quarta, 22 novembro 2017

Para ti, "Rei das Tabelas"

Escrito por quinta, 14 janeiro 2016 23:56
Uma vez disseste-me: "Isto é duro mas eu vou conseguir". Acreditei. Acreditei mesmo. E não acreditei só porque sim. Acreditei porque conhecia a tua força. Conhecia a tua forma de encarar a vida e as contrariedades. Sabia que ias lutar contra a doença com a mesma força que levantavas pesos no ginásio que montaste na parte de cima da tua casa. Conhecia-te como um lutador. Eu e os nossos colegas do hóquei brincávamos contigo quando dizíamos que eras o "Rei das Tabelas". O que é certo, é que era aí que tu mostravas a tua força e os adversários ficavam colados ao chão. A bola era sempre tua, apesar de às vezes os árbitros acharem que era falta. Gostavas de te colocar à prova. Gostavas de ver quem era o mais "cavalão".

Já passou um ano. Um ano sem ouvir as tuas "parvoeiras". Sim, tu fazias questão de chegar e dizer qualquer coisa. Nem que fosse: "Epá, tens uma blusa do caparro, mas só te falta o caparro". Fazias questão de dizer sempre algo para melhorar o ambiente. Quando nos juntávamos, e ultimamente já eram poucas vezes, surgiam logo as histórias de outro tempo acompanhadas de gargalhadas. Basicamente, tínhamos outra vez 10 ou 15 anos. A mim, particularmente, volta e meia dizias-me:"estás mais magro...aí uns 200 gramas". 
 
Fizeste bem a muita gente. Não era preciso ver o Facebook no dia em que foste embora para perceber isso. Foste um exemplo pela luta que travaste contra um adversário que tinha outro tipo de argumentos. Argumentos esses, que muitas vezes, e com muito sofrimento, conseguiste contornar. Lembro-me de te visitar no IPO, através de uma janela de vidro e de aí falar contigo ao telefone. Saí de lá, desejando nunca mais lá voltar e muito triste por ver um amigo assim. Foi já há algum tempo, é certo, mas nunca mais esqueci esse dia. 
 

Um abraço, "Rei das Tabelas", daqui até ao céu.

Há um ano atrás veio a notícia inesperada. Não queria acreditar, pois tinha estado contigo há relativamente pouco tempo e tal desfecho não me parecia possível. Mas aconteceu. O "Rei das Tabelas" tinha perdido a guerra contra um adversário terrível. Ganhaste muitas batalhas mas perdeste a guerra. Caíste, é certo, mas de pé. Tal e qual como nos tempos em que jogávamos hóquei. Nós até podíamos perder, e perdemos muitas vezes, mas eles tinham de ser muito mais fortes do que nós, porque nós lutávamos muito. Foi assim que tu lutaste, até ao fim.
 
Um ano depois, não mereces ser esquecido. Nunca o vais ser. Fosse no trabalho, no hóquei, ou noutro sítio qualquer, nunca foste apenas mais um. Eras tu. 
 
Um abraço, "Rei das Tabelas", daqui até ao céu.
 
* Jornalista José Lameiras

O Tempo dos nossos Tempos

Escrito por domingo, 10 janeiro 2016 02:03
A visualização de um pequeno vídeo do surpreendentemente humilde ex-presidente da república do Uruguai, José Mujica sobre os valores da sociedade actual e a forma como vivemos o tempo, fez com que eu próprio explorasse um pouco este assunto. Mas, para que melhor se entenda aquilo a que me refiro, talvez seja melhor reproduzir aqui as suas próprias palavras:
Inventámos uma sociedade de consumo em que a economia tem que crescer ou acontece uma tragédia. Inventamos uma montanha de consumos supérfluos… mas o que se gasta é tempo de vida. Quando compro algo, ou tu, não pagamos com dinheiro, pagamos com o tempo de vida que tivemos de gastar para ter aquele dinheiro. Mas com uma diferença, tudo se compra menos a vida. A vida gasta-se e é lamentável desperdiçar a vida para perder a liberdade.”
 
De facto, esta azáfama em que se vive e estes valores temporais que nos tentam incutir nos dias de hoje, só nos faz mesmo… passar tempo. Não conseguimos sequer aproveitá-lo para as coisas que realmente interessam, para as coisas que nos dão gozo, para as coisas que são efectivamente importantes para nós.
 

Não queiramos que o tempo passe tão depressa, há coisas que nos vão fazer ter saudades, mesmo sabendo que tudo valeu a pena vão fazer-nos ter saudades. Todo o tempo passado já não volta a passar pelo nosso tempo (pelo menos tal como o conhecemos), mas se o vivermos à pressa nem sequer conseguiremos saborear o momento.

O tempo consome-nos, as distracções desta e de outras vidas são mais que muitas.
 
O tempo voa e muita gente não consegue encontrá-lo para simplesmente ser feliz. 
 
O tempo passa, e passa tão velozmente que quando nos apercebemos que queremos chorar, que queremos rir, estar, amar, sorrir, que queremos tão somente olhar ou viver, o tempo já passou por nós e o tempo que passa já não regressa, só tem bilhete de ida. Quando nos apercebemos disso já ele nos ultrapassou a toda a velocidade e levou também consigo a vida que não vivemos. De certa forma, por vezes, chega a deixar-nos um amargo de boca o facto de não conseguirmos recuperá-lo, mas não conseguimos mesmo, já se perdeu, e aquele que se perdeu foi aquele que já passou.
 
O tempo urge e outros gostariam de ter mais tempo… mais tempo para perder, mais tempo para ganhar, gostariam de ter a liberdade de poder gastá-lo, vivê-lo, aproveitá-lo, senti-lo e até mesmo poder matá-lo. Mas será que não se tem mesmo essa liberdade? Eu não acredito, de todo! Cheguei à conclusão que a frase “Não tenho tempo!” pode ser uma autêntica treta! Toda a gente tem, à partida, o mesmo tempo, a sua forma de gestão é que pode diferir… o ritmo com que o mesmo se gasta é que pode ditar a liberdade que se tem para o gerir. Esqueçamo-nos então da ideia de que não se tem tempo e façamos nós o nosso próprio tempo.
 
Se repararmos o tempo está em tudo o que fazemos, está naquilo que sentimos, no que lemos. Quem não reconhece o trava-línguas “O tempo perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem, o tempo respondeu ao tempo que o tempo tem tanto tempo quanto tempo o tempo tem”? O tempo está em todo o lado. Aqui por Estremoz, por exemplo, está inscrito aos pés da imagem do deus Saturno, num dos ex libris da cidade, no conhecido Lago do Gadanha, o texto “Corre o tempo velozmente, como a água da corrente. Nós também da mesma sorte, correndo vamos à morte.”
 
O tempo é, na realidade, o momento, desaparece num ápice, é verdade, mas é o momento. Uns dizem que é dinheiro, outros classificam-no de ouro. Nenhuma destas classificações se pode deixar de considerar verdadeira, porém, para mim é muito mais do que isso, para mim o tempo é professor. Ele ensina-nos tanto! Traz-nos tanta coisa!… A mim trouxe-me responsabilidade, trouxe-me a maturidade que quase não tive quando, por exemplo, nasceu a Mariana, trouxe-me a maturidade que começou a desenvolver-se mais rapidamente quando depois apareceu a Matilde e mais tarde o Miguel. Se querem que vos diga, 28 anos de tempo passado não me trouxeram a capacidade de ter a maturidade necessária para perceber, nessa altura, o que era um filho. Agora sim tenho a noção de a ter desenvolvido, foi também o tempo que ma trouxe, mas não ma trouxe sozinha, transportou consigo a experiência para que hoje o possa compreender.
 
Para ser sincero imagino o tempo de cada pessoa incrustado num chip dentro de cada um dos nossos corpos com uma espécie de cronómetro que começa a funcionar num acto de amor e que vai passando, segundo a segundo, minuto a minuto, hora a hora, dia a dia… sem nunca sabermos quando a energia acaba, sem nunca sabermos sequer quando se desliga, quiçá para sempre.
 

Se querem que vos diga, 28 anos de tempo passado não me trouxeram a capacidade de ter a maturidade necessária para perceber, nessa altura, o que era um filho. Agora sim tenho a noção de a ter desenvolvido, foi também o tempo que ma trouxe, mas não ma trouxe sozinha, transportou consigo a experiência para que hoje o possa compreender

É por isso que o tempo enquanto é tempo tem que ser doce, suave… o tempo enquanto é tempo tem que ser vivido calmamente e o nosso foco tem que estar cada vez mais direccionado para a positividade, para o que nos faça bem, para as nossas pequenas conquistas, para a simplicidade de um sorriso, de um gesto, de um abraço.
 
Não queiramos que o tempo passe tão depressa, há coisas que nos vão fazer ter saudades, mesmo sabendo que tudo valeu a pena vão fazer-nos ter saudades. Todo o tempo passado já não volta a passar pelo nosso tempo (pelo menos tal como o conhecemos), mas se o vivermos à pressa nem sequer conseguiremos saborear o momento.
 
O melhor tempo da minha vida é aquele que aproveito para passar com os meus filhos. Eu tento, a sério que tento que ele não passe tão depressa, chego mesmo a pensar que a pressa dele não é a minha pressa, mas o que é certo é que ele corre mais depressa do que eu e quando dou por isso ele já foi, no fumo dos dias, das horas, dos minutos, dos segundos e a única coisa que fica é o rasto da memória. Na verdade nós aprendemos a viver com isto mas reflectindo bem, o que efectivamente mais importa é sabermos viver o tempo que aí vem, ainda que guardemos as memórias do que se esfumou.
 
Professor Luís Parente
 

Encontro com Freud - Crónica VIII

Escrito por sábado, 02 janeiro 2016 10:57

…”encontrei-me com Freud” para refletir sobre o meu Ano Novo, a experiência de alguém que se considera católica, que acredita num Deus de Amor, e aqui incluo todas as definições do que é o Amor, para cada um de nós, desde que, e isso Freud também explica, seja saudavelmente vivido com os demais, até com Deus.
 

Até hoje não sei se sei rezar, a Fé é um mistério que humildemente penso por vezes ter mas tal como disse nas redes sociais, há sentimentos que não conseguimos transformar em palavras e foi o que vivi ontem/hoje em Fátima.

Como muitos dos meus familiares e amigos sabem, esperei por 2016 em Fátima, altar do mundo, local de culto, meditação, de encontro e de ir ao encontro de algo, alguém ou apenas estar… Levei todos, os que acreditam e os que não, e na troca de olhar entre mim (grão de areia) e a Mãe do Céu, pensei em todos… Que me perdoem os que não acreditam, mas o meu Deus e a Mãe do Céu não se importam com isso e compreendem e aceitam e sabem… porque o meu Deus sabe melhor que eu, o que sinto, o que penso, o que quero, o que preciso e não, muito antes de mim.
 
Há sofrimento, há tristeza e sempre haverá, porque a vida é uma complexidade de estares e de vivências, e o meu Deus percebe as coisas, todas as coisas, mas como um bom amigo insiste em estar comigo em todos os momentos, mesmo naqueles em que não o quero por perto, não gosto Dele e não aceito essas tais coisas que Ele percebe e eu já não…
 
Até hoje não sei se sei rezar, a Fé é um mistério que humildemente penso por vezes ter mas tal como disse nas redes sociais, há sentimentos que não conseguimos transformar em palavras e foi o que vivi em Fátima.
 
Deixo-vos uma frase que li em 2009, “Amo-te, assim como tu és”.
 
Feliz Ano Novo para todos, todos os Anos.
 
Helena Chouriço - Psicóloga
 
 

Desejos de Natal

Escrito por quinta, 24 dezembro 2015 11:23
Dezembro traz com ele o fim de mais um ciclo e o começo de outro. O Solstício de Inverno, que acontece todos os anos por volta do dia 22 no hemisfério norte, assinala o início da fria estação que lhe dá o nome e brinda-nos com o dia mais curto e a noite mais longa do ano. Tudo porque o sol, nesse dia, atinge a sua maior distância angular em relação ao plano que o separa da linha do equador. Mais uma vez a paisagem se altera para receber este novo ciclo e preparar o próximo. A vegetação entra num período de letargia, ou repouso vegetativo, ganhando forças para se voltar a renovar no equinócio da Primavera.
 
Com o início do Inverno chegam também o Natal e o Ano Novo, pontos altos do calendário da Humanidade, cristã ou pagã. Muito graças ao Cristianismo, com o Natal celebramos o nascimento de Jesus. Um nascimento que, segundo o Antigo Testamento, ocorreu numa humilde cabana em Belém e foi assinalado com a passagem de uma estrela que indicou o caminho a pastores e reis magos que foram adorar o Menino e entregar-lhe presentes. Começa, talvez assim, a tradição de nesta data festiva se oferecerem presentes às pessoas de quem mais gostamos.
 

Fico maravilhado com o brilho das iluminações e a beleza das decorações natalícias, mas aflige-me pensar nos milhares de euros que custam e como esse dinheiro podia ter sido aproveitado para dar de comer a quem tem fome ou abrigo a quem não tem casa.

Ainda me lembro de, em criança, na manhã do dia 25 de dezembro, correr disparado para a chaminé, onde na véspera tinha colocado os sapatinhos e um milhão de desejos, à procura dos presentes que o Menino Jesus lá tinha deixado, juntamente com uma poça de água que alguém improvisara, para atestar a sua passagem pela nossa casa. Sim, Jesus também tinha as suas necessidades, como qualquer menino e uma longa e árdua tarefa para uma só noite, não podendo perder um só segundo com ninharias, como uma casa de banho.
 
Hoje em dia, a maior parte das crianças já se esqueceu do Menino Jesus. Por influência da globalização, estas escrevem cartas ao Pai Natal, uma figura tipicamente nórdica e sem qualquer ligação à nossa cultura mediterrânica, mas que se apoderou do imaginário de todos, ao ponto de substituir toda a ideia da natividade. Claro que é hoje mais fácil conceber e fazer passar a ideia de um homenzinho forte, de barbas brancas, com vestes vermelhas, que vive na Lapónia com um batalhão de duendes e que se desloca no seu trenó, carregado de presentes e puxado por renas. É muito mais fácil que as crianças se apaixonem por esta figura e que, em momento algum, questionem o enorme feito que deve ser escorregar pelas chaminés de todo o mundo para lhes deixar todos os presentes que pediram nas suas cartas.
 
Não sabem estas crianças que, afinal, o trenó do Pai Natal vem carregado de horas e horas passadas pelos seus pais a percorrerem mil e uma lojas, vários centros comerciais e hipermercados para conseguir aquela boneca, aquele carrinho, a playstation ou as roupas da moda, que foram vistas pelos meninos na televisão, no intervalo dos desenhos animados, e que se materializaram em desejos escritos na carta que escreveram ao senhor das barbas brancas. O consumismo atinge o seu auge, mas vale tudo para ver um sorriso na cara das crianças. Confesso que também eu contribuo para encher o trenó do Pai Natal da mesma forma, em especial desde que nasceu a minha filha, porque nada é melhor que a alegria do seu sorriso.
 
Pessoalmente não gosto muito do Natal, mas não posso deixar de concordar que é uma época do ano carregada de magia. Por todo o lado a paisagem urbana altera-se e as ruas enchem-se de luz, de cores, de sons e de cheiros característicos. Os nossos cinco sentidos despertam para a necessidade de consumir até à exaustão, até não restar nem mais um cêntimo no fundo da algibeira. Mas pelo menos teremos o melhor de todos os natais. Uma mesa recheada de sabores, onde não faltarão o bacalhau, as filhoses, o bolo rei e uma série de outras iguarias. Uma árvore de Natal com tudo aquilo a que tem direito, desde as fitas, às luzes, às bolas e a um sem fim de outras decorações que todos os anos são diferentes. E, claro, presentes e mais presentes, para todas as idades, gostos e feitios.
 

Ao mesmo tempo, pelas ruas, pelas lojas, pelas casas, pelos emails e através dos telemóveis, multiplicam-se mensagens de boas festas. Muitas delas, acabadinhas de copiar de um site qualquer e iguais a milhares de outras. Mas, como em muitas outras coisas, o que conta é a intenção (ou a obrigação) e, por isso, partilham-se desejos de paz no mundo, de muito amor, amizade, felicidade, saúde, dinheiro... como se nos restantes dias do ano não precisássemos todos de paz, amor, amizade, felicidade, saúde, dinheiro e outras coisas positivas.
 
O Natal deve ser, realmente, tempo de partilha. Uma época do ano em que esquecemos, por momentos, aquilo que nos separa dos outros e em que nos lembramos mais facilmente daquilo que nos une. Mas deve (ou deveria) também ser tempo de reflexão. Refletir acerca daquilo que nos separa dos outros. 
 
E o que nos separa é, na realidade, um fosso enorme. É muito mais fácil deixarmo-nos levar pela magia do Natal do que refletir por que razão há milhões de pessoas que vivem na solidão, com fome, sem abrigo, sem carinho, dizimados pela guerra, doentes, longe da família, sem amor, sem amigos. Pessoas iguais a nós a quem a magia não chega.
 
Felizmente, para grande parte de nós, esta realidade não nos atinge. No entanto, devíamos fazer um esforço para, nesta época, também nos lembrarmos que esta realidade está, por vezes, mais próxima do que julgamos. Muitas vezes escondida pelos milhões de luzes que iluminam o Natal e que tão facilmente a ofuscam.
 
O Natal traz-me sempre este misto de sentimentos antagónicos. Irrita-me o deambular à procura de presentes, na maioria coisas inúteis e que temos todos os dias, mas fascina-me o frenesim, o movimento das pessoas e a alegria das crianças que têm algo para receber. Fico maravilhado com o brilho das iluminações e a beleza das decorações natalícias, mas aflige-me pensar nos milhares de euros que custam e como esse dinheiro podia ter sido aproveitado para dar de comer a quem tem fome ou abrigo a quem não tem casa.
 
Por isso, na Passagem de Ano, quando à meia noite estiver a comer as doze passas, os meus desejos para 2016 não serão apenas centrados naquilo que quero para mim, mas também naquilo que gostaria que os outros tivessem: saúde, amor, paz, felicidade, amizade, dinheiro e tudo de bom a que temos direito. Em especial, vou pensar naqueles para quem o Natal é apenas mais um dia, igual a tantos outros, com os mesmos receios e as mesmas dificuldades. Para eles, afinal, o Natal mais não é do que uma época do ano em que os dias são mais curtos e as noites são tremendamente mais longas e frias. Para eles, nada mais há a celebrar, senão o Solstício de Inverno.
 
A todos um melhor Natal e façam o favor de ser felizes em cada um dos 366 dias de 2016.
 
* arquiteto paisagista António Serrano
 
 

O que me faz lembrar o Natal...

Escrito por terça, 15 dezembro 2015 18:31
Gosto do Natal. Gosto de recordar outros tempos do Natal, tempos que já não voltam. Gosto de me lembrar das noites passadas em Vila Boim. Tenho saudades de chegar à casa da minha avó e sentir aquele cheiro único. Lembro-me da lareira acesa, pronta para nos aquecer e para depois fazer o cacau que acompanhava com os "anéis" que a minha avó fazia. Nunca mais comi. 
 
Tenho saudades desses tempos. Tenho saudades de depois mudar, sempre em Vila Boim, para a casa de outra avó, com uma família bem mais numerosa, com muitos primos. Lembro-me dos cantares ao menino e dos homens que percorriam a vila a fazê-lo. 
 
Para mim, nesse tempo, o Natal era outra coisa. Era o esperar pela altura das prendas e comer doces como se não houvesse amanhã. Para nós, crianças, era quase tudo permitido. Era ter a sorte de chegar a Vila Boim ver os meus avós a terminarem de preparar tudo para comermos a sopa de cação, da qual eu nem gostava e que hoje adoro. Era espreitar para dentro de um alguidar e ver os tais "anéis" cheios de açucar à volta. Era receber o verdadeiro envelope, em que a minha avó colocava o dobro do que colocava para os outros, pois nasci perto do Natal. Como já sabia quanto ia trazer, esse dinheiro já tinha um brinquedo à espera assim que as lojas voltassem a abrir.
 

É preciso viver o Natal e não, apenas, passá-lo. São coisas diferentes. Viver o Natal é aproveitar. É aproveitar o facto de estarmos juntos este ano sem sabermos se no próximo estaremos. É aproveitar cada momento e viver esta quadra como se fosse a última vez. É estar pronto para fazer Natal, para voltar à infância.

O Natal é a prova de que por vezes não damos valor aos bons momentos que vivemos. Os momentos mais simples são os melhores. Hoje, quem me dera viver só cinco minutos daquele tempo. Quem me dera voltar a receber um envelope daqueles, geralmente aproveitados depois de se pagar a luz ou a água, com um "Z" e um "R". Quem me dera aquecer-me só mais uma vez naquele lume do qual não podíamos mesmo estar perto, pois queimava as pernas. Para mim, é verdade, é dos meus avós que me lembro nesta data. Lembro-me sempre da canção que António Sala escreveu e que o José Gonçalez e o António Pinto Basto cantaram: "O Natal é lembrar os avós e as noites da aldeia". Nada mais certo.
 
É preciso viver o Natal e não, apenas, passá-lo. São coisas diferentes. Viver o Natal é aproveitar. É aproveitar o facto de estarmos juntos este ano sem sabermos se no próximo estaremos. É aproveitar cada momento e viver esta quadra como se fosse a última vez. É estar pronto para fazer Natal, para voltar à infância. É olharmos para as crianças a abrirem os presentes e voltarmos atrás no tempo para perceber o que estão a sentir. Eles não sabem, mas estão agora a viver o melhor tempo das suas vidas. É comer de todos os doces que estiverem em cima da mesa, porque depois durante o ano vamos dizer :"agora é que me apetecia aquele doce que não comi no Natal". Aproveitar, é ouvir pela vigésima vez aquela história do mais velho que está na mesa e que ele conta sempre no Natal, porque é quando tem mais ouvintes. Temos de ouvir, como se fosse a primeira vez. Aproveitar o Natal, é fazer com que as crianças recebam uma prenda do Pai Natal, mesmo que elas desconfiem que estão a ser enganadas. 
 
Sei que falo de um Natal bom. Falo de um Natal onde há possibilidade, pelo menos, de colocar comida na mesa e de dar um brinquedo às crianças. Sei, que em muitas casas tal não é possível. É triste, muito triste mesmo. Por vezes, queixamo-nos sem dar valor ao que temos. O Natal também nos pode dar essa lição de vida. Podemos, e devemos, aprender a dar valor ao que temos. Devemos dar valor a quem temos connosco e ao que estamos a viver. O Natal também é isso. 
 
Meus amigos, façam Natal. Boas Festas para todos!
 
* jornalista José Lameiras

Um simples “ATÉ AMANHÃ!”

Escrito por quinta, 10 dezembro 2015 12:32
A época que se aproxima é uma época que apela ainda mais a sentimentos… sentimentos de partilha, de alegria, de amizade, fraternidade, compaixão, perdão, apela a sentimentos de esperança, união, amor, solidariedade mas também apela muito à Saudade.
 
Saudade é a tal palavra tipicamente portuguesa que gera e carrega em si toneladas de sentimentos e que dizem ser impossível de traduzir noutras línguas.
 

Para mim a Saudade vive num pequeno compartimento que está discretamente escondido algures entre uma válvula ou um ventrículo, uma artéria ou uma veia no coração de cada um. Essa Saudade está inevitavelmente ligada à memória e, de certa maneira, há memórias que quando avivadas deixam de caber no tal compartimento. A este propósito, e acerca deste compartimento, concordo em absoluto com a lucidez de quem escreveu qualquer coisa como “A Saudade é um sentimento que quando não cabe no coração, escorre pelos olhos”. Nada é mais verdadeiro e simples de entender do que esta expressão… logo eu que sou um autêntico piegas. O que é certo é que é de facto isso que pode acontecer quando, por exemplo, visionamos fotografias ou vídeos antigos, quando falamos e recordamos momentos passados, quando reencontramos pensamentos outrora pensados, pode acontecer quando temos saudades de coisas, de sons, de sabores, de cheiros, de toques, quando temos saudades dos tempos, quando temos saudades do tempo, quando temos saudades de alguém.

 

Às vezes imagino que há algo que leva os meus beijos à tua estrela, só tenho pena é que, no regresso, não traga de volta o teu cheiro nem o teu sorriso. Acredito veementemente que não foste tu que perdeste uma vida, acredito mesmo é que ela é que não imagina o que perdeu… perdeu um ser humano de excepção, isso sim!

Embora não descarte a ideia de que a Saudade também pode dizer respeito ao futuro, e apesar de viver com paixão o presente e tendo, naturalmente, uma visão desse mesmo futuro, devo confessar que sou um completo saudosista. Tenho saudades de tantas coisas, de tanta gente…
 
Hoje, 10 de Dezembro, é aquele dia em que, para mim, a Saudade mais aperta. Faz hoje precisamente oito anos que um limite nos separa, digamos que é um traço, um simples traço horizontal que parece estar aqui tão perto mas ao mesmo tempo tão longínquo… esse traço que divide a Terra do Céu e que faz com que a Saudade aumente a cada dia que passa e não caiba no meu compartimento.
 
 Às vezes imagino que há algo que leva os meus beijos à tua estrela, só tenho pena é que, no regresso, não traga de volta o teu cheiro nem o teu sorriso. 
 
Acredito veementemente que não foste tu que perdeste uma vida, acredito mesmo é que ela é que não imagina o que perdeu… perdeu um ser humano de excepção, isso sim!
 
Tenho Saudades tuas pai! Tenho Saudades de ser o teu guarda-redes (ainda hoje quando jogo à bola com o teu neto, és tu também que ali estás). Tenho Saudades das tuas criações culinárias, do teu assobio trinado, da tua boa disposição. Tenho Saudades da tua amizade pelas pessoas, aliás, essa amizade ficou bem patente no dia em que seguiste outro rumo e transpuseste o tal traço horizontal, nessa manhã fria em que o sol brilhou para te iluminar o caminho e em que até o teu orfeão cantou, só para ti, a Avé Maria de Jacob Arcadelt de que tanto gostavas… foram centenas as tais pessoas que nesse dia te demonstraram a amizade e que te acompanharam para se despedirem de ti. Logo tu que eras a mais simples das pessoas, humilde, respeitadora e justa, amigo de todos e, ao contrário do que se possa imaginar, sem qualquer relevância social. Sim porque não foste político, não foste escritor, nem sequer futebolista… no fundo não foste nada daquilo que hoje se preconiza como de grande importância social. Sabes o que te digo, pai? Ainda bem que não foste! Ainda bem que foste simplesmente tu, o “Manecas” pai, filho, marido, vizinho, irmão, colega, cunhado… o “Manecas” gerador de consensos, parceiro, divertido, simpático, brincalhão, amigo. Ainda bem que foste somente pessoa, pai.
 
Às vezes tenho vontade de, como diz o meu amigo José Gonçalez, “…te poder dar a mão” e “…Dar um murro na saudade”. Mas não consigo… é verdade, não consigo mesmo… na realidade o que me resta é ter que ir dando vida à Saudade.
 
Tenho Saudade do prazer físico de te tocar, pai… de te ver, de te abraçar, de te cheirar, de te beijar. Tenho Saudades de sermos todos, e nós sabemos que todos não fomos. Tenho até saudades de um simples “Até amanhã!” 
 
E o que pode mudar com um simples "Até amanhã!"?
 
O branco pode ficar negro...
 
O cheio, vazio...
 
A certeza pode dar em incerteza...
 
A verdade em mentira...
 
A realidade em utopia...
 
A liberdade em cárcere...
 
A luminosidade em escuridão...
 
Com um simples "Até amanhã!"... o prazer pode dar em dor...
 
A facilidade em dificuldade...
 
A vitória pode virar derrota...
 
A perseverança pode dar em renúncia...
 
A paciência em impaciência...
 
O perfeito em imperfeito...
 
A paz em guerra...
 
Com um simples "Até amanhã!" a alegria pode tornar-se tristeza...
 
A vida pode fugir para a morte...
 
Há oito anos atrás, neste dia 10 de Dezembro, acordei sem saber porquê às 5h30m da manhã... estranho... nunca acordo de noite... voltei a adormecer. Pela manhã toca o telefone e tu já tinhas ido... precisamente às 5h30m...
 
Aquele acordar talvez tenha sido um sopro teu... talvez tenha sido um até já... talvez tenha sido a tua despedida.
 
Uma coisa é certa pai, a vida que viveste, viveste-la por ti, para ti e para os outros, aliás, os teus ensinamentos dizem-me que não faz sentido viver a nossa vida sem a dar a beijar aos outros.
 
Quando há oito anos seguiste outro caminho, pensei que te tinha perdido... mas não!!! Tu não morreste, estás bem vivo em mim!!! Continuas a ser um exemplo, uma fonte de inspiração. Os valores que cá me deixaste fazem com que continues a estar aqui e a fazer parte da nossa vida.
 
Não! Não te perdi... eu encontro-te aqui no meu pequeno compartimento ... todos os dias... SEMPRE!!!!!
 
Na noite anterior à tua viagem disseste-me "Até amanhã!" 
 
O que pode mudar com um simples "Até amanhã!"?
 
PODE MUDAR TUDO!!!!...
 
MAS TAMBÉM PODE NÃO MUDAR ABSOLUTAMENTE NADA!!!!
 
ATÉ AMANHÃ, PAI!!!!!
 
AMO-TE
 
* Professor Luís Parente
 

Encontro com Freud - Crónica VII

Escrito por quarta, 09 dezembro 2015 02:45
…”encontrei-me com Freud” e refleti sobre a Solidariedade.
 
O que é isso de ser solidário? Há vários tipos de solidariedade, formalizada, instituída e perfeitamente reconhecida e legitima aos olhos das comunidades, onde há procedimentos e regras que regem comportamentos, funcionamentos, protocolos e tudo o que é necessário a quem presta um serviço social aos que dele necessitam. E depois o simples ato de solidariedade que cada um de nós decide realizar em prol de um outro alguém que, aos nossos olhos, o necessita. Hoje por Si, amanhã por mim, sim porque amanhã ainda vem longe e nunca saberemos como vai ser, tenhamos consciência disso quando decidirmos ser solidários.
 
Nunca esta palavra e ação esteve afastada da nossa vida e apesar do amanhã ainda estar longe, cada vez mais as campanhas de solidariedade em nome de nobres causas e crises econômicas, sociais, religiosas, afetivas, relacionais e comunitárias, nos chamam a todos de uma maneira ou de outra.
 

Uma vez mais somos assombrados com ideias pré-concebidas, quem precisa é fraco, quem precisa não sabe, quem precisa não quer, quem precisa não pode… não pode escolher, não pode gostar, não pode questionar, não pode desejar, não pode sentir, não pode querer… Que solidariedade é esta, que humilha, que submete, que inferioriza, que magoa, que mal trata e que julga?...

O denominador comum de todas elas, tem nome e tem rosto, não defendo jamais que os conheçamos, defendo apenas que os imaginemos quando olhamos o espelho.
 
A solidariedade acontece quando eu respeito o “outro” enquanto individuo diferente de mim, nem menos nem mais, apenas diferente, com quem posso aprender e a quem posso ensinar, de quem posso receber e a quem posso dar. As definições são muitas vezes ambíguas e estereotipadas. Quando se ouve a palavra solidariedade, que imagem ou imagens nos aparecem?
 
E quando aquele que recorre a nós não se enquadra em nenhuma delas? … 
 
A solidariedade acontece quando eu me “dispo” de formatações prévias e me deixo embalar num conhecimento novo do “outro”, do que lhe é querido, do que considera importante, dos seus gostos, dos seus interesses, dos seus sonhos, dos seus medos, das suas limitações… sem juízos de valor e apenas com partilha de conhecimentos e vivências. 
 
Não existe solidariedade sem empatia, aquilo que nos chama é a capacidade de olhar o outro ou imaginá-lo no espelho e depois timidamente perguntar, o que faria eu? teria a coragem para partilhar o que preciso? … Uma vez mais somos assombrados com ideias pré-concebidas, quem precisa é fraco, quem precisa não sabe, quem precisa não quer, quem precisa não pode… não pode escolher, não pode gostar, não pode questionar, não pode desejar, não pode sentir, não pode querer… Que solidariedade é esta, que humilha, que submete, que inferioriza, que magoa, que mal trata e que julga?... 
 
Meus amigos, a solidariedade será sempre um valor, uma causa, uma missão e nunca um “palco” de representação social. A solidariedade acontece sempre que vou ao encontro do outro e/ou ele vem ao meu encontro e não importa o motivo, só importa o que acontece.
 
* Psicóloga Helena Chouriço
 

A Cozinha do Ganhão

Escrito por quinta, 26 novembro 2015 02:51

 

Começa hoje mais uma Cozinha dos Ganhões. Durante quatro dias, Estremoz dá a conhecer, a todos aqueles que a visitam, um sensacional mundo de sabores que é também fruto da extraordinária interação do Homem com a Paisagem.
 
Em 1985, em boa hora se reuniu à mesa um grupo de estremocenses, apreciadores da boa gastronomia alentejana, dando assim o primeiro passo para a criação de um evento que é hoje considerado o maior certame gastronómico do Alentejo e que vai já na sua 23.ª edição.
 
Armando Alves, Jacinto Varela, João Albardeiro, João Paulo Ferrão e José Emílio Guerreiro, foram os mentores deste projeto e por isso merecem naturalmente ser referenciados, pois se não fosse esta sua ideia provavelmente a Cozinha dos Ganhões hoje não existiria.
 

Há quem diga que este espetáculo, que esta identidade, se perdeu com a ida da Cozinha dos Ganhões para o Parque de Feiras, em 2004. Não partilho da mesma opinião. Para mim, a identidade continua lá, bem viva, ainda que se manifeste de forma distinta. A Cozinha continua ainda hoje a ser um excecional meio de transmitir às gerações atuais as tradições e costumes do nosso povo e que estão na génese da identidade da paisagem alentejana.

A sua ideia base consistiu na realização de provas de cozinha típica alentejana e degustação de vinhos alentejanos, numa tasquinha improvisada para o efeito, no Rossio Marquês de Pombal, por ocasião da III Feira de Arte Popular e Artesanato de Estremoz, em julho de 1985. Ali, várias tascas, restaurantes e cozinheiros, em dias diferentes, tiveram oportunidade de dar a conhecer as suas especialidades aos visitantes.
 
Mas a ideia apenas se viria a formalizar como evento próprio nove anos mais tarde, em 1994, no Pavilhão do Mercado Abastecedor, pela mão do Município de Estremoz. Ali estiveram presentes onze tasquinhas, em representação das várias freguesias do concelho, cada uma com os seus pratos típicos, acompanhados com vinho novo e pela atuação de vários grupos etnográficos.
 
Muitos ainda se recordam das noites frias de final de novembro passadas naquele Pavilhão, das ambiências vivenciadas nas tasquinhas delimitadas com estruturas de madeira, do piso em terra batida e do cheiro do fumo proveniente das dezenas de assadores. Tal como nos sábados de manhã, em que a paisagem urbana de Estremoz se transforma e o campo visita a cidade no mercado tradicional, também naquela época a cidade, naquele espaço, dava as boas vindas aos sabores, cores, sons e cheiros do campo, num festival de características únicas.
 
Há quem diga que este espetáculo, que esta identidade, se perdeu com a ida da Cozinha dos Ganhões para o Parque de Feiras, em 2004. Não partilho da mesma opinião. Para mim, a identidade continua lá, bem viva, ainda que se manifeste de forma distinta. A Cozinha continua ainda hoje a ser um excecional meio de transmitir às gerações atuais as tradições e costumes do nosso povo e que estão na génese da identidade da paisagem alentejana.
 
As freguesias continuam lá representadas, através das tasquinhas, dos doceiros, dos artesãos, dos empresários do sector agroalimentar, dos vinhos... Os sabores, os sons, os cheiros, as cores, os saberes, tudo continua lá, nas mais diversas manifestações.
 
Contudo, tal como uma paisagem, tal como a própria vida, também a Cozinha dos Ganhões se teve de adaptar ao novo espaço e às vontades impostas pelo tempo e pelos Homens. No tempo em que vivemos, ela precisa de crescer e de acontecer num espaço que garanta as condições que deem resposta às exigências sociais, ambientais e económicas, impostas por vários agentes, designadamente em matéria de segurança, de higiene alimentar e de conforto humano.
 

Embora tenha algumas saudades dos tempos e das vivências que, seguramente, já não voltam a acontecer neste evento, confesso que gosto muito mais da Cozinha de hoje. Digo-o com a maior das convicções e com a confortável naturalidade de quem faz parte desta paisagem de sabores há 15 anos e, por isso, acompanhou a sua evolução de muito perto.
 
Com os seus altos e baixos, a Cozinha dos Ganhões evoluiu muito nestes 23 anos, mas o mais importante é que conseguiu, sempre, ser uma das melhores formas de promoção das potencialidades do concelho de Estremoz, sendo anualmente frequentada por milhares de visitantes, à procura dos sabores que só nós, alentejanos, sabemos introduzir na paisagem. Soube afirmar-se, soube conquistar o seu espaço, soube diferenciar-se e destacar-se das restantes feiras gastronómicas. Tem inovado, respeitando a tradição. É por isso que é única e merece o estatuto que adquiriu.
 
Nos últimos três anos, a Cozinha dos Ganhões tem-nos ainda remetido para um passado longínquo da humanidade, recordando-nos que todos nós temos um pouco de caçador-recoletor nos nossos genes. A Feira "Estremoz Caça e Pesca", que constitui um excelente complemento à Cozinha, é também uma mostra da forma como o Homem tira partido da paisagem para criar paladares ou para se recrear.
 
Nos próximos dias, esta minha paisagem vai encher-se de animação e de convívio, vai despertar todos os meus sentidos. Vou aproveitar, por isso, esta oportunidade que viver em Estremoz me proporciona e fazer jus ao nome que tenho. Porque afinal, esta também é a minha Cozinha...
 
Arquiteto Paisagista António Ganhão Serrano, 26/11/2015
 
 

O Costa do Escadote

Escrito por quarta, 25 novembro 2015 01:40
Agora, é mais fácil entender a boa disposição de António Costa, na noite das eleições de 4 de Outubro, quando os resultados apontavam para uma derrota do seu partido. Aliás, diga-se em abono da verdade, uma derrota sua. António Costa foi o grande derrotado dessas eleições. Seria relativamente fácil, para António José Seguro, vencer uma Coligação que estaria, por essa altura, a dar tiros nos pés. Não foi fácil, nem de perto nem de longe, o caminho que Passos e Portas tiveram de fazer juntos. A juntar às decisões impopulares que tomaram, e que só por si tiram votos nas urnas, algumas "rixas" internas deixaram o Governo muitas vezes a abanar e quase a cair. A Coligação renasceu das cinzas, mobilizou-se e venceu as eleições. António Costa tirou a António José Seguro o direito de lutar pelo lugar de primeiro-ministro, dizendo que este tinha conseguido um resultado "fraquinho" nas Europeias, e foi ele para a frente de combate, abandonando a Câmara de Lisboa com a certeza que São Bento seria a próxima paragem. No dia 24 de Novembro, chegou a confirmação de que afinal tudo valeu a pena.
 

António Costa rasteirou, em pouco tempo, três adversários políticos. Seguro, Passos e Portas foram ultrapassados por Costa nas suas ambições. Conseguiu alianças impensáveis e que serão muito difíceis de manter e de levar até ao fim. Quando vê as portas fecharem-se à sua frente, António Costa agarra no escadote e entra pela janela. Não é normal alguém estar tão bem disposto depois de levar nas urnas a "tareia" que Costa levou. Ele estava. Aí começava o seu plano B. António Costa sabia que só precisava de garantir que a Coligação não tivesse maioria no parlamento. Depois, era garantir entendimentos para ir para o poder. Conhecedor da Constituição, António Costa lançou uma caça ao Governo, sabendo que seria fácil convencer o PCP e o BE, partidos que passaram a legislatura a pedir a demissão de Passos Coelho.
 
É claro que as Legislativas servem para eleger Deputados e não Governos. Esse é o argumento para quem agora defende esta solução para uma "estabilidade governativa". No entanto, eu vi, e ouvi, dois debates entre Costa e Passos, um na televisão e outro na rádio. Eram debates para que os portugueses escolhessem o primeiro-ministro. Passos conseguiu ser mais votado, foi indigitado e depois rejeitado. Costa foi considerado o grande derrotado e vai ser o líder do governo.
 

Quando vê as portas fecharem-se à sua frente, António Costa agarra no escadote e entra pela janela. Não é normal alguém estar tão bem disposto depois de levar nas urnas a "tareia" que Costa levou. Ele estava. Aí começava o seu plano B.

Há muita gente dentro do PS que não concorda com isto. Uns dizem, outros nem por isso. Os portugueses nunca irão perdoar se algo correr mal. Seria mais seguro, e até mais lógico, o PS deixar passar o Governo da força política mais votada e depois tentar no parlamento fazer aprovar algumas das suas ideias, negociando também com o Governo os diplomas fundamentais. A grande questão é que António Costa jogou a sua sobrevivência política e liderar a oposição não era suficiente para as suas aspirações. Traçou como objectivo ser primeiro-ministro e vai conseguir. De regresso ao Governo, estarão alguns dos que lá estavam quando Portugal pediu um resgate ao FMI. Quatro anos depois, parece que nada aconteceu.
 
Desejo, honestamente, sorte a António Costa. Portugal precisa de alguém que olhe para o país, não no imediato, mas no futuro. Há muitos jovens desiludidos com os últimos anos de sucessivos governos especialistas em trapalhadas e governantes metidos em esquemas. De um lado e do outro, há poucos inocentes. Apesar da falta de dinheiro, ainda é bom ter poder em Portugal pois, se não o fosse, António Costa não tinha usado, mais uma vez, o seu escadote.
 
* jornalista José Lameiras

Mais Populares