sábado, 16 dezembro 2017

Um dia, poderá ser bem pior

Escrito por  Publicado em José Lameiras sábado, 19 novembro 2016 15:35
Tratamos, hoje em dia, as coisas com muita descontração. Quem utiliza as redes sociais com frequência, rapidamente discordará da primeira afirmação deste texto. Abrimos o Facebook, por exemplo, e todos têm uma opinião. Muitos se atropelam para serem os primeiros a criticar e a dizer que isto ou aquilo se devia fazer desta ou de outra maneira. Depois, fora do ecrã, a conversa é outra.
 
Quantos dos que criticaram a eleição de Trump, na América, vão votar em Portugal quando há eleições? Quantos conhecem claramente as ideias e intenções do novo presidente americano? Quantos acompanharam toda a campanha e não têm a opinião formada apenas por aquilo que nos chegava já filtrado? Quantos criticam apenas por ver os outros criticar? 
 
Eu não conheço bem o programa de Donald Trump, tal como não conhecia o de Hilarry Clinton. Se tivesse que votar na América, escolhia Clinton e nem sei bem explicar porquê. Talvez tivesse sido influenciado pela campanha que foi feita para a vitória de Hillary ou talvez não simpatize mesmo com a postura de Trump e com algumas das suas ideias disparatadas. 
 

...quem somos nós, que já elegemos em Portugal vários "artistas", para agora dizermos que os americanos estão ou são malucos? Nós vivemos num país onde o "Tino de Rans" teve 150 mil votos. Com todo o respeito que o Vitorino Silva merece, ficámos a saber que em Portugal há cerca de 150 mil pessoas que gostavam que o "Tino de Rans" fosse Presidente da República.

O que é certo é que Donald Trump ganhou. Ganhou porque quem quis a sua vitória foi votar e mobilizou-se para que outros votassem. Dito assim, até parece fácil. Viver em democracia é isto mesmo. Apesar de Hillary ter mais votos na urna, manda o sistema eleitoral que assim seja. Contra tudo e quase todos, Trump ganhou.
 
E ganhou porquê? Ganhou porque alguém votou nele. Trump é o exemplo do que hoje muitas vezes acontece em muitas eleições em muitos países. Lançam-se candidaturas que parecem "mortas" à nascença, seja pela opinião pública ou até pelos mais altos entendidos, mas depois toda a gente se esquece que é preciso ir votar. Eu, de um modo geral, confio em sondagens. No entanto, parece que cada vez mais elas são desmentidas no dia do acto eleitoral. Há candidatos vitoriosos antes do "jogo" começar e muitos possíveis derrotados. Depois, mandam as máquinas de mobilização e de contra-informação. Muitas vezes, o jogo vira-se e o fetiço atinge mesmo o feiticeiro.
 
Fiquei muitas vezes incrédulo a ouvir certos discursos de Donald Trump. No entanto, quem somos nós, que já elegemos em Portugal vários "artistas", para agora dizermos que os americanos estão ou são malucos? Nós vivemos num país onde o "Tino de Rans" teve 150 mil votos. Com todo o respeito que o Vitorino Silva merece, ficámos a saber que em Portugal há cerca de 150 mil pessoas que gostavam que o "Tino de Rans" fosse Presidente da República.
 
Olho para Trump como um produto da nova sociedade para a qual caminhamos, onde o "parecer" se torna bem mais importante do que o "ser". Este estado de coisas, onde o desinteresse político é preocupante e onde o populismo se instala rapidamente, é que faz eleger Trump's. A comunicação social tem aqui muita responsabilidade. Este é o veículo que leva as mensagens e que, naturalmente, forma opinião. A tal opinião, que ridicularizava Trump e que chegou a preconizar um passeio para Clinton. A candidatura do bilionário, na parte inicial, nunca foi levada muito a sério e esse foi, para mim, o seu grande trunfo.
 
O resultado é uma lição. É uma lição que não deve ficar só na América. É que, um dia, poderá ser bem pior.
 
* Jornalista José Lameiras

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