sábado, 16 dezembro 2017

Encontro com Freud - Crónica VI

Escrito por segunda, 26 outubro 2015 23:09
…”encontrei-me com Freud” para refletir o privado e o íntimo, dois conceitos semelhantes ou significativamente diferentes, incompatíveis ou complementares? …Momentos privados, aqueles que partilhamos com alguém, onde o nosso comportamento é pautado e/ou motivado por sentimentos, desejos, anseios e despido de preocupações, mais ou menos latentes relativamente à linguagem, à expressão corporal e até ao sentido crítico, que é como quem diz, menos formais e mais descontraídos… Partilhamos momentos privados nas nossas relações, sejam relações físicas, emocionais e em que os objetos (considera-se aqui “objeto” aquele com que nos relacionamos, aquele a quem dirigimos a nossa atenção em determinado contexto e situação) podem ser mais ou menos próximos, do ponto de vista de conhecimento pessoal. É comum ouvirmos falar em relações fugazes, um momento, uma noite, um espaço e um tempo com quem se esteve em privado ou anos de vida em privado, um namoro, um casamento, uma amizade, uma relação familiar, em todas elas temos consciência do grau de intimidade? Será que até hoje partilhámos efetivamente a nossa intimidade com alguém? Vou considerar o íntimo aquilo que guardamos na alma, o que desejamos em cada momento privado, os nossos medos, os nossos anseios, as nossas imperfeições, a forma como nos vemos e olhamos o mundo à nossa volta, o que nos satisfaz, o que gostamos, o que sentimos em cada momento, tempo e espaço, que às vezes é tão mutável e inconstante que tentamos apenas que passe e voltemos a sentir/ estar como é esperado.
 

A pressão, o preconceito, a cultura, a mentalidade em que crescemos são muitas vezes “algemas” que não nos deixam livres até para os que amamos e nos amam. Pais, Educadores, Professores permitam que os vossos filhos sintam e o possam expressar sem medo, ajudem os vossos filhos a gerir frustrações, percebam que os melhores amigos existem e que o vosso papel nunca será esse...

É tão fácil partilhar situações de felicidade, uma paixão, uma viagem que se realiza, um emprego que se ambiciona, um sonho que se realiza, e quando perdemos, quando a dor é maior que a vida inteira, quando o sofrimento abre uma ferida que teima em cicatrizar, tendencialmente fechamo-nos em “concha”, podemos até verbalizar mas será que partilhamos o que intimamente sentimos? É comum que cada um procure o seu espaço e tempo longe de tudo e de todos, é comum que o façamos com intuito de proteger os que nos estão próximos e aqui temos dois problemas fundamentais, por um lado o sofrimento aumenta e por outro provocamos nos outros um processo de “adivinhação” relativamente ao que sentimos, pensamos, queremos o que muitas vezes confunde reações e emoções de parte a parte.
 
Meus amigos, quando dividimos, quando partilhamos, o peso é menor… A intimidade é muito mais que partilhar corpos, beijos, abraços, discussões, ideias, espaços e tempos… Muitas vezes despimos a roupa mas sem nos despirmos de alma, essa guardamos porque é o que temos de mais precioso e único. A pressão, o preconceito, a cultura, a mentalidade em que crescemos são muitas vezes “algemas” que não nos deixam livres até para os que amamos e nos amam. Pais, Educadores, Professores permitam que os vossos filhos sintam e o possam expressar sem medo, ajudem os vossos filhos a gerir frustrações, percebam que os melhores amigos existem e que o vosso papel nunca será esse, aprendam que amar não significa controlar, escolher ou replicar o mesmo caminho mas sim orientar, escutar, aprender e respeitar que a felicidade e o amor se constroem e que o caminho é longo e todos necessitamos de um espaço e tempo onde a nossa intimidade não seja uma prisão, um peso e muito menos uma culpa de tudo e de coisa nenhuma. 
 
* Psicóloga Helena Chouriço

Queridos inimigos, eternos rivais

Escrito por quarta, 21 outubro 2015 12:46
Em 1907, em Carcavelos, o Sport Lisboa e o Sporting Clube de Portugal defrontaram-se pela primeira vez. Pelo Sporting, alinharam oito jogadores que teriam deixado o Sport Lisboa, reza a história, em busca de melhores condições, nem só financeiras. O Sporting ganhou 2-1, um dos jogadores (Cândido Rodrigues) que tinha mudado para o outro lado da rua marcou um golo e o da vitória leonina acabou por acontecer através de um autogolo, imagine-se, de Cosme Damião. Este é apenas o primeiro episódio de uma rivalidade centenária. 
 
Nesse primeiro jogo, entre esses oito jogadores que mudaram de lado, estavam dois fundadores do Sport Lisboa. Ou seja, isto não começou agora, nem há dez ou vinte anos. Tem sido uma rivalidade regada, fortalecida e, por vezes, alimentada e acentuada por atitudes irresponsáveis de alguns dirigentes que nunca o deveriam ter sido.
 

Mas, nem tudo é mau quando se trata destas rivalidades. Quando a mesma é racional, responsável e apenas no campo competitivo, alimenta a paixão que os adeptos têm pelo futebol. No campeonato de Lisboa, de 1908\1909, o nessa altura já Sport Lisboa e Benfica deslocou-se ao campo do Lumiar para defrontar o rival e ganhou por 2-1 com o golo da vitória a ser marcado depois de uma grande penalidade mal assinalada. Os "leões" protestaram muito depois do jogo, o Benfica reconheceu que o lance teria sido mal julgado e pediu que o jogo fosse anulado e repetido. A organização não permitiu e o resultado foi mesmo homologado. Alguém imagina que isto pudesse acontecer nos dias de hoje?
 
Em 1918, o Sporting apresentou-se no campo do Benfica apenas com 9 jogadores disponíveis para jogar. Foi atribuída a vitória ao Benfica, pois o Sporting não quis jogar com menos elementos. O Benfica não aceitou vencer desta forma e marcou-se nova data para o encontro que os encarnados haveriam de ganhar por 5-2.
 
Todos nós, que gostamos de futebol, esperamos sempre ansiosamente pelo dia do derby. Todos temos um amigo ou familiar que sofre pelo outro clube e isso é sempre motivo de conversa. É sempre um momento alto da época. Aconteceram, e acontecerão muitos mais, derbies históricos. Todos nós nos lembramos onde vimos aquele jogo que ficou na memória. Todos sabemos onde vimos os 6-3 com recital de João Pinto ou os 7-1 de Manuel Fernandes. O ambiente, em qualquer estádio, muda num jogo destes. Já assisti a alguns ao vivo e a atmosfera é completamente diferente. Em causa não está só a vitória numa competição, está a honra, está a história. Antes de começar, não sabemos o que vai acontecer. A história já mostrou que é impossível saber o que pode acontecer quando se defrontam estas duas equipas. Já vi goleadas, jogos sem golos mas muito intensos, jogadores que se revelaram num jogo como este e construíram, por isso, uma carreira, empates com muitos golos... enfim, a história já provou que neste jogo tudo pode mesmo acontecer. É precisamente por isto que este clássico é especial.
 

Tenho muita vontade que o "meu" clube ganhe no domingo por muitas e variadas razões. No entanto, tenho também muita vontade que toda a gente esteja em segurança a ver o jogo, seja no estádio ou num café onde existam adeptos dos dois lados, e que se grite muito, que se apoie muito durante os 90 minutos e que depois a vida prossiga normalmente.

Este texto vem nesta altura por um motivo óbvio: Domingo há jogo. Arrisco a dizer, que a época que estamos a viver ficará na história como um capítulo importante nesta rivalidade. Está num ponto alto e perigoso. O Sporting foi buscar um treinador que estava na Luz há seis anos e isso "incendiou", ainda mais, a segunda circular. Depois vieram as acusações e suspeitas, processos movidos em Tribunal, troca de acusações e gasolina para a fogueira. O derby do próximo domingo, vale muito mais que três pontos, parece que vale 30. Está, graças a tudo o que é dito e escrito, criado um ambiente que ultrapassa largamente a missão do futebol. Temos visto pouca gente preocupada sobre quem vai jogar de início ou a estratégia a utilizar por cada uma das equipas. Com o aproximar da hora do jogo, isto vai piorar.
 
A rivalidade, quando é saudável, é muito boa para o futebol. Ganhar ao rival faz com que as segundas-feiras sejam muito mais agradáveis. Faz com que se renove a confiança na equipa e na época. Agora, os dirigentes têm de perceber uma coisa: Apesar de tudo o que gira à volta do futebol, isto não é uma guerra. É certo que, para uns ganharem, outros têm de perder. No entanto, é apenas futebol, é apenas um jogo. É legítimo que se discuta se houve ou não penalty, se era ou não fora de jogo ou se a falta era para vermelho ou amarelo. Tudo isto é normal, dentro das regras da boa educação. Já não é normal, nem pouco mais ou menos, provocar o ódio entre apoiantes e não entender o que pode acontecer num local onde se juntam 65 mil pessoas, grande parte a puxarem para um lado e algumas para o outro.
 
Não é preciso falar em casos concretos ou trazer exemplos. De ambos os lados há responsabilidades para este clima, para esta "guerra". A luta deveria ser apenas dentro do campo. Tenho muita vontade que o "meu" clube ganhe no domingo por muitas e variadas razões. No entanto, tenho também muita vontade que toda a gente esteja em segurança a ver o jogo, seja no estádio ou num café onde existam adeptos dos dois lados, e que se grite muito, que se apoie muito durante os 90 minutos e que depois a vida prossiga normalmente. Afinal, o futebol serve para isto mesmo. Não deveria servir para albergar, tapar e amnistiar criminosos, gente sem caráter e mal formada. Viver o futebol ou, por outro lado, viver no futebol, deveria ser para quem pode...e não para quem quer. Que ganhe o melhor e mais competente, apenas isso.
 
* jornalista José Lameiras
 

Saúde de Água na Boca

Escrito por quinta, 15 outubro 2015 01:08
Desculpar-me-ão mas hoje falarei um pouco mais de mim. O assunto que vos trago é-me particularmente agradável. Do alto dos meus 110 quilos vou levar-vos numa viagem que vos vai falar de cheiros, sons, cores, texturas e sabores, no fundo vou partilhar convosco um dos maiores prazeres da vida… COMER.
 
Talvez não seja aconselhável a leitura deste texto a vegetarianos e vegans. Arriscar-me-ia mesmo a não aconselhá-lo também a quem não goste de comer, ou então não, quem sabe esta leitura não vos sirva de inspiração ou vos reavive a memória de sabores já esquecidos, de pratos confeccionados pelas mães, pelas avós ou por quem quer que seja.
 
O dia 16 de Outubro foi instituído como “Dia Mundial da Alimentação” e é comemorado um pouco por todo o lado com inúmeras actividades que apelam ao consumo de uma alimentação variada e sobretudo saudável. Naturalmente a alimentação varia de povos para povos, de culturas para culturas e até mesmo de estratos sociais para estratos sociais. Sinceramente o termo estrato social não é um termo que me agrade particularmente, sei que sempre os houve mas por mim alinho muito mais na igualdade pela diferença, ainda assim reconheço que infelizmente possa ser um pouco utópico pensar desta forma mas… adiante.
 
Como grande apreciador de comida, para mim o ideal seria partilhar o prazer de experimentar, de degustar, de saborear, de conviver. Para mal dos meus pecados, e feliz ou infelizmente a Gula é um deles, detesto “enganar o estômago”. Para mim ou se come ou não se come.
 
Quando pensei em abordar este assunto, comecei por pensar na imensidão de termos que proliferam na esfera culinária. Palavras como gratinar, misturar, triturar, demolhar, escaldar, derreter, confitar, envolver, barrar, virar, alourar, espremer, estufar, fritar, bater, cozer, emulsionar, aveludar, grelhar, enfim… algumas só de as pronunciar já as papilas gustativas ficam em transe.
 
Posteriormente lembrei-me de expressões que vulgarmente utilizadas no dia-a-dia se relacionassem directa ou indirectamente com comida ou com o acto de comer, e aí surgiram-me várias de onde nem sequer sei a origem: “Quem não trabuca não manduca.”; “Cada cor seu paladar.”; “Perdoa-se o mal que faz para o bem que 

sabe.”; “Quem não é para comer não é para trabalhar”; “Saco vazio não se segura de pé.”; Os gostos não se discutem.”; “Não vivemos para comer, comemos para viver.”; “Os olhos também comem.”; “Diz-me o que comes, dir-te-ei quem és.”; ou ainda “Somos o que comemos.”. Na realidade qualquer uma destas expressões pode revelar-se falsa, senão vejamos, por exemplo, quantos petiscos, pitéus, quantos acepipes ou iguarias não podem ser degustadas enquanto se discute o gosto de cada um?… quantas pessoas não são bafejadas pela sorte de terem uma qualquer lombriga ou uma bicha solitária que lhes permita comer tudo e mais alguma coisa sem sequer engordarem um graminha?... No meu caso concreto costumo dizer que basta que inspire um pouco mais fundo e lá vem mais um quilinho. É verdade eu sou mesmo aquilo que como, sem tirar nem pôr, e apesar de fazer uma alimentação variada não consigo, ainda, controlar a quantidade. Não consigo, por exemplo, resistir a um bom Pastel de Nata, aliás há anos que digo que o meu bolo de aniversário de sonho é um Pastel de Nata gigante, como um bolo de aniversário comum mas com toda aquela massa folhada estaladiça, todo aquele creme… hum… (acorda Luís, acorda!). É um facto! Sou mesmo um perdido por doces. Adoro Sopa Dourada (muitos acham enjoativo, eu não!), Baba de Camelo (feita pela minha mulher), Semifrios de qualquer espécie, Tarte de Natas… tudo de natas, e mousse… Mousse de Chocolate… ai o que eu gosto de Mousse de Chocolate, hum… Papos de Anjo, Barrigas de Freira, Pães de Deus, Pão de Rala e um sem número de doces conventuais, Ovos-moles, Sericaia com Ameixa, Tigeladas de Abrantes (são de facto as melhores!), Clarinhas de Fão, Bolo de Laranja, de Canela, Bolas de Berlim, Queijadas, o belo do Bolo de Requeijão da Adelina, os quadradinhos fofos da minha Quiquia, os Nógados, o Bolo Rei, os Bolos de Côco, o Bolo do Caco, as Cornucópias, os Bábás. Vou fazer-vos mesmo uma inconfidência, se há coisa que sempre adorei fazer foi raspar o recipiente do bolo cru com o tal do utensílio com nome de ditador do Estado Novo, na verdade era capaz de comer um bolo sem sequer ir ao forno.
 
Mas se pensam que o meu gosto incide essencialmente nos doces, enganam-se, ainda assim prefiro salgados. Da Sopa de Feijão com Mogango ao Cozido de Grão, das favas com Chouriço e Mouro à Sopa de Feijão com Couve, do Ensopado à Cachola, do Creme de Coentros à Sopa da Pedra ou ao Caldo Verde… tudo me faz crescer água na boca. Ainda assim, no que diz respeito às sopas alentejanas sou um bocado atípico, gosto de todas mas… sem pão (estranho não é?) desde a Açorda com Bacalhau e Ovo à Sopa da Panela ou da Sopa de Cação (ou Caldeta como também lhe chamam) à Sopa de Tomate com ovos escalfados. 

De carne gosto de quase tudo… delicio-me com as tradicionais Migas com Carne do Alguidar, com as Burras Assadas no Forno, com a Feijoada à Transmontana, com a Carne de Porco à Alentejana, com as Migas de Espargos (as de Cabeção são das melhores), Arroz de Pato, Coelho à 
Caçador, Leitão à Bairrada, Cozido à Portuguesa, Arroz de Cabidela, Escalopes de Vitela com Champignons, com bifes feitos de todas as maneiras 
e feitios, com o tradicional Frango no Churrasco. Adoro qualquer tipo de enchidos, desde os Chouriços aos Paios, dos Painhos às Morcelas, das Farinheiras às Alheiras… eu sei lá! Passava aqui tempo sem fim só a falar de carne. Mas desiludam-se se pensam que não gosto de peixe ou de outros crustáceos e moluscos. Posso dizer-vos que aprecio uma boa Sardinhada, aliás, qualquer peixe grelhado me satisfaz. Adoro Arroz de Polvo, de Lapas, de Marisco, Lulas, Chocos, Ameijoas (feitas das mais variadas maneiras), Camarão, Sapateira, 
Lagosta, Lavagante, Conquilhas, Tamboril, Salmão, Achigãs, Robalos, Salmonetes, Cherne, Linguado, Cataplana de Marisco, Douradas, Atum, Carapau, Biquerão, Petinga ou “Jaquinzinhos” fritinhos com arroz de tomate… mas de todos tenho que destacar o “Fiel Amigo”, o belo do bacalhau, não resisto a um bom prato de bacalhau, seja Dourado, à Zé do Pipo, com espinafres, com natas, à Gomes de Sá, à Narcisa… enfim, é um gosto só de falar.
 
Purés, sopas, omeletes, pão, molhos, croquetes, pastéis, queijos, carne, peixe, massas, pastas, frutas, doces… tudo entra nas minhas preferências. Basicamente há muito poucas coisas de que não goste. Quem me conhece e olhe para mim dir-me-á: “Nota-se!”.

Adoro comer! E adoro comer utilizando todos os sentidos, sim porque comer não é só um acto cultural e social, comer não é só ingerir, não é só mastigar, consumir, devorar, emborcar, engolir… comer não é só almoçar, lanchar, jantar ou cear… comer é apurar os sentidos, é observar as cores, é tocar e sentir a textura dos alimentos, ouvir o crocante da bolacha, dos cereais e das batatas fritas, é viver o prazer de inúmeros paladares, é sentir os aromas, o perfume dos tempêros. 
 
A minha sorte talvez seja a tão propalada Dieta Mediterrânica, a tal que foi classificada pela UNESCO como Património Mundial e Imaterial da Humanidade, aquela que tem mil e um significados… simbólicos, espirituais, comerciais, culturais, sociais e essencialmente ligados à saúde. Está mais que provado que se pode ter saúde de água na boca. Sim, é disso que se trata, de saúde. Por muito que adore de comer, valores mais altos se levantam. Está na hora de mudar o meu rumo!... pelos meus filhos… pela minha família… pelos meus amigos… pela minha saúde… POR MIM!!!
 
* Professor Luís Parente
 

Encontro com Freud - Crónica V

Escrito por sábado, 10 outubro 2015 11:51
…hoje pensei em vários temas para refletir neste meu “Encontro com Freud” e dei por mim a pensar, tão somente no “outro”, aquele com quem me relaciono, seja o que for, seja quem for, amigos, marido, namorado, namorada, mulher, filhos, conhecidos, colegas, professores, alunos, pais, avós, tios, primos… e muitos mais provavelmente que vão cruzando as nossas vidas… O que fazemos nós por estas relações, como as alimentamos, de que forma as deixamos morrer, o que esperamos de todos e de cada um?... Somos exigentes no que toca ao afeto, reconhecimento, preocupação, segurança, cuidado e tantos outros “sentires” do “outro” em relação ao “eu” e muitas vezes esquecemos que, tendo todos esta condição inalterável que é Ser Humano, procuramos e exigimos do “outro” o que o “outro” inevitavelmente procurará no “eu”.
 

Todos gostamos de ver reconhecido o nosso papel, seja ele qual for, na família, no emprego, no grupo de amigos, interessante, o “outro” também. Todos gostamos de ouvir o quanto somos amados, desejados e queridos, curioso o “outro” também. Todos procuramos o melhor para nós e para os nossos, coincidência, os “outros” também.

Todos gostamos de ver reconhecido o nosso papel, seja ele qual for, na família, no emprego, no grupo de amigos, interessante, o “outro” também. Todos gostamos de ouvir o quanto somos amados, desejados e queridos, curioso o “outro” também. Todos procuramos o melhor para nós e para os nossos, coincidência, os “outros” também.
 
Afinal, não seremos assim tão diferentes…
 
Pais, Educadores, Professores, Técnicos e Sociedade em geral, é preciso construir modelos se queremos perpetuar nas nossas crianças e jovens o melhor que temos. É nossa responsabilidade, é nosso dever. Não fiquemos à espera que por um “ato de magia” eles aprendam e interiorizem a sociedade com que sonhámos amanhã. É preciso dizer “Bom dia” primeiro para que ao fim de um tempo ouçamos do outro lado um “Bom dia” de volta. É preciso valorizar e reforçar para que os mais novos possam reconhecer o seu próprio valor mas também os dos “outros”. É preciso verbalizar o “sentimento” em relação aos que nos são queridos para que os jovens facilmente possam expressar o que sentem e o que pensam. É preciso evidenciar o respeito pelo próximo, ainda que não estejamos em concordância, seja ela de que ordem for, para que os mais novos aprendam a respeitar a si mesmo e o “outro”.
 
Será difícil?... Talvez… Impossível?... Claro que não.
 
Podemos começar desde já a “treinar”, “eu” com os “outros”. 
 
* Psicóloga Helena Chouriço
 

Estremoz e a chegada do Outono

Escrito por sexta, 02 outubro 2015 01:08
Chegou o Outono e com ele um novo ciclo. A paisagem, na sua incessante mutação, pinta-se de tons quentes. Nas árvores e arbustos de folha caduca, o tom verde da folhagem dá lugar aos amarelos e aos vermelhos tão característicos desta época do ano. As folhas caem e atapetam pavimentos, relvados e prados. Estes últimos, que foram tingidos de amarelo pelo calor do Verão, começam agora a renascer e a tornar-se verdes, por terem bebido da água das primeiras chuvas. Os dias ficam mais curtos e as noites tornam-se interminavelmente longas. O frio regressa às paisagens mediterrânicas, antevendo o rigoroso Inverno que está para vir. Até aqui, nada de novo. Sempre assim foi e sempre assim será, com maiores ou menores variações, no clima mediterrânico em que nos inserimos.
 
Novidade é que, com a chegada do Outono deste ano, Estremoz passou a ter um Plano Estratégico de Desenvolvimento Urbano Sustentável (PEDU), iniciando também um novo ciclo para a reabilitação urbana deste concelho. Este plano, aprovado pelo Município de Estremoz, tem um horizonte temporal de cinco anos (2016/2020) e insere-se no âmbito de uma candidatura aos fundos comunitários e submetida ao Programa 
Operacional Regional do Alentejo (Alentejo 2020).

O documento elaborado e candidatado pelo Município abrange o território concelhio, mas centra-se especialmente na cidade de Estremoz e nas vilas de Evoramonte e Veiros, pois as regras ditavam que apenas os centros históricos podiam ser alvo do Programa.
 
Trata-se de uma oportunidade única para vermos satisfeitas as aspirações dos muitos estremocenses que, uns mais outros menos, se preocupam com as questões da degradação do espaço urbano. Confesso que me incluo no grupo dos estremocenses que se preocupam muito com estas questões, apesar de ter a noção de que muitas vezes não é possível reabilitar. Porque não há verbas, porque tudo tem um fim, porque também as cidades se alteram com o tempo e especialmente porque a sua manutenção, a sua existência, está sujeita à vontade dos Homens. Ainda assim, é necessário que nos preocupemos com o seu presente e com o seu futuro.
E o futuro de Estremoz, de Evoramonte e de Veiros muito irá depender da execução deste PEDU. Os investimentos municipais previstos neste plano, independentemente de concordarmos ou não com eles, contribuirão para dar uma nova vida (diria até, uma nova esperança) à cidade e àquelas duas freguesias.
 
De uma forma geral, parece-me que os objetivos definidos no plano traduzem bem aquilo que serão as necessidades efetivas de intervenção na regeneração deste três centros urbanos. Se assim não fosse, a estratégia definida neste documento não teria sido aceite de forma tão consensual e não teria merecido aprovação por unanimidade pela Assembleia Municipal de Estremoz.
 
Há uma particularidade do PEDU que me parece muito interessante e que julgo fazer todo o sentido. Cronologicamente, o plano prevê que na cidade de Estremoz se iniciem as intervenções no lugar onde tudo começou há mais de oito séculos atrás: na acrópole da cidade, que abrange a cidadela medieval e inclui o Bairro de Santiago. De acordo com o PEDU, as intervenções terão como objetivo recuperar o edificado e criar condições para a fixação de população, de comércio e de serviços. Dar vida a esta zona da cidade, promover a sua reabilitação física, social e económica, é um dos objetivos fundamentais da estratégia definida no plano. Só depois de se ter concretizado este objetivo, se avançará para a zona baixa da cidade, ligando os dois núcleos urbanos, através de intervenções consideradas estruturantes, tanto em espaço público como no edificado.
 

O PEDU não só permitirá à autarquia efetuar a reabilitação física de edifícios municipais, equipamentos de uso coletivo e espaços públicos, como também possibilita às instituições e aos privados, que possuam edifícios degradados dentro da área delimitada pelo plano, proceder à sua reabilitação.

Não quero, nem posso, efetuar aqui uma apresentação aprofundada do plano, mas na minha opinião há propostas no PEDU que merecem ser destacadas, nomeadamente: a recuperação e valorização das muralhas, baluartes e edifícios civis e militares da cidade de Estremoz; a reabilitação do Bairro de Santiago, em todas as dimensões a que o termo reabilitação se refere - social, ambiental e económica; a criação do Centro Interpretativo do Boneco de Estremoz, como forma de potenciar e dar a conhecer esta arte única e tão característica de Estremoz; a recuperação do "Edifício Luís Campos" e do Largo General Graça, acrescentando dinâmicas a este espaço público e aproximando-o do Rossio e das pessoas; a inevitável regeneração das frentes leste e sul do Rossio, criando melhores condições de fruição, estadia e utilização da maior praça do País, sem contudo a descaracterizar; a recuperação e revitalização dos centros históricos de Evoramonte e Veiros, que tanto precisam que se olhe para eles com outros olhos... só para mencionar algumas das propostas. Para uma compreensão mais detalhada destas e de outras ações que estão incluídas no PEDU, aconselho vivamente a sua leitura e análise, quando a Câmara Municipal o tiver disponibilizado no seu site. 
 
O PEDU não só permitirá à autarquia efetuar a reabilitação física de edifícios municipais, equipamentos de uso coletivo e espaços públicos, como também possibilita às instituições e aos privados, que possuam edifícios degradados dentro da área delimitada pelo plano, proceder à sua reabilitação. Neste caso, beneficiarão de instrumentos financeiros (ou seja, subsídios reembolsáveis) para fazer face aos custos com as empreitadas de reabilitação de edifícios destinados a habitação, comércio ou serviços, desde que os imóveis tenham uma idade superior a trinta anos ou, não a tendo, comprovadamente se encontrem num nível de degradação que justifique a intervenção.
 
Também a propósito da reabilitação, é de salientar que foram aprovadas pelo Município de Estremoz as Áreas de Reabilitação Urbana (ARU) de Estremoz, Evoramonte e Veiros. Para além do acesso dos particulares aos instrumentos financeiros do Portugal 2020 e outros programas na área da reabilitação (Jessica, reabilitar para arrendar...), também a autarquia proporciona benefícios fiscais e incentivos a quem promover a recuperação de edifícios dentro da ARU: redução de 30% da taxa do IMI por um período de 5 anos a partir da data de conclusão da obra, redução de 10% do valor das taxas administrativas de licenciamento e IVA à taxa reduzida de 6% nas empreitadas de reabilitação.
 
Com a chegada deste Outono abriu-se mais uma janela de oportunidades para o concelho de Estremoz e, por isso, é importante que nos informemos sobre todas estas possibilidades que agora surgem e que irão melhorar este território que habitamos. Podia até parecer que este Outono não traria nada de novo, que era só mais uma preparação para um duro Inverno. Foi exatamente o contrário. Para mim, a chegada do Outono traz com ele a Primavera mais próspera que Estremoz já conheceu na sua História contemporânea.
 
* António Serrano | arquiteto paisagista

A foto que chocou o Mundo

Escrito por quarta, 23 setembro 2015 12:06
Fomos alertados, da pior forma, para um problema sério, gravíssimo, que a Europa atravessa. Colocando-me no lugar do editor que decidiu publicar a foto, admito que talvez não o tivesse feito. Talvez me faltasse a coragem para o fazer. Talvez pensasse nas crianças que comigo convivem e de quem gosto bastante. Talvez pensasse que, resumindo, se tratava de uma foto muito "forte". Eu, dificilmente a publicaria, alguém o fez e ela tornou-se, como se diz agora, "viral".

 
A foto veio abrir consciências. Veio fazer com que muitos pais olhassem para os filhos e percebessem, afinal, que eram uns privilegiados. Nós, que passamos o tempo a queixar-nos, afinal vivemos num país pobre, que foi resgatado, que tem muitos problemas sociais, mas que está em paz. Não somos obrigados, pelo menos, a fugir desta forma. Fugimos de outras, é certo. Mas desta, para já, não.
 
O problema que a Europa enfrenta, no que toca aos refugiados, é mais sério do que pensamos e não se resume questões políticas, religiosas e de segurança nacional. Falamos de pessoas, falamos de seres humanos que querem uma vida. Sim, eles querem ter uma vida, eles fogem da guerra. 
 
Uma imagem que também me emocionou, foi a de uma mãe a pedir a um jornalista para levar a filha, pequena, para a Alemanha: "Gosto muito dela e por isso quero que tenha um futuro...leve a minha filha, por favor". Só um coração de pedra pode ficar indiferente a isto. Este é um exemplo. Este é apenas um exemplo de tantas outras histórias que devem existir nos campos onde muito lutam, acima de tudo, pela vida.
 
Alguns virão para Portugal. Estima-se que quase cinco mil pessoas poderão fugir para Portugal, em busca de um futuro. Este mês, através do Facebook, foi marcada uma manifestação em frente à Assembleia da República, contra a "Invasão da Europa". 11 mil pessoas disseram, nessa rede social, que iriam...foram 150. “Portugal aos portugueses”, “Dois milhões em pobreza à espera de igualdade social”, “Primeiro os nossos”, “Mais apoio para os portugueses”, “Refugees not welcome” (“Refugiados não são bem-vindos”), foram as mensagens que tentaram passar. Algo me diz, que devemos estar mais atentos ao que vimos na televisão ou lemos nos jornais e menos ao que é passado no Facebook. Ser patriota, é muito bonito...mas temos de o ser nestas e em outras ocasiões. 
 

De Portugal, país de gente, no geral, solidária, já seguiram 50 toneladas de donativos para os refugiados. Roupa de adulto e criança, calçado confortável, comida não perecível, artigos de higiene, medicamentos de venda livre, brinquedos. É destes gestos que nos devemos orgulhar e não de outros que roçam o racismo e a xenofobia.

Felizmente, têm acontecido outras iniciativas em sentido contrário. De Portugal, país de gente, no geral, solidária, já seguiram 50 toneladas de donativos para os refugiados. Roupa de adulto e criança, calçado confortável, comida não perecível, artigos de higiene, medicamentos de venda livre, brinquedos. É destes gestos que nos devemos orgulhar e não de outros que roçam o racismo e a xenofobia.
 
Não sei o que o futuro nos reserva, mas penso que os terroristas não andam a passar fome, a lutar por comida e a saltar arames farpados. Se algum dia sofrermos alguma "invasão árabe", não deve ser desta maneira. Os terroristas já mostraram que têm os seus próprios meios para entrar onde lhes interessa. Estranho é, que não pensemos que todos temos um amigo ou um familiar que saiu de cá, de forma pacífica, para procurar uma vida melhor noutro país. Os portugueses, de um modo geral, têm sido bem acolhidos no mundo. Não temos o direito de impedir outros de terem uma vida. Pensar que se fecha um país ao terrorismo, não deixando cá entrar refugiados sírios, é pura demagogia.
 
No entanto, esta chegada terá de ser monitorizada. Têm de ser cidadãos com direitos mas também com obrigações. Têm de ser registados e devidamente acompanhados. Devem ser integrados, mas devem sentir que têm de respeitar o espaço onde foram inseridos. Resumindo, devem respeitar para serem respeitados. Essa é também uma obrigação, por alguns não cumprida, daqueles que por cá nasceram.
 
* José Lameiras

Fuga para a Vida

Escrito por sexta, 18 setembro 2015 00:44
Para falar com sinceridade hesitei bastante em trazer para aqui o assunto que hoje trago. No entanto não consigo ficar indiferente ao que se passa no mundo e tendo isso em conta decidi avançar.
 
Por muito que se tente dificilmente alguém consegue esquecer a imagem chocante e revoltante da criança sem vida, à beira mar, numa praia da Turquia por causa de uma fuga que levava o sonho de um futuro melhor.
 
Quando se diz que “uma imagem vale mais do que mil palavras”, esta vale com certeza mais que um milhão.
 
Muito já foi dito e escrito sobre o assunto dos refugiados, sobre as suas motivações, os riscos que correm ao atravessarem o perigoso mar mediterrâneo em botes de borracha.
 
Esta gente foge da guerra, da fome, da desgraça, das atrocidades cometidas por pessoas sem qualquer tipo de escrúpulos… esta gente tem sonhos, tem ambições e mesmo correndo todos os riscos e mais alguns quer uma vida nova para si e para os seus. Existe naturalmente a legitimidade que com todas as condicionantes das vidas, as pessoas que se sentem ameaçadas tentem procurar a protecção num novo rumo.
 

Por muito que se tente dificilmente alguém consegue esquecer a imagem chocante e revoltante da criança sem vida, à beira mar, numa praia da Turquia por causa de uma fuga que levava o sonho de um futuro melhor.

Ainda assim esta migração sem precedentes veio colocar novos desafios mas também um sem número de problemas ao continente europeu. Se por um lado temos os partidários da solidariedade total mas responsável para com os refugiados, por outro encontramos os apologistas da suspensão total do acordo de Schengen de forma a serem encerradas de imediato as fronteiras dos países para que não entrem mais refugiados. Na realidade ambas as situações acarretam riscos, senão vejamos. Muitas correntes receiam que, infiltrados e “camuflados” nos grupos de migrantes, estejam elementos de alguns grupos criminosos que façam abalar a segurança da Europa. O receio principal das pessoas (e perfeitamente legítimo) é o de que os grupos radicais como por exemplo o denominado Estado Islâmico, iniciem uma série de ataques terroristas em solo europeu de forma a imporem as suas regras (se é que se regem por algumas). O Alto Comissário das Nações Unidas para os refugiados, o português António Guterres, a este propósito, afirmou qualquer coisa como “quem arrisca a vida num simples barco de borracha para chegar à Europa não traz armas consigo para fazer ataques terroristas”. Outros questionam o motivo pelo qual os refugiados não se deslocam para os seus países vizinhos.
 
O que é certo é que, nesta altura, existe o receio de que atrás de muitas verdades possam vir algumas mentiras. Ainda assim, tenho para mim que neste momento não nos devemos preocupar em quem atribuir culpas de toda esta situação, até porque culpados haverá com certeza de ambos os lados do mediterrâneo. Temos mesmo é que nos preocuparmos em, seriamente, com planeamento e de forma ultra rápida resolver este problema. Talvez se revele como sendo esta a maior prova que a União dos países europeus tem para mostrar e demonstrar essa mesma união. Dizem que “a união faz a força” mas será mesmo que essa união existe? Acredito sinceramente que só com os países unidos se conseguirá resolver alguma coisa… se cada um remar para seu lado, os naufrágios serão certamente mais e de maior dimensão.
 
Está mais do que na hora deste mundo inverter as prioridades. Guerras sempre existiram. Por motivos religiosos também. Talvez também seja este o momento das diferentes religiões se unirem. Talvez seja esta a altura em que os responsáveis máximos pelas igrejas judaicas, cristãs, islâmicas, hindus, budistas, etc. se juntem e apelem, insistam e aprofundem o diálogo inter religioso e inter cultural como forma de tentar erradicar o extremismo e o fundamentalismo e valorizar o contágio do humanismo, da liberdade religiosa, da justiça e da igualdade, da paz e sobretudo do respeito pela diversidade, pela dignidade e pela vida do ser humano. Já que falo em contágio, nunca é demais recordar as palavras do unanimemente considerado simples Papa Francisco quando diz que “Se o mal é contagioso, o bem também o é” .
 

Agora também é verdade que a nossa preocupação não pode ser só canalizada para esta situação em concreto, quantas crianças noutras partes do mundo não precisam também de apoio e solidariedade?

Se me perguntarem qual é a minha opinião pessoal sobre todo este assunto, tenho que confessar que, apesar de tudo o que oiço e que leio, não me consigo abstrair minimamente dos valores da humanidade. Para mim esta crise não é humanitária, esta crise é de humanidade e parece não ter fim à vista enquanto a ela se sobrepuserem opções económicas e políticas.
 
Aquelas pessoas que vimos diariamente nas nossas televisões a pedirem tão unicamente que lhe salvem os filhos, aquelas que vão à procura de ter uma VIDA, aquelas pessoas que vêm os filhos perecer à sua frente… são isso mesmo… pessoas… pessoas com medos e fragilidades como todos nós.
 
Ainda assim, no meio de tudo isto, o que verdadeiramente me preocupa são as crianças. Os adultos, mal ou bem sabem defender-se, as crianças não! Precisam de apoio, colo, amor, protecção, mimo e vê-las a assistir ao que assistem parte-me o coração. Não consigo sequer imaginar o sentimento daqueles pais ao terem que decidir arriscar o que arriscam. Nesta altura a Europa tem mais de 100 000 pedidos de asilo só de crianças. É um número assustador.
 
Agora também é verdade que a nossa preocupação não pode ser só canalizada para esta situação em concreto, quantas crianças noutras partes do mundo não precisam também de apoio e solidariedade?
 
E pergunto eu… porquê? Porque é que o mundo continua a não aprender com a História? Por que motivo as pessoas se continuam a não entender? Porque é que, num mundo globalizante como é o nosso, a comunicação entre os povos é tão difícil? Acredito piamente que todos… mesmo todos falhamos. Falhamos quando somos preconceituosos, quando ignoramos a opinião dos outros, quando tentamos sobrepor os nossos conceitos aos do próximo sem sequer os tentarmos analisar, quando somos indiferentes ao que nos rodeia, quando damos maior importância à economia do que à humanidade, quando desrespeitamos a vida humana.
 
Se olharmos para as fotos das crianças nesta chamada crise dos refugiados questionamo-nos porquê? 
 
Porque terão estas crianças que viver o terror do risco? 
 
Porque terão estas crianças que vivenciar atrocidades?
 
Porque terão elas que crescer abruptamente?
 
Porque terão elas que enfrentar uma fuga para viver?
 
Sinceramente… devia ser proibido que as crianças sofressem!
 
Convido-vos a verem as imagens destas crianças e a reflectir nestes porquês. 
 
* Luís Parente - Professor

Encontro com Freud - Crónica IV

Escrito por sábado, 12 setembro 2015 11:07
A Ordem dos Psicólogos colocava a seguinte reflexão no Boletim: “Diria a alguém com cancro, isso passa? Então porque diz a alguém com Depressão?” 
 
Neste encontro de hoje, refletimos sobre o estigma que existe e até mesmo discriminação relativamente a esta doença. Tal como o corpo adoece e nós reconhecemos a legitimidade de quem atesta a necessidade de pausa e tratamento adequado seja ele qual for, a “alma” também adoece. É muito perigoso que alguém não tenha em conta os sinais de uma depressão, por vergonha, por medo do que o vizinho vai pensar ou dizer, por medo de ser olhado como um incapaz, preguiçoso entre outros, que não pretendo aqui explorar. O que sim importa é alertar, em primeiro lugar para a ignorância de quem tem esta perceção ou conceito ou ideia, não sabe pergunte mas pergunte a quem sabe.
 

A depressão não tem a ver com fraqueza, incompetência e diminuição comparativamente aos demais, a depressão é uma doença com a qual se aprende a viver e para os que ainda pensam que “deprimido só é quem quer” para esses e com todo o meu respeito, a depressão é uma doença da qual têm ainda muito para aprender e saber como lidar com alguém com depressão já será uma enorme ajuda.

Como qualquer doença, a pessoa com depressão é, numa primeira análise, como será lógico, uma identidade própria com determinadas características, gostos, interesses, competências, aptidões, limitações, sonhos, ambições e tudo o que nos faz humanos saudáveis, no entanto, e como toda a doença, também a depressão altera o nosso estado de espírito, a nossa motivação, as nossas opções, a forma como nos relacionamos com os que nos rodeiam e até a forma como interpretamos o que nos chega dos que nos rodeiam. É preciso estar atento aos sinais, é urgente procurar ajuda especializada, é emergente assumir que estamos doentes e jamais teremos que passar por isso sozinhos.
 
A depressão não tem a ver com fraqueza, incompetência e diminuição comparativamente aos demais, a depressão é uma doença com a qual se aprende a viver e para os que ainda pensam que “deprimido só é quem quer” para esses e com todo o meu respeito, a depressão é uma doença da qual têm ainda muito para aprender e saber como lidar com alguém com depressão já será uma enorme ajuda.
 
Olhemos para a pessoa e depois então para a doença. A doença pode viver connosco, mas jamais seremos nós a viver na doença… Olhemos sempre para a pessoa, em primeiro lugar. 
 

Estremoz e o seu espaço aberto

Escrito por quinta, 03 setembro 2015 17:04
No dia 31 de agosto a minha cidade completou 89 anos. Isto enquanto cidade, pois a povoação de Estremoz é muito mais antiga e já existe nesta paisagem há vários séculos. Merece, por isso, que este artigo seja dedicado à paisagem urbana de Estremoz e àquilo que a História conta sobre o seu desenvolvimento urbano.
 
Há referências ao termo de Estremoz que remontam ao século XIII, sendo muito provável que já existisse um qualquer outro povoado neste lugar, pelo menos desde o período de ocupação romana do território que hoje conhecemos como Portugal.
 
Há certezas da exploração das pedreiras de mármore pelos romanos e são dessa época a estrutura hidráulica conhecida como Tanque dos Mouros e a Villa rústica de Santa Vitória do Ameixial, o que atesta a ocupação deste território há, pelo menos, 2000 anos.
 

Na minha opinião é nesta diversidade de largos e praças, no espaço aberto de Estremoz, que reside a singularidade desta cidade e a razão porque tantas pessoas se encantam por ela. A sensação de espaço infinito, de luminosidade e de abertura proporcionam, a quem a percorre com atenção aos seus pormenores, uma sensação de liberdade que não se experimenta em mais nenhum lugar do Mundo.

No centro interpretativo de Medina Azahara, a cidade palatina da Córdoba islâmica do século I d.C., encontrei uma curiosa referência ao facto de muitos dos seus edifícios terem sido construídos com mármore da região de Estremoz. Parece-me que se não existisse neste lugar uma povoação, com este ou com outro nome, conhecida pelos seus mármores de elevada qualidade, certamente não teriam os árabes do Califado de Córdoba viajado tantos quilómetros para carregar pedra. Por isso, acredito piamente que já existia uma povoação neste lugar, no tempo da ocupação muçulmana do território, mas naturalmente tal facto só poderá ser um dia comprovado se forem realizadas escavações arqueológicas no núcleo mais antigo da cidade.
 
Sobre este núcleo primordial existem inúmeras referências ao seu desenvolvimento durante o período tardo-medieval, nomeadamente à construção da torre de menagem, dos paços do concelho medievais e de um conjunto de edifícios civis e religiosos que foram implantados na acrópole, notavelmente protegida por uma cintura de muralhas. De grande imponência e com uma forte presença na paisagem seria a estrutura defensiva denominada Couraça e que garantia a segurança no acesso às fontes de água potável, no sopé da colina. Esta couraça ligava o núcleo medieval às duas torres que protegiam a fonte e que ainda hoje subsistem. Curiosamente, como muitas outras coisas, também a maior parte da estrutura da couraça não resistiu à ação do tempo e dos homens, tendo sido destruída.
 
A abundância de água no vale a norte da colina determinou a fixação de vários conventos nesta zona baixa, como foi o caso de S. Francisco, dos Agostinhos e das Maltezas. Tal facto determinou que a vila transpusesse as suas muralhas medievais, incluindo as que cercavam o Bairro de Santiago, e começasse a ocupar toda a vertente norte da colina a partir do século XVI.   
 
Foi precisamente a partir de meados dos século XVI e início do século XVII, durante as Guerras da Restauração da Independência, que foi construída a segunda linha de fortificações, com o objetivo de proteger o casario e, principalmente, a abundância de água que importava garantir aos exércitos portugueses que aqui assentaram praça. Esta nova cintura de muralhas consistia num aparatoso sistema defensivo, composto por baluartes, revelins, cavaleiros e outras estruturas militares, num perímetro que chegou a alcançar cinco quilómetros e que excedia em muito aquilo que hoje é visível. O desenho das fortificações foi determinado pelas suas funções militares e pelo seu papel na defesa das fontes de água e na definição das praças e largos que hoje existem. 
 
A fonte da Couraça foi tapada e a sua água conduzida para uma fonte no centro do Largo do Espírito Santo, fonte essa que foi mais tarde decorada com motivos barrocos construídos em mármore.
 
Junto ao Convento de S. Francisco as fontes estiveram na origem da emergência do Largo de S. Bento (hoje Largos Dragões de Olivença e General Graça). Era neste local que as pessoas se juntavam para se abastecerem de água, para dar água aos animais, para lavar a roupa nos tanques, para vender e para comprar produtos nas feiras que ali existiam e, mais tarde, para passear junto ao Lago.
 

Estremoz completou 89 anos como cidade. Não se fizeram comemorações de show off, para alimentar o ego de meia dúzia de intelectuais, iluminados ou pretensas personalidades culturais da cidade. Não foi preciso. Ninguém notou, exceto provavelmente esta meia dúzia de personalidades. Tenho a certeza de que a cidade continuará a sobreviver sem este tipo de manifestações, pois já tem características intrínsecas mais do que suficientes para nos continuar a surpreender todos os dias.

O grande Lago, conhecido como "do Gadanha", foi construído em 1688 no lugar de uma fonte que ali existia, tendo a fonte da Couraça perdido a sua importância na organização da estrutura urbana. A presença do grande Lago determinou que até ao século XVIII o espaço público mais importante de Estremoz fosse o Largo de S. Bento.
 
Apenas no século XVIII, com a construção do Convento dos Congregados, foi definido o limite sul da grande praça que hoje conhecemos como Rossio Marquês de Pombal, a qual passou desde então a ser o principal espaço público de Estremoz. A construção da Fonte do Sátiro e a mudança das feiras para o Rossio reforçaram o seu papel de praça principal, que deixou de ter apenas uma função militar.
 
Junto à antiga Igreja de Santo André, que também o tempo e os homens demoliram, desenvolvia-se o Largo do Pelourinho e um outro espaço público, onde existia uma fonte e um mercado permanente que viria a ser posteriormente deslocado para o Rossio, aquando da demolição da Igreja.
 
Hoje em dia a vida social, cultural e económica da cidade de Estremoz continua a desenvolver-se em torno destes largos e destas praças, adaptadas obviamente às novas realidades e aos tempos que vivemos.
 
Na minha opinião é nesta diversidade de largos e praças, no espaço aberto de Estremoz, que reside a singularidade desta cidade e a razão porque tantas pessoas se encantam por ela. A sensação de espaço infinito, de luminosidade e de abertura proporcionam, a quem a percorre com atenção aos seus pormenores, uma sensação de liberdade que não se experimenta em mais nenhum lugar do Mundo.
 
Foi a brancura do seu casario e a imensidão dos seus espaços abertos que me fizeram apaixonar por esta cidade e hoje até já sinto que ela também me pertence, ao ponto de, quando aqui não estou, sentir saudades das suas ambiências. Sentir saudades de Estremoz.
 
Estremoz completou 89 anos como cidade. Não se fizeram comemorações de show off, para alimentar o ego de meia dúzia de intelectuais, iluminados ou pretensas personalidades culturais da cidade. Não foi preciso. Ninguém notou, exceto provavelmente esta meia dúzia de personalidades. Tenho a certeza de que a cidade continuará a sobreviver sem este tipo de manifestações, pois já tem características intrínsecas mais do que suficientes para nos continuar a surpreender todos os dias.
 
António Serrano - Arquitecto Paisagista
 

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