terça, 17 outubro 2017

Luís Parente

Quase 12 anos

Quase 12 anos

Há quase 12 anos, durante o mês de Agosto, o meu telefone tocou. Do outro lad ...

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Encontro com Freud - Crónica V

Escrito por sábado, 10 outubro 2015 11:51
…hoje pensei em vários temas para refletir neste meu “Encontro com Freud” e dei por mim a pensar, tão somente no “outro”, aquele com quem me relaciono, seja o que for, seja quem for, amigos, marido, namorado, namorada, mulher, filhos, conhecidos, colegas, professores, alunos, pais, avós, tios, primos… e muitos mais provavelmente que vão cruzando as nossas vidas… O que fazemos nós por estas relações, como as alimentamos, de que forma as deixamos morrer, o que esperamos de todos e de cada um?... Somos exigentes no que toca ao afeto, reconhecimento, preocupação, segurança, cuidado e tantos outros “sentires” do “outro” em relação ao “eu” e muitas vezes esquecemos que, tendo todos esta condição inalterável que é Ser Humano, procuramos e exigimos do “outro” o que o “outro” inevitavelmente procurará no “eu”.
 

Todos gostamos de ver reconhecido o nosso papel, seja ele qual for, na família, no emprego, no grupo de amigos, interessante, o “outro” também. Todos gostamos de ouvir o quanto somos amados, desejados e queridos, curioso o “outro” também. Todos procuramos o melhor para nós e para os nossos, coincidência, os “outros” também.

Todos gostamos de ver reconhecido o nosso papel, seja ele qual for, na família, no emprego, no grupo de amigos, interessante, o “outro” também. Todos gostamos de ouvir o quanto somos amados, desejados e queridos, curioso o “outro” também. Todos procuramos o melhor para nós e para os nossos, coincidência, os “outros” também.
 
Afinal, não seremos assim tão diferentes…
 
Pais, Educadores, Professores, Técnicos e Sociedade em geral, é preciso construir modelos se queremos perpetuar nas nossas crianças e jovens o melhor que temos. É nossa responsabilidade, é nosso dever. Não fiquemos à espera que por um “ato de magia” eles aprendam e interiorizem a sociedade com que sonhámos amanhã. É preciso dizer “Bom dia” primeiro para que ao fim de um tempo ouçamos do outro lado um “Bom dia” de volta. É preciso valorizar e reforçar para que os mais novos possam reconhecer o seu próprio valor mas também os dos “outros”. É preciso verbalizar o “sentimento” em relação aos que nos são queridos para que os jovens facilmente possam expressar o que sentem e o que pensam. É preciso evidenciar o respeito pelo próximo, ainda que não estejamos em concordância, seja ela de que ordem for, para que os mais novos aprendam a respeitar a si mesmo e o “outro”.
 
Será difícil?... Talvez… Impossível?... Claro que não.
 
Podemos começar desde já a “treinar”, “eu” com os “outros”. 
 
* Psicóloga Helena Chouriço
 

Estremoz e a chegada do Outono

Escrito por sexta, 02 outubro 2015 01:08
Chegou o Outono e com ele um novo ciclo. A paisagem, na sua incessante mutação, pinta-se de tons quentes. Nas árvores e arbustos de folha caduca, o tom verde da folhagem dá lugar aos amarelos e aos vermelhos tão característicos desta época do ano. As folhas caem e atapetam pavimentos, relvados e prados. Estes últimos, que foram tingidos de amarelo pelo calor do Verão, começam agora a renascer e a tornar-se verdes, por terem bebido da água das primeiras chuvas. Os dias ficam mais curtos e as noites tornam-se interminavelmente longas. O frio regressa às paisagens mediterrânicas, antevendo o rigoroso Inverno que está para vir. Até aqui, nada de novo. Sempre assim foi e sempre assim será, com maiores ou menores variações, no clima mediterrânico em que nos inserimos.
 
Novidade é que, com a chegada do Outono deste ano, Estremoz passou a ter um Plano Estratégico de Desenvolvimento Urbano Sustentável (PEDU), iniciando também um novo ciclo para a reabilitação urbana deste concelho. Este plano, aprovado pelo Município de Estremoz, tem um horizonte temporal de cinco anos (2016/2020) e insere-se no âmbito de uma candidatura aos fundos comunitários e submetida ao Programa 
Operacional Regional do Alentejo (Alentejo 2020).

O documento elaborado e candidatado pelo Município abrange o território concelhio, mas centra-se especialmente na cidade de Estremoz e nas vilas de Evoramonte e Veiros, pois as regras ditavam que apenas os centros históricos podiam ser alvo do Programa.
 
Trata-se de uma oportunidade única para vermos satisfeitas as aspirações dos muitos estremocenses que, uns mais outros menos, se preocupam com as questões da degradação do espaço urbano. Confesso que me incluo no grupo dos estremocenses que se preocupam muito com estas questões, apesar de ter a noção de que muitas vezes não é possível reabilitar. Porque não há verbas, porque tudo tem um fim, porque também as cidades se alteram com o tempo e especialmente porque a sua manutenção, a sua existência, está sujeita à vontade dos Homens. Ainda assim, é necessário que nos preocupemos com o seu presente e com o seu futuro.
E o futuro de Estremoz, de Evoramonte e de Veiros muito irá depender da execução deste PEDU. Os investimentos municipais previstos neste plano, independentemente de concordarmos ou não com eles, contribuirão para dar uma nova vida (diria até, uma nova esperança) à cidade e àquelas duas freguesias.
 
De uma forma geral, parece-me que os objetivos definidos no plano traduzem bem aquilo que serão as necessidades efetivas de intervenção na regeneração deste três centros urbanos. Se assim não fosse, a estratégia definida neste documento não teria sido aceite de forma tão consensual e não teria merecido aprovação por unanimidade pela Assembleia Municipal de Estremoz.
 
Há uma particularidade do PEDU que me parece muito interessante e que julgo fazer todo o sentido. Cronologicamente, o plano prevê que na cidade de Estremoz se iniciem as intervenções no lugar onde tudo começou há mais de oito séculos atrás: na acrópole da cidade, que abrange a cidadela medieval e inclui o Bairro de Santiago. De acordo com o PEDU, as intervenções terão como objetivo recuperar o edificado e criar condições para a fixação de população, de comércio e de serviços. Dar vida a esta zona da cidade, promover a sua reabilitação física, social e económica, é um dos objetivos fundamentais da estratégia definida no plano. Só depois de se ter concretizado este objetivo, se avançará para a zona baixa da cidade, ligando os dois núcleos urbanos, através de intervenções consideradas estruturantes, tanto em espaço público como no edificado.
 

O PEDU não só permitirá à autarquia efetuar a reabilitação física de edifícios municipais, equipamentos de uso coletivo e espaços públicos, como também possibilita às instituições e aos privados, que possuam edifícios degradados dentro da área delimitada pelo plano, proceder à sua reabilitação.

Não quero, nem posso, efetuar aqui uma apresentação aprofundada do plano, mas na minha opinião há propostas no PEDU que merecem ser destacadas, nomeadamente: a recuperação e valorização das muralhas, baluartes e edifícios civis e militares da cidade de Estremoz; a reabilitação do Bairro de Santiago, em todas as dimensões a que o termo reabilitação se refere - social, ambiental e económica; a criação do Centro Interpretativo do Boneco de Estremoz, como forma de potenciar e dar a conhecer esta arte única e tão característica de Estremoz; a recuperação do "Edifício Luís Campos" e do Largo General Graça, acrescentando dinâmicas a este espaço público e aproximando-o do Rossio e das pessoas; a inevitável regeneração das frentes leste e sul do Rossio, criando melhores condições de fruição, estadia e utilização da maior praça do País, sem contudo a descaracterizar; a recuperação e revitalização dos centros históricos de Evoramonte e Veiros, que tanto precisam que se olhe para eles com outros olhos... só para mencionar algumas das propostas. Para uma compreensão mais detalhada destas e de outras ações que estão incluídas no PEDU, aconselho vivamente a sua leitura e análise, quando a Câmara Municipal o tiver disponibilizado no seu site. 
 
O PEDU não só permitirá à autarquia efetuar a reabilitação física de edifícios municipais, equipamentos de uso coletivo e espaços públicos, como também possibilita às instituições e aos privados, que possuam edifícios degradados dentro da área delimitada pelo plano, proceder à sua reabilitação. Neste caso, beneficiarão de instrumentos financeiros (ou seja, subsídios reembolsáveis) para fazer face aos custos com as empreitadas de reabilitação de edifícios destinados a habitação, comércio ou serviços, desde que os imóveis tenham uma idade superior a trinta anos ou, não a tendo, comprovadamente se encontrem num nível de degradação que justifique a intervenção.
 
Também a propósito da reabilitação, é de salientar que foram aprovadas pelo Município de Estremoz as Áreas de Reabilitação Urbana (ARU) de Estremoz, Evoramonte e Veiros. Para além do acesso dos particulares aos instrumentos financeiros do Portugal 2020 e outros programas na área da reabilitação (Jessica, reabilitar para arrendar...), também a autarquia proporciona benefícios fiscais e incentivos a quem promover a recuperação de edifícios dentro da ARU: redução de 30% da taxa do IMI por um período de 5 anos a partir da data de conclusão da obra, redução de 10% do valor das taxas administrativas de licenciamento e IVA à taxa reduzida de 6% nas empreitadas de reabilitação.
 
Com a chegada deste Outono abriu-se mais uma janela de oportunidades para o concelho de Estremoz e, por isso, é importante que nos informemos sobre todas estas possibilidades que agora surgem e que irão melhorar este território que habitamos. Podia até parecer que este Outono não traria nada de novo, que era só mais uma preparação para um duro Inverno. Foi exatamente o contrário. Para mim, a chegada do Outono traz com ele a Primavera mais próspera que Estremoz já conheceu na sua História contemporânea.
 
* António Serrano | arquiteto paisagista

A foto que chocou o Mundo

Escrito por quarta, 23 setembro 2015 12:06
Fomos alertados, da pior forma, para um problema sério, gravíssimo, que a Europa atravessa. Colocando-me no lugar do editor que decidiu publicar a foto, admito que talvez não o tivesse feito. Talvez me faltasse a coragem para o fazer. Talvez pensasse nas crianças que comigo convivem e de quem gosto bastante. Talvez pensasse que, resumindo, se tratava de uma foto muito "forte". Eu, dificilmente a publicaria, alguém o fez e ela tornou-se, como se diz agora, "viral".

 
A foto veio abrir consciências. Veio fazer com que muitos pais olhassem para os filhos e percebessem, afinal, que eram uns privilegiados. Nós, que passamos o tempo a queixar-nos, afinal vivemos num país pobre, que foi resgatado, que tem muitos problemas sociais, mas que está em paz. Não somos obrigados, pelo menos, a fugir desta forma. Fugimos de outras, é certo. Mas desta, para já, não.
 
O problema que a Europa enfrenta, no que toca aos refugiados, é mais sério do que pensamos e não se resume questões políticas, religiosas e de segurança nacional. Falamos de pessoas, falamos de seres humanos que querem uma vida. Sim, eles querem ter uma vida, eles fogem da guerra. 
 
Uma imagem que também me emocionou, foi a de uma mãe a pedir a um jornalista para levar a filha, pequena, para a Alemanha: "Gosto muito dela e por isso quero que tenha um futuro...leve a minha filha, por favor". Só um coração de pedra pode ficar indiferente a isto. Este é um exemplo. Este é apenas um exemplo de tantas outras histórias que devem existir nos campos onde muito lutam, acima de tudo, pela vida.
 
Alguns virão para Portugal. Estima-se que quase cinco mil pessoas poderão fugir para Portugal, em busca de um futuro. Este mês, através do Facebook, foi marcada uma manifestação em frente à Assembleia da República, contra a "Invasão da Europa". 11 mil pessoas disseram, nessa rede social, que iriam...foram 150. “Portugal aos portugueses”, “Dois milhões em pobreza à espera de igualdade social”, “Primeiro os nossos”, “Mais apoio para os portugueses”, “Refugees not welcome” (“Refugiados não são bem-vindos”), foram as mensagens que tentaram passar. Algo me diz, que devemos estar mais atentos ao que vimos na televisão ou lemos nos jornais e menos ao que é passado no Facebook. Ser patriota, é muito bonito...mas temos de o ser nestas e em outras ocasiões. 
 

De Portugal, país de gente, no geral, solidária, já seguiram 50 toneladas de donativos para os refugiados. Roupa de adulto e criança, calçado confortável, comida não perecível, artigos de higiene, medicamentos de venda livre, brinquedos. É destes gestos que nos devemos orgulhar e não de outros que roçam o racismo e a xenofobia.

Felizmente, têm acontecido outras iniciativas em sentido contrário. De Portugal, país de gente, no geral, solidária, já seguiram 50 toneladas de donativos para os refugiados. Roupa de adulto e criança, calçado confortável, comida não perecível, artigos de higiene, medicamentos de venda livre, brinquedos. É destes gestos que nos devemos orgulhar e não de outros que roçam o racismo e a xenofobia.
 
Não sei o que o futuro nos reserva, mas penso que os terroristas não andam a passar fome, a lutar por comida e a saltar arames farpados. Se algum dia sofrermos alguma "invasão árabe", não deve ser desta maneira. Os terroristas já mostraram que têm os seus próprios meios para entrar onde lhes interessa. Estranho é, que não pensemos que todos temos um amigo ou um familiar que saiu de cá, de forma pacífica, para procurar uma vida melhor noutro país. Os portugueses, de um modo geral, têm sido bem acolhidos no mundo. Não temos o direito de impedir outros de terem uma vida. Pensar que se fecha um país ao terrorismo, não deixando cá entrar refugiados sírios, é pura demagogia.
 
No entanto, esta chegada terá de ser monitorizada. Têm de ser cidadãos com direitos mas também com obrigações. Têm de ser registados e devidamente acompanhados. Devem ser integrados, mas devem sentir que têm de respeitar o espaço onde foram inseridos. Resumindo, devem respeitar para serem respeitados. Essa é também uma obrigação, por alguns não cumprida, daqueles que por cá nasceram.
 
* José Lameiras

Fuga para a Vida

Escrito por sexta, 18 setembro 2015 00:44
Para falar com sinceridade hesitei bastante em trazer para aqui o assunto que hoje trago. No entanto não consigo ficar indiferente ao que se passa no mundo e tendo isso em conta decidi avançar.
 
Por muito que se tente dificilmente alguém consegue esquecer a imagem chocante e revoltante da criança sem vida, à beira mar, numa praia da Turquia por causa de uma fuga que levava o sonho de um futuro melhor.
 
Quando se diz que “uma imagem vale mais do que mil palavras”, esta vale com certeza mais que um milhão.
 
Muito já foi dito e escrito sobre o assunto dos refugiados, sobre as suas motivações, os riscos que correm ao atravessarem o perigoso mar mediterrâneo em botes de borracha.
 
Esta gente foge da guerra, da fome, da desgraça, das atrocidades cometidas por pessoas sem qualquer tipo de escrúpulos… esta gente tem sonhos, tem ambições e mesmo correndo todos os riscos e mais alguns quer uma vida nova para si e para os seus. Existe naturalmente a legitimidade que com todas as condicionantes das vidas, as pessoas que se sentem ameaçadas tentem procurar a protecção num novo rumo.
 

Por muito que se tente dificilmente alguém consegue esquecer a imagem chocante e revoltante da criança sem vida, à beira mar, numa praia da Turquia por causa de uma fuga que levava o sonho de um futuro melhor.

Ainda assim esta migração sem precedentes veio colocar novos desafios mas também um sem número de problemas ao continente europeu. Se por um lado temos os partidários da solidariedade total mas responsável para com os refugiados, por outro encontramos os apologistas da suspensão total do acordo de Schengen de forma a serem encerradas de imediato as fronteiras dos países para que não entrem mais refugiados. Na realidade ambas as situações acarretam riscos, senão vejamos. Muitas correntes receiam que, infiltrados e “camuflados” nos grupos de migrantes, estejam elementos de alguns grupos criminosos que façam abalar a segurança da Europa. O receio principal das pessoas (e perfeitamente legítimo) é o de que os grupos radicais como por exemplo o denominado Estado Islâmico, iniciem uma série de ataques terroristas em solo europeu de forma a imporem as suas regras (se é que se regem por algumas). O Alto Comissário das Nações Unidas para os refugiados, o português António Guterres, a este propósito, afirmou qualquer coisa como “quem arrisca a vida num simples barco de borracha para chegar à Europa não traz armas consigo para fazer ataques terroristas”. Outros questionam o motivo pelo qual os refugiados não se deslocam para os seus países vizinhos.
 
O que é certo é que, nesta altura, existe o receio de que atrás de muitas verdades possam vir algumas mentiras. Ainda assim, tenho para mim que neste momento não nos devemos preocupar em quem atribuir culpas de toda esta situação, até porque culpados haverá com certeza de ambos os lados do mediterrâneo. Temos mesmo é que nos preocuparmos em, seriamente, com planeamento e de forma ultra rápida resolver este problema. Talvez se revele como sendo esta a maior prova que a União dos países europeus tem para mostrar e demonstrar essa mesma união. Dizem que “a união faz a força” mas será mesmo que essa união existe? Acredito sinceramente que só com os países unidos se conseguirá resolver alguma coisa… se cada um remar para seu lado, os naufrágios serão certamente mais e de maior dimensão.
 
Está mais do que na hora deste mundo inverter as prioridades. Guerras sempre existiram. Por motivos religiosos também. Talvez também seja este o momento das diferentes religiões se unirem. Talvez seja esta a altura em que os responsáveis máximos pelas igrejas judaicas, cristãs, islâmicas, hindus, budistas, etc. se juntem e apelem, insistam e aprofundem o diálogo inter religioso e inter cultural como forma de tentar erradicar o extremismo e o fundamentalismo e valorizar o contágio do humanismo, da liberdade religiosa, da justiça e da igualdade, da paz e sobretudo do respeito pela diversidade, pela dignidade e pela vida do ser humano. Já que falo em contágio, nunca é demais recordar as palavras do unanimemente considerado simples Papa Francisco quando diz que “Se o mal é contagioso, o bem também o é” .
 

Agora também é verdade que a nossa preocupação não pode ser só canalizada para esta situação em concreto, quantas crianças noutras partes do mundo não precisam também de apoio e solidariedade?

Se me perguntarem qual é a minha opinião pessoal sobre todo este assunto, tenho que confessar que, apesar de tudo o que oiço e que leio, não me consigo abstrair minimamente dos valores da humanidade. Para mim esta crise não é humanitária, esta crise é de humanidade e parece não ter fim à vista enquanto a ela se sobrepuserem opções económicas e políticas.
 
Aquelas pessoas que vimos diariamente nas nossas televisões a pedirem tão unicamente que lhe salvem os filhos, aquelas que vão à procura de ter uma VIDA, aquelas pessoas que vêm os filhos perecer à sua frente… são isso mesmo… pessoas… pessoas com medos e fragilidades como todos nós.
 
Ainda assim, no meio de tudo isto, o que verdadeiramente me preocupa são as crianças. Os adultos, mal ou bem sabem defender-se, as crianças não! Precisam de apoio, colo, amor, protecção, mimo e vê-las a assistir ao que assistem parte-me o coração. Não consigo sequer imaginar o sentimento daqueles pais ao terem que decidir arriscar o que arriscam. Nesta altura a Europa tem mais de 100 000 pedidos de asilo só de crianças. É um número assustador.
 
Agora também é verdade que a nossa preocupação não pode ser só canalizada para esta situação em concreto, quantas crianças noutras partes do mundo não precisam também de apoio e solidariedade?
 
E pergunto eu… porquê? Porque é que o mundo continua a não aprender com a História? Por que motivo as pessoas se continuam a não entender? Porque é que, num mundo globalizante como é o nosso, a comunicação entre os povos é tão difícil? Acredito piamente que todos… mesmo todos falhamos. Falhamos quando somos preconceituosos, quando ignoramos a opinião dos outros, quando tentamos sobrepor os nossos conceitos aos do próximo sem sequer os tentarmos analisar, quando somos indiferentes ao que nos rodeia, quando damos maior importância à economia do que à humanidade, quando desrespeitamos a vida humana.
 
Se olharmos para as fotos das crianças nesta chamada crise dos refugiados questionamo-nos porquê? 
 
Porque terão estas crianças que viver o terror do risco? 
 
Porque terão estas crianças que vivenciar atrocidades?
 
Porque terão elas que crescer abruptamente?
 
Porque terão elas que enfrentar uma fuga para viver?
 
Sinceramente… devia ser proibido que as crianças sofressem!
 
Convido-vos a verem as imagens destas crianças e a reflectir nestes porquês. 
 
* Luís Parente - Professor

Encontro com Freud - Crónica IV

Escrito por sábado, 12 setembro 2015 11:07
A Ordem dos Psicólogos colocava a seguinte reflexão no Boletim: “Diria a alguém com cancro, isso passa? Então porque diz a alguém com Depressão?” 
 
Neste encontro de hoje, refletimos sobre o estigma que existe e até mesmo discriminação relativamente a esta doença. Tal como o corpo adoece e nós reconhecemos a legitimidade de quem atesta a necessidade de pausa e tratamento adequado seja ele qual for, a “alma” também adoece. É muito perigoso que alguém não tenha em conta os sinais de uma depressão, por vergonha, por medo do que o vizinho vai pensar ou dizer, por medo de ser olhado como um incapaz, preguiçoso entre outros, que não pretendo aqui explorar. O que sim importa é alertar, em primeiro lugar para a ignorância de quem tem esta perceção ou conceito ou ideia, não sabe pergunte mas pergunte a quem sabe.
 

A depressão não tem a ver com fraqueza, incompetência e diminuição comparativamente aos demais, a depressão é uma doença com a qual se aprende a viver e para os que ainda pensam que “deprimido só é quem quer” para esses e com todo o meu respeito, a depressão é uma doença da qual têm ainda muito para aprender e saber como lidar com alguém com depressão já será uma enorme ajuda.

Como qualquer doença, a pessoa com depressão é, numa primeira análise, como será lógico, uma identidade própria com determinadas características, gostos, interesses, competências, aptidões, limitações, sonhos, ambições e tudo o que nos faz humanos saudáveis, no entanto, e como toda a doença, também a depressão altera o nosso estado de espírito, a nossa motivação, as nossas opções, a forma como nos relacionamos com os que nos rodeiam e até a forma como interpretamos o que nos chega dos que nos rodeiam. É preciso estar atento aos sinais, é urgente procurar ajuda especializada, é emergente assumir que estamos doentes e jamais teremos que passar por isso sozinhos.
 
A depressão não tem a ver com fraqueza, incompetência e diminuição comparativamente aos demais, a depressão é uma doença com a qual se aprende a viver e para os que ainda pensam que “deprimido só é quem quer” para esses e com todo o meu respeito, a depressão é uma doença da qual têm ainda muito para aprender e saber como lidar com alguém com depressão já será uma enorme ajuda.
 
Olhemos para a pessoa e depois então para a doença. A doença pode viver connosco, mas jamais seremos nós a viver na doença… Olhemos sempre para a pessoa, em primeiro lugar. 
 

Estremoz e o seu espaço aberto

Escrito por quinta, 03 setembro 2015 17:04
No dia 31 de agosto a minha cidade completou 89 anos. Isto enquanto cidade, pois a povoação de Estremoz é muito mais antiga e já existe nesta paisagem há vários séculos. Merece, por isso, que este artigo seja dedicado à paisagem urbana de Estremoz e àquilo que a História conta sobre o seu desenvolvimento urbano.
 
Há referências ao termo de Estremoz que remontam ao século XIII, sendo muito provável que já existisse um qualquer outro povoado neste lugar, pelo menos desde o período de ocupação romana do território que hoje conhecemos como Portugal.
 
Há certezas da exploração das pedreiras de mármore pelos romanos e são dessa época a estrutura hidráulica conhecida como Tanque dos Mouros e a Villa rústica de Santa Vitória do Ameixial, o que atesta a ocupação deste território há, pelo menos, 2000 anos.
 

Na minha opinião é nesta diversidade de largos e praças, no espaço aberto de Estremoz, que reside a singularidade desta cidade e a razão porque tantas pessoas se encantam por ela. A sensação de espaço infinito, de luminosidade e de abertura proporcionam, a quem a percorre com atenção aos seus pormenores, uma sensação de liberdade que não se experimenta em mais nenhum lugar do Mundo.

No centro interpretativo de Medina Azahara, a cidade palatina da Córdoba islâmica do século I d.C., encontrei uma curiosa referência ao facto de muitos dos seus edifícios terem sido construídos com mármore da região de Estremoz. Parece-me que se não existisse neste lugar uma povoação, com este ou com outro nome, conhecida pelos seus mármores de elevada qualidade, certamente não teriam os árabes do Califado de Córdoba viajado tantos quilómetros para carregar pedra. Por isso, acredito piamente que já existia uma povoação neste lugar, no tempo da ocupação muçulmana do território, mas naturalmente tal facto só poderá ser um dia comprovado se forem realizadas escavações arqueológicas no núcleo mais antigo da cidade.
 
Sobre este núcleo primordial existem inúmeras referências ao seu desenvolvimento durante o período tardo-medieval, nomeadamente à construção da torre de menagem, dos paços do concelho medievais e de um conjunto de edifícios civis e religiosos que foram implantados na acrópole, notavelmente protegida por uma cintura de muralhas. De grande imponência e com uma forte presença na paisagem seria a estrutura defensiva denominada Couraça e que garantia a segurança no acesso às fontes de água potável, no sopé da colina. Esta couraça ligava o núcleo medieval às duas torres que protegiam a fonte e que ainda hoje subsistem. Curiosamente, como muitas outras coisas, também a maior parte da estrutura da couraça não resistiu à ação do tempo e dos homens, tendo sido destruída.
 
A abundância de água no vale a norte da colina determinou a fixação de vários conventos nesta zona baixa, como foi o caso de S. Francisco, dos Agostinhos e das Maltezas. Tal facto determinou que a vila transpusesse as suas muralhas medievais, incluindo as que cercavam o Bairro de Santiago, e começasse a ocupar toda a vertente norte da colina a partir do século XVI.   
 
Foi precisamente a partir de meados dos século XVI e início do século XVII, durante as Guerras da Restauração da Independência, que foi construída a segunda linha de fortificações, com o objetivo de proteger o casario e, principalmente, a abundância de água que importava garantir aos exércitos portugueses que aqui assentaram praça. Esta nova cintura de muralhas consistia num aparatoso sistema defensivo, composto por baluartes, revelins, cavaleiros e outras estruturas militares, num perímetro que chegou a alcançar cinco quilómetros e que excedia em muito aquilo que hoje é visível. O desenho das fortificações foi determinado pelas suas funções militares e pelo seu papel na defesa das fontes de água e na definição das praças e largos que hoje existem. 
 
A fonte da Couraça foi tapada e a sua água conduzida para uma fonte no centro do Largo do Espírito Santo, fonte essa que foi mais tarde decorada com motivos barrocos construídos em mármore.
 
Junto ao Convento de S. Francisco as fontes estiveram na origem da emergência do Largo de S. Bento (hoje Largos Dragões de Olivença e General Graça). Era neste local que as pessoas se juntavam para se abastecerem de água, para dar água aos animais, para lavar a roupa nos tanques, para vender e para comprar produtos nas feiras que ali existiam e, mais tarde, para passear junto ao Lago.
 

Estremoz completou 89 anos como cidade. Não se fizeram comemorações de show off, para alimentar o ego de meia dúzia de intelectuais, iluminados ou pretensas personalidades culturais da cidade. Não foi preciso. Ninguém notou, exceto provavelmente esta meia dúzia de personalidades. Tenho a certeza de que a cidade continuará a sobreviver sem este tipo de manifestações, pois já tem características intrínsecas mais do que suficientes para nos continuar a surpreender todos os dias.

O grande Lago, conhecido como "do Gadanha", foi construído em 1688 no lugar de uma fonte que ali existia, tendo a fonte da Couraça perdido a sua importância na organização da estrutura urbana. A presença do grande Lago determinou que até ao século XVIII o espaço público mais importante de Estremoz fosse o Largo de S. Bento.
 
Apenas no século XVIII, com a construção do Convento dos Congregados, foi definido o limite sul da grande praça que hoje conhecemos como Rossio Marquês de Pombal, a qual passou desde então a ser o principal espaço público de Estremoz. A construção da Fonte do Sátiro e a mudança das feiras para o Rossio reforçaram o seu papel de praça principal, que deixou de ter apenas uma função militar.
 
Junto à antiga Igreja de Santo André, que também o tempo e os homens demoliram, desenvolvia-se o Largo do Pelourinho e um outro espaço público, onde existia uma fonte e um mercado permanente que viria a ser posteriormente deslocado para o Rossio, aquando da demolição da Igreja.
 
Hoje em dia a vida social, cultural e económica da cidade de Estremoz continua a desenvolver-se em torno destes largos e destas praças, adaptadas obviamente às novas realidades e aos tempos que vivemos.
 
Na minha opinião é nesta diversidade de largos e praças, no espaço aberto de Estremoz, que reside a singularidade desta cidade e a razão porque tantas pessoas se encantam por ela. A sensação de espaço infinito, de luminosidade e de abertura proporcionam, a quem a percorre com atenção aos seus pormenores, uma sensação de liberdade que não se experimenta em mais nenhum lugar do Mundo.
 
Foi a brancura do seu casario e a imensidão dos seus espaços abertos que me fizeram apaixonar por esta cidade e hoje até já sinto que ela também me pertence, ao ponto de, quando aqui não estou, sentir saudades das suas ambiências. Sentir saudades de Estremoz.
 
Estremoz completou 89 anos como cidade. Não se fizeram comemorações de show off, para alimentar o ego de meia dúzia de intelectuais, iluminados ou pretensas personalidades culturais da cidade. Não foi preciso. Ninguém notou, exceto provavelmente esta meia dúzia de personalidades. Tenho a certeza de que a cidade continuará a sobreviver sem este tipo de manifestações, pois já tem características intrínsecas mais do que suficientes para nos continuar a surpreender todos os dias.
 
António Serrano - Arquitecto Paisagista
 

15 anos dos Forcados de Monforte

Escrito por quarta, 19 agosto 2015 01:48
O último domingo, em Monforte, foi de festa. As bancadas da praça de touros não encheram, mas existiu ambiente de festa e esta vila soube homenagear o grupo de forcados da terra.
 
 Há 15 anos atrás, começou esta grande aventura. Rapazes que gostavam de pegar umas reses de camisa branca e calças de ganga, avançaram para a elaboração de umas fardas e entraram em cartéis de responsabilidade. Entraram nesses cartéis, talvez, um pouco cedo demais, mas era preciso começar por algum lado. Aí, pode ter faltado alguma experiência mas não faltou garra, dedicação e muito coração.

Foto: Câmara Municipal de Monforte

Apareceram tardes e noites complicadas e outras muito bonitas. Aconteceu de tudo. Ganharam-se prémios para melhores pegas e ainda entrou um touro "vivo". Mas tudo isto fez parte de um processo de aprendizagem e consolidação, que hoje permite a este grupo olhar para trás e ter orgulho nestes 15 anos de história. Não são muitos, é certo, mas foram muito duros de conquistar.
 
Estremoz teve e tem, neste grupo, um papel fundamental. Perdi a conta ao número de elementos deste concelho que já se fardaram pelos Amadores de Monforte. Eu próprio, entre 2000 e 2002, tive a honra de vestir esta jaqueta. Foram belos tempos. Estar em praça com mais sete companheiros, mostra-nos um novo significado para a palavra Amizade. Ali, todos têm o mesmo objectivo. A união tem mesmo de fazer a força, para que o oponente não leve a melhor. Partilhamos certos momentos que só compreende quem lá está. É difícil de explicar.
 
Corrida após corrida, este grupo foi conquistando o seu lugar. Touro após touro pegado, estes rapazes foram ganhando o respeito dos agentes da festa brava. Paulo Freire, o cabo fundador, e agora o Ricardo Carrilho, têm liderado este grupo de forma a que a renovação vá existindo. Não é uma tarefa fácil, mas o trabalho de angariação de novos elementos "com coração" para estas coisas, tem sido feito, diga-se, de forma exemplar.
 

Estar em praça com mais sete companheiros, mostra-nos um novo significado para a palavra Amizade. Ali, todos têm o mesmo objectivo. A união tem mesmo de fazer a força, para que o oponente não leve a melhor. Partilhamos certos momentos que só compreende quem lá está. É difícil de explicar.

Neste domingo que passou, o GFA de Monforte deu mais uma prova de coragem. Não falo só da coragem em pegar em solitário seis touros, falo sim de ter avançado para a realização da corrida, quando nenhum empresário o quis fazer. Para que o seu aniversário fosse assinalado como a digna história do grupo merece, o grupo colocou "mãos à obra" e avançou para a realização da corrida. Além da preocupação em pegar seis imponentes touros, os "moços de forcado" tiveram também a seu cargo a negociação de toureiros, touros, angariação de patrocínios, etc. Foi um verdadeiro acto de coragem.
 
Como já aqui disse, a praça não encheu, mas houve touros em Monforte. Quem acompanhou os primeiros tempos desta aventura, deve ter saído da praça satisfeito pelas recordações que esta tarde proporcionou. Fardaram-se cerca de 50 forcados e alguns dos mais velhos fizeram mesmo questão de voltar a enfrentar um touro. Curiosamente, a pega mais "rija" até foi protagonizada por um dos forcados já retirados. Nelson Catambas esteve num dos grandes momentos de uma tarde que até começou por colocar frente a um touro um dos principais forcados "de cara" dos primeiros tempos do grupo. Nuno Martins, o "Chic-nic", com o "Buínho" atrás como em outros tempos, pegou à primeira um exemplar de Paulo Caetano. Foi bonito.
 
Desta vez, assumo que este não é um artigo de opinião. É sim, uma pequena homenagem a todos aqueles que deste grupo fizeram e fazem parte. Como já escrevi, 15 anos nem parece muito. No entanto, para quem acompanhou de perto esta história, esta dezena e meia de anos parecem muitos mais. Aquilo que é mais dificil de conquistar é, naturalmente, mais saboroso.
 
* jornalista José Lameiras
 

O Melhor dos Mundos

Escrito por terça, 11 agosto 2015 23:14
Na sequência do meu último texto publicado no “Ardina do Alentejo” cheguei à conclusão que a nossa vida tem, na realidade, muitas coisas boas. Às vezes nem sequer é preciso procurar muito para, num simples gesto, num olhar singelo, num humilde toque ou num mero acto olfactivo descobrirmos uma imensidão de sentimentos positivos que nos fazem amar viver.
 
A vida não são só coisas boas, é um facto. O dia-a-dia stressante em que a vida dos nossos dias é vivida repele-nos, na maioria das vezes, dos momentos mais especiais, empurra-nos e afasta-nos dos realmente importantes, faz-nos esquecer os que efectivamente nos dão alegria e prazer. O que é certo é que essa mesma vida de stress nos faz perder demasiado tempo. Não há dúvida que despendemos tempo excessivo das nossas vidas com assuntos meramente burocráticos e damos uma importância que consideramos vital a questões acessórias. Naturalmente que tudo isso faz com que o essencial fique ocultado, escondido e, não raras vezes, esquecido. Atrevo-me mesmo a dizer que vivemos muito menos as coisas boas da vida do que realmente merecemos. Como é possível que o tempo bom passe tão depressa?
 

Sou um piegas, é verdade… um lamechas mesmo… ainda hoje me custa a acreditar que Deus me deu a missão de amar três filhos. Sim porque é disso que se trata… AMOR.

Estas férias fizeram-me reflectir bastante acerca deste assunto e, devo confessar-vos, senti que não tenho aproveitado O MELHOR DOS MUNDOS. O melhor do mundo, como toda a gente sabe, são as crianças. O MELHOR DOS MUNDOS são, obviamente, as minhas. Sou um piegas, é verdade… um lamechas mesmo… ainda hoje me custa a acreditar que Deus me deu a missão de amar três filhos. Sim porque é disso que se trata… AMOR. Vi-os respirar o primeiro segundo de vida e posso dizer-vos que é indiscritível aquilo que se sente quando naquele instante se vê que uma vida de nove meses abruptamente se transforma para enfrentar, no segundo seguinte, um novo mundo. Foram três momentos demasiadamente felizes que, ainda que tudo possa desabar, jamais esquecerei.
 
Mesmo antes de nascer a Mariana percebi que naquela altura havíamos passado para segundo plano, depois com a Matilde, para terceiro e com o Miguel para quarto. É verdade… Deus deu-nos a possibilidade de multiplicarmos o nosso amor por três. As nossas prioridades passaram a estar todas ali, mesmo em frente aos nossos olhos e deixaram de estar num mero reflexo do espelho.
 
A cada passo dado pelos filhos, o nosso coração fica mais apertadinho, com receios… muitos… mas ao mesmo tempo, esse mesmo coração apertadinho enche-se de esperança, esperança de que os caminhos que vão sendo trilhados os façam crescer, os façam desenvolver personalidades repletas de valores bem vincados e definidos.
 
Os meus pais sempre me disseram “Filho és, pai serás!”. Sempre os ouvi dizer que, provavelmente, só depois de termos filhos é que os iríamos compreender… que grande verdade! Nunca imaginei que às vezes desse por mim a chorar só de contemplar os meus filhos. Agora sim percebo as inquietações, as preocupações, o amor incondicional, aquele que ultrapassa qualquer obstáculo e que tem a coragem de se pôr à frente a defender o que tem que ser defendido… agora sim entendo a necessidade de dar o exemplo, de ser chato, insistente, persistente e consistente… agora sim percebo que este amor incondicional e profundo nos dá coragem, nos dá mais vida… agora sim compreendo o quão importante é deixarmos filhos melhores para o mundo. 
 
Sinceramente, como vos disse, sinto que não tenho aproveitado da melhor maneira as coisas boas da vida. E as coisas boas da vida são também O MELHOR DOS MUNDOS. Talvez no dia de hoje os meus filhos não entendam nada do que aqui escrevo mas quando forem mães e pai, certamente compreenderão. 
 

Fico completamente fora de mim quando oiço dizer que um pai ou uma mãe subtraiu a vida de um filho. Como é que é possível um progenitor fazer tal barbaridade aos filhos? Os pais servem para confiar, proteger, tratar, cuidar, beijar, amar, brincar.

Se querem que vos diga acho que a idade nos faz entender as coisas de uma forma menos imatura, mais racional (também agora percebo isso!). Fico completamente fora de mim quando oiço dizer que um pai ou uma mãe subtraiu a vida de um filho. Como é que é possível um progenitor fazer tal barbaridade aos filhos? Os pais servem para confiar, proteger, tratar, cuidar, beijar, amar, brincar. Não querendo justificar o que no meu ponto de vista é injustificável, talvez o tal tempo dedicado a coisas fúteis favoreça uma acção desta natureza.
 
Está na hora de dar mais importância ao que realmente importa, é tempo de dar valor ao olhar, ao abraço, ao momento, ao beijo, ao cheiro, ao toque, ao instante, ao gesto. É tempo de nos deixarmos de preocupar com a casa desarrumada, com a cama por fazer ou com a roupa e os brinquedos espalhados. Que bom que é termos tudo de pernas para o ar, que bom que é não termos, às vezes, vida própria, que bom que é vermos as birras e as zangas, QUE BOM QUE É TERMOS VIDA DENTRO DAS NOSSAS CASAS! Eu quero lá saber de não ter dinheiro para mim… quero lá saber que O MELHOR DOS MUNDOS se suje, ande descalço pelo quintal ou faça muitos disparates… quero lá saber das cenas que fazem e que às vezes me envergonham. Eu quero mesmo é demonstrar o meu incondicional amor ao ponto de, talvez, me revelar um pouco egoísta querendo que os olhos d’O MELHOR DOS MUNDOS sejam os meus, querendo estar onde eles estiverem, chegando ao ponto de querer que todas as estrelas se juntem e, num simples rasto, iluminem e lhes mostrem o caminho… caminho esse que eu quero seguir, pisando a marca dos seus passos, ao ponto de querer deixá-los voar, de vê-los voar e voar com eles. 
 
A vocês, MELHOR DOS MUNDOS quero-vos dizer que quero é estar mais tempo convosco e desejar que sejam as pessoas mais felizes dos mundos, quero dizer-vos que quero brincar o que vocês brincarem, quero saltar por onde vocês saltarem, quero correr pelos campos que correrem, quero sorrir onde vocês sorrirem, chorar o que chorarem, quero escolher o que vocês escolherem, quero lutar o que vocês lutarem, quero ver aquilo que virem, quero ser aquilo que forem… a vocês, MELHOR DOS MUNDOS, quero-vos dizer que quero sentir o que vocês sentirem, sonhar os sonhos que sonharem e quero sofrer para não sofrerem. EU SEI… A VIDA É VOSSA, MAS POR FAVOR PERCEBAM QUE A VOSSA VIDA É A MINHA VIDA!! É mesmo por isso que quando eu perecer e ingressar numa outra estação quero viver as minhas recordações que, na realidade, serão também as vossas. E mesmo num outro mundo (aproveitando as palavras de Pedro Chagas Freitas), só peço que me deixem poder OLHAR-VOS… PARA SEMPRE.
 
* Professor Luís Parente

O tempo e as marcas na paisagem

Escrito por sexta, 07 agosto 2015 00:04

 

Todas as coisas mudam com o tempo. Também assim é a paisagem. Costumamos dizer, na linguagem profissional da arquitetura paisagista, que o tempo é a quarta dimensão da paisagem.
 
Com efeito, todos os elementos da paisagem possuem três dimensões, que lhe são conferidas pelos elementos básicos (ponto, linha, plano) e pelo volume, mas é a sua quarta dimensão, o tempo, que maior influência tem na imagem da paisagem. Tal acontece porque o tempo confere mutabilidade à paisagem e aos seus elementos. As paisagens que conhecemos hoje são muito diferentes daquelas que existiram há cem ou há dois mil anos atrás e são o resultado da sucessiva e cíclica ação do tempo, dos fenómenos naturais e do Homem.
 

...de que vale a qualquer estremocense continuar hoje em dia com saudades da antiga linha do caminho-de-ferro, quando sabe que, à partida e tendo em conta o atual contexto, nem daqui a cinquenta anos os comboios regressam a Estremoz?

Os ciclos naturais, como a alternância entre o dia e a noite e as estações do ano, são a expressão mais percetível das alterações que o tempo impõe à paisagem e aos seus elementos, mas a sua passagem é também observável através das marcas que o Homem vai deixando no Mundo.
 
Tudo tem um tempo e um espaço associados e estas duas variáveis estão intimamente relacionadas, dando alma e carácter específicos a uma paisagem. Aquilo que existe hoje não pode nunca ser igual àquilo que foi ontem, nem será igual amanhã. Da mesma forma, aquilo que existe num determinado lugar é exclusivo desse lugar e não existe em qualquer outro lugar da mesma forma. É uma marca desse espaço e de um certo tempo.
 
Há marcas na paisagem que nos tocam mais do que outras e há algumas que não nos dizem absolutamente nada. Faz parte da natureza humana que assim aconteça, da mesma forma que mudar essas marcas, seja por alteração seja por anulação, também é próprio do ser humano, enquanto construtor da paisagem. Isto é válido para todo o tipo de marcas e para todo o tipo de paisagens e as decisões dos seres humanos, quando alteram um determinado espaço, têm sempre associado um tempo específico. Quer isto dizer que o Homem altera o espaço, cria as suas marcas, em função das suas necessidades e do tempo em que vive. Não pode, nem deve, continuar agarrado a marcas do passado, pois dessa forma dificilmente conseguirá olhar para o futuro e construir paisagens que satisfaçam as necessidades das gerações vindouras.
 
Por exemplo, de que vale a qualquer estremocense continuar hoje em dia com saudades da antiga linha do caminho-de-ferro, quando sabe que, à partida e tendo em conta o atual contexto, nem daqui a cinquenta anos os comboios regressam a Estremoz? Vale mais que pense nas vantagens que a nova Avenida Rainha Santa Isabel trouxe para a cidade, desde as relacionadas com a fluidez do trânsito e com a aproximação do centro urbano à periferia, ao contributo desta avenida como espaço gerador de convívio e de promoção da atividade física diária dos seus habitantes. O comboio e a linha foram, sem qualquer sombra de dúvida, uma marca incontornável da cidade de Estremoz, mas tiveram o seu tempo naquele espaço. Agora, a necessidade dos homens deu origem a novas espacialidades e a novas ambiências, mais adequadas ao tempo do presente e do futuro.
 

Todos temos de ter a noção de qual é o nosso tempo, apesar de haver quem teime em não o conseguir fazer e continue agarrado a marcas que, hoje em dia, não dizem nada a ninguém. Muito provavelmente nunca significaram nada para ninguém, nem mesmo no seu tempo.

E por que será que não temos também saudades da muralha seiscentista que foi mandada derrubar, em meados do século passado, para dar lugar à Avenida 9 de Abril e ao próprio caminho-de-ferro? Talvez porque também ela deixou de ter utilidade prática e, por isso, passou o seu tempo? Ou porque simplesmente nem nos lembramos dela existir? De facto é lamentável que tal tenha acontecido, mas acredito que, nesse tempo, tenham sido ponderadas todas as possibilidades e que a solução encontrada foi a que melhor deu resposta aos anseios da população da época. Há que respeitar isso, ainda que consideremos hoje que a destruição da muralha, que também já foi uma marca estremocense, foi um dos maiores atentados à memória e ao património da cidade. Contudo, o tempo não se deteve na época em que era necessário defender uma praça militar, nem hoje em dia dependemos dessa muralha para sobreviver.
 
Todos temos de ter a noção de qual é o nosso tempo, apesar de haver quem teime em não o conseguir fazer e continue agarrado a marcas que, hoje em dia, não dizem nada a ninguém. Muito provavelmente nunca significaram nada para ninguém, nem mesmo no seu tempo. Mas há quem insista em viver agarrado a essas marcas, a um tempo que já passou, não entendendo que algo só se torna memorável se for aceite e recordado por todos, ou pelo menos pela maioria. 
 
Para que as ações dos homens se tornem marcas na paisagem, seja qual for o tipo de paisagem, elas têm que significar algo para as pessoas que vivem e que habitam o território. Não vale a pena criar marcas que não são aceites e vividas pelas pessoas, pois mais rapidamente o tempo se encarregará de apagar estas marcas. É o mesmo que falar para uma plateia que não nos ouve ou escrever um artigo de opinião que ninguém lê (corro sérios riscos de isso também me acontecer...). Como disse Stephen King, um autor que muito admiro e cujas palavras são indubitavelmente uma marca nas inúmeras paisagens que escreve, "a boca pode falar, mas as histórias não existem se não encontrarmos ouvidos compreensivos para as ouvir".
 
Assim acontece com a paisagem. Por muito que as queiramos impor nos espaços em que intervimos, as marcas só continuarão a existir na paisagem se os homens as tiverem aceitado como suas no seu tempo e se forem úteis ao tempo dos homens que a seguir habitarem essa paisagem.
 
* António Serrano - Arquitecto Paisagista
 

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