sábado, 20 janeiro 2018

A água e a paisagem

Escrito por quinta, 04 junho 2015 09:59
A água tem sido, desde os tempos mais remotos da existência humana, um elemento fundamental na paisagem, na medida em que nela desempenha um conjunto de importantes funções ecológicas, culturais e estéticas.
 
Da mesma forma, a água sempre exerceu sobre o Homem um poder de atração fascinante. Por um lado, porque é um elemento essencial a todas as formas de vida, por outro, porque possui propriedades físicas e estéticas que lhe conferem plasticidade e simbolismo, o que determinou, desde os tempos mais remotos, a sua manipulação para os mais diversos fins.
 
Tratando-se de um bem essencial à vida, a água impulsiona o Homem a fixar e a desenvolver as suas atividades na sua proximidade, para dela melhor tirar partido, quer seja para abastecimento humano e animal, quer para rega de plantas e de culturas agrícolas ou, simplesmente, como elemento de fruição estética e/ou artística.
Veja-se o exemplo da cidade de Estremoz que, de acordo com os dados disponíveis, foi fundada na sua localização devido à abundância de água que existe no subsolo e que está na origem da existência de inúmeras fontes e nascentes, que determinaram a fixação do Homem nesta região. Mais tarde, já nos séculos XVI e XVII, durante as guerras da restauração da independência, a cidade reforçou as suas muralhas precisamente para proteger este bem precioso e tão necessário para as tropas que aqui se aquartelaram - a água. 
 
Em pleno século XXI é também a água que motiva as alterações que a paisagem está a sofrer na zona norte do concelho de Estremoz, mais precisamente junto à vila de Veiros. 
 
Velha aspiração das gentes estremocenses, tão velha que já era referida em 1885 como fundamental para o desenvolvimento do regadio no "Alemtejo", a Barragem de Veiros foi inaugurada no passado dia 26 de maio pela Ministra da Agricultura, Assunção Cristas.
 
Com a construção do paredão e a limpeza de vegetação na superfície que vai ser ocupada pelo plano de água, desde logo a paisagem se começou a alterar. Em primeiro lugar porque uma área anteriormente ocupada por montado deixou de ser revestida por vegetação, dando lugar a uma paisagem quase desértica. De seguida, porque o aprisionamento das águas da Ribeira de Ana Loura no regolfo da albufeira teve como consequência a definição de um extenso plano de água, causando o impacto oposto ao da limpeza da vegetação. Neste caso, a morte da paisagem original teve como resultado uma paisagem plena de vida.
 

Acredito ainda que a Albufeira de Veiros tem um potencial enorme enquanto espaço de recreio ativo das populações e como pólo de atração de visitantes, podendo assim contribuir para a promoção do desenvolvimento turístico do concelho de Estremoz.

 
Espera-se que a paisagem na envolvente à Barragem de Veiros ganhe ainda mais vida. O aproveitamento hidroagrícola da Albufeira permitirá irrigar 1114 hectares, constituindo uma extraordinária oportunidade para os agricultores desta região modernizarem as suas explorações e poderem obter melhores produções e maiores rendimentos agrícolas, através do regadio. E também aqui a paisagem irá mudar e encher-se de uma nova vida, o que se notará essencialmente na alteração da cor amarelada dos campos de sequeiro para a cor esverdeada das culturas de regadio.
 
Espero que se encha também de vida humana, pois não será possível que esta paisagem se altere sem a intervenção do Homem. É dele que depende o sucesso deste empreendimento, o qual medir-se-á não só através da quantificação das produções, mas também, e principalmente, pelo número de postos de trabalho gerados, pelo número de pessoas que se fixem na região e pelas expetativas que sejam criadas para a sobrevivência das gerações futuras.
 
Acredito ainda que a Albufeira de Veiros tem um potencial enorme enquanto espaço de recreio ativo das populações e como pólo de atração de visitantes, podendo assim contribuir para a promoção do desenvolvimento turístico do concelho de Estremoz. São várias as utilizações recreativas possíveis: desportos náuticos, pesca desportiva, campismo, área balnear, passeios pedestres... apenas para citar alguns. Também desta forma a água estará a criar mais vida.
 
E não podemos esquecer-nos do abastecimento de água. Já foi assumido pelos nossos governantes que a Albufeira de Veiros poderá, em caso de seca, assegurar o abastecimento de água para consumo dos habitantes do concelho de Estremoz. Espero, sinceramente, que não tenha que ser utilizada com essa finalidade, pois isso significa que continuaremos a ter bons anos hidrológicos e os níveis freáticos do aquífero de Estremoz continuarão a ter capacidade para satisfazer as necessidades de consumo da população.
 
Independentemente da paternidade do empreendimento, que muito tem sido reclamada por quem muito pouco fez para que ele se concretizasse, devemos encarar a Barragem de Veiros como mais uma oportunidade para o desenvolvimento sustentado do concelho de Estremoz e reunir sinergias para retirarmos o máximo partido desta nova paisagem que agora começa a ganhar forma. 
 

Encontro com Freud

Escrito por quinta, 28 maio 2015 00:20
Neste meu primeiro “encontro” gostaria de iniciar a minha reflexão com uma frase bastante atual de Sigmund Freud, “se somos feitos de carne e osso porque nos obrigam a comportar como se fossemos feitos de pedra?
 
Tendencialmente escondemos o que verdadeiramente sentimos e pensamos principalmente se nos perturba ou nos coloca desconfortáveis, isto alinhado ao facto da necessidade de ir ao encontro de uma imagem já construída e percecionada pelos demais. 
 
Afirmamos que cada ser humano é diferente mas precisamos de respeitar a diferença… precisamos? Ainda não o fazemos?...
 
Queremos muito uma sociedade que aceite e respeite a diferença, (mas a diferença como limitação e dos outros) porque limitações têm os outros…ou não? 
 

Aprender a lidar com a nossa própria diferença e limitações é um percurso, meus amigos, doloroso e nem sempre pacífico.

 
Aprender a lidar com a nossa própria diferença e limitações é um percurso, meus amigos, doloroso e nem sempre pacífico. 
 
Pais, Professores, Educadores é emergente educar o carácter. É emergente escutar e entender, é emergente refletir, é emergente Ser de Carne e Osso. 
 
O primeiro “encontro” em tom de brainstorming é a base de futuras questões, dúvidas, inquietações…que me deram o privilégio de partilhar convosco.
 
Até ao próximo “encontro” e muitos sorrisos! 
 

Um fenómeno chamado Jorge Jesus

Escrito por segunda, 18 maio 2015 15:30
Estranhei, confesso, quando foi anunciado, há seis anos atrás, como treinador do Benfica. Sorri quando disse que com ele os jogadores do Benfica iriam jogar o dobro. O que é certo, diga-se, é que jogaram mesmo. Alguns até jogaram o triplo.
 
Jorge Jesus não é o típico treinador de clube grande. Não é politicamente correto e não tem o dom da palavra quando encontra microfones pela frente. No entanto, fala a linguagem de que precisa na sua profissão, a linguagem do futebol. O Benfica cresceu muito com Jesus mas, diga-se, Jesus também cresceu muito com o Benfica. Hoje em dia, é um treinador valorizado e habituado a ganhar títulos. É mais pragmático e menos efusivo. A sua emoção chegou a trair a sua enorme ambição. Errou como todos erram e o tribunal da Luz chegou "a pedir a sua cabeça". Os treinadores de bancada, por diversas vezes, apontaram que estava na hora de mudar. E estava mesmo, tinham razão, há 30 anos que o Benfica não ganhava dois campeonatos seguidos.
 
Depois de se ajoelhar no Dragão, após a sua equipa ter transformado infantilmente um lançamento lateral no meio-campo adversário num lance fatal para a sua baliza e de ser empurrado por Cardozo no Jamor, depois de uma exibição catastrófica do Benfica,  poucos benfiquistas queriam a sua continuidade. Luís Filipe Vieira, mostrando que também tem aprendido muito nesta sua caminhada, renovou com o treinador, até contra a vontade de grande parte da administração. Vieira apostou de novo em Jesus e deu ao técnico um dos melhores plantéis que o Benfica já teve. O resultado foi quase perfeito e o Benfica ganhou todas as competições em Portugal e, não fosse uma arbitragem malandra em Turim, acredito que traria também a Liga Europa. 
 
Este ano, Jorge Jesus perdeu meia-equipa. Oblak, Siqueira, Garay, André Gomes, Markovic, Rodrigo e Cardozo, só para falar nos mais influentes, sairam antes da época começar e Enzo Perez em Dezembro. Astuto, Jorge Jesus baixou a fasquia e disse, claramente, que a prioridade era voltar a ser campeão. Recebeu Jonas, que para muitos estava acabado para o futebol, e montou uma equipa competitiva para consumo interno. Assim como fez com, por exemplo, Fábio Coentrão ou Di Maria, Jesus colocou o talento no local certo e recuperou mais um craque. 
 
Este ano, em certos jogos, as críticas voltaram do Tribunal da Luz. Ouviram-se bem alto quando em Alvalade Jesus apostou no pragmatismo para sair da casa do rival sem perder. Ia correndo mal, é certo, mas apareceu Jardel para carimbar um dos momentos-chave do campeonato. Na Luz, frente ao Porto, a receita foi a mesma e a prioridade era não perder. As críticas voltaram e falavam em falta de ambição. Por vezes, quem crítica, esquece-se que é o treinador que melhor conhece os jogadores que tem à disposição. 
 
Em seis anos ganhar três campeonatos, à primeira vista e num clube como o Benfica, nem parece muito. No entanto, o feito tem mesmo de ser valorizado quando olhamos para o que era o clube encarnado num passado recente. A juntar aos títulos ganhos por Jesus no Benfica, estão as valorizações de alguns jogadores e a utilidade que encontrou em outros. Enzo Perez, David Luiz, Matic, Pizzi, Jonas, Lima, André Almeida, Jardel, Fábio Coentráo, Di Maria, Rodrigo, por exemplo, são jogadores que viram a sua carreira mudar no dia em que entraram no balneário de Jorge Jesus. A tudo isto, podemos ainda juntar a qualidade de futebol que o Benfica tem mostrado nestes seis anos. Com Jesus, voltou ao Estádio da Luz o futebol atraente e demolidor de outras épocas. À Luz, voltaram as famílias para ver a bola. 
 
Sei que o futebol é mesmo assim e daqui a um ano tudo pode mudar. No entanto, este desporto também vive de momentos e de talento. O homem que, ao leme do Belenenses, defrontou o Real Madrid e disse que se trocassem de banco "dava-lhe 3 de avanço, mudava aos 5 e acabava aos 10", entra na história do Benfica e cala muitos dos seus críticos. Eu fui um dos que desconfiou. Ainda bem que eu não fui, nem sou, presidente do Benfica. 
 
* José Lameiras - Jornalista

A Cor das Palavras

Escrito por quinta, 14 maio 2015 19:17
Às vezes dou por mim a pensar em assuntos completamente metafísicos, transcendentes até. Há dias, em conversa com um amigo surgiu o termo “… temos que dar cor às palavras!”. Esta frase fez-me questionar precisamente o seu conteúdo, será que as palavras têm cor? Aparentemente sim, nem que sejam aquelas que pronunciam a própria cor.
 
Quando falo em cor o meu pensamento, quase de imediato, me transporta para as minhas aulas de Educação Visual onde ensino os meus alunos qual o seu significado ou a sua percepção, no fundo a sua teoria e prática com as cores primárias, secundárias, as misturas aditivas e subtrativas, as quentes, as frias, contrastantes ou complementares, mas também as suas três dimensões, a tonalidade, o brilho e a saturação ou mesmo o seu valor expressivo. E é aqui que, de certa forma, pode entrar a psicologia da cor, a cor associada a sentimentos, a locais, a símbolos e sinais, a formas, a sabores, odores, a texturas, a palavras. Sim, a palavras! Afinal as palavras têm cor!
 

Quando dizemos que temos que dar cor às palavras, esquecemo-nos de que elas já têm essas percepções visuais, ainda que as mesmas possam variar culturalmente na sua simbologia.
Por aqui as palavras podem ter uma cor NEGRA de solidão, de tristeza, de temor, de escuridão, de morte… podem ter cor BRANCA de pureza, leveza, equilíbrio, paz, luz e harmonia… serão certamente AMARELAS de alegria, de Verão, sol, optimismo, animação, atenção… poderão ser VERMELHAS de raiva, de sangue, de pecado, de paixão, de energia, de desejo, de amor, de liberdade… podem ser ROSADAS de vergonha, romance, ingenuidade e fantasia… serão COR DE LARANJA de sucesso, entusiasmo, calor e criatividade… são com certeza AZUIS de serenidade, tranquilidade e frescura e VERDES de esperança, saúde e estabilidade. 
Para além das cores dos sinais de trânsito, por exemplo, as cores clubísticas naturalmente têm também a sua importância e é impossível dissociar entre nós a palavra BENFICA da cor encarnada, a palavra SPORTING da cor verde ou a palavra PORTO da cor azul.
 
No entanto as palavras são de todas as cores, o amor e a paixão para além de poderem ser vermelhos, também serão azuis, lilás, ocres, cinzas e esverdeados… inclusivamente o branco pode ser preto e o preto também pode ser branco.
 
Uma vez que a nossa mente é plena de liberdade podemos sempre tentar ouvir as cores e sentir as palavras. Aliás, esta sinestesia reveste-se, sem dúvida, de um interesse particular uma vez que é sempre possível, por exemplo, ouvir a cor das ondas do mar e, naturalmente, está mais do que provado que se conseguem sentir as palavras.
 
Mas na altura em que proferimos o termo “… temos que dar cor às palavras!”, fizemo-lo com um outro intuito, acreditando que TODOS SOMOS MAIS DO QUE JULGAMOS SER… e mesmo vendo ou não a cor do dinheiro… sentindo ou não o sabor do vinho na sua cor… descobrindo ou não a cor do burro quando foge… degustando ou não o paladar consoante a cor… o nosso intuito foi no sentido de dar cor à vida, de lhe dar um novo rumo, um rumo positivo, de afastar pensamentos e acções negativas, de viver uma vida plena de personalidade, de consciência, honestidade, conhecimento, humildade, plena de linguagens sonoras, de linguagens sem som, de linguagens universais, de verdade, prazer, partilha… viver uma vida repleta de amor, de sonhos, de alegria, de sorrisos, de cidadania, de esperança, amizade e responsabilidade, de aprendizagem, diversão e… de risos … de muitos risos.
 
UTOPIA? TALVEZ NÃO… BASTA DAR COR ÀS PALAVRAS!
 
* Luís Parente - Professor
 
 

A paisagem e as modas

Escrito por quinta, 07 maio 2015 01:42
A Paisagem é o resultado das diversas interações entre os elementos naturais e o Homem. A grande maioria das interações naturais resultam em manifestações muito bem conseguidas, de maior ou menor complexidade e de maior ou menor beleza. Excluo aqui do meu conceito de beleza o resultado de algumas catástrofes naturais, ainda que, pela sua magnitude e pela sensação de pequenez e impotência que esses fenómenos nos transmitem, as pudesse incluir na categoria de belo que muitos atribuem ao sublime.
 
Já no caso das interações entre o Homem e a Natureza, também elas de maior ou menor dimensão, simplicidade ou beleza, em muitos casos o resultado não é tão feliz. É claro que o conceito de belo é talvez o mais subjetivo dos conceitos, na medida em que depende do gosto pessoal de quem observa e da forma como cada objeto é apreendido e interpretado pelo observador. Ainda assim, há uma tendência para um grande número de pessoas ter maior ou menor afinidade com uma ou outra situação, o que acontece também na forma como interpretamos a Paisagem. Quantas vezes não gostamos de um determinado edifício, de um determinado espaço ou elemento escultórico, e milhões de outras pessoas os adoram?
 

...o Homem não soube compreender a Natureza e o espírito do lugar, construindo fora de contexto e agindo apenas de acordo com a "moda"

 
 
Apesar desta heterogeneidade de gostos, que nos leva a atribuir ao conceito de belo a tal subjetividade, o que é certo é que, também na Paisagem e tal como em muitas outras situações da vida, orientamos o nosso gosto por aquilo que "está na moda". Dessa atitude resultam, muitas vezes, alguns dos casos menos felizes da interação entre o Homem e os fenómenos naturais, todos eles porque o Homem não soube compreender a Natureza e o espírito do lugar, construindo fora de contexto e agindo apenas de acordo com a "moda". Uma linha, um ponto, um volume, uma espécie, um material ou um qualquer outro elemento dissonante e não enquadrado com o meio envolvente pode resultar numa catástrofe maior, em termos de imagem que nos é apresentada, do que o efeito de algumas catástrofes naturais na Paisagem.
 
Por exemplo, parece que está agora na moda substituir um dos elementos que melhor caracterizam e definem as paisagens mediterrânicas, a oliveira, por outras espécies que, alegadamente, também se adaptam às nossas condições edafoclimáticas, sob o pretexto de que daí poderão resultar maiores rendimentos económicos. Passo diariamente por um desses exemplos, uma extensa plantação de Figueiras-da-Índia e questiono-me todos os dias acerca da viabilidade e dos efeitos desta moda na Paisagem. É verdade que a Figueira-da-Índia parece prometer muito a quem opta pela sua introdução nas paisagens alentejanas, mas será que estamos cientes do quanto melhor estavam integradas as oliveiras nestas paisagens? Será que estamos cientes do quanto esta cultura contribuía para combater a erosão dos solos e para a regulação do ciclo hidrológico? Estaremos cientes dos efeitos que esta moda vai ter no futuro da paisagem a longo prazo?
 
Poder-me-ão dizer que o olival já não dava rendimento, ou que a nova cultura permite uma série de oportunidades inalcançáveis com a cultura da oliveira, mas continuarei com a opinião de que tudo não passa mesmo de uma moda e que os efeitos na imagem e na sustentabilidade da paisagem serão devastadores. Principalmente quando todos quiserem tirar proveito desta nova moda e as oportunidades se transformarem em fragilidades, sem espaço para todos tirarem rendimento. Não sou contra que se tirem proveito das oportunidades, mas há que fazê-lo com conta, peso e medida.
 

Pior que uma moda, a propaganda política prolifera pela paisagem urbana e, qual parasita, surge acorrentada às árvores e aos postes de iluminação pública, ou colada nas fachadas de edifícios históricos

 
Mas não só no espaço rural nos deparamos com exemplos de interações infelizes entre o Homem e a Paisagem. Também no espaço urbano vemos todos os dias manifestações humanas que atentam contra a boa imagem dos espaços públicos. Uma das que mais me aflige é devida à proteção que a nossa legislação dá aos partidos políticos e lhes confere o direito de espalhar cartazes, mupies, pendões e mil e um outros tipos de propaganda por onde lhes apetece.
 
Se qualquer pessoa tiver a infelicidade de visitar, por exemplo, o centro da cidade de Estremoz, irá deparar-se com uma centena de "elementos escultóricos" partidários, uns apelando ao voto, outros incentivando à queda do Governo e outros com apelos à revolução. Ou seja, mais do mesmo e igual a qualquer outro lugar deste "paraíso à beira-mar plantado", descaracterizando e ofuscando toda a beleza que o Homem construiu.
 
Pior que uma moda, a propaganda política prolifera pela paisagem urbana e, qual parasita, surge acorrentada às árvores e aos postes de iluminação pública, ou colada nas fachadas de edifícios históricos. Destrói árvores, mobiliário e monumentos, cuja aquisição e manutenção é custeada por todos nós. Interfere na leitura e na fruição da Paisagem, o que também é um direito de todos. Em suma, contribui para uma imagem negativa do espaço público e isso é bastante para a considerar também como uma das maiores catástrofes da intervenção do Homem na Paisagem. 
 
Tenho esperança que, um dia, também os políticos entendam o significado de fazer política e percebam que há outras formas de fazer chegar a mensagem. Se todos pensarem como eu, com este tipo de propaganda a mensagem chega de uma forma perturbadora e, por isso, não chega a ser consumida.
 
Uma vez que são as lições do passado que nos mostram os caminhos do futuro, resta-me acreditar na aprendizagem humana  e na extraordinária capacidade de resiliência da Paisagem e esperar que, tal como acontece noutros casos, também estes exemplos passem de moda.
 
* António Serrano - Arquitecto Paisagista

Saberemos utilizar as redes sociais?

Escrito por quinta, 23 abril 2015 22:01
Esta é uma questão que todos nós deveríamos colocar a nós próprios. Outra questão é, de que forma poderemos tirar partido da nossa presença nas redes sociais?
 
Há de tudo nas redes sociais. O contacto imediato que acontece "na rede" é apetecível em toda a linha. As redes sociais, nomeadamente o Facebook, trouxeram muitas vantagens que é preciso saber aproveitar. É certo que, hoje em dia, entramos num local de lazer onde exista rede wi-fi e, pelo menos, metade das pessoas estão a passar os dedos pelos telemóveis, que hoje em dia também servem para fazer e receber chamadas. Sei o que é isso, pois também o faço.
 
Comecemos pelas vantagens. Quem está hoje no Facebook ou no Twitter, por exemplo, está bem informado. Esta é uma realidade. É preciso saber filtrar a informação, pois deste modo qualquer um de nós pode dar uma notícia no Facebook. Aí, é preciso cuidado. No entanto, se todos os órgãos de informação hoje estão nas redes sociais, também aí a informação está em constante actualização. Resumindo, estar nas redes sociais faz com que saibamos quase tudo o que se passa na nossa região, no país e no mundo. Seguindo as pessoas e as páginas certas, isso é mesmo possível.
 

Vêm aí campanhas eleitorais que, à semelhança das últimas a que temos assistido, tem as redes sociais como um dos palcos principais. Toda a gente quer estar onde toda a gente está e é isso que torna estas redes sociais mais apetecíveis, aos bons e aos maus.

 
Depois, há a partilha de conhecimentos e experiências com pessoas com os mesmos interesses que nós, o marketing pessoal e profissional, a divulgação rápida e eficaz de iniciativas e, entre outras vantagens, é claro que não podemos esquecer o facto de rapidamente nos colocarmos em contacto com alguém que nos é próximo, ou com aquele amigo de infância do qual deixámos de ter notícias. Conseguimos também, e ainda bem, estar mais "perto" da nossa família. Basicamente, estas são as grandes vantagens.
 
Quanto às desvantagens, é fácil identificar qual a maior: A exposição da nossa vida. No entanto, aqui, já depende de cada utilizador. Neste caso, o risco não é igual para todos. Somos nós mesmos que facultamos, na maior parte dos casos de forma indireta, informações pessoais que podem servir a quem não anda nestas coisas com as mesmas intenções que nós. Depois, há a questão da visibilidade. Cometer um erro num grupo restrito de pessoas, é uma coisa. Cometer um erro, por exemplo, no Facebook, não se tem noção do alcance da publicação e quem terá acesso a esse nosso descuido. Já imaginaram, por exemplo, um possível patrão ir pesquisar pelo vosso nome no Facebook, depois de receber um CV, e encontrar fotos menos, digamos, aceitáveis? Pois, poderá ir uma carreira pelo cano. É bom mostrar que temos amigos e que nos divertimos, mas é preciso ter cuidado.
 
Muita gente não se lembra que quando coloca algo na internet, perde o controlo do que acabou de colocar. As definições de privacidade são úteis mas não são barreiras. Há sempre um amigo do amigo que tem acesso e depois pronto, lá se vai a privacidade. O melhor é mesmo não arriscar. Não faltam por aí bons, ou por outro lado, maus exemplos.
 
Saber usar as redes sociais é fundamental e o mundo está atento para isso. Há estratégias de comunicação de empresas direccionadas para estas plataformas e, a política, já há muito que usa as redes sociais. Vêm aí campanhas eleitorais que, à semelhança das últimas a que temos assistido, tem as redes sociais como um dos palcos principais. Toda a gente quer estar onde toda a gente está e é isso que torna estas redes sociais mais apetecíveis, aos bons e aos maus.
 
* José Lameiras - Jornalista

O que é isto de Felicidade?

Escrito por terça, 14 abril 2015 23:33

 

A felicidade é como a pluma que o vento vai levando pelo ar. Voa tão leve, mas tem a vida breve.” – Vinicius de Moraes
 
A felicidade não é um ideal da razão mas sim da imaginação” – Emmanuel Kant
 
Não existe um caminho para a felicidade. A felicidade é o caminho” – Gandhi
 
Só um idiota pode ser totalmente feliz” – Mario Vargas Llosa
 
O segredo da felicidade é encontrar a nossa alegria na alegria dos outros” – Alexandre Herculano
 
O mais feliz dos felizes é aquele que faz os outros felizes” – Alexandre Dumas
 
A felicidade não é algo que apareça pronto a consumir. Esta vem a partir das nossas próprias acções” – Dalai Lama
 
A felicidade “… é a maior das loucuras humanas” – Florbela Espanca
 
Onde é que eu me fui meter?

 
O que é que me deu na cabeça para falar de um tema tão complexo e 
ao mesmo tempo tão simples como a felicidade? Se querem que vos diga nem eu próprio sei. Talvez por ser essa a minha condição actual, a que me faz ser quem sou, viver o que vivo, estar onde estou, sentir o que sinto, olhar para quem olho, talvez seja a razão que me faz dizer aquilo que digo, ver o que vejo e até mesmo escrever aquilo que escrevo. 
 
É verdade, sou feliz! E sou feliz porque sim!
 
Se me perguntarem se sou feliz todos os dias da minha vida e em todas as circunstâncias da mesma, reconheço que não. Como se costuma dizer …“há dias e dias”. Há dias melhores, outros menos bons e há até mesmo uns extraordinariamente maus. No entanto, o que para determinado indivíduo pode ser bom, para outro pode mesmo ser mau. Eu, como não tenho o dom de conseguir ler os pensamentos e muito menos identificar somente com o olhar os sentimentos de cada um, só posso mesmo falar por mim e reflectir sobre os meus sentimentos e sobre o que me faz feliz. 
Tenho que vos confessar que a minha maior felicidade foi ter visto nascer os meus três filhos. É inexplicável, é indescritível, é extraordinário, fantástico, fabuloso, sublime ver um ser vir ao mundo. Ainda hoje quando recordo os três actos heroicos da minha mulher (sim porque as mulheres são umas heroínas… mais ainda quando dão à luz) vem a mim um misto de sentimentos que ficam para a vida e que só me trazem a dita felicidade. 
 
A felicidade também é isto, um misto de sentimentos, mas não é só. Se olharmos para as citações que transcrevi no início desta coluna, facilmente identificamos a complexidade do significado da palavra e verificamos que cada pessoa tem o seu próprio conceito do termo. Escolhi estas citações como poderia ter escolhido centenas de outras, ainda assim considero que estas se adequam perfeitamente para o entendimento do quão difícil é ser feliz e descrever a felicidade. 
 
Por incrível que pareça há muita gente que só se sente feliz sobrevalorizando as capacidades do outro, pisando e humilhando. É triste mas é verdade. 
 

ser feliz é viver o ar da cidade e muito mais o do campo, do mar e da montanha… é beijar, ser beijado e dar a beijar aos outros… ser feliz é ter saúde, é respirar, é viver, é ser livre, é ser um só e é ser um todo

 
Ernest Hemingway, por exemplo, dizia que “A felicidade em pessoas inteligentes é das coisas mais raras que conheço”... nessa perspectiva eu devo ser muito burro porque não acredito ser uma pessoa assim tão rara. 
 
Para mim ser feliz é tão simplesmente ver, cheirar, saborear, ouvir, sentir… é correr, saltar, chorar, tocar… ser feliz é dormir tarde e acordar tarde, dormir cedo e acordar cedo, dormir cedo e acordar tarde, dormir tarde e acordar cedo… é não dormir porque não apetece… é tão simplesmente acordar…. Ser feliz é estar, é ficar, é ir e partir à descoberta, é ter a coragem de ser o que se é… é dizer verdade, é partilhar amizade, é dar e receber amor… ser feliz é viver o ar da cidade e muito mais o do campo, do mar e da montanha… é beijar, ser beijado e dar a beijar aos outros… ser feliz é ter saúde, é respirar, é viver, é ser livre, é ser um só e é ser um todo. 
 
Então o que é afinal isto de felicidade? 
 
Das muitas formas, algumas complexas, como Fernando Pessoa ilustra a felicidade há uma que me cativa de um modo absolutamente extraordinário pela sua simplicidade. É, de tal forma graciosa que entendi partilhá-la aqui convosco: 
 
Às vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o tempo passar, vale a pena ter nascido”. 
 
O estado de felicidade do escritor não é naturalmente explícito mas nós, leitores, conseguimos com aquele sentimento ouvir o vento e sentir o tempo passar. 

 
Falar de felicidade é uma miríade de coisas, é uma multiplicidade de sentimentos. Como podemos verificar, pode não ser assim tão fácil falar dela. Exemplo disso mesmo são as óbvias e infindáveis diferenças de opinião entre as pessoas. No meu caso particular tenho que discordar de um dos meus escritores favoritos, o Nobel José Saramago, quando define a felicidade como egoísta. Na minha humilde maneira de ver, a felicidade pode não ser egoísta se eu for feliz com a felicidade do outro, se a felicidade de ambos nos fizer sentir bem, se nos fizer viajar, sonhar e viver intensamente. Em contrapartida, e de acordo com a minha personalidade, tenho que me identificar em absoluto com as palavras de Madre Teresa de Calcutá quando diz que “Não devemos permitir que alguém saia da nossa presença sem se sentir melhor e mais feliz”. De certa forma estas mesmas palavras servem para mim como um dos meus lemas de vida (quem me conhece sabe que é verdade). 
 
Obviamente que o tema é extenso e complexo. Não pode ficar aqui esgotado, é impossível que fique (talvez um dia volte ao assunto).
 
Nos dias de hoje muito se ouve dizer que “devemos viver cada dia como se fosse o último” mas como viver esses dias sem felicidade? O chavão até faz sentido… se conseguirmos que haja harmonia… se conseguirmos processar no nosso cérebro a tentativa constante e ininterrupta de sermos sempre melhores pessoas… se conseguirmos ser idiotas, como diz Vargas Llosa… se conseguirmos descobrir o segredo a que se refere Alexandre Herculano e que está em cada um de nós… se tudo isso acontecer conseguiremos com certeza concretizar “… a maior das loucuras humanas” e consequentemente viver cada dia em felicidade como se fosse o último.
 

Reabilitação urbana, uma missão colectiva

Escrito por quarta, 08 abril 2015 13:30
Assistimos hoje em dia à degradação dos núcleos históricos e antigos das cidades e vilas contemporâneas, degradação essa que não se verifica apenas ao nível das estruturas urbanas edificadas, mas também ao nível dos espaços públicos e do ambiente social e económico, os quais são condição fundamental para a sua sobrevivência. Este fenómeno, como é óbvio, opera à escala global e não é exclusiva desta ou daquela cidade, muito menos de Estremoz. Apenas nos é mais fácil identificá-lo naquilo que melhor conhecemos e que diariamente vivenciamos do que nas realidades que nos são mais distantes.
 
A deterioração dos centros urbanos é consequência de vários factores que estão interligados entre si, não se devendo a um fenómeno específico isolado. Como todos sabemos, tal como qualquer paisagem, também o espaço urbano está sujeito à acção mutável do tempo e dos agentes biofísicos, ao uso humano (muitas vezes excessivo), aos erros de desenho e de planeamento, bem como às constantes alterações daquilo que são as condições sociais e económicas das comunidades, em que a ausência de melhores condições de vida conduz ao despovoamento das zonas históricas.
 
Da mesma forma que não se trata de um fenómeno explicável apenas  por um motivo, também não existem soluções únicas para resolver o problema da degradação urbana e muito menos podemos encarar a reabilitação como um simples processo de recuperação de estruturas edificadas. Para alcançar o objectivo máximo de reabilitar as cidades, devemos encarar o processo como um fenómeno que deve congregar os esforços e contributos de diversos domínios do saber: arquitectura, arqueologia, urbanismo, paisagismo, sociologia, história, antropologia, economia... por outro lado, deve principalmente reunir os contributos da classe política e das pessoas que habitam a cidade. A primeira porque à política compete tomar decisões de fundo, de escolha de estratégias e de caminhos a seguir; as segundas porque são as pessoas que dão vida ao espaço urbano, que o constroem e destroem, que são proprietárias e que vivem o espaço urbano, de forma permanente ou temporária. Qualquer plano de reabilitação urbana que não contemple a participação activa e financeira dos particulares está condenado ao fracasso.
 
O regime jurídico da reabilitação urbana em vigor no nosso país é de 2009 e foi revisto em 2012. Trata-se de um instrumento legal de gestão territorial que, embora represente um extraordinário avanço nesta área, possui ainda uma série de omissões e de pontos fracos que importa redefinir pelo poder político nacional. Ainda assim, e à falta de melhor, tem pelo menos algumas vantagens e inovações face ao quadro legal que existia anteriormente e que me parecem vir facilitar e beneficiar a vida das autarquias e dos particulares em todo o processo de reabilitação. Entre elas destaco uma mais clara definição daquilo que são as áreas de reabilitação urbana (ARU) e dos processos de delimitação, planeamento e intervenção nestas zonas; a simplificação do procedimento de plano de pormenor em ARU delimitada; as garantias dadas ao particulares abrangidos pela ARU, ao nível dos benefícios fiscais (IMI) e ao nível do acesso a incentivos fiscais e financeiros para reabilitar; a definição de instrumentos legais que permitem aos municípios actuar perante a impossibilidade dos particulares efectuarem a reabilitação das suas propriedades.
 

Qualquer plano de reabilitação urbana que não contemple a participação activa e financeira dos particulares está condenado ao fracasso

 
Neste particular, no caso de delimitação de uma operação de reabilitação urbana sistemática, ficam os municípios habilitados a declarar a utilidade pública da expropriação ou da venda forçada de imóveis degradados existentes no interior da ARU, bem como à constituição de servidões, sem que com isso fiquem os proprietários lesados e não recebam o justo valor de indemnização. 
 
Os municípios podem ainda criar regimes de taxas específicos de incentivo à reabilitação, mas, em minha opinião, a principal e mais significativa prerrogativa deste regime jurídico é o de permitir às autarquias que elaborem planos de pormenor de reabilitação urbana ficarem dispensadas de consulta às entidades públicas no âmbito dos procedimentos de controlo prévio de operações urbanísticas na área de intervenção do plano, desde que essas entidades tenham emitido parecer favorável ao plano.
 
Poderão dizer-me que vai ser pior desta forma, que os municípios precisam de ser controlados pelas entidades que tutelam o património cultural, que esta medida vai dar azo à criação de espaços desordenados e de edifícios de tipologias irregulares ou desenquadrados da envolvente. Não encaro a questão dessa forma. Vejo aqui uma oportunidade para que os municípios, mas principalmente os particulares, se livrem da burocracia e da prepotência daquelas entidades, nas quais existe sempre algum técnico que pretende dar o seu cunho pessoal aos projectos dos outros técnicos. Ou, não raras vezes, algum técnico que simplesmente embirrou com um desenho em particular ou que, por questões meramente políticas ou de gosto pessoal, decide emitir parecer desfavorável a uma determinada iniciativa de edificação ou recuperação em zona histórica. 

 
Claro que não podem ser os municípios a decidir sozinhos a estratégia de intervenção nas ARU. Deve haver espaço para que as entidades públicas se pronunciem em tempo próprio, para que verifiquem a conformidade dos planos de pormenor com a política de intervenção no património cultural e que actuem em caso de desrespeito por aquilo que deve ser um urbanismo de qualidade e de respeito pelos valores em presença. Não podem é ser sempre uma condicionante para que as coisas aconteçam. Talvez também à custa de tanta burocracia e entrave não se tenha conseguido cativar os particulares para a reabilitação. Porque, para além de ser oneroso, é moroso e desmotivante.
 
Tão importante como o papel dos municípios na intervenção em edifícios e espaços públicos é o papel dos particulares. São eles os principais proprietários da cidade e é também a eles que cabe dinamizá-la. O novo quadro comunitário, Portugal 2020, e os fundos de investimento imobiliário garantem e incentivam a reabilitação urbana, através do financiamento de particulares em ARU delimitadas.
 
É uma missão colectiva dos municípios, em conjunto com as entidades da administração central e com os munícipes, a delimitação de uma estratégia de reabilitação que promova a sustentabilidade das cidades contemporâneas e isso implica não só o investimento na recuperação dos edifícios e do espaço público, mas também a definição de iniciativas de revitalização social e económica das áreas alvo de regeneração, sob pena de se reabilitarem espaços urbanos que nunca serão vividos por quem realmente interessa que lá se mantenha: as pessoas.
 
Existem ainda muitas condicionantes para que tal aconteça, mas acredito que com o esforço de todos se consiga ordenar a paisagem urbana pela positiva, ou seja, transformando aquilo que hoje são condicionantes em potencialidades com futuro.
 
* António Serrano - arquitecto paisagista
 

Sobre rodas, "Sorrindo às Dificuldades"

Escrito por quarta, 01 abril 2015 01:16
Francisco Alegria Chouriço, "Zé da Gata", Januário Gonçalez, António "Puskas", João Pedro Cascais, Mário Lagartinho, Zé Miguel, Adriano Chouriço, Ângelo Madeira, Jorge Nunes, Emanuel Caldeira. Mais recentemente, Joaquim Serra, José Alberto Fateixa, José "Sapo", Francisco Alberto Chouriço, Rui Serrano, José Gonçalez, "Tonico", João e Rui Mata. Faltam aqui muitos. As minhas deculpas aos que não são aqui referenciados mas não cabem aqui todos. Quem tem acompanhado o Hóquei em Patins em Estremoz, rapidamentente percebe o porquê de surgirem aqui estes nomes.
 
Fico triste. Acompanho a modalidade há quase 30 anos e tenho sensação de que esta é uma chama que se tem apagado. Noutros tempos, o dia em que havia hóquei em Estremoz era, para a cidade, um dia especial. As conversas nos cafés andavam em redor do adversário ou daquelas que deveriam ser as apostas iniciais. Esclareço, desde já, que não acompanhei os tempos da primeira divisão. Pelo que me contam, "isso era uma loucura". Garantiram-me que era o público que fazia a diferença. Além das sticadas fortes do "Chouriço", das defesas impossíveis do "Zé da Gata" e do Emanuel, dos desarmes do "Serrinha" e da técnica do Januário, era o público que na grande parte das vezes empurrava a equipa para a vitória. 
 
Jogar em Estremoz não era para todos. Tanto na "Esplanada" como no Pavilhão, quem nos vinha visitar estava consciente de que levar daqui uma vitória era uma tarefa difícil. Dizem-me, alguns adeptos desses tempos, que "os que cá vinham, começava logo a perder, só de perceberem o ambiente que os esperava". Os estremocenses eram conhecidos pela sua garra e pelo seu talento. Diziam-se que em Estremoz se nascia com "jeito" para o Hóquei. Todos os jovens queriam experimentar. Jogava-se nos bairros, principalmente no que está mais próximo do Pavilhão, hóquei na rua, utilizando as sarjetas como balizas. Os que já jogavam, tentavam levar amigos e vizinhos para o pavilhão. Os pais que tinham jogado, incentivavam os filhos a começar. 
 
Noutros tempos, ser jogador de hóquei do "Estremoz" era uma honra. Era para todos um orgulho vestir aquela camisola. Os que jogavam menos, não baixavam os braços e esperavam ansiosamente uma oportunidade. Poderia dar vários exemplos, mas prefiro generalizar. O Pavilhão e a "Esplanada" receberam grandes jogos, grandes craques. Muitos dos estremocenses não têm noção que já por aqui passaram os melhores de Portugal e alguns dos melhores do Mundo. Ainda há bem pouco tempo, há cerca de 14 anos, o nosso Pavilhão ia "rebentando pelas costuras" com a recepção ao Benfica para a Taça de Portugal. Nessa equipa encarnada estavam alguns dos melhores de sempre: Panchito Velazqués, Luis Ferreira, Filipe Gaidão, Vitor Fortunado, Ricardo Pereira, Zé Carlos Califórnia. Todos estes já foram Campeões do Mundo. Estavam cerca de quatro mil pessoas nas bancadas.
 

Este texto pode ser entendido como um alerta. Uma chamada de atenção de quem está por dentro e vê um futuro difícil para a modalidade nesta terra

 
Há dois anos atrás, a equipa principal esteve perto de regressar à 2ª Divisão. Jogava em casa e tinha de pontuar para que tal acontecesse. O público respondeu à chamada e o pavilhão voltou a ter ambiente. A equipa falhou, perdeu de forma clara, e muitos dos que compareceram nunca mais voltaram. Esta época, já vi um jogo da equipa principal que acabou com cerca de uma dúzia de adeptos nas bancadas. Os jogos das camadas jovens têm, claramente, mais público.
 
Já ouvi várias teorias sobre o facto de hoje tudo ser diferente. Até agora, nenhuma delas me convence. Primeiro como praticante e agora como treinador, tenho acompanhado de perto todos os acontecimentos. "Estamos no interior e aqui é difícil". É verdade, mas há equipas aqui perto que estão descansadamente na segunda divisão e outras a fazerem prestações dignas na terceira. "Os jovens depois vão para a universidade". Pois vão, e felizmente, mas os das outras equipas também vão. "Estremoz é uma cidade pequena". Turquel, tem cerca de 4500 habitantes e tem uma equipa na 1ª Divisão. "Isto só ia para a frente se houvesse dinheiro para ir buscar jogadores fora". Podia ser uma solução. No entanto, os de cá, se quisessem, devem bem conta do recado. 
 
No que toca à formação, sendo suspeito para opinar, penso que o caminho é o que está a ser seguido. No entanto, era preciso mais gente para trabalhar e, também, para patinar. Na iniciação, estão cerca de 20 crianças. É um número bom, mas deviam ser 40 ou 50. Entendo que este não é um desporto fácil em várias vertentes, mas acreditem que os frutos aparecem. Aprender a patinar correctamente e aliar isso ao manuseamento de um stick e uma bola, não é fácil e leva tempo. Um jogador de hóquei não se faz de um dia para o outro. É certo, também, que não é um desporto barato. No entanto, com boa vontade de pais, direção do clube e das empresas que colaboram, tudo se pode resolver. É preciso é vontade.
 
Este texto pode ser entendido como um alerta. Uma chamada de atenção de quem está por dentro e vê um futuro difícil para a modalidade nesta terra. No caso dos mais jovens, cabe aos pais e treinadores incutir-lhes que o respeito que os adversários têm por esta camisola demorou muitos anos a construir. Todos são poucos para ajudar. É preciso que os que por lá passaram, façam pelos outros aquilo que um dia alguém fez por eles. Também esses, deveriam ir mais vezes ao Pavilhão apoiar os sucessores. Está nas nossas mãos. Vamos todos, sobre rodas, sorrir às dificuldades.
 
* José Lameiras - jornalista

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