domingo, 19 novembro 2017

A paisagem e as modas

Escrito por quinta, 07 maio 2015 01:42
A Paisagem é o resultado das diversas interações entre os elementos naturais e o Homem. A grande maioria das interações naturais resultam em manifestações muito bem conseguidas, de maior ou menor complexidade e de maior ou menor beleza. Excluo aqui do meu conceito de beleza o resultado de algumas catástrofes naturais, ainda que, pela sua magnitude e pela sensação de pequenez e impotência que esses fenómenos nos transmitem, as pudesse incluir na categoria de belo que muitos atribuem ao sublime.
 
Já no caso das interações entre o Homem e a Natureza, também elas de maior ou menor dimensão, simplicidade ou beleza, em muitos casos o resultado não é tão feliz. É claro que o conceito de belo é talvez o mais subjetivo dos conceitos, na medida em que depende do gosto pessoal de quem observa e da forma como cada objeto é apreendido e interpretado pelo observador. Ainda assim, há uma tendência para um grande número de pessoas ter maior ou menor afinidade com uma ou outra situação, o que acontece também na forma como interpretamos a Paisagem. Quantas vezes não gostamos de um determinado edifício, de um determinado espaço ou elemento escultórico, e milhões de outras pessoas os adoram?
 

...o Homem não soube compreender a Natureza e o espírito do lugar, construindo fora de contexto e agindo apenas de acordo com a "moda"

 
 
Apesar desta heterogeneidade de gostos, que nos leva a atribuir ao conceito de belo a tal subjetividade, o que é certo é que, também na Paisagem e tal como em muitas outras situações da vida, orientamos o nosso gosto por aquilo que "está na moda". Dessa atitude resultam, muitas vezes, alguns dos casos menos felizes da interação entre o Homem e os fenómenos naturais, todos eles porque o Homem não soube compreender a Natureza e o espírito do lugar, construindo fora de contexto e agindo apenas de acordo com a "moda". Uma linha, um ponto, um volume, uma espécie, um material ou um qualquer outro elemento dissonante e não enquadrado com o meio envolvente pode resultar numa catástrofe maior, em termos de imagem que nos é apresentada, do que o efeito de algumas catástrofes naturais na Paisagem.
 
Por exemplo, parece que está agora na moda substituir um dos elementos que melhor caracterizam e definem as paisagens mediterrânicas, a oliveira, por outras espécies que, alegadamente, também se adaptam às nossas condições edafoclimáticas, sob o pretexto de que daí poderão resultar maiores rendimentos económicos. Passo diariamente por um desses exemplos, uma extensa plantação de Figueiras-da-Índia e questiono-me todos os dias acerca da viabilidade e dos efeitos desta moda na Paisagem. É verdade que a Figueira-da-Índia parece prometer muito a quem opta pela sua introdução nas paisagens alentejanas, mas será que estamos cientes do quanto melhor estavam integradas as oliveiras nestas paisagens? Será que estamos cientes do quanto esta cultura contribuía para combater a erosão dos solos e para a regulação do ciclo hidrológico? Estaremos cientes dos efeitos que esta moda vai ter no futuro da paisagem a longo prazo?
 
Poder-me-ão dizer que o olival já não dava rendimento, ou que a nova cultura permite uma série de oportunidades inalcançáveis com a cultura da oliveira, mas continuarei com a opinião de que tudo não passa mesmo de uma moda e que os efeitos na imagem e na sustentabilidade da paisagem serão devastadores. Principalmente quando todos quiserem tirar proveito desta nova moda e as oportunidades se transformarem em fragilidades, sem espaço para todos tirarem rendimento. Não sou contra que se tirem proveito das oportunidades, mas há que fazê-lo com conta, peso e medida.
 

Pior que uma moda, a propaganda política prolifera pela paisagem urbana e, qual parasita, surge acorrentada às árvores e aos postes de iluminação pública, ou colada nas fachadas de edifícios históricos

 
Mas não só no espaço rural nos deparamos com exemplos de interações infelizes entre o Homem e a Paisagem. Também no espaço urbano vemos todos os dias manifestações humanas que atentam contra a boa imagem dos espaços públicos. Uma das que mais me aflige é devida à proteção que a nossa legislação dá aos partidos políticos e lhes confere o direito de espalhar cartazes, mupies, pendões e mil e um outros tipos de propaganda por onde lhes apetece.
 
Se qualquer pessoa tiver a infelicidade de visitar, por exemplo, o centro da cidade de Estremoz, irá deparar-se com uma centena de "elementos escultóricos" partidários, uns apelando ao voto, outros incentivando à queda do Governo e outros com apelos à revolução. Ou seja, mais do mesmo e igual a qualquer outro lugar deste "paraíso à beira-mar plantado", descaracterizando e ofuscando toda a beleza que o Homem construiu.
 
Pior que uma moda, a propaganda política prolifera pela paisagem urbana e, qual parasita, surge acorrentada às árvores e aos postes de iluminação pública, ou colada nas fachadas de edifícios históricos. Destrói árvores, mobiliário e monumentos, cuja aquisição e manutenção é custeada por todos nós. Interfere na leitura e na fruição da Paisagem, o que também é um direito de todos. Em suma, contribui para uma imagem negativa do espaço público e isso é bastante para a considerar também como uma das maiores catástrofes da intervenção do Homem na Paisagem. 
 
Tenho esperança que, um dia, também os políticos entendam o significado de fazer política e percebam que há outras formas de fazer chegar a mensagem. Se todos pensarem como eu, com este tipo de propaganda a mensagem chega de uma forma perturbadora e, por isso, não chega a ser consumida.
 
Uma vez que são as lições do passado que nos mostram os caminhos do futuro, resta-me acreditar na aprendizagem humana  e na extraordinária capacidade de resiliência da Paisagem e esperar que, tal como acontece noutros casos, também estes exemplos passem de moda.
 
* António Serrano - Arquitecto Paisagista

Saberemos utilizar as redes sociais?

Escrito por quinta, 23 abril 2015 22:01
Esta é uma questão que todos nós deveríamos colocar a nós próprios. Outra questão é, de que forma poderemos tirar partido da nossa presença nas redes sociais?
 
Há de tudo nas redes sociais. O contacto imediato que acontece "na rede" é apetecível em toda a linha. As redes sociais, nomeadamente o Facebook, trouxeram muitas vantagens que é preciso saber aproveitar. É certo que, hoje em dia, entramos num local de lazer onde exista rede wi-fi e, pelo menos, metade das pessoas estão a passar os dedos pelos telemóveis, que hoje em dia também servem para fazer e receber chamadas. Sei o que é isso, pois também o faço.
 
Comecemos pelas vantagens. Quem está hoje no Facebook ou no Twitter, por exemplo, está bem informado. Esta é uma realidade. É preciso saber filtrar a informação, pois deste modo qualquer um de nós pode dar uma notícia no Facebook. Aí, é preciso cuidado. No entanto, se todos os órgãos de informação hoje estão nas redes sociais, também aí a informação está em constante actualização. Resumindo, estar nas redes sociais faz com que saibamos quase tudo o que se passa na nossa região, no país e no mundo. Seguindo as pessoas e as páginas certas, isso é mesmo possível.
 

Vêm aí campanhas eleitorais que, à semelhança das últimas a que temos assistido, tem as redes sociais como um dos palcos principais. Toda a gente quer estar onde toda a gente está e é isso que torna estas redes sociais mais apetecíveis, aos bons e aos maus.

 
Depois, há a partilha de conhecimentos e experiências com pessoas com os mesmos interesses que nós, o marketing pessoal e profissional, a divulgação rápida e eficaz de iniciativas e, entre outras vantagens, é claro que não podemos esquecer o facto de rapidamente nos colocarmos em contacto com alguém que nos é próximo, ou com aquele amigo de infância do qual deixámos de ter notícias. Conseguimos também, e ainda bem, estar mais "perto" da nossa família. Basicamente, estas são as grandes vantagens.
 
Quanto às desvantagens, é fácil identificar qual a maior: A exposição da nossa vida. No entanto, aqui, já depende de cada utilizador. Neste caso, o risco não é igual para todos. Somos nós mesmos que facultamos, na maior parte dos casos de forma indireta, informações pessoais que podem servir a quem não anda nestas coisas com as mesmas intenções que nós. Depois, há a questão da visibilidade. Cometer um erro num grupo restrito de pessoas, é uma coisa. Cometer um erro, por exemplo, no Facebook, não se tem noção do alcance da publicação e quem terá acesso a esse nosso descuido. Já imaginaram, por exemplo, um possível patrão ir pesquisar pelo vosso nome no Facebook, depois de receber um CV, e encontrar fotos menos, digamos, aceitáveis? Pois, poderá ir uma carreira pelo cano. É bom mostrar que temos amigos e que nos divertimos, mas é preciso ter cuidado.
 
Muita gente não se lembra que quando coloca algo na internet, perde o controlo do que acabou de colocar. As definições de privacidade são úteis mas não são barreiras. Há sempre um amigo do amigo que tem acesso e depois pronto, lá se vai a privacidade. O melhor é mesmo não arriscar. Não faltam por aí bons, ou por outro lado, maus exemplos.
 
Saber usar as redes sociais é fundamental e o mundo está atento para isso. Há estratégias de comunicação de empresas direccionadas para estas plataformas e, a política, já há muito que usa as redes sociais. Vêm aí campanhas eleitorais que, à semelhança das últimas a que temos assistido, tem as redes sociais como um dos palcos principais. Toda a gente quer estar onde toda a gente está e é isso que torna estas redes sociais mais apetecíveis, aos bons e aos maus.
 
* José Lameiras - Jornalista

O que é isto de Felicidade?

Escrito por terça, 14 abril 2015 23:33

 

A felicidade é como a pluma que o vento vai levando pelo ar. Voa tão leve, mas tem a vida breve.” – Vinicius de Moraes
 
A felicidade não é um ideal da razão mas sim da imaginação” – Emmanuel Kant
 
Não existe um caminho para a felicidade. A felicidade é o caminho” – Gandhi
 
Só um idiota pode ser totalmente feliz” – Mario Vargas Llosa
 
O segredo da felicidade é encontrar a nossa alegria na alegria dos outros” – Alexandre Herculano
 
O mais feliz dos felizes é aquele que faz os outros felizes” – Alexandre Dumas
 
A felicidade não é algo que apareça pronto a consumir. Esta vem a partir das nossas próprias acções” – Dalai Lama
 
A felicidade “… é a maior das loucuras humanas” – Florbela Espanca
 
Onde é que eu me fui meter?

 
O que é que me deu na cabeça para falar de um tema tão complexo e 
ao mesmo tempo tão simples como a felicidade? Se querem que vos diga nem eu próprio sei. Talvez por ser essa a minha condição actual, a que me faz ser quem sou, viver o que vivo, estar onde estou, sentir o que sinto, olhar para quem olho, talvez seja a razão que me faz dizer aquilo que digo, ver o que vejo e até mesmo escrever aquilo que escrevo. 
 
É verdade, sou feliz! E sou feliz porque sim!
 
Se me perguntarem se sou feliz todos os dias da minha vida e em todas as circunstâncias da mesma, reconheço que não. Como se costuma dizer …“há dias e dias”. Há dias melhores, outros menos bons e há até mesmo uns extraordinariamente maus. No entanto, o que para determinado indivíduo pode ser bom, para outro pode mesmo ser mau. Eu, como não tenho o dom de conseguir ler os pensamentos e muito menos identificar somente com o olhar os sentimentos de cada um, só posso mesmo falar por mim e reflectir sobre os meus sentimentos e sobre o que me faz feliz. 
Tenho que vos confessar que a minha maior felicidade foi ter visto nascer os meus três filhos. É inexplicável, é indescritível, é extraordinário, fantástico, fabuloso, sublime ver um ser vir ao mundo. Ainda hoje quando recordo os três actos heroicos da minha mulher (sim porque as mulheres são umas heroínas… mais ainda quando dão à luz) vem a mim um misto de sentimentos que ficam para a vida e que só me trazem a dita felicidade. 
 
A felicidade também é isto, um misto de sentimentos, mas não é só. Se olharmos para as citações que transcrevi no início desta coluna, facilmente identificamos a complexidade do significado da palavra e verificamos que cada pessoa tem o seu próprio conceito do termo. Escolhi estas citações como poderia ter escolhido centenas de outras, ainda assim considero que estas se adequam perfeitamente para o entendimento do quão difícil é ser feliz e descrever a felicidade. 
 
Por incrível que pareça há muita gente que só se sente feliz sobrevalorizando as capacidades do outro, pisando e humilhando. É triste mas é verdade. 
 

ser feliz é viver o ar da cidade e muito mais o do campo, do mar e da montanha… é beijar, ser beijado e dar a beijar aos outros… ser feliz é ter saúde, é respirar, é viver, é ser livre, é ser um só e é ser um todo

 
Ernest Hemingway, por exemplo, dizia que “A felicidade em pessoas inteligentes é das coisas mais raras que conheço”... nessa perspectiva eu devo ser muito burro porque não acredito ser uma pessoa assim tão rara. 
 
Para mim ser feliz é tão simplesmente ver, cheirar, saborear, ouvir, sentir… é correr, saltar, chorar, tocar… ser feliz é dormir tarde e acordar tarde, dormir cedo e acordar cedo, dormir cedo e acordar tarde, dormir tarde e acordar cedo… é não dormir porque não apetece… é tão simplesmente acordar…. Ser feliz é estar, é ficar, é ir e partir à descoberta, é ter a coragem de ser o que se é… é dizer verdade, é partilhar amizade, é dar e receber amor… ser feliz é viver o ar da cidade e muito mais o do campo, do mar e da montanha… é beijar, ser beijado e dar a beijar aos outros… ser feliz é ter saúde, é respirar, é viver, é ser livre, é ser um só e é ser um todo. 
 
Então o que é afinal isto de felicidade? 
 
Das muitas formas, algumas complexas, como Fernando Pessoa ilustra a felicidade há uma que me cativa de um modo absolutamente extraordinário pela sua simplicidade. É, de tal forma graciosa que entendi partilhá-la aqui convosco: 
 
Às vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o tempo passar, vale a pena ter nascido”. 
 
O estado de felicidade do escritor não é naturalmente explícito mas nós, leitores, conseguimos com aquele sentimento ouvir o vento e sentir o tempo passar. 

 
Falar de felicidade é uma miríade de coisas, é uma multiplicidade de sentimentos. Como podemos verificar, pode não ser assim tão fácil falar dela. Exemplo disso mesmo são as óbvias e infindáveis diferenças de opinião entre as pessoas. No meu caso particular tenho que discordar de um dos meus escritores favoritos, o Nobel José Saramago, quando define a felicidade como egoísta. Na minha humilde maneira de ver, a felicidade pode não ser egoísta se eu for feliz com a felicidade do outro, se a felicidade de ambos nos fizer sentir bem, se nos fizer viajar, sonhar e viver intensamente. Em contrapartida, e de acordo com a minha personalidade, tenho que me identificar em absoluto com as palavras de Madre Teresa de Calcutá quando diz que “Não devemos permitir que alguém saia da nossa presença sem se sentir melhor e mais feliz”. De certa forma estas mesmas palavras servem para mim como um dos meus lemas de vida (quem me conhece sabe que é verdade). 
 
Obviamente que o tema é extenso e complexo. Não pode ficar aqui esgotado, é impossível que fique (talvez um dia volte ao assunto).
 
Nos dias de hoje muito se ouve dizer que “devemos viver cada dia como se fosse o último” mas como viver esses dias sem felicidade? O chavão até faz sentido… se conseguirmos que haja harmonia… se conseguirmos processar no nosso cérebro a tentativa constante e ininterrupta de sermos sempre melhores pessoas… se conseguirmos ser idiotas, como diz Vargas Llosa… se conseguirmos descobrir o segredo a que se refere Alexandre Herculano e que está em cada um de nós… se tudo isso acontecer conseguiremos com certeza concretizar “… a maior das loucuras humanas” e consequentemente viver cada dia em felicidade como se fosse o último.
 

Reabilitação urbana, uma missão colectiva

Escrito por quarta, 08 abril 2015 13:30
Assistimos hoje em dia à degradação dos núcleos históricos e antigos das cidades e vilas contemporâneas, degradação essa que não se verifica apenas ao nível das estruturas urbanas edificadas, mas também ao nível dos espaços públicos e do ambiente social e económico, os quais são condição fundamental para a sua sobrevivência. Este fenómeno, como é óbvio, opera à escala global e não é exclusiva desta ou daquela cidade, muito menos de Estremoz. Apenas nos é mais fácil identificá-lo naquilo que melhor conhecemos e que diariamente vivenciamos do que nas realidades que nos são mais distantes.
 
A deterioração dos centros urbanos é consequência de vários factores que estão interligados entre si, não se devendo a um fenómeno específico isolado. Como todos sabemos, tal como qualquer paisagem, também o espaço urbano está sujeito à acção mutável do tempo e dos agentes biofísicos, ao uso humano (muitas vezes excessivo), aos erros de desenho e de planeamento, bem como às constantes alterações daquilo que são as condições sociais e económicas das comunidades, em que a ausência de melhores condições de vida conduz ao despovoamento das zonas históricas.
 
Da mesma forma que não se trata de um fenómeno explicável apenas  por um motivo, também não existem soluções únicas para resolver o problema da degradação urbana e muito menos podemos encarar a reabilitação como um simples processo de recuperação de estruturas edificadas. Para alcançar o objectivo máximo de reabilitar as cidades, devemos encarar o processo como um fenómeno que deve congregar os esforços e contributos de diversos domínios do saber: arquitectura, arqueologia, urbanismo, paisagismo, sociologia, história, antropologia, economia... por outro lado, deve principalmente reunir os contributos da classe política e das pessoas que habitam a cidade. A primeira porque à política compete tomar decisões de fundo, de escolha de estratégias e de caminhos a seguir; as segundas porque são as pessoas que dão vida ao espaço urbano, que o constroem e destroem, que são proprietárias e que vivem o espaço urbano, de forma permanente ou temporária. Qualquer plano de reabilitação urbana que não contemple a participação activa e financeira dos particulares está condenado ao fracasso.
 
O regime jurídico da reabilitação urbana em vigor no nosso país é de 2009 e foi revisto em 2012. Trata-se de um instrumento legal de gestão territorial que, embora represente um extraordinário avanço nesta área, possui ainda uma série de omissões e de pontos fracos que importa redefinir pelo poder político nacional. Ainda assim, e à falta de melhor, tem pelo menos algumas vantagens e inovações face ao quadro legal que existia anteriormente e que me parecem vir facilitar e beneficiar a vida das autarquias e dos particulares em todo o processo de reabilitação. Entre elas destaco uma mais clara definição daquilo que são as áreas de reabilitação urbana (ARU) e dos processos de delimitação, planeamento e intervenção nestas zonas; a simplificação do procedimento de plano de pormenor em ARU delimitada; as garantias dadas ao particulares abrangidos pela ARU, ao nível dos benefícios fiscais (IMI) e ao nível do acesso a incentivos fiscais e financeiros para reabilitar; a definição de instrumentos legais que permitem aos municípios actuar perante a impossibilidade dos particulares efectuarem a reabilitação das suas propriedades.
 

Qualquer plano de reabilitação urbana que não contemple a participação activa e financeira dos particulares está condenado ao fracasso

 
Neste particular, no caso de delimitação de uma operação de reabilitação urbana sistemática, ficam os municípios habilitados a declarar a utilidade pública da expropriação ou da venda forçada de imóveis degradados existentes no interior da ARU, bem como à constituição de servidões, sem que com isso fiquem os proprietários lesados e não recebam o justo valor de indemnização. 
 
Os municípios podem ainda criar regimes de taxas específicos de incentivo à reabilitação, mas, em minha opinião, a principal e mais significativa prerrogativa deste regime jurídico é o de permitir às autarquias que elaborem planos de pormenor de reabilitação urbana ficarem dispensadas de consulta às entidades públicas no âmbito dos procedimentos de controlo prévio de operações urbanísticas na área de intervenção do plano, desde que essas entidades tenham emitido parecer favorável ao plano.
 
Poderão dizer-me que vai ser pior desta forma, que os municípios precisam de ser controlados pelas entidades que tutelam o património cultural, que esta medida vai dar azo à criação de espaços desordenados e de edifícios de tipologias irregulares ou desenquadrados da envolvente. Não encaro a questão dessa forma. Vejo aqui uma oportunidade para que os municípios, mas principalmente os particulares, se livrem da burocracia e da prepotência daquelas entidades, nas quais existe sempre algum técnico que pretende dar o seu cunho pessoal aos projectos dos outros técnicos. Ou, não raras vezes, algum técnico que simplesmente embirrou com um desenho em particular ou que, por questões meramente políticas ou de gosto pessoal, decide emitir parecer desfavorável a uma determinada iniciativa de edificação ou recuperação em zona histórica. 

 
Claro que não podem ser os municípios a decidir sozinhos a estratégia de intervenção nas ARU. Deve haver espaço para que as entidades públicas se pronunciem em tempo próprio, para que verifiquem a conformidade dos planos de pormenor com a política de intervenção no património cultural e que actuem em caso de desrespeito por aquilo que deve ser um urbanismo de qualidade e de respeito pelos valores em presença. Não podem é ser sempre uma condicionante para que as coisas aconteçam. Talvez também à custa de tanta burocracia e entrave não se tenha conseguido cativar os particulares para a reabilitação. Porque, para além de ser oneroso, é moroso e desmotivante.
 
Tão importante como o papel dos municípios na intervenção em edifícios e espaços públicos é o papel dos particulares. São eles os principais proprietários da cidade e é também a eles que cabe dinamizá-la. O novo quadro comunitário, Portugal 2020, e os fundos de investimento imobiliário garantem e incentivam a reabilitação urbana, através do financiamento de particulares em ARU delimitadas.
 
É uma missão colectiva dos municípios, em conjunto com as entidades da administração central e com os munícipes, a delimitação de uma estratégia de reabilitação que promova a sustentabilidade das cidades contemporâneas e isso implica não só o investimento na recuperação dos edifícios e do espaço público, mas também a definição de iniciativas de revitalização social e económica das áreas alvo de regeneração, sob pena de se reabilitarem espaços urbanos que nunca serão vividos por quem realmente interessa que lá se mantenha: as pessoas.
 
Existem ainda muitas condicionantes para que tal aconteça, mas acredito que com o esforço de todos se consiga ordenar a paisagem urbana pela positiva, ou seja, transformando aquilo que hoje são condicionantes em potencialidades com futuro.
 
* António Serrano - arquitecto paisagista
 

Sobre rodas, "Sorrindo às Dificuldades"

Escrito por quarta, 01 abril 2015 01:16
Francisco Alegria Chouriço, "Zé da Gata", Januário Gonçalez, António "Puskas", João Pedro Cascais, Mário Lagartinho, Zé Miguel, Adriano Chouriço, Ângelo Madeira, Jorge Nunes, Emanuel Caldeira. Mais recentemente, Joaquim Serra, José Alberto Fateixa, José "Sapo", Francisco Alberto Chouriço, Rui Serrano, José Gonçalez, "Tonico", João e Rui Mata. Faltam aqui muitos. As minhas deculpas aos que não são aqui referenciados mas não cabem aqui todos. Quem tem acompanhado o Hóquei em Patins em Estremoz, rapidamentente percebe o porquê de surgirem aqui estes nomes.
 
Fico triste. Acompanho a modalidade há quase 30 anos e tenho sensação de que esta é uma chama que se tem apagado. Noutros tempos, o dia em que havia hóquei em Estremoz era, para a cidade, um dia especial. As conversas nos cafés andavam em redor do adversário ou daquelas que deveriam ser as apostas iniciais. Esclareço, desde já, que não acompanhei os tempos da primeira divisão. Pelo que me contam, "isso era uma loucura". Garantiram-me que era o público que fazia a diferença. Além das sticadas fortes do "Chouriço", das defesas impossíveis do "Zé da Gata" e do Emanuel, dos desarmes do "Serrinha" e da técnica do Januário, era o público que na grande parte das vezes empurrava a equipa para a vitória. 
 
Jogar em Estremoz não era para todos. Tanto na "Esplanada" como no Pavilhão, quem nos vinha visitar estava consciente de que levar daqui uma vitória era uma tarefa difícil. Dizem-me, alguns adeptos desses tempos, que "os que cá vinham, começava logo a perder, só de perceberem o ambiente que os esperava". Os estremocenses eram conhecidos pela sua garra e pelo seu talento. Diziam-se que em Estremoz se nascia com "jeito" para o Hóquei. Todos os jovens queriam experimentar. Jogava-se nos bairros, principalmente no que está mais próximo do Pavilhão, hóquei na rua, utilizando as sarjetas como balizas. Os que já jogavam, tentavam levar amigos e vizinhos para o pavilhão. Os pais que tinham jogado, incentivavam os filhos a começar. 
 
Noutros tempos, ser jogador de hóquei do "Estremoz" era uma honra. Era para todos um orgulho vestir aquela camisola. Os que jogavam menos, não baixavam os braços e esperavam ansiosamente uma oportunidade. Poderia dar vários exemplos, mas prefiro generalizar. O Pavilhão e a "Esplanada" receberam grandes jogos, grandes craques. Muitos dos estremocenses não têm noção que já por aqui passaram os melhores de Portugal e alguns dos melhores do Mundo. Ainda há bem pouco tempo, há cerca de 14 anos, o nosso Pavilhão ia "rebentando pelas costuras" com a recepção ao Benfica para a Taça de Portugal. Nessa equipa encarnada estavam alguns dos melhores de sempre: Panchito Velazqués, Luis Ferreira, Filipe Gaidão, Vitor Fortunado, Ricardo Pereira, Zé Carlos Califórnia. Todos estes já foram Campeões do Mundo. Estavam cerca de quatro mil pessoas nas bancadas.
 

Este texto pode ser entendido como um alerta. Uma chamada de atenção de quem está por dentro e vê um futuro difícil para a modalidade nesta terra

 
Há dois anos atrás, a equipa principal esteve perto de regressar à 2ª Divisão. Jogava em casa e tinha de pontuar para que tal acontecesse. O público respondeu à chamada e o pavilhão voltou a ter ambiente. A equipa falhou, perdeu de forma clara, e muitos dos que compareceram nunca mais voltaram. Esta época, já vi um jogo da equipa principal que acabou com cerca de uma dúzia de adeptos nas bancadas. Os jogos das camadas jovens têm, claramente, mais público.
 
Já ouvi várias teorias sobre o facto de hoje tudo ser diferente. Até agora, nenhuma delas me convence. Primeiro como praticante e agora como treinador, tenho acompanhado de perto todos os acontecimentos. "Estamos no interior e aqui é difícil". É verdade, mas há equipas aqui perto que estão descansadamente na segunda divisão e outras a fazerem prestações dignas na terceira. "Os jovens depois vão para a universidade". Pois vão, e felizmente, mas os das outras equipas também vão. "Estremoz é uma cidade pequena". Turquel, tem cerca de 4500 habitantes e tem uma equipa na 1ª Divisão. "Isto só ia para a frente se houvesse dinheiro para ir buscar jogadores fora". Podia ser uma solução. No entanto, os de cá, se quisessem, devem bem conta do recado. 
 
No que toca à formação, sendo suspeito para opinar, penso que o caminho é o que está a ser seguido. No entanto, era preciso mais gente para trabalhar e, também, para patinar. Na iniciação, estão cerca de 20 crianças. É um número bom, mas deviam ser 40 ou 50. Entendo que este não é um desporto fácil em várias vertentes, mas acreditem que os frutos aparecem. Aprender a patinar correctamente e aliar isso ao manuseamento de um stick e uma bola, não é fácil e leva tempo. Um jogador de hóquei não se faz de um dia para o outro. É certo, também, que não é um desporto barato. No entanto, com boa vontade de pais, direção do clube e das empresas que colaboram, tudo se pode resolver. É preciso é vontade.
 
Este texto pode ser entendido como um alerta. Uma chamada de atenção de quem está por dentro e vê um futuro difícil para a modalidade nesta terra. No caso dos mais jovens, cabe aos pais e treinadores incutir-lhes que o respeito que os adversários têm por esta camisola demorou muitos anos a construir. Todos são poucos para ajudar. É preciso que os que por lá passaram, façam pelos outros aquilo que um dia alguém fez por eles. Também esses, deveriam ir mais vezes ao Pavilhão apoiar os sucessores. Está nas nossas mãos. Vamos todos, sobre rodas, sorrir às dificuldades.
 
* José Lameiras - jornalista

Mulher é Vida

Escrito por quarta, 25 março 2015 23:27
É incontornável e inevitável da minha parte, porque não me consigo demitir de formular uma opinião muito própria sobre este assunto, a abordagem a um tema que infelizmente ainda não está esgotado na sociedade portuguesa, os maus tratos praticados sobre as mulheres. Ainda recentemente, numa iniciativa de um conhecido jornalista da nossa praça, foi lançado um tema musical que juntou oito vozes femininas, conhecidas do grande público, que dão voz a um hino da APAV- Associação Portuguesa de Apoio à Vítima- para o qual se tentam despertar consciências para a problemática da violência doméstica. Segundo as estatísticas, o número de mulheres assassinadas em Portugal nos últimos 10 anos ascende quase aos 400. Arrepiante!... aterrador como por ano morrem cerca de 40 mulheres às mãos de autênticos “animais”, se é que assim lhes posso chamar.
 
Questiono a falta de humanismo, a falta de respeito… questiono a ausência de tolerância e a ausência dos valores mais básicos do ser humano.
 
Questiono os motivos que fazem alguém sucumbir mentalmente à barbaridade de tirar a vida a um ser brilhante como a mulher.
 
É certo que a sociedade está em constante mutação, aliás… sempre esteve. Talvez o facto de evoluir muito rapidamente seja um dos factores que fazem com que a consolidação das mudanças não seja feita estruturalmente e o próprio Ser definhe, enfraqueça. Na minha perspectiva, nos dias de hoje, e em muitas circunstâncias, o Ser e a própria sociedade está enferma, consegue viver, sem aparentes preocupações, de acordo com valores completamente distorcidos do humanismo.
 
Onde é que está a amizade? Onde está o diálogo? Onde está o conceito de família?
 

Questiono os motivos que fazem alguém sucumbir mentalmente à barbaridade de tirar a vida a um ser brilhante como a mulher

 
Arrisco-me a dizer que, perante isto, e para enfrentar este nosso doente mundo é preciso ser-se corajosa para se ser mulher. Invejemos, porque não, a sua coragem… reconheçamos a sua sinceridade, a sua verdade, a sua firmeza, sabedoria, bondade, a sua justiça, exigência, paciência, a sua responsabilidade e resistência… respeitemos a sua interioridade, a sua complexidade, a sua impulsividade, a sua particular inteligência, respeitemos a sua superioridade, a sua ponderação, a sua protecção, a sua honestidade intelectual, a sua capacidade de resiliência e de superação, o seu incansável trabalho… deixemos que sejam mães, irmãs, meninas, amigas, que sejam fogo, que sejam gelo, deixemos que sejam selvagens, inocentes, atrevidas, maravilhosas, que sejam vaidosas, enigmáticas, extraordinárias, graciosas, ordenadas, deixemos que sejam boas, chatas, complicadas, pragmáticas, poderosas, abstractas… respiremos as suas formas, os seus aromas…
 
Dir-me-ão que é difícil entendê-las… reconheço… é um facto!… ainda assim é impossível viver sem elas. Tenho a plena consciência que, ainda que escrevesse um milhão de coisas sobre a mulher, era insuficiente para a definir e compreender. O próprio Oscar Wilde já dizia que “As mulheres existem para que as amemos, e não para que as compreendamos”. Mesmo sem nunca conseguirmos compreendê-las, é imperativo que o tratamento seja cordial, de amizade, amor, entreajuda, solidariedade, partilha, lealdade, honestidade e essencialmente de respeito pelos seus direitos fundamentais.
 
Que cesse, de uma vez por todas, a violência gratuita e repugnante sobre as mulheres!
 
Orgulhemo-nos das suas especificidades!
 
Orgulhemo-nos da mulher enquanto mulher!
 
Mulher é amor… é alma… é alegria… MULHER É VIDA!
 
* Luís Parente - Professor
 

Os desafios do novo PDM de Estremoz

Escrito por terça, 17 março 2015 23:54
A arte e ciência de ordenar o espaço exterior ao Homem, tal como foi definida por um dos grandes nomes da arquitectura paisagista portuguesa, Gonçalo Ribeiro Telles, é mais do que o simples desenho de jardins e espaços verdes. Pelo contrário, é uma profissão que nos permite ter uma maior atitude crítica perante o Mundo e antever ou planear os resultados das constantes interacções entre o Homem e a Natureza, com o objectivo de construir, de uma forma ordenada e sustentada, os habitats que suportam a vida, nas suas mais diversas manifestações. Devido à abrangência desta arte/ciência, que me leva muitas vezes a pensar que tirei um curso de "cultura geral", os arquitectos paisagistas estão aptos a realizar uma série de estudos, projectos e planos, os quais lhes permitem intervir a diversas escalas da paisagem.
 
Uma dessas escalas é, precisamente, o Plano Director Municipal (PDM), um dos principais instrumentos de gestão territorial que vigoram no nosso País e que abrange toda a área territorial de um concelho, estabelecendo o modelo de organização espacial desse território, bem como a estratégia de desenvolvimento que lhe está implícita, através da classificação do solo e das regras e parâmetros que se aplicam à sua ocupação, uso e transformação. É, por isso, um instrumento fundamental para definir a forma como a paisagem vai ser intervencionada pelo Homem e, ao mesmo tempo, o modo como as gerações actuais tiram o melhor partido possível das potencialidades do território, garantindo a sua manutenção para as gerações futuras.
 
É um processo que não diz respeito apenas aos políticos ou aos técnicos. É um processo que diz respeito a todos os cidadãos, na medida em que todos somos actores no vasto palco que é o território, porque nele vivemos e com ele interagimos. Muito menos o PDM pode ser encarado como um simples documento em que se descrevem normas ou índices urbanísticos, pois a gestão do território e a sua estratégia de desenvolvimento não se esgota nas questões relacionadas com a construção. O PDM define também estratégias relacionadas com a defesa do património cultural, com a salvaguarda dos valores naturais, com a protecção civil, com a regulação do ciclo hidrológico, com o desenvolvimento económico e social, com o desenvolvimento turístico, entre outros.
 
Está neste momento a decorrer a discussão pública da revisão do PDM de Estremoz. Trata-se de um processo que dura há já algum tempo e o actual PDM está francamente desactualizado (vigora há precisamente 20 anos), face à constante evolução das condições sociais, económicas e ambientais. Por essa razão, é importante que o novo PDM de Estremoz, que vai estar em vigor durante os próximos 10 anos, seja um documento que reflicta a realidade actual, que defina objectivos para o concelho e que, acima de tudo, estabeleça as principais linhas de intervenção que permitam que Estremoz encare positivamente os desafios que o futuro vai impor e que, como sabemos, são cada vez mais exigentes.
 

(...) o documento que está em discussão pública permitirá ao concelho de Estremoz dar mais um passo em frente (...)

 
É necessário que as linhas de orientação estratégica do PDM garantam que Estremoz seja um concelho competitivo, tirando partido das enormes potencialidades endógenas que possui, a diversos níveis - turismo, vinhos, produtos agro-alimentares e mármores, só para citar algumas.
 
Tenho acompanhado esta revisão do PDM e, em minha opinião, o documento que está em discussão pública permitirá dar uma boa resposta à maior parte destas questões, permitindo ao concelho de Estremoz dar mais um passo em frente, a caminho do desenvolvimento sustentado, contrariando a tendência de despovoamento do interior do País. Assim saibamos todos tirar partido das opções que o plano proporciona e consigamos antever as oportunidades que nele estão apontadas.
 
A participação de todos neste processo é fundamental. É este o momento certo para todos formularem questões, apresentarem sugestões e reclamações. Mas que esta participação não seja apenas centrada na velha questão "posso construir no meu terreno?", como tenho assistido na maioria das sessões públicas de esclarecimento que já decorreram... é preciso ir mais além e apresentar também sugestões ou soluções para dinamizar a economia ou para garantir a sustentabilidade dos sistemas naturais e humanos.
 
Já que nos é dada esta possibilidade de participar, o maior desafio que se coloca à participação pública é o de apresentar sugestões para o desenvolvimento global do concelho, ao invés de, como sempre, vivermos apenas preocupados com a nossa pequena "quintinha", com a nossa "parcela de paisagem". 
 
Percebamos, de uma vez por todas, que apenas conseguiremos ser mais competitivos e mais desenvolvidos se começarmos a olhar para a paisagem do geral para o particular, pois o futuro, também ele se constrói de forma global.
 
* António Serrano - Arquitecto Paisagista
 

Com a saúde não se brinca

Escrito por quinta, 12 março 2015 00:31
Que país temos quando se poupa na saúde? Em plena sala de espera de um hospital público, dou por mim a pensar que, com toda a certeza, nenhum governante passa por isto. Não acredito que, quem tem a responsabilidade de decidir, passe algum tempo nas salas de espera de hospitais públicos. Corro o risco de ser injusto, eu sei, mas mesmo assim arrisco, pois não posso concordar com o que vejo.
 
Os médicos e os enfermeiros são verdadeiros heróis. Trabalham horas a fio e não podem falhar. Se eu falhar no meu trabalho, não será, à partida, uma falha grave e poderei remediar a situação. Se eles falharem, pode não haver segunda oportunidade. Eles, esses heróis, mexem com vidas humanas. Como é possível terem de fazer tantas horas seguidas? Como é possível serem tão poucos? Como é possível haver gente nos corredores e tempos de espera absurdos? Faz-me confusão, admito.
 
Gostaria que um governante, daqueles que mandam alguma coisa, passasse, incógnito, umas horas numa qualquer sala de espera de um hospital e tivesse a capacidade de olhar em seu redor. Gostaria que visse o desespero de um filho porque a mãe está lá dentro há dez horas. Gostaria que visse um espaço onde cabem dez macas e estão lá cinco ou seis a mais. Gostaria que visse a correria de médicos e enfermeiros para que nada falte aos doentes. Gostaria que visse a cara das pessoas que esperam, ansiosamente, que alguém as chame para que sejam atendidas.
 
Não posso concordar, nem pouco mais ou menos, com cortes no SNS. A Saúde e a Educação são áreas onde se deve investir e não cortar. Fiscalizem mais e cortem menos. Apertem com aqueles que não cumprem e gratifiquem os que cumprem. Estão em causa vidas humanas. Isso não será suficiente para acabar, de vez, com estes cortes absurdos? Estimulem os médicos e os enfermeiros a ficar por cá. Os bons têm de estar em Portugal. Fará algum sentido estarmos a formar médicos e enfermeiros e depois eles emigrarem? Não há verba? Basta olhar para o batalhão de assessores que se fabricam neste país, para se perceber quantos se poderiam trocar por médicos ou enfermeiros. 
 

Basta olhar para o batalhão de assessores que se fabricam neste país, para se perceber quantos se poderiam trocar por médicos ou enfermeiros.

 
É dificil, para quem utiliza o SNS, entender que tem de haver cortes no transporte de doentes, nas consultas, nos exames, no pessoal que está de serviço. Contratem mais profissionais e paguem o que é justo. Este país funciona mal em várias áreas. No entanto, com a saúde não se pode mesmo brincar. Não se pode cortar no bem-estar daqueles que passam a vida a descontar para isto, para aquilo e para o outro. Sim, porque esses são sempre os mais prejudicados. 
 
 
Um novo estudo da Universidade Nova de Lisboa indica que cerca de 10% dos portugueses não vão ao médico e 16% deixam de comprar medicamentos prescritos devido às dificuldades financeiras. É como quem diz, cerca de um millhão de pessoas em Portugal não vai ao médico porque não tem dinheiro. O SNS foi criado para que todos tivessemos acesso à saúde. Pelos vistos, ela só está ao alcance de alguns. E os que não podem comprar os medicamentos? O que lhe fazemos? Na grande maioria, são casos de desemprego ou de reformas muito baixas. São pessoas que trabalharam uma vida inteira e hoje recebem entre 200 e 300 euros por mês. Isto, quando em Portugal há quem receba seis mil euros de pensão. Sim, neste país pobre há quem receba seis mil euros para passear o cão, se o tiver. A questão é que nem todos conseguiram, enquanto estiveram no activo, serem, por exemplo, gestores de empresas públicas.
 
* José Lameiras - Jornalista
 

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