domingo, 17 dezembro 2017

American Horror Story

Escrito por  Publicado em António Serrano sexta, 11 novembro 2016 02:16
O dia 9 de Novembro de 2016 ficará para sempre marcado como o dia em que o Mundo acordou abalado com a eleição do republicano Donald Trump como próximo Presidente dos Estados Unidos da América, depois de durante meses a sua opositora democrática, Hillary Clinton, ter estado sempre à sua frente nas sondagens e pese embora as polémicas afirmações, tomadas de posição e promessas eleitorais do vencedor.
 
Sem ter qualquer tipo de pretensão de que percebo de alguma coisa, confesso que ainda percebo menos de política internacional, apenas podendo basear a minha opinião naquilo que apreendi do pouco tempo que dispensei às eleições nos EUA. Contudo, não posso deixar de ficar chocado com esta eleição, apesar de naturalmente respeitar a opção da maioria dos cidadãos norte-americanos que expressaram a sua preferência por Trump. É assim que normalmente acontece em democracia: os vencedores são (na maioria dos casos, não no caso português) aqueles que reúnem o maior número de votos e assim aconteceu com Donald Trump. Esta vitória só confirma que as eleições não se vencem nas sondagens, mas sim após o exercício do direito de voto pelos cidadãos.
 
Por todas as redes sociais na Internet, nas televisões, jornais e rádios surgiram comentários e publicações de desagrado pelo facto de Trump ter sido eleito e, desta forma, ter-se tornado no proclamado “homem mais poderoso do Mundo”. Segundo muitos, Trump não é merecedor desta vitória, em especial depois das suas mais que polémicas afirmações durante a campanha, tudo levando a crer que jamais se sentaria na cadeira do poder, nem mesmo no pior dos pesadelos. Este episódio, de proporções mundiais, é bem capaz de dar uma valente abada a qualquer uma das temporadas de American Horror Story, pelo que os produtores bem podem ir pensando em renovar esta série por mais um ano – pelo menos já têm argumento. 
 
Que se cuidem os muçulmanos, os latino-americanos e os 11 milhões de imigrantes clandestinos que vivem atualmente no território dos EUA, pois parece que as palavras de ordem são expulsão e deportação. Os mexicanos que partam à procura do “sonho americano” também não terão a vida facilitada, devido à proposta de construção de um “grande e lindo muro” na fronteira entre os dois países. O governo mexicano já fez saber que não contribuirá com um único peso para construir este muro, o que acho perfeitamente natural, pois as ideias loucas têm que ser pagas por quem as tem.
 
As futuras relações económicas com o exterior, em especial com a União Europeia, provavelmente sairão lesadas, na medida em que o mais certo é que Trump venha a tomar uma série de políticas protecionistas de proibição ou restrição do comércio livre, deitando a perder tudo aquilo por que os seus antecessores batalharam nas últimas décadas, numa perspetiva de aproximação dos Estados Unidos ao Mundo e de cooperação com as restantes nações.
 
E que dizer da sua política de segurança externa? Segundo afirmações de Trump durante a sua campanha, os aliados europeus e asiáticos da NATO terão de pagar mais para se sentirem seguros e receberem a proteção dos EUA. Parece ainda estar disposto a uma aproximação com a Rússia (resta saber se Moscovo está interessada) e a ser capaz de bombardear o Estado Islâmico “até ao tutano”. Vislumbra-se aqui uma nova Guerra do Golfo ou uma III Guerra Mundial? Não sabemos e espero que não tenhamos que vir a saber.
 
Mas a eleição de Donald Trump terá também consequências diretas sobre a paisagem, na medida em que, segundo muitos, esta sua vitória representa uma clara derrota dos ambientalistas e de todos os líderes mundiais que se têm debatido com as questões relacionadas com o aquecimento global. É mais que sabido que a emissão de gases de estufa contribui para o aquecimento global, com graves consequências em termos de alterações climáticas e da destruição de ecossistemas, habitats e espécies naturais. Trump não acredita nisso, atira as culpas do aquecimento global à política económica dos chineses e promete cancelar o dinheiro gasto em programas da ONU para combate às alterações climáticas, sob o pretexto de utilizar esses milhares de milhões de dólares na criação de mais infraestruturas nos Estados Unidos e, assim, aumentar a sua pegada ecológica. 
 

É bom que Donald Trump não se esqueça que presidentes muito mais populares do que ele tiveram os dias contados, devido a questões com as quais era bem mais fácil de lidar do que com a sua peculiar visão do Mundo.

Os Estados Unidos da América são a nação mais multicultural do Planeta, albergando milhões de pessoas que para ali foram viver à procura do tal sonho americano de que tanto ouvimos falar nos filmes de Hollywood e que agora Trump deseja renovar. Sempre foi reconhecida como uma nação onde são respeitados o direito à diferença e à igualdade, à liberdade de expressão e de crença, bem como os demais direitos fundamentais do ser humano. Com Donald Trump na Casa Branca e a avaliar pelas suas afirmações em período eleitoral, não quero imaginar como irá ser a vida futura dos emigrantes, dos homossexuais e, principalmente, das mulheres nos EUA. 
 
Seja como for, como disse, não percebo nada de política internacional e espero sinceramente estar errado quando penso que esta eleição representa um retrocesso na longa caminhada da Humanidade pelo reconhecimento dos seus direitos fundamentais, bem como na sua tentativa de construir uma relação mais harmoniosa com o Mundo que nos rodeia – uma relação de respeito pela paisagem e por todos os atores que contribuem para a sua construção, aqui se incluindo os homens e as mulheres.
 
Porventura estarei a ser pessimista ou a ser induzido por esta “onda” de pavor que se apoderou do Mundo nestes últimos dias, pelo que mais vale estar atento à política nacional e local. Ainda que provavelmente não o consiga fazer, pois todas as televisões, jornais, redes sociais e rádios nacionais fazem questão de me bombardear o juízo apenas com aquilo que se passa para lá do Oceano Atlântico.
 
De facto, valia mais que dessem atenção àquilo que de realmente bom acontece em Portugal (não me refiro, obviamente, à entrega voluntária de um criminoso às autoridades, nem à Casa dos Segredos, à “música” da Maria Leal ou às telenovelas). Ainda que tendo uma dimensão muito pequena (cabem mais de cem países com a área do nosso no território dos EUA), Portugal tem uma riqueza enorme e, infelizmente, nem sempre esse valor é reconhecido pelos próprios portuguese e muito menos pela nossa comunicação social. Só é notícia e só vende aquilo que de mau acontece em Portugal e no Mundo. Por isso Donald Trump é notícia e muito provavelmente continuará a sê-lo por algum tempo.
 
Contudo, não devemos esquecer os ensinamentos da História. No outro dia ouvi alguém dizer que o passado é um espaço grande demais para que nos estejamos sempre a preocupar com ele, mas o que é facto é que nos ensina muito para podermos definir as nossas ações no presente. É bom que Donald Trump não se esqueça que presidentes muito mais populares do que ele tiveram os dias contados, devido a questões com as quais era bem mais fácil de lidar do que com a sua peculiar visão do Mundo. Abraham Lincoln foi um fervoroso defensor dos direitos humanos, aboliu a escravatura e uniu a nação. Ainda assim, conhecemos o seu desfecho. James Garfield, William McKinley e John Kennedy também tiveram o mesmo destino, não obstante a sua popularidade e os feitos dos dois últimos (Garfield nem sequer teve tempo de aquecer a cadeira). 
 
Claro que não desejo o mesmo destino a Donald Trump, mas sinceramente não acredito que ele tenha tempo para “começar a renovar o sonho americano”, como prometeu no seu discurso da vitória. Espero ansiosamente pelo próximo capítulo.
 
* Arquiteto Paisagista António Serrano

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