terça, 12 novembro 2019
segunda, 11 março 2019 15:09

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Nunca foi mãe, é certo. A natureza assim não quis. Mas é preciso ser-se biologicamente mãe para se ser efectivamente mãe? Não! Está mais que provado que não! Muitas das vezes mãe não é quem tem, é quem cuida e cria. Sempre ouvi este termo e ao longo da minha vida, pessoal e profissional, tenho verificado e confirmado a veracidade da mesma. O meu texto de hoje volta a incidir numa perspectiva muito pessoal e familiar e tem precisamente a ver com estas relações em que o sangue “não passa” pelo coração.
 
Durante quase quarenta anos a minha sogra conseguiu ser MÃE mesmo não o sendo biologicamente. Há quase quarenta anos, quando se casou com o meu sogro, assumiu a responsabilidade de cuidar dele, dos filhos dele, entrando na sua vida sem condições ou restrições mesmo sabendo das eventuais dificuldades e tendo também a noção de que, a partir daí nada seria como dantes. Ela pegou numa criança de 8 anos que não lhe era absolutamente nada e amou-a com todas as suas energias, deu-lhe o carinho de uma verdadeira mãe, enxugou-lhe as lágrimas, curou-lhe as feridas, tratou-a, ensinou-a, partilhou alegrias com ela, deu-lhe muitas vivências que certamente não mais serão esquecidas, aliviou-lhe as tristezas, deu-lhe colo, transmitiu-lhe sabedoria, ensinou-lhe que nem tudo é um mar de rosas, abriu-lhe portas e encaminhou-a para a vida. Durante quase quarenta anos a minha sogra transmitiu valores de excelência que ficaram enraizados nos corações dos seus “filhos”. Sim porque foram muitos os “filhos” que tiveram a sorte de serem guiados pelos seus ensinamentos e pela sua experiência, não foi só a minha mulher, foram todos os seus sobrinhos e até os meus filhos os que foram bafejados pela sorte de serem criados por ela. Para se ter esta capacidade de amar tanta gente, é preciso ter-se um enorme coração, e a “Ti Bia”, mesmo com o seu feitio por vezes difícil, sempre o teve. Conseguiu sempre com sagacidade, persuasão e empenho ajudar os seus mais próximos, e os mais próximos dela nos últimos, quase, dezassete anos foram, primeiro a Mariana, depois a Matilde e mais tarde ainda o Miguel. Os meus filhos foram, efectivamente, criados por ela, até aos três anos qualquer um deles passou os dias e algumas vezes as noites na sua casa. O apoio diário à nossa família foi imprescindível ao nosso próprio equilíbrio, aliás, tenho a certeza que nada seria igual na educação dos meus filhos se não houvesse uma “Ti Bia” que carinhosamente tratou os seus netinhos com alegria, entusiasmo, responsabilidade e essencialmente com amor.
 
A partir de agora tudo será diferente, o Miguel não mais irá ao parque com a avó, a Matilde não mais a ajudará a fazer experiências culinárias ou a coser, a Mariana não mais lhe ligará a perguntar o que tem para o almoço nem lhe pedirá para coser os distintivos da farda dos escuteiros. Nenhum dos três voltará a ir dormir à da avó nem a ir, com ela, semana após semana ao mercado de sábado aqui por Estremoz.
 

Mulher simples, trabalhadora, multifacetada e excelente dona de casa, a “Ti Bia” viverá agora numa outra dimensão que não a nossa, onde estiver olhará certamente por todos nós, ainda assim manter-se-á sempre connosco até ao último sopro de vida de cada um de nós.

Mulher simples, trabalhadora, multifacetada e excelente dona de casa, a “Ti Bia” viverá agora numa outra dimensão que não a nossa, onde estiver olhará certamente por todos nós, ainda assim manter-se-á sempre connosco até ao último sopro de vida de cada um de nós. Quem sabe um dia não nos voltemos a reencontrar todos para relembrarmos esta vida terrena e recordarmos todos os momentos, todas as partilhas, todas as angústias, todas as alegrias e voltarmos a sentir a felicidade desse mesmo reencontro e celebrarmos a partilha de um novo sorriso e de uma troca de olhares com esses bonitos olhos azuis.
 
Estou certo que muitas famílias terão uma “Ti Bia” e com certeza estarão também agradecidos pelo que eventualmente lhes terá dado, mas hoje, aqui a “Ti Bia” de que falo é a minha, aquela minha sogra que viveu para si e mais para os outros, aquela que pautou a sua vida pela humildade e honestidade, aquela que ajudou com entusiasmo e sem nada querer em troca todos os que dela necessitaram e a solicitaram. Ninguém tira férias da família, por muito que, eventualmente, se ouse pensar nisso. Seguramente a “Ti Bia” nunca o fez, viveu ininterruptamente para a sua família, sempre preocupada e alerta com tudo o que se ia passando ao seu redor, com o seu marido e os seus “filhos” e netos.
 
Quando se perde um ente querido a vida dá-nos um estalo com tal força que ficamos de certa forma atordoados, mesmo quando menos esperamos. É um estalo para nos acordar e verificarmos que todas as pequenas quezílias, as preocupações sem sentido ou os “problemazinhos” não interessam mesmo nada… nada importa nesta altura. Só o que a maioria das pessoas ainda não conseguiu foi que esse estalo os acorde para sempre… mais dia, menos dia quase todos voltaremos a preocupar-nos com pequenas coisas que não têm a mínima importância, voltaremos a ser intransigentes com determinadas situações, voltaremos a exigir demais dos outros sem nos olharmos ao espelho, voltaremos a esquecer-nos que existe o outro e que esse outro pode ter necessidades de diversos níveis.
 
Ultimamente, sem saber porquê, cada vez que entro no espaço de um velório penso “Quem será o próximo que virei velar?” ou “Será que é a vez de alguém me velar a mim?”. Imagino muitas vezes se já terá chegado a minha meia vida ou se eventualmente essa meia vida já passou. Se querem que vos diga não gosto muito de pensar nisto mas no nosso cérebro há milhões de coisas que ainda não conseguimos controlar, e esta é uma delas. Não sei se é da idade… não creio que seja, até porque com quase quarenta e cinco anos não me sinto minimamente “velho” para pensar em assuntos desta natureza, não sei sequer se a idade terá algo a ver com isto, não me parece, mesmo. O que é certo é que, cada vez com mais frequência tenho ido a velórios. 
 
Quando nos acontece perder alguém mais próximo parece que tudo o que gira à nossa volta pára e, por estes dias é tudo isto que nos está a acontecer.
 
Ninguém gosta de ver os nossos sofrer e se há dor que não conseguimos sequer minimizar é a dor de perder alguém chegado. Quando vejo os meus filhos chorar desalmadamente ao saberem da irreparável perda da sua avó, ao verificarem que o contacto diário com uma das suas “mães” não mais irá acontecer, não há muito a fazer a não ser tentar acalmar os seus corações e fazê-los ver a importância de tudo o que aprenderam e viveram com ela e de todos os momentos por que passaram em conjunto. Vê-los assim foi para mim muito difícil, o meu próprio coração ficou completamente partido com o sofrimento deles.  
 
Este texto é uma homenagem a essa mãe que não o foi mas que foi uma grande MÃE. Conheci-a há cerca de 25 anos e este tempo de convívio, que nem sempre foi perfeito (nenhuma relação o é), foi um tempo de grande aprendizagem, felizmente com mais bons momentos do que aqueles que nos “aborreceram”. Tanto que eu “ralhei” consigo “Ti Bia” por insistir em dar guloseimas aos meus filhos, para agora querer que lhos dê. Sabe o que lhe digo… ainda bem que lhas deu, foram essas guloseimas que fizeram deles os doces que são.
 
Obrigado “Ti Bia” por ter sido para nós mais do que uma mãe… obrigado pelos acepipes maravilhosos (que deixarão muitas saudades!!)… obrigado pela ajuda em tudo e mais alguma coisa… obrigado pelos conselhos práticos que mais não eram do que o fruto das suas experiências… obrigado pela defesa intransigente da sua/nossa família… obrigado por ter amado a minha mulher e os meus filhos com toda a força que sempre demonstrou… obrigado pelas fantásticas experiências de vida que lhes proporcionou, pela educação que lhes deu, pela cumplicidade entre vós, por todo o vosso incondicional amor.
 
Dizem que as homenagens deveriam sempre ser feitas em vida, na realidade partilho dessa opinião, mas neste caso específico o tempo não me deixou fazê-lo, houve um coração que parou quando menos esperávamos. Na verdade nunca se espera ver partir alguém para sempre e muito menos da forma como sucedeu. Cada vez estou mais convicto que deve ser diário o reconhecimento, se tivermos que dizer algo, que seja hoje porque pode mesmo não haver amanhã.
 
Obrigado “Ti Bia”… por tudo!!
 
Até um dia!               
 
* Professor Luís Parente
Modificado em terça, 12 março 2019 16:01

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