quarta, 18 setembro 2019
segunda, 01 julho 2019 18:30

A vida, afinal, tem preço

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Fomos sempre ouvindo, ao longo da nossa vida, que a vida não tem preço. Fomos sempre educados para isso, fomos sempre levados a pensar que a vida não tem um preço e que vale muito mais de que uma mala cheia de notas. Depois, crescemos e percebemos que não é bem assim. 
 
Falo disto, pelo caso da pequena Matilde, que graças às redes sociais é hoje bem conhecida de todos. É uma bebé guerreira, que teve o azar de nascer com um problema que necessita de um remédio que custa dois milhões de dólares. Isso mesmo, dois milhões. Eu confesso que nem imaginava que um medicamento poderia custar este dinheiro todo. Segundo o que li, este medicamento pode salvar a vida desta menina e fazer com que possa ter uma vida normal. Assim, a vida tem mesmo um preço.
 
É claro que diificilmente os pais poderiam pagar este valor. Em Portugal, digo eu sem ter dados para isso, serão muito poucos os pais que o poderiam fazer. Eu, que tenho uma filha, não o poderia fazer, mas faria o mesmo que estes pais fizeram. Nunca desistiria de uma vida, muito menos da vida da minha filha. Revolta-me, ainda para mais por ser pai, o valor do medicamento e o facto dos pais estarem nesta posição e terem de procurar alternativas noutro lugar que não aquele que nos deveria proteger a todos, o Estado.
 
Eu sei que há outros casos e que se o Estado pagasse este valor, depois teria de pagar outros parecidos e criava-se aqui um precedente. Sei disso tudo. Mas pergunto: quem nos protege? Quem tem uma vida normal e trabalha para pagar as suas contas, alguma vez terá dois milhões de dólares para salvar a vida da sua filha? Nem sei pelo que estão a passar aqueles pais. Nós só queremos o melhor para os nossos filhos e agora ficarmos a saber que uma criança pode morrer porque faltam dois milhões para um medicamento que a pode salvar? Isto, a mim, causa-me revolta. Isto pode acontecer a qualquer um, ninguém está livre disto ou de outra coisa parecida. 
 

Quem tem uma vida normal e trabalha para pagar as suas contas, alguma vez terá dois milhões de dólares para salvar a vida da sua filha? Nem sei pelo que estão a passar aqueles pais. Nós só queremos o melhor para os nossos filhos e agora ficarmos a saber que uma criança pode morrer porque faltam dois milhões para um medicamento que a pode salvar?

Perguntam: "E o que pode fazer o Estado?" Eu respondo que não sei. Sei sim, que temos tido nos últimos tempos exemplos em que o Estado gastou o dinheiro que diz que não tem muito mal gasto. Uns dirão, "isso é demagogia, uma coisa não tem nada a ver com a outra, são coisas diferentes". Pois são, têm razão. Mas vão lá explicar isso aos pais da Matilde. Digam-lhe que o Estado não paga, porque não pode, porque agora anda entretido a recuperar gente que andou a gastar sem o ter. Digam também aos pais da Matilde, que o Estado não paga porque infelizmente há outros casos, não com quantias tão elevadas, mas que também precisam de atenção e o Estado não pode pagar a todos, mas pode financiar operações para enriquecer gente bem colocada. Todo esse dinheiro, que não posso dizer que foi atirado para o lixo porque os bolsos de alguns não são lixo, serviria para muitas Matildes. Pois, essa é que é essa. O Estado continua a não proteger o seu bem mais precioso, as pessoas. 
 
É apenas um desabafo. Ajudem, como puderem, a Matilde e os seus pais. Eu vou fazer o mesmo. 
 
* Jornalista José Lameiras
 
 
 
 
 
 
Modificado em segunda, 01 julho 2019 18:41

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