sábado, 24 junho 2017

Sonhar é acreditar que sim

Escrito por sexta, 13 novembro 2015 15:39
“Pelo sonho é que vamos.
Comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
Pelo sonho é que vamos.
Basta a fé no que temos,
Basta a esperança naquilo
Que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
Com a mesma alegria,
Ao que desconhecemos
E do que é do dia-a-dia
Chegamos? Não chegamos?
- Partimos. Vamos. Somos.”
 
Este é talvez um dos poemas mais conhecidos do Poeta e Professor Sebastião da Gama, fala precisamente do sonho. Na verdade, desde o início dos tempos que a humanidade sonha.
 
Ao longo dos séculos o sonho tem sido retratado por inúmeros escritores, pensadores, poetas, políticos, filósofos. Fernando Pessoa, Vergílio Ferreira, Agostinho da Silva, António Gedeão, Alexandre O’Neill, José Saramago, Florbela Espanca, Mia Couto, Gabriel Garcia Marquez mas também Sigmund Freud, William Shakespeare, Martin Luther King e até John Lennon, Bob Marley ou Charlie Chaplin falaram sobre o sonho.
 
Quem é que nunca teve um sonho que o perseguisse todo um dia?
 
Quem é que nunca sonhou que vai cair num precipício e acorda repentinamente? 
 
Quem é que nunca acordou a meio de um agradável sonho e não tentou adormecer de novo para o poder retomar? 
 
Quem é que nunca sonhou ser aquilo que não é?
 
É verdade, todos sonhamos, todos mesmo, sem excepção! 
 
Classificar os sonhos de bons ou maus não faz para mim qualquer sentido, até porque, desse modo, se os sonhos são maus não são sequer sonhos, são pesadelos. Também não há para mim sonhos grandes ou pequenos, eles não se medem, não se pesam… se bem que há sonhos que tocam, que falam, que cheiram, que ouvem, que veem.
 
Sonhar não pode ser uma ousadia… sonhar só pode ser uma incomensurável liberdade… um despertar de sensações… sonhar só pode ser soltar as amarras, ultrapassar limites. De certo modo o sonho leva-nos a passar da tentação à acção, ainda que não seja claro que nos dê aquilo que a realidade nos nega.
 
Serão os canais que levam o sonho à realidade, os mesmos que o levam à utopia? Talvez. Ainda assim acredito que o sonho não seja só uma coisa do outro lado, dali… do inconsciente, até porque qualquer um pode sonhar acordado.
 
Muitas vezes questiono-me sobre a profundidade do sonho, sim porque não é só o sono que é profundo, o sonho também o é. Na minha perspectiva todo o sonho é profundo e não deixa mesmo de o ser nem quando os olhos se abrem, o que acontece é que ele está intimamente ligado ao desejo, e o desejo tanto existe no estado de sono como no estado de vigília. Tenho para mim que talvez o sonho e o desejo sejam a mesma coisa… ou então não… se calhar quando dormimos sonhamos e quando estamos acordados desejamos.
 
No fundo sonhar é voar, transpôr fronteiras, viajar, sentir… SONHAR É ACREDITAR QUE SIM!
 
Ninguém pode sonhar por nós! O sonho por mais que envolva mil e uma pessoas é sempre individual. No sonho todos somos o centro de tudo, todos somos protagonistas, aqueles a quem é entregue o papel principal, aqueles a quem a visão mais abrange, aqueles que acreditam que conseguem. Mesmo assim não considero que o sonho seja egocêntrico, senão vejamos, quando se tem filhos os nossos sonhos modificam-se (e de que maneira!), principalmente porque quase todos se passam a centrar neles. Obviamente que não esperamos que os nossos filhos não os tenham ou que queiramos que vivam os nossos sonhos, é importante para nós é que eles vivam nos nossos sonhos mas acima de tudo é imprescindível é que sonhem… que sonhem muito. 
 
Se analisarmos bem, o sonho está sempre ligado à forma verbal, ou a um conjunto de verbos, está ligado ao ter, ao ser, ao querer, ao estar, ao ir, ao ficar. Verifiquemos por exemplo o verbo TER, há quem sonhe TER uma casa melhor (ou TER uma casa), há quem sonhe TER um bom carro (ou TER um carro), há quem sonhe TER uma vida melhor (ou TER uma vida). 
 
O sonho já foi sonhado, já foi pensado, já foi escrito, falado filmado, desenhado, contado, pintado, ouvido, dançado, gritado, cantado, já foi ostentado, silenciado, marginalizado, mas também já foi sentido, vivido e realizado.
 
Eu próprio tenho muitíssimos sonhos, talvez não tantos como Fernando Pessoa que tinha em si todos os do mundo. Sempre ouvi dizer que é o sonho que comanda a nossa vida, aliás já António Gedeão o dizia e Manuel Freire o cantava na sua “Pedra Filosofal”. Também sempre me disseram que só se era feliz e não envelhecia quem nunca havia desistido de sonhar. Ainda assim, quem sabe não me chegue ter todos os sonhos que tenho, talvez o que sonhe seja pouco, talvez muitos dos meus sonhos sejam utópicos.
 
Faço-vos uma inconfidência, um dos meus maiores sonhos é agarrar aquela estrela ali… aquela que brilha mais que as outras… a do meu pai. Agarrá-la e trazê-la até mim para que possa voltar a vê-lo, para lhe tocar de novo no rosto, para lhe dar de uma só vez os abraços e os beijos que não lhe dei, para voltar a sentir o seu cheiro e dizer-lhe tão simplesmente o quanto foi importante para mim, o quão importante ele é para mim.
 
Será que há sonhos depois da morte?
 
Se houver só espero que os dele se cruzem com os meus para voltarmos a partilhar juntos… AQUELES momentos!
 
* Professor Luís Parente

Mais Populares