sábado, 24 junho 2017

Faça-se a luz

Escrito por sexta, 22 janeiro 2016 00:37
"No princípio, quando Deus criou os céus e a terra (...) Deus disse: 'Faça-se a luz', e a luz foi feita. Deus viu que a luz era boa e separou a luz das trevas." (Génesis 1: 1-4)
 
Começa assim o extraordinário Livro do Génesis, o primeiro do Antigo Testamento e que se traduz na visão bíblica da criação do Universo, da Terra e da Vida, a partir da luz do Sol.
 
Quer optemos por esta visão criacionista ou por uma perspetiva evolucionista da origem do Universo, o que é certo é que a luz do Sol é essencial à existência da vida, pelo menos na forma, ou nas formas, como a conhecemos. Sem luz, não existiria alternância entre o dia e a noite, a fotossíntese não se poderia realizar, os seres vivos e os corpos inertes não receberiam energia e não a poderiam trocar entre eles, pondo em causa os diversos e complexos sistemas biofísicos do Planeta.
 

Sei que os residentes preferiam não ter a central à porta, por isso, a solução poderia ter passado por terem adquirido o terreno, deixando-o tal como está ou, em alternativa, dando-lhe uma utilização agrícola mais produtiva do que a atual.

Por outro lado, a luz é o principal elemento de construção da paisagem, na medida em que define a forma como a percecionamos. Isto porque a luz natural, proveniente do Sol ou, por vezes, da Lua (que é luz solar refletida) contém um intervalo completo de comprimentos de onda visíveis, conferindo assim cor à paisagem. A quantidade, qualidade e direção da luz tem um efeito importante na nossa perceção da forma, textura e cores. Por isso, não podemos ver o que nos rodeia sem que esteja iluminado, seja de forma natural ou artificial.
 
Para conseguirmos ver o que nos rodeia em ambientes escuros ou durante a noite, é necessário recorrermos à iluminação artificial. Muito antes da existência da eletricidade, a Humanidade recorreu ao uso do fogo para garantir esta iluminação. Hoje em dia, a eletricidade chega-nos a casa através da transformação de diversas fontes de energia (nuclear, hídrica, eólica, das marés, solar...).
 
A energia solar é uma das que apresenta mais vantagens para a obtenção de energia elétrica, pois o recurso Sol é inesgotável, pelo menos à escala da existência de vida na Terra, e porque trata-se de uma fonte de energia limpa, que não polui durante a sua utilização.
 
É de tal forma uma excelente alternativa aos restantes modos de produção de energia elétrica, que por todo o mundo se procuram formas de melhor dela tirar partido, propagando-se a construção de inúmeras centrais fotovoltaicas.
 
Apenas em Estremoz a construção de uma central fotovoltaica na freguesia do Ameixial tem feito correr tinta, em especial nas sessões de Câmara e da Assembleia Municipal, bem como nalgumas publicações que têm dado ao assunto uma certa ênfase, na minha opinião pouco justificável, tendo em conta a própria dimensão da central.
 
Trata-se de um investimento da ordem dos cinco milhões de euros no concelho de Estremoz, de uma forma limpa, eficaz e mais barata de produção de energia elétrica e, principalmente, de um empreendimento que foi devidamente licenciado pela Câmara Municipal, atendendo aos pareceres positivos emanados pelas diversas entidades (Comissão Regional da Reserva Agrícola Nacional, Direção Regional de Cultura, Agência Portuguesa do Ambiente) e depois de verificadas as disposições regulamentares do Plano Diretor Municipal.
 
Qual é, então, o problema? Ao que parece, meia dúzia de residentes serão afetados "pelo forte impacto visual" que os painéis solares irão provocar na paisagem envolvente. Isso foi suficiente para grandes notícias em "jornais especializados" e para amplas discussões nos órgãos da autarquia, estas últimas, em meu entender, com o único objetivo de tirar partido político da situação.
 
Os residentes afetados, na maioria apenas ao fim-de-semana, dizem sentir-se incomodados com a implantação dos painéis à porta de casa e num terreno com "elevada aptidão agrícola", sugerindo a sua deslocalização para qualquer outro lugar. Aqui colocam-se dois problemas. Por um lado, que se saiba, nos últimos anos o terreno em questão tem estado em pousio, logo não tem sido aproveitado para quaisquer fins agrícolas. Por outro lado, quaisquer outras soluções alternativas para a localização do empreendimento iriam afetar outras pessoas ou provocar outros impactos ambientais noutros locais. O assunto continuaria por resolver. Sei que os residentes preferiam não ter a central à porta, por isso, a solução poderia ter passado por terem adquirido o terreno, deixando-o tal como está ou, em alternativa, dando-lhe uma utilização agrícola mais produtiva do que a atual.
 

Quanto aos políticos locais afetados, já estranho mais a sua posição, ao votarem contra a implantação do empreendimento. (...) Talvez estes políticos locais, que queriam chumbar a instalação da central no concelho de Estremoz, não tenham lido os programas nacionais e as grandes opções dos partidos políticos que lhe dão a oportunidade de ter uma intervenção na vida política municipal.

Os residentes e os políticos alegam ainda a proximidade ao Padrão e ao Terreiro da Batalha do Ameixial, classificado como monumento nacional, e o impacto visual que a central terá nos mesmos e na paisagem envolvente, facto que a Direção Regional de Cultura do Alentejo, que tem a tutela da proteção do património classificado, não considerou relevante. A este propósito da defesa do património, houve até lugar à tentativa de envolvimento do Presidente da Entidade Regional de Turismo nesta situação. Como se a ERT tivesse, em algum momento, que ser consultada ou como se o Terreiro da Batalha do Ameixial fosse um importante recurso turístico do concelho de Estremoz, visitado anualmente por milhares de turistas. Não me espanta, por isso, a "surpresa" de Ceia da Silva, quando confrontado por um jornal local acerca da central fotovoltaica, nem o facto de não ter sido visto nem achado em todo o processo.
 
Quanto aos políticos locais afetados, já estranho mais a sua posição, ao votarem contra a implantação do empreendimento. E ainda mais, quando em todo o mundo se procuram formas alternativas de produção de energia limpa, quando a União Europeia faz todos os esforços nesse sentido e quando os sucessivos programas dos governos nacionais, incluindo o atual, apontam como prioridade o investimento neste tipo de soluções de produção de energia elétrica. Talvez estes políticos locais, que queriam chumbar a instalação da central no concelho de Estremoz, não tenham lido os programas nacionais e as grandes opções dos partidos políticos que lhe dão a oportunidade de ter uma intervenção na vida política municipal.
 
Ou talvez os políticos locais prefiram apostar no regresso da iluminação à base de candeias de azeite e, assim, apontem como solução para aquele espaço a plantação de um enorme olival, uma forma de devolver ao terreno a sua aptidão agrícola e um verdadeiro ícone da paisagem mediterrânica. 
 
É caso para dizer, como dizem que disse o Criador: "faça-se luz nas suas mentes, para acabar de uma vez por todas com as trevas..."
 
* Arquiteto-Paisagista António Serrano
 
 

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