terça, 17 outubro 2017

Luís Parente

Quase 12 anos

Quase 12 anos

Há quase 12 anos, durante o mês de Agosto, o meu telefone tocou. Do outro lad ...

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Desejos de Natal

Escrito por quinta, 24 dezembro 2015 11:23
Dezembro traz com ele o fim de mais um ciclo e o começo de outro. O Solstício de Inverno, que acontece todos os anos por volta do dia 22 no hemisfério norte, assinala o início da fria estação que lhe dá o nome e brinda-nos com o dia mais curto e a noite mais longa do ano. Tudo porque o sol, nesse dia, atinge a sua maior distância angular em relação ao plano que o separa da linha do equador. Mais uma vez a paisagem se altera para receber este novo ciclo e preparar o próximo. A vegetação entra num período de letargia, ou repouso vegetativo, ganhando forças para se voltar a renovar no equinócio da Primavera.
 
Com o início do Inverno chegam também o Natal e o Ano Novo, pontos altos do calendário da Humanidade, cristã ou pagã. Muito graças ao Cristianismo, com o Natal celebramos o nascimento de Jesus. Um nascimento que, segundo o Antigo Testamento, ocorreu numa humilde cabana em Belém e foi assinalado com a passagem de uma estrela que indicou o caminho a pastores e reis magos que foram adorar o Menino e entregar-lhe presentes. Começa, talvez assim, a tradição de nesta data festiva se oferecerem presentes às pessoas de quem mais gostamos.
 

Fico maravilhado com o brilho das iluminações e a beleza das decorações natalícias, mas aflige-me pensar nos milhares de euros que custam e como esse dinheiro podia ter sido aproveitado para dar de comer a quem tem fome ou abrigo a quem não tem casa.

Ainda me lembro de, em criança, na manhã do dia 25 de dezembro, correr disparado para a chaminé, onde na véspera tinha colocado os sapatinhos e um milhão de desejos, à procura dos presentes que o Menino Jesus lá tinha deixado, juntamente com uma poça de água que alguém improvisara, para atestar a sua passagem pela nossa casa. Sim, Jesus também tinha as suas necessidades, como qualquer menino e uma longa e árdua tarefa para uma só noite, não podendo perder um só segundo com ninharias, como uma casa de banho.
 
Hoje em dia, a maior parte das crianças já se esqueceu do Menino Jesus. Por influência da globalização, estas escrevem cartas ao Pai Natal, uma figura tipicamente nórdica e sem qualquer ligação à nossa cultura mediterrânica, mas que se apoderou do imaginário de todos, ao ponto de substituir toda a ideia da natividade. Claro que é hoje mais fácil conceber e fazer passar a ideia de um homenzinho forte, de barbas brancas, com vestes vermelhas, que vive na Lapónia com um batalhão de duendes e que se desloca no seu trenó, carregado de presentes e puxado por renas. É muito mais fácil que as crianças se apaixonem por esta figura e que, em momento algum, questionem o enorme feito que deve ser escorregar pelas chaminés de todo o mundo para lhes deixar todos os presentes que pediram nas suas cartas.
 
Não sabem estas crianças que, afinal, o trenó do Pai Natal vem carregado de horas e horas passadas pelos seus pais a percorrerem mil e uma lojas, vários centros comerciais e hipermercados para conseguir aquela boneca, aquele carrinho, a playstation ou as roupas da moda, que foram vistas pelos meninos na televisão, no intervalo dos desenhos animados, e que se materializaram em desejos escritos na carta que escreveram ao senhor das barbas brancas. O consumismo atinge o seu auge, mas vale tudo para ver um sorriso na cara das crianças. Confesso que também eu contribuo para encher o trenó do Pai Natal da mesma forma, em especial desde que nasceu a minha filha, porque nada é melhor que a alegria do seu sorriso.
 
Pessoalmente não gosto muito do Natal, mas não posso deixar de concordar que é uma época do ano carregada de magia. Por todo o lado a paisagem urbana altera-se e as ruas enchem-se de luz, de cores, de sons e de cheiros característicos. Os nossos cinco sentidos despertam para a necessidade de consumir até à exaustão, até não restar nem mais um cêntimo no fundo da algibeira. Mas pelo menos teremos o melhor de todos os natais. Uma mesa recheada de sabores, onde não faltarão o bacalhau, as filhoses, o bolo rei e uma série de outras iguarias. Uma árvore de Natal com tudo aquilo a que tem direito, desde as fitas, às luzes, às bolas e a um sem fim de outras decorações que todos os anos são diferentes. E, claro, presentes e mais presentes, para todas as idades, gostos e feitios.
 

Ao mesmo tempo, pelas ruas, pelas lojas, pelas casas, pelos emails e através dos telemóveis, multiplicam-se mensagens de boas festas. Muitas delas, acabadinhas de copiar de um site qualquer e iguais a milhares de outras. Mas, como em muitas outras coisas, o que conta é a intenção (ou a obrigação) e, por isso, partilham-se desejos de paz no mundo, de muito amor, amizade, felicidade, saúde, dinheiro... como se nos restantes dias do ano não precisássemos todos de paz, amor, amizade, felicidade, saúde, dinheiro e outras coisas positivas.
 
O Natal deve ser, realmente, tempo de partilha. Uma época do ano em que esquecemos, por momentos, aquilo que nos separa dos outros e em que nos lembramos mais facilmente daquilo que nos une. Mas deve (ou deveria) também ser tempo de reflexão. Refletir acerca daquilo que nos separa dos outros. 
 
E o que nos separa é, na realidade, um fosso enorme. É muito mais fácil deixarmo-nos levar pela magia do Natal do que refletir por que razão há milhões de pessoas que vivem na solidão, com fome, sem abrigo, sem carinho, dizimados pela guerra, doentes, longe da família, sem amor, sem amigos. Pessoas iguais a nós a quem a magia não chega.
 
Felizmente, para grande parte de nós, esta realidade não nos atinge. No entanto, devíamos fazer um esforço para, nesta época, também nos lembrarmos que esta realidade está, por vezes, mais próxima do que julgamos. Muitas vezes escondida pelos milhões de luzes que iluminam o Natal e que tão facilmente a ofuscam.
 
O Natal traz-me sempre este misto de sentimentos antagónicos. Irrita-me o deambular à procura de presentes, na maioria coisas inúteis e que temos todos os dias, mas fascina-me o frenesim, o movimento das pessoas e a alegria das crianças que têm algo para receber. Fico maravilhado com o brilho das iluminações e a beleza das decorações natalícias, mas aflige-me pensar nos milhares de euros que custam e como esse dinheiro podia ter sido aproveitado para dar de comer a quem tem fome ou abrigo a quem não tem casa.
 
Por isso, na Passagem de Ano, quando à meia noite estiver a comer as doze passas, os meus desejos para 2016 não serão apenas centrados naquilo que quero para mim, mas também naquilo que gostaria que os outros tivessem: saúde, amor, paz, felicidade, amizade, dinheiro e tudo de bom a que temos direito. Em especial, vou pensar naqueles para quem o Natal é apenas mais um dia, igual a tantos outros, com os mesmos receios e as mesmas dificuldades. Para eles, afinal, o Natal mais não é do que uma época do ano em que os dias são mais curtos e as noites são tremendamente mais longas e frias. Para eles, nada mais há a celebrar, senão o Solstício de Inverno.
 
A todos um melhor Natal e façam o favor de ser felizes em cada um dos 366 dias de 2016.
 
* arquiteto paisagista António Serrano
 
 

O que me faz lembrar o Natal...

Escrito por terça, 15 dezembro 2015 18:31
Gosto do Natal. Gosto de recordar outros tempos do Natal, tempos que já não voltam. Gosto de me lembrar das noites passadas em Vila Boim. Tenho saudades de chegar à casa da minha avó e sentir aquele cheiro único. Lembro-me da lareira acesa, pronta para nos aquecer e para depois fazer o cacau que acompanhava com os "anéis" que a minha avó fazia. Nunca mais comi. 
 
Tenho saudades desses tempos. Tenho saudades de depois mudar, sempre em Vila Boim, para a casa de outra avó, com uma família bem mais numerosa, com muitos primos. Lembro-me dos cantares ao menino e dos homens que percorriam a vila a fazê-lo. 
 
Para mim, nesse tempo, o Natal era outra coisa. Era o esperar pela altura das prendas e comer doces como se não houvesse amanhã. Para nós, crianças, era quase tudo permitido. Era ter a sorte de chegar a Vila Boim ver os meus avós a terminarem de preparar tudo para comermos a sopa de cação, da qual eu nem gostava e que hoje adoro. Era espreitar para dentro de um alguidar e ver os tais "anéis" cheios de açucar à volta. Era receber o verdadeiro envelope, em que a minha avó colocava o dobro do que colocava para os outros, pois nasci perto do Natal. Como já sabia quanto ia trazer, esse dinheiro já tinha um brinquedo à espera assim que as lojas voltassem a abrir.
 

É preciso viver o Natal e não, apenas, passá-lo. São coisas diferentes. Viver o Natal é aproveitar. É aproveitar o facto de estarmos juntos este ano sem sabermos se no próximo estaremos. É aproveitar cada momento e viver esta quadra como se fosse a última vez. É estar pronto para fazer Natal, para voltar à infância.

O Natal é a prova de que por vezes não damos valor aos bons momentos que vivemos. Os momentos mais simples são os melhores. Hoje, quem me dera viver só cinco minutos daquele tempo. Quem me dera voltar a receber um envelope daqueles, geralmente aproveitados depois de se pagar a luz ou a água, com um "Z" e um "R". Quem me dera aquecer-me só mais uma vez naquele lume do qual não podíamos mesmo estar perto, pois queimava as pernas. Para mim, é verdade, é dos meus avós que me lembro nesta data. Lembro-me sempre da canção que António Sala escreveu e que o José Gonçalez e o António Pinto Basto cantaram: "O Natal é lembrar os avós e as noites da aldeia". Nada mais certo.
 
É preciso viver o Natal e não, apenas, passá-lo. São coisas diferentes. Viver o Natal é aproveitar. É aproveitar o facto de estarmos juntos este ano sem sabermos se no próximo estaremos. É aproveitar cada momento e viver esta quadra como se fosse a última vez. É estar pronto para fazer Natal, para voltar à infância. É olharmos para as crianças a abrirem os presentes e voltarmos atrás no tempo para perceber o que estão a sentir. Eles não sabem, mas estão agora a viver o melhor tempo das suas vidas. É comer de todos os doces que estiverem em cima da mesa, porque depois durante o ano vamos dizer :"agora é que me apetecia aquele doce que não comi no Natal". Aproveitar, é ouvir pela vigésima vez aquela história do mais velho que está na mesa e que ele conta sempre no Natal, porque é quando tem mais ouvintes. Temos de ouvir, como se fosse a primeira vez. Aproveitar o Natal, é fazer com que as crianças recebam uma prenda do Pai Natal, mesmo que elas desconfiem que estão a ser enganadas. 
 
Sei que falo de um Natal bom. Falo de um Natal onde há possibilidade, pelo menos, de colocar comida na mesa e de dar um brinquedo às crianças. Sei, que em muitas casas tal não é possível. É triste, muito triste mesmo. Por vezes, queixamo-nos sem dar valor ao que temos. O Natal também nos pode dar essa lição de vida. Podemos, e devemos, aprender a dar valor ao que temos. Devemos dar valor a quem temos connosco e ao que estamos a viver. O Natal também é isso. 
 
Meus amigos, façam Natal. Boas Festas para todos!
 
* jornalista José Lameiras

Um simples “ATÉ AMANHÃ!”

Escrito por quinta, 10 dezembro 2015 12:32
A época que se aproxima é uma época que apela ainda mais a sentimentos… sentimentos de partilha, de alegria, de amizade, fraternidade, compaixão, perdão, apela a sentimentos de esperança, união, amor, solidariedade mas também apela muito à Saudade.
 
Saudade é a tal palavra tipicamente portuguesa que gera e carrega em si toneladas de sentimentos e que dizem ser impossível de traduzir noutras línguas.
 

Para mim a Saudade vive num pequeno compartimento que está discretamente escondido algures entre uma válvula ou um ventrículo, uma artéria ou uma veia no coração de cada um. Essa Saudade está inevitavelmente ligada à memória e, de certa maneira, há memórias que quando avivadas deixam de caber no tal compartimento. A este propósito, e acerca deste compartimento, concordo em absoluto com a lucidez de quem escreveu qualquer coisa como “A Saudade é um sentimento que quando não cabe no coração, escorre pelos olhos”. Nada é mais verdadeiro e simples de entender do que esta expressão… logo eu que sou um autêntico piegas. O que é certo é que é de facto isso que pode acontecer quando, por exemplo, visionamos fotografias ou vídeos antigos, quando falamos e recordamos momentos passados, quando reencontramos pensamentos outrora pensados, pode acontecer quando temos saudades de coisas, de sons, de sabores, de cheiros, de toques, quando temos saudades dos tempos, quando temos saudades do tempo, quando temos saudades de alguém.

 

Às vezes imagino que há algo que leva os meus beijos à tua estrela, só tenho pena é que, no regresso, não traga de volta o teu cheiro nem o teu sorriso. Acredito veementemente que não foste tu que perdeste uma vida, acredito mesmo é que ela é que não imagina o que perdeu… perdeu um ser humano de excepção, isso sim!

Embora não descarte a ideia de que a Saudade também pode dizer respeito ao futuro, e apesar de viver com paixão o presente e tendo, naturalmente, uma visão desse mesmo futuro, devo confessar que sou um completo saudosista. Tenho saudades de tantas coisas, de tanta gente…
 
Hoje, 10 de Dezembro, é aquele dia em que, para mim, a Saudade mais aperta. Faz hoje precisamente oito anos que um limite nos separa, digamos que é um traço, um simples traço horizontal que parece estar aqui tão perto mas ao mesmo tempo tão longínquo… esse traço que divide a Terra do Céu e que faz com que a Saudade aumente a cada dia que passa e não caiba no meu compartimento.
 
 Às vezes imagino que há algo que leva os meus beijos à tua estrela, só tenho pena é que, no regresso, não traga de volta o teu cheiro nem o teu sorriso. 
 
Acredito veementemente que não foste tu que perdeste uma vida, acredito mesmo é que ela é que não imagina o que perdeu… perdeu um ser humano de excepção, isso sim!
 
Tenho Saudades tuas pai! Tenho Saudades de ser o teu guarda-redes (ainda hoje quando jogo à bola com o teu neto, és tu também que ali estás). Tenho Saudades das tuas criações culinárias, do teu assobio trinado, da tua boa disposição. Tenho Saudades da tua amizade pelas pessoas, aliás, essa amizade ficou bem patente no dia em que seguiste outro rumo e transpuseste o tal traço horizontal, nessa manhã fria em que o sol brilhou para te iluminar o caminho e em que até o teu orfeão cantou, só para ti, a Avé Maria de Jacob Arcadelt de que tanto gostavas… foram centenas as tais pessoas que nesse dia te demonstraram a amizade e que te acompanharam para se despedirem de ti. Logo tu que eras a mais simples das pessoas, humilde, respeitadora e justa, amigo de todos e, ao contrário do que se possa imaginar, sem qualquer relevância social. Sim porque não foste político, não foste escritor, nem sequer futebolista… no fundo não foste nada daquilo que hoje se preconiza como de grande importância social. Sabes o que te digo, pai? Ainda bem que não foste! Ainda bem que foste simplesmente tu, o “Manecas” pai, filho, marido, vizinho, irmão, colega, cunhado… o “Manecas” gerador de consensos, parceiro, divertido, simpático, brincalhão, amigo. Ainda bem que foste somente pessoa, pai.
 
Às vezes tenho vontade de, como diz o meu amigo José Gonçalez, “…te poder dar a mão” e “…Dar um murro na saudade”. Mas não consigo… é verdade, não consigo mesmo… na realidade o que me resta é ter que ir dando vida à Saudade.
 
Tenho Saudade do prazer físico de te tocar, pai… de te ver, de te abraçar, de te cheirar, de te beijar. Tenho Saudades de sermos todos, e nós sabemos que todos não fomos. Tenho até saudades de um simples “Até amanhã!” 
 
E o que pode mudar com um simples "Até amanhã!"?
 
O branco pode ficar negro...
 
O cheio, vazio...
 
A certeza pode dar em incerteza...
 
A verdade em mentira...
 
A realidade em utopia...
 
A liberdade em cárcere...
 
A luminosidade em escuridão...
 
Com um simples "Até amanhã!"... o prazer pode dar em dor...
 
A facilidade em dificuldade...
 
A vitória pode virar derrota...
 
A perseverança pode dar em renúncia...
 
A paciência em impaciência...
 
O perfeito em imperfeito...
 
A paz em guerra...
 
Com um simples "Até amanhã!" a alegria pode tornar-se tristeza...
 
A vida pode fugir para a morte...
 
Há oito anos atrás, neste dia 10 de Dezembro, acordei sem saber porquê às 5h30m da manhã... estranho... nunca acordo de noite... voltei a adormecer. Pela manhã toca o telefone e tu já tinhas ido... precisamente às 5h30m...
 
Aquele acordar talvez tenha sido um sopro teu... talvez tenha sido um até já... talvez tenha sido a tua despedida.
 
Uma coisa é certa pai, a vida que viveste, viveste-la por ti, para ti e para os outros, aliás, os teus ensinamentos dizem-me que não faz sentido viver a nossa vida sem a dar a beijar aos outros.
 
Quando há oito anos seguiste outro caminho, pensei que te tinha perdido... mas não!!! Tu não morreste, estás bem vivo em mim!!! Continuas a ser um exemplo, uma fonte de inspiração. Os valores que cá me deixaste fazem com que continues a estar aqui e a fazer parte da nossa vida.
 
Não! Não te perdi... eu encontro-te aqui no meu pequeno compartimento ... todos os dias... SEMPRE!!!!!
 
Na noite anterior à tua viagem disseste-me "Até amanhã!" 
 
O que pode mudar com um simples "Até amanhã!"?
 
PODE MUDAR TUDO!!!!...
 
MAS TAMBÉM PODE NÃO MUDAR ABSOLUTAMENTE NADA!!!!
 
ATÉ AMANHÃ, PAI!!!!!
 
AMO-TE
 
* Professor Luís Parente
 

Encontro com Freud - Crónica VII

Escrito por quarta, 09 dezembro 2015 02:45
…”encontrei-me com Freud” e refleti sobre a Solidariedade.
 
O que é isso de ser solidário? Há vários tipos de solidariedade, formalizada, instituída e perfeitamente reconhecida e legitima aos olhos das comunidades, onde há procedimentos e regras que regem comportamentos, funcionamentos, protocolos e tudo o que é necessário a quem presta um serviço social aos que dele necessitam. E depois o simples ato de solidariedade que cada um de nós decide realizar em prol de um outro alguém que, aos nossos olhos, o necessita. Hoje por Si, amanhã por mim, sim porque amanhã ainda vem longe e nunca saberemos como vai ser, tenhamos consciência disso quando decidirmos ser solidários.
 
Nunca esta palavra e ação esteve afastada da nossa vida e apesar do amanhã ainda estar longe, cada vez mais as campanhas de solidariedade em nome de nobres causas e crises econômicas, sociais, religiosas, afetivas, relacionais e comunitárias, nos chamam a todos de uma maneira ou de outra.
 

Uma vez mais somos assombrados com ideias pré-concebidas, quem precisa é fraco, quem precisa não sabe, quem precisa não quer, quem precisa não pode… não pode escolher, não pode gostar, não pode questionar, não pode desejar, não pode sentir, não pode querer… Que solidariedade é esta, que humilha, que submete, que inferioriza, que magoa, que mal trata e que julga?...

O denominador comum de todas elas, tem nome e tem rosto, não defendo jamais que os conheçamos, defendo apenas que os imaginemos quando olhamos o espelho.
 
A solidariedade acontece quando eu respeito o “outro” enquanto individuo diferente de mim, nem menos nem mais, apenas diferente, com quem posso aprender e a quem posso ensinar, de quem posso receber e a quem posso dar. As definições são muitas vezes ambíguas e estereotipadas. Quando se ouve a palavra solidariedade, que imagem ou imagens nos aparecem?
 
E quando aquele que recorre a nós não se enquadra em nenhuma delas? … 
 
A solidariedade acontece quando eu me “dispo” de formatações prévias e me deixo embalar num conhecimento novo do “outro”, do que lhe é querido, do que considera importante, dos seus gostos, dos seus interesses, dos seus sonhos, dos seus medos, das suas limitações… sem juízos de valor e apenas com partilha de conhecimentos e vivências. 
 
Não existe solidariedade sem empatia, aquilo que nos chama é a capacidade de olhar o outro ou imaginá-lo no espelho e depois timidamente perguntar, o que faria eu? teria a coragem para partilhar o que preciso? … Uma vez mais somos assombrados com ideias pré-concebidas, quem precisa é fraco, quem precisa não sabe, quem precisa não quer, quem precisa não pode… não pode escolher, não pode gostar, não pode questionar, não pode desejar, não pode sentir, não pode querer… Que solidariedade é esta, que humilha, que submete, que inferioriza, que magoa, que mal trata e que julga?... 
 
Meus amigos, a solidariedade será sempre um valor, uma causa, uma missão e nunca um “palco” de representação social. A solidariedade acontece sempre que vou ao encontro do outro e/ou ele vem ao meu encontro e não importa o motivo, só importa o que acontece.
 
* Psicóloga Helena Chouriço
 

A Cozinha do Ganhão

Escrito por quinta, 26 novembro 2015 02:51

 

Começa hoje mais uma Cozinha dos Ganhões. Durante quatro dias, Estremoz dá a conhecer, a todos aqueles que a visitam, um sensacional mundo de sabores que é também fruto da extraordinária interação do Homem com a Paisagem.
 
Em 1985, em boa hora se reuniu à mesa um grupo de estremocenses, apreciadores da boa gastronomia alentejana, dando assim o primeiro passo para a criação de um evento que é hoje considerado o maior certame gastronómico do Alentejo e que vai já na sua 23.ª edição.
 
Armando Alves, Jacinto Varela, João Albardeiro, João Paulo Ferrão e José Emílio Guerreiro, foram os mentores deste projeto e por isso merecem naturalmente ser referenciados, pois se não fosse esta sua ideia provavelmente a Cozinha dos Ganhões hoje não existiria.
 

Há quem diga que este espetáculo, que esta identidade, se perdeu com a ida da Cozinha dos Ganhões para o Parque de Feiras, em 2004. Não partilho da mesma opinião. Para mim, a identidade continua lá, bem viva, ainda que se manifeste de forma distinta. A Cozinha continua ainda hoje a ser um excecional meio de transmitir às gerações atuais as tradições e costumes do nosso povo e que estão na génese da identidade da paisagem alentejana.

A sua ideia base consistiu na realização de provas de cozinha típica alentejana e degustação de vinhos alentejanos, numa tasquinha improvisada para o efeito, no Rossio Marquês de Pombal, por ocasião da III Feira de Arte Popular e Artesanato de Estremoz, em julho de 1985. Ali, várias tascas, restaurantes e cozinheiros, em dias diferentes, tiveram oportunidade de dar a conhecer as suas especialidades aos visitantes.
 
Mas a ideia apenas se viria a formalizar como evento próprio nove anos mais tarde, em 1994, no Pavilhão do Mercado Abastecedor, pela mão do Município de Estremoz. Ali estiveram presentes onze tasquinhas, em representação das várias freguesias do concelho, cada uma com os seus pratos típicos, acompanhados com vinho novo e pela atuação de vários grupos etnográficos.
 
Muitos ainda se recordam das noites frias de final de novembro passadas naquele Pavilhão, das ambiências vivenciadas nas tasquinhas delimitadas com estruturas de madeira, do piso em terra batida e do cheiro do fumo proveniente das dezenas de assadores. Tal como nos sábados de manhã, em que a paisagem urbana de Estremoz se transforma e o campo visita a cidade no mercado tradicional, também naquela época a cidade, naquele espaço, dava as boas vindas aos sabores, cores, sons e cheiros do campo, num festival de características únicas.
 
Há quem diga que este espetáculo, que esta identidade, se perdeu com a ida da Cozinha dos Ganhões para o Parque de Feiras, em 2004. Não partilho da mesma opinião. Para mim, a identidade continua lá, bem viva, ainda que se manifeste de forma distinta. A Cozinha continua ainda hoje a ser um excecional meio de transmitir às gerações atuais as tradições e costumes do nosso povo e que estão na génese da identidade da paisagem alentejana.
 
As freguesias continuam lá representadas, através das tasquinhas, dos doceiros, dos artesãos, dos empresários do sector agroalimentar, dos vinhos... Os sabores, os sons, os cheiros, as cores, os saberes, tudo continua lá, nas mais diversas manifestações.
 
Contudo, tal como uma paisagem, tal como a própria vida, também a Cozinha dos Ganhões se teve de adaptar ao novo espaço e às vontades impostas pelo tempo e pelos Homens. No tempo em que vivemos, ela precisa de crescer e de acontecer num espaço que garanta as condições que deem resposta às exigências sociais, ambientais e económicas, impostas por vários agentes, designadamente em matéria de segurança, de higiene alimentar e de conforto humano.
 

Embora tenha algumas saudades dos tempos e das vivências que, seguramente, já não voltam a acontecer neste evento, confesso que gosto muito mais da Cozinha de hoje. Digo-o com a maior das convicções e com a confortável naturalidade de quem faz parte desta paisagem de sabores há 15 anos e, por isso, acompanhou a sua evolução de muito perto.
 
Com os seus altos e baixos, a Cozinha dos Ganhões evoluiu muito nestes 23 anos, mas o mais importante é que conseguiu, sempre, ser uma das melhores formas de promoção das potencialidades do concelho de Estremoz, sendo anualmente frequentada por milhares de visitantes, à procura dos sabores que só nós, alentejanos, sabemos introduzir na paisagem. Soube afirmar-se, soube conquistar o seu espaço, soube diferenciar-se e destacar-se das restantes feiras gastronómicas. Tem inovado, respeitando a tradição. É por isso que é única e merece o estatuto que adquiriu.
 
Nos últimos três anos, a Cozinha dos Ganhões tem-nos ainda remetido para um passado longínquo da humanidade, recordando-nos que todos nós temos um pouco de caçador-recoletor nos nossos genes. A Feira "Estremoz Caça e Pesca", que constitui um excelente complemento à Cozinha, é também uma mostra da forma como o Homem tira partido da paisagem para criar paladares ou para se recrear.
 
Nos próximos dias, esta minha paisagem vai encher-se de animação e de convívio, vai despertar todos os meus sentidos. Vou aproveitar, por isso, esta oportunidade que viver em Estremoz me proporciona e fazer jus ao nome que tenho. Porque afinal, esta também é a minha Cozinha...
 
Arquiteto Paisagista António Ganhão Serrano, 26/11/2015
 
 

O Costa do Escadote

Escrito por quarta, 25 novembro 2015 01:40
Agora, é mais fácil entender a boa disposição de António Costa, na noite das eleições de 4 de Outubro, quando os resultados apontavam para uma derrota do seu partido. Aliás, diga-se em abono da verdade, uma derrota sua. António Costa foi o grande derrotado dessas eleições. Seria relativamente fácil, para António José Seguro, vencer uma Coligação que estaria, por essa altura, a dar tiros nos pés. Não foi fácil, nem de perto nem de longe, o caminho que Passos e Portas tiveram de fazer juntos. A juntar às decisões impopulares que tomaram, e que só por si tiram votos nas urnas, algumas "rixas" internas deixaram o Governo muitas vezes a abanar e quase a cair. A Coligação renasceu das cinzas, mobilizou-se e venceu as eleições. António Costa tirou a António José Seguro o direito de lutar pelo lugar de primeiro-ministro, dizendo que este tinha conseguido um resultado "fraquinho" nas Europeias, e foi ele para a frente de combate, abandonando a Câmara de Lisboa com a certeza que São Bento seria a próxima paragem. No dia 24 de Novembro, chegou a confirmação de que afinal tudo valeu a pena.
 

António Costa rasteirou, em pouco tempo, três adversários políticos. Seguro, Passos e Portas foram ultrapassados por Costa nas suas ambições. Conseguiu alianças impensáveis e que serão muito difíceis de manter e de levar até ao fim. Quando vê as portas fecharem-se à sua frente, António Costa agarra no escadote e entra pela janela. Não é normal alguém estar tão bem disposto depois de levar nas urnas a "tareia" que Costa levou. Ele estava. Aí começava o seu plano B. António Costa sabia que só precisava de garantir que a Coligação não tivesse maioria no parlamento. Depois, era garantir entendimentos para ir para o poder. Conhecedor da Constituição, António Costa lançou uma caça ao Governo, sabendo que seria fácil convencer o PCP e o BE, partidos que passaram a legislatura a pedir a demissão de Passos Coelho.
 
É claro que as Legislativas servem para eleger Deputados e não Governos. Esse é o argumento para quem agora defende esta solução para uma "estabilidade governativa". No entanto, eu vi, e ouvi, dois debates entre Costa e Passos, um na televisão e outro na rádio. Eram debates para que os portugueses escolhessem o primeiro-ministro. Passos conseguiu ser mais votado, foi indigitado e depois rejeitado. Costa foi considerado o grande derrotado e vai ser o líder do governo.
 

Quando vê as portas fecharem-se à sua frente, António Costa agarra no escadote e entra pela janela. Não é normal alguém estar tão bem disposto depois de levar nas urnas a "tareia" que Costa levou. Ele estava. Aí começava o seu plano B.

Há muita gente dentro do PS que não concorda com isto. Uns dizem, outros nem por isso. Os portugueses nunca irão perdoar se algo correr mal. Seria mais seguro, e até mais lógico, o PS deixar passar o Governo da força política mais votada e depois tentar no parlamento fazer aprovar algumas das suas ideias, negociando também com o Governo os diplomas fundamentais. A grande questão é que António Costa jogou a sua sobrevivência política e liderar a oposição não era suficiente para as suas aspirações. Traçou como objectivo ser primeiro-ministro e vai conseguir. De regresso ao Governo, estarão alguns dos que lá estavam quando Portugal pediu um resgate ao FMI. Quatro anos depois, parece que nada aconteceu.
 
Desejo, honestamente, sorte a António Costa. Portugal precisa de alguém que olhe para o país, não no imediato, mas no futuro. Há muitos jovens desiludidos com os últimos anos de sucessivos governos especialistas em trapalhadas e governantes metidos em esquemas. De um lado e do outro, há poucos inocentes. Apesar da falta de dinheiro, ainda é bom ter poder em Portugal pois, se não o fosse, António Costa não tinha usado, mais uma vez, o seu escadote.
 
* jornalista José Lameiras

Sonhar é acreditar que sim

Escrito por sexta, 13 novembro 2015 15:39
“Pelo sonho é que vamos.
Comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
Pelo sonho é que vamos.
Basta a fé no que temos,
Basta a esperança naquilo
Que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
Com a mesma alegria,
Ao que desconhecemos
E do que é do dia-a-dia
Chegamos? Não chegamos?
- Partimos. Vamos. Somos.”
 
Este é talvez um dos poemas mais conhecidos do Poeta e Professor Sebastião da Gama, fala precisamente do sonho. Na verdade, desde o início dos tempos que a humanidade sonha.
 
Ao longo dos séculos o sonho tem sido retratado por inúmeros escritores, pensadores, poetas, políticos, filósofos. Fernando Pessoa, Vergílio Ferreira, Agostinho da Silva, António Gedeão, Alexandre O’Neill, José Saramago, Florbela Espanca, Mia Couto, Gabriel Garcia Marquez mas também Sigmund Freud, William Shakespeare, Martin Luther King e até John Lennon, Bob Marley ou Charlie Chaplin falaram sobre o sonho.
 
Quem é que nunca teve um sonho que o perseguisse todo um dia?
 
Quem é que nunca sonhou que vai cair num precipício e acorda repentinamente? 
 
Quem é que nunca acordou a meio de um agradável sonho e não tentou adormecer de novo para o poder retomar? 
 
Quem é que nunca sonhou ser aquilo que não é?
 
É verdade, todos sonhamos, todos mesmo, sem excepção! 
 
Classificar os sonhos de bons ou maus não faz para mim qualquer sentido, até porque, desse modo, se os sonhos são maus não são sequer sonhos, são pesadelos. Também não há para mim sonhos grandes ou pequenos, eles não se medem, não se pesam… se bem que há sonhos que tocam, que falam, que cheiram, que ouvem, que veem.
 
Sonhar não pode ser uma ousadia… sonhar só pode ser uma incomensurável liberdade… um despertar de sensações… sonhar só pode ser soltar as amarras, ultrapassar limites. De certo modo o sonho leva-nos a passar da tentação à acção, ainda que não seja claro que nos dê aquilo que a realidade nos nega.
 
Serão os canais que levam o sonho à realidade, os mesmos que o levam à utopia? Talvez. Ainda assim acredito que o sonho não seja só uma coisa do outro lado, dali… do inconsciente, até porque qualquer um pode sonhar acordado.
 
Muitas vezes questiono-me sobre a profundidade do sonho, sim porque não é só o sono que é profundo, o sonho também o é. Na minha perspectiva todo o sonho é profundo e não deixa mesmo de o ser nem quando os olhos se abrem, o que acontece é que ele está intimamente ligado ao desejo, e o desejo tanto existe no estado de sono como no estado de vigília. Tenho para mim que talvez o sonho e o desejo sejam a mesma coisa… ou então não… se calhar quando dormimos sonhamos e quando estamos acordados desejamos.
 
No fundo sonhar é voar, transpôr fronteiras, viajar, sentir… SONHAR É ACREDITAR QUE SIM!
 
Ninguém pode sonhar por nós! O sonho por mais que envolva mil e uma pessoas é sempre individual. No sonho todos somos o centro de tudo, todos somos protagonistas, aqueles a quem é entregue o papel principal, aqueles a quem a visão mais abrange, aqueles que acreditam que conseguem. Mesmo assim não considero que o sonho seja egocêntrico, senão vejamos, quando se tem filhos os nossos sonhos modificam-se (e de que maneira!), principalmente porque quase todos se passam a centrar neles. Obviamente que não esperamos que os nossos filhos não os tenham ou que queiramos que vivam os nossos sonhos, é importante para nós é que eles vivam nos nossos sonhos mas acima de tudo é imprescindível é que sonhem… que sonhem muito. 
 
Se analisarmos bem, o sonho está sempre ligado à forma verbal, ou a um conjunto de verbos, está ligado ao ter, ao ser, ao querer, ao estar, ao ir, ao ficar. Verifiquemos por exemplo o verbo TER, há quem sonhe TER uma casa melhor (ou TER uma casa), há quem sonhe TER um bom carro (ou TER um carro), há quem sonhe TER uma vida melhor (ou TER uma vida). 
 
O sonho já foi sonhado, já foi pensado, já foi escrito, falado filmado, desenhado, contado, pintado, ouvido, dançado, gritado, cantado, já foi ostentado, silenciado, marginalizado, mas também já foi sentido, vivido e realizado.
 
Eu próprio tenho muitíssimos sonhos, talvez não tantos como Fernando Pessoa que tinha em si todos os do mundo. Sempre ouvi dizer que é o sonho que comanda a nossa vida, aliás já António Gedeão o dizia e Manuel Freire o cantava na sua “Pedra Filosofal”. Também sempre me disseram que só se era feliz e não envelhecia quem nunca havia desistido de sonhar. Ainda assim, quem sabe não me chegue ter todos os sonhos que tenho, talvez o que sonhe seja pouco, talvez muitos dos meus sonhos sejam utópicos.
 
Faço-vos uma inconfidência, um dos meus maiores sonhos é agarrar aquela estrela ali… aquela que brilha mais que as outras… a do meu pai. Agarrá-la e trazê-la até mim para que possa voltar a vê-lo, para lhe tocar de novo no rosto, para lhe dar de uma só vez os abraços e os beijos que não lhe dei, para voltar a sentir o seu cheiro e dizer-lhe tão simplesmente o quanto foi importante para mim, o quão importante ele é para mim.
 
Será que há sonhos depois da morte?
 
Se houver só espero que os dele se cruzem com os meus para voltarmos a partilhar juntos… AQUELES momentos!
 
* Professor Luís Parente

Ter dúvidas tem as suas consequências

Escrito por quarta, 28 outubro 2015 13:21
Como sempre, não sabia acerca do que escrever neste artigo. Houve alguém que me disse para escrever sobre a vitória do Sporting (e a consequente derrota do Benfica) no jogo do passado domingo. Não o quis fazer, pois para além de não perceber nada de futebol, também não sou daqueles que "sofrem da bola" e considero que o meu tempo é precioso demais para dedicá-lo a esse tema. Além disso, como não sei nada sobre o assunto, corro o risco de ser vaiado nos comentários por aqueles que realmente percebem ou pelos que realmente sofrem. Assim sendo, jamais escreverei sobre futebol. Deixo isso para os entendidos.
 
Depois pensei escrever sobre a Playboy. Sim, leram bem: sobre a Playboy. Ao que parece, os editores e o fundador da revista decidiram que a mesma passará a não integrar fotografias de mulheres em nu integral. Asseguram que já não conseguem vender como antigamente, devido à facilidade com que este tipo de imagens prolifera pela Internet. Contam agora, através da publicação de imagens de mulheres apenas em poses provocantes, recuperar e alargar o público-alvo da revista, para que se dirija também aos adolescentes na faixa etária dos 13 anos. 

É bem provável que as vendas melhorem, pois é sabido que não existem na Internet milhões de imagens de mulheres em poses provocantes e as mesmas não estão acessíveis a jovens de 13 anos... Mas, tal como de futebol, também não percebo nada sobre este assunto e por isso decidi também não escrever sobre ele.
 
Atendendo à atualidade do tema, decidi escrever sobre os resultados das eleições legislativas, coisa que em Portugal é sinónimo de ir ao circo, com a óbvia vantagem de esta ida ao circo ser de graça e, mesmo assim, ter já proporcionado muitas e memoráveis gargalhadas (com o devido respeito que tenho pelas artes circenses, as minhas desculpas por esta comparação). Corro o risco de possuir ainda menos conhecimentos sobre política, mas atendendo à atual conjuntura e não obstante já terem sido escritos milhares de quilómetros de opiniões sobre o tema, parece-me que todos nós cada vez percebemos menos de política nacional.
 
Acredito piamente e apenas naquilo que os meus sentidos percecionam. E aquilo que vi foi a coligação Portugal à Frente vencer as eleições, independentemente de o ter conseguido com maioria relativa ou não. Foi a força política mais votada. A minha opinião é que deve ser esta coligação a governar, mau grado me tenha feito perder vencimento ao fim do mês, me obrigue a trabalhar mais uma hora por dia, me tenha tirado subsídios de férias e de natal e me tenha dado mais uma série de chatices, como a subida do IVA ou do IRS. Contudo, não gostava nada de ter feito todos estes sacrifícios para agora vir uma série de radicais, sabe-se lá com que ideias, arranjar maneira de ter de voltar a passar pelo mesmo daqui a meia dúzia de anos. Confesso que me causa uma certa estranheza, diria até um certo repúdio, uma maioria artificial, uma coligação pós-eleitoral, cujo programa conjunto se desconhece e não foi sufragado (aliás, duvido até que exista), vir agora reivindicar o direito de governar sem ganhar.  Tenham paciência... Como querem que o povo acredite nos partidos políticos, se eles se prestam a este tipo de manobras apenas para estar no poder? Quem os viu e ouviu durante a campanha eleitoral nunca pensou ver o PS, o PCP e o BE aos "beijinhos e abraços" uma semana depois. Cá para mim há outros interesses por detrás disto tudo, mas isto sou só eu a pensar, pois, tal como disse, eu não percebo nada de política...
 

Tato teve o Presidente da República, que indigitou quem tinha que indigitar para Primeiro-Ministro e teve a ousadia de "chamar os bois pelos nomes". Admiro a sua atitude de coragem, pois alguém tinha de chamar esta gente à razão. Há quem diga que o discurso de Cavaco Silva ainda deu mais força à "esquerda unida". Mas qual esquerda unida? Gostava que me explicassem onde existe esta união, pois eu não a consigo sentir. Parece-me que eles também não...

Tato teve o Presidente da República, que indigitou quem tinha que indigitar para Primeiro-Ministro e teve a ousadia de "chamar os bois pelos nomes". Admiro a sua atitude de coragem, pois alguém tinha de chamar esta gente à razão. Há quem diga que o discurso de Cavaco Silva ainda deu mais força à "esquerda unida". Mas qual esquerda unida? Gostava que me explicassem onde existe esta união, pois eu não a consigo sentir. Parece-me que eles também não...
 
Chego à conclusão que falar sobre política nacional se revelou uma tremenda perda de tempo e por isso prometo que não o voltarei a fazer. Há certamente por aí gente muito melhor posicionada para isso, tal como o há para falar sobre futebol.
 
Mais valia que tivesse escrito sobre a construção da Zona Industrial de Arcos, que teve início no dia 8 de outubro. A tal zona industrial que alguns políticos locais não queriam viabilizar; a tal zona industrial que segundo eles nunca iria ser construída; a tal zona industrial que, também segundo esses mesmos políticos, não terá empresas interessadas em ali se instalarem. Estou "mortinho" por ver a cara destes políticos daqui a um ano...
 
Podia ter falado sobre as alterações que esta Zona Industrial vai conferir à paisagem, sobre os empregos que vão ser criados, sobre as pessoas que vão continuar a viver em Estremoz, sobre a dinâmica económica que isso proporciona, sobre a concretização de sonhos ou ainda sobre a influência que Pedro Passos Coelho teve na sua construção. Parece que desperdicei esta oportunidade e acabei por escrever sobre assuntos sem qualquer interesse. Ter dúvidas acerca do que escrever tem as suas consequências.
 
Para a próxima, juro que vou ter mais juízo e escreverei sobre algo mais profícuo, pois imaginar uma coligação de esquerda que não existe, nunca existiu e jamais existirá, é tão mau como folhear uma Playboy sem mulheres nuas e coloca-me sérias dúvidas se o Benfica, apesar de ter perdido com o Sporting, não devia estar em primeiro lugar no campeonato.
 
* Arquiteto Paisagista António Serrano
 
 
 

Encontro com Freud - Crónica VI

Escrito por segunda, 26 outubro 2015 23:09
…”encontrei-me com Freud” para refletir o privado e o íntimo, dois conceitos semelhantes ou significativamente diferentes, incompatíveis ou complementares? …Momentos privados, aqueles que partilhamos com alguém, onde o nosso comportamento é pautado e/ou motivado por sentimentos, desejos, anseios e despido de preocupações, mais ou menos latentes relativamente à linguagem, à expressão corporal e até ao sentido crítico, que é como quem diz, menos formais e mais descontraídos… Partilhamos momentos privados nas nossas relações, sejam relações físicas, emocionais e em que os objetos (considera-se aqui “objeto” aquele com que nos relacionamos, aquele a quem dirigimos a nossa atenção em determinado contexto e situação) podem ser mais ou menos próximos, do ponto de vista de conhecimento pessoal. É comum ouvirmos falar em relações fugazes, um momento, uma noite, um espaço e um tempo com quem se esteve em privado ou anos de vida em privado, um namoro, um casamento, uma amizade, uma relação familiar, em todas elas temos consciência do grau de intimidade? Será que até hoje partilhámos efetivamente a nossa intimidade com alguém? Vou considerar o íntimo aquilo que guardamos na alma, o que desejamos em cada momento privado, os nossos medos, os nossos anseios, as nossas imperfeições, a forma como nos vemos e olhamos o mundo à nossa volta, o que nos satisfaz, o que gostamos, o que sentimos em cada momento, tempo e espaço, que às vezes é tão mutável e inconstante que tentamos apenas que passe e voltemos a sentir/ estar como é esperado.
 

A pressão, o preconceito, a cultura, a mentalidade em que crescemos são muitas vezes “algemas” que não nos deixam livres até para os que amamos e nos amam. Pais, Educadores, Professores permitam que os vossos filhos sintam e o possam expressar sem medo, ajudem os vossos filhos a gerir frustrações, percebam que os melhores amigos existem e que o vosso papel nunca será esse...

É tão fácil partilhar situações de felicidade, uma paixão, uma viagem que se realiza, um emprego que se ambiciona, um sonho que se realiza, e quando perdemos, quando a dor é maior que a vida inteira, quando o sofrimento abre uma ferida que teima em cicatrizar, tendencialmente fechamo-nos em “concha”, podemos até verbalizar mas será que partilhamos o que intimamente sentimos? É comum que cada um procure o seu espaço e tempo longe de tudo e de todos, é comum que o façamos com intuito de proteger os que nos estão próximos e aqui temos dois problemas fundamentais, por um lado o sofrimento aumenta e por outro provocamos nos outros um processo de “adivinhação” relativamente ao que sentimos, pensamos, queremos o que muitas vezes confunde reações e emoções de parte a parte.
 
Meus amigos, quando dividimos, quando partilhamos, o peso é menor… A intimidade é muito mais que partilhar corpos, beijos, abraços, discussões, ideias, espaços e tempos… Muitas vezes despimos a roupa mas sem nos despirmos de alma, essa guardamos porque é o que temos de mais precioso e único. A pressão, o preconceito, a cultura, a mentalidade em que crescemos são muitas vezes “algemas” que não nos deixam livres até para os que amamos e nos amam. Pais, Educadores, Professores permitam que os vossos filhos sintam e o possam expressar sem medo, ajudem os vossos filhos a gerir frustrações, percebam que os melhores amigos existem e que o vosso papel nunca será esse, aprendam que amar não significa controlar, escolher ou replicar o mesmo caminho mas sim orientar, escutar, aprender e respeitar que a felicidade e o amor se constroem e que o caminho é longo e todos necessitamos de um espaço e tempo onde a nossa intimidade não seja uma prisão, um peso e muito menos uma culpa de tudo e de coisa nenhuma. 
 
* Psicóloga Helena Chouriço

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