, vai!!!
 
* Professor Luís Parente
 
 
 
 
 
Modificado em quarta, 18 dezembro 2019 12:11

Deixe um comentário