quarta, 22 novembro 2017

A paisagem e as escolhas

Escrito por sexta, 15 abril 2016 01:10
Tudo muda devido às escolhas que fazemos. Tanto a nossa vida pessoal e profissional, como a vida dos outros que se atravessam nas nossas escolhas. Da mesma forma, também todos nós mudamos, quando fazemos parte das escolhas dos outros ou simplesmente quando também nos atravessamos nos seus caminhos.
 
Apenas não escolhemos nascer. No entanto, essa dádiva também resulta de uma escolha que os nossos pais fizeram: perpetuar, através de outra vida, o seu material genético.
 
Escolhemos os amigos, quem queremos amar, nalguns casos com quem queremos casar, se queremos ou não ter filhos, também nalguns casos naquilo em que queremos trabalhar, onde, quando e com quem queremos ir... Bem ou mal, a nossa vida é feita de um número infinito de opções, muitas delas tomadas sem que sequer nos apercebamos que estamos a escolher.
 
O que temos certo é que as escolhas terão sempre consequências. Por isso, precisamos de refletir nas escolhas que fazemos, pois certamente elas mudarão para sempre as nossas vidas e, eventualmente, a vidas de muitas outras pessoas. E é preciso que estejamos conscientes de que não há possibilidade de voltar atrás, por muito que nalguns casos se tentem remediar ou mitigar os efeitos das nossas decisões.
 
Uma vez que a paisagem resulta da ação humana, também ela evolui em função das escolhas que o Homem faz, em determinado tempo e espaço. Quando intervenho na paisagem, seja à escala do território seja à escala de um pequeno jardim, tenho à minha disposição um conjunto de opções que irão determinar a configuração, a imagem, desse espaço de intervenção. Se optar por não introduzir um elemento de água num jardim, a minha escolha determinará mais aridez e menos frescura. Se, pelo contrário, optar por criar um plano de água estática, o espaço e quem o vive nunca poderão experimentar as ambiências e sonoridades da água em movimento. Se decidir utilizar pavimentos em calçada de mármore, a imagem será naturalmente diferente daquela que se obtém ao construir uma calçada em granito. Se optar por introduzir árvores de folha perene num parque, a sua sombra será deliciosa no verão, mas de nada servirá durante os frios dias de inverno. Se, num determinado plano de ordenamento do território, escolher uma determinada localização para a passagem de uma via rodoviária, para a instalação de um equipamento público, uma zona industrial ou qualquer outra infraestrutura, estou ciente de que as mesmas terão sempre impactos positivos e negativos na paisagem, independentemente das suas eventuais mais valias económicas, sociais ou ambientais. 
 
Muitas vezes escolhemos por uma questão de gosto pessoal, mas não menos vezes somos obrigados a optar em função do gosto dos outros. É muito frequente em arquitetura paisagista, quando nos encomendam um determinado projeto, mas também é assim em inúmeras outras situações do nosso dia-a-dia e muito especialmente quando se tratam de escolhas políticas. 
 

Todos temos um papel a desempenhar na paisagem, com maior ou menor importância e intervenção, com mais ou menos possibilidades ou oportunidades, mas igualmente importante e necessário para que ela funcione. As escolhas que fizermos determinarão se a paisagem funciona melhor ou pior. Mas não nos iludamos: seja qual for o papel que desempenhemos na paisagem, ela continuará a existir sem a nossa presença.

É neste campo da política que mais frequentemente as escolhas são alvo de opiniões contraditórias. É perfeitamente legítimo ter opinião contrária, mas também é legítimo que os outros possam escolher de forma diferente. O que acontece quase sempre é que, por muito boas que certas escolhas sejam, ou nos pareçam ser, não são as que os outros fariam e, por isso, opomo-nos a elas. Por que se vendeu, por que se comprou, por que se construiu, por que se isentou ou não, por que se optou por esta ou por aquela estratégia... Temos que ter noção de que estas escolhas, sejam elas quais forem, foram eventualmente objeto de estudo, de planeamento e de análise aprofundada acerca dos prós, dos contras e das consequências. É o processo natural de quem tem que tomar decisões políticas, todas elas legitimadas por uma escolha anterior - a das pessoas que deram, através do voto, a sua confiança a quem tem que tomar estas opções políticas. Seria muito bom que todos escolhêssemos respeitar essas opções, por mais que não concordemos com elas.
 
Assim, e devido à relação que as nossas escolhas têm com as dos outros, parece-me que tão importante como escolher é saber respeitar as escolhas que os outros fazem. Digo isto com a consciência de que, muitas vezes, não o faço. Faz parte da natureza humana ser assim e eu sou humano. Mas esforço-me todos os dias por tentar entender as escolhas dos outros e é por isso que, na maior parte das vezes, não critico, não me oponho, não me importo com elas. É, também, uma escolha que faço.
 
Outras vezes, porém, escolho ter voz ativa, interferir, participar, dar a minha opinião sobre determinadas escolhas. Não me podem censurar por isso. É também uma escolha que faço e saberei viver com as consequências que daí advém. Faço-o porque, desde muito cedo, escolhi fazer parte da solução e não do problema. 
 
As nossas escolhas farão parte da nossa história e deixarão sempre marcas na paisagem, de forma mais ou menos vincada, em função da dimensão da nossa atuação na vida pessoal e em comunidade. Todos temos um papel a desempenhar na paisagem, com maior ou menor importância e intervenção, com mais ou menos possibilidades ou oportunidades, mas igualmente importante e necessário para que ela funcione. As escolhas que fizermos determinarão se a paisagem funciona melhor ou pior. Mas não nos iludamos: seja qual for o papel que desempenhemos na paisagem, ela continuará a existir sem a nossa presença. Tal como escreveu José Saramago, na epígrafe de "A Viagem do Elefante", "sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam". É o que temos mais certo e, tal como nascer, não depende da nossa escolha.
 
Se estivermos conscientes disso, de certeza que daremos mais atenção às nossas escolhas e que conseguiremos respeitar as escolhas que os outros fazem. A vida é curta demais para que a vivamos sempre mais preocupados a questionar as opções alheias.
 
* Arquiteto Paisagista António Serrano
 

As Voltas que dou ao Rossio

Escrito por quarta, 13 abril 2016 01:41

Conversar é sempre uma boa alternativa. Num mundo em que estamos cada vez mais isolados, apesar de estarmos ligados de mil e uma maneiras, o simples acto de conversar é gratificante. No À Volta do Rossio, programa que conduzo há três anos na Rádio Despertar e onde tive a responsabilidade de substituir o José Gonçalez, tenho essa possibilidade. Tenho a possibilidade de convidar alguém e conversarmos, aparentemente sozinhos, mas muito bem acompanhados.

O acto de, simplesmente, conversar, é hoje uma coisa rara e este programa permite isso mesmo. Permite que se conheça quem por vezes estã tão próximo de nós mas que conhecemos mal. Permite dar a conhecer alguém que, simplesmente, é bom no que faz e pode servir de exemplo para tantos outros.

Este programa tem sido, também, uma excelente oportunidade de perceber o trabalho e a carreira de muita gente. Tenho percebido que há muito talento, trabalho...e pouca sorte. A sorte dá muito trabalho e em cada convidado entendo isso. A sorte procura-se e é uma mistura de talento, oportunidade e trabalho. Tenho conhecido homens e mulheres que são bons naquilo que fazem. Tenho conhecido jovens, por exemplo de Estremoz, que estão a dar cartas na área em que sonharam trabalhar. Grande parte deles, são bons exemplos e admirados pelos mais próximos. 
 
Nas voltas que dou ao Rossio, também cresço. Aprendo bastante e divirto-me. Tiro, acreditem, bastante partido destas conversas. Aprendo porque saio de cada conversa a saber mais. Divirto-me, porque tenho muitas vezes a oportunidade de entrevistar amigos pessoais e estar com os amigos é sempre divertido. Também, na maior parte das vezes, fico a admirar ainda mais a pessoa que convidei para conversar. Lembro-me, por exemplo, de ver a emoção nos olhos de muitos deles. Lembro-me do Sr. Humberto Frade a recordar, com lágrimas nos olhos, os tempos de jogador de futebol em Angola. Registo, com muito agrado e orgulho, a presença no programa de antigos colegas de escola. É bom sinal. Com colegas de profissão, que tenho também trazido ao programa, tenho aprendido bastante. Com empresários de sucesso, tenho percebido o porquê desse mesmo sucesso. Temos conhecido também o outro lado de políticos. Com músicos, ouvimos música, conversamos e percebemos o caminho da cada um. Com professores, voltamos a aprender e recordamos os tempos de estudante. Com amigos, por vezes esquecemo-nos que estamos na rádio. 
 
Há três anos atrás, quando comecei a dar estas voltas ao Rossio, não tinha noção do que iria ter para frente. Numa época tão marcada pelo isolamento em redor das novas tecnologias, a rádio permite que apenas se converse. Parece pouco, mas não é. O acto de, simplesmente, conversar, é hoje uma coisa rara e este programa permite isso mesmo. Permite que se conheça quem por vezes estã tão próximo de nós mas que conhecemos mal. Permite dar a conhecer alguém que, simplesmente, é bom no que faz e pode servir de exemplo para tantos outros. É um programa feito pelos convidados e para os ouvintes. A rádio, felizmente, permite essa relação única.
 
*Jornalista José Lameiras
 

"Hoje vou ser... Cronista!"

Escrito por terça, 05 abril 2016 19:41
No passado dia 21 de Março, assinalou-se o Dia Mundial Contra a Discriminação, e no âmbito do projecto de férias “Hoje Vou Ser”, fomos “comentadores”. Com o José Lameiras, na Rádio Despertar - Voz de Estremoz, debatemos o tema da discriminação, moderado pela coordenadora do nosso ATL, a Dra. Lena Chouriço.
 
Através de uma outra parceria com o “Ardina do Alentejo” passamos agora também a ser “Cronistas”, ou seja, juntámos as nossas ideias sobre o tema e o resultado do nosso debate, que aqui deixamos a todos os leitores.
 
Os comentadores e cronistas são Maria Inês Lopes, Marta Carujo, Daniel Balejo, Luís Parreira, João Pirra e Daniela Rodrigues, todos com idades compreendidas entre os 10 e os 16 anos.
 
Relativamente ao tema, o conceito para nós de Discriminação é uma certa pessoa discriminar outra, por ser de uma etnia diferente ou pela sua maneira de ser. Por exemplo, quando mudamos de escola, devemos fazer amigos. Já vimos amigos da nossa escola serem maltratados, do tipo “gozar”. Uma das formas para resolver isto é falar com um adulto, cara a cara, sem violência.
 
Nós não concordamos que as pessoas devam discriminar as outras por vestirem roupas de marca, ou por calçarem ténis sem qualidade, porque isso não tem nada a ver, porque não é só fisicamente que nós vamos descrever as pessoas, porque o que importa é o que somos. Há escolas que defendem o uso de uma farda, mas nós achamos que não é por aí, vai sempre haver preconceito. Mas temos de arranjar forma de o combater, é difícil mas alguém tem de começar. Tipo, não há pessoas iguais, cada um faz o que quer e o que gosta, dependendo da personalidade da pessoa.
 
Uma pessoa quando é discriminada sente-se triste, sozinha, magoada e deixa marcas. Nunca vai esquecer aquilo que lhe fizeram e vai sempre lembrar-se disso. As pessoas que não dizem, nós pensamos que é por vergonha e por medo e choram, mas chorar  alivia. O nosso dever é proteger.
 
As duas pessoas têm um problema. A que discrimina, porque isso é mau, e a que se cala, porque devemos expressar o que sentimos.
 
Tem de haver coragem para denunciar essas situações, falando com os Professores, fazendo participações. Fora da escola temos a polícia.
 
Nós podemos dar o exemplo, não discriminando ninguém. Sem amigos ninguém sobrevive.
 

Alguém se voluntaria?

Escrito por segunda, 04 abril 2016 02:08
Quando esta pergunta é formulada por alguém, sinto que a maioria, para não dizer 99% das pessoas, tenta esconder-se atrás de quem está à frente para não ser visto ou, estando na primeira fila, desviar o olhar para não o cruzar com quem formulou a questão, “não vá o diabo tecê-las” e decidir o interlocutor chamar-nos e tornar-nos voluntários à força. A este propósito relembro que há uns anos atrás fui com as minhas filhas ao circo e, num número de um palhaço, perante uma assistência “praí” de 200 ou 300 pessoas, o palhaço escolheu 3 pessoas… adivinhem quem era uma dessas pessoas… pois é, eu mesmo. Logo eu que estava na última fila lá mesmo no cimo… Não me fiz de rogado e lá fui com o meu espírito de brincalhão aceder às palhaçadas propostas pelo palhaço-mor. Acabou por ser uma experiência divertida que pôs toda a gente a rir mas, para ser sincero eu fui um daqueles 99% a tentar esconder-se atrás dos outros. Pois é, nem sempre o facto de nos escondermos nos serve de muito, aliás, acredito mesmo que não é por nos escondermos que as coisas não nos podem acontecer.
 

O voluntariado pode ser exercido em casa, junto da família, dos amigos, na rua, no bairro, na escola, na igreja de cada um, no clube, na política, nos demais movimentos associativos. De certa forma em qualquer lugar e hora esse exercício de cidadania pode ser realizado.

Isto de ser voluntário para coisas que aparentemente nos escapam por não sabermos para o que vamos, tem muito que se lhe diga. Mesmo para aquilo que se sabe já parece ser difícil ser-se voluntário. Muitas vezes diz-se “- Mais valia estar sossegado no meu cantinho que tinha com certeza menos trabalho!”. Até pode ser verdade mas o sal da vida pede-nos para intervirmos, eu pelo menos dificilmente rejeito um desafio onde sinto que posso ser útil. É importante sentirmo-nos úteis e contribuirmos para o bem estar dos outros. Aliás, a convivência social e as nossas próprias vidas impelem-nos para isso mesmo, para a partilha de serviços, de ajuda, de comunicação. No fundo, por intermédio desse voluntariado, há relações sociais que evoluem, relacionamentos que se solidificam.
 
Segundo a lei portuguesa voluntariado é “… o conjunto de acções de interesse social e comunitário realizadas de forma desinteressada…”. Na realidade o voluntariado está ligado umbilicalmente ao trabalho, ainda que o mesmo seja não remunerado e funcione como um complemento ao trabalho que é desenvolvido pelas administrações, sejam elas públicas ou privadas.
 
O voluntário vê-se em todo o lado, cruza-se diariamente connosco. Ainda que oculto nas horas e nos minutos que passam por nós, ele está ali, alerta, pronto a intervir e, se assim for, disposto a dar a vida pelos outros. Veja-se o caso dos Bombeiros que para salvarem os nossos bens arriscam a vida, eles que, de quando em vez, tanta dificuldade têm em arranjar voluntários, a Cruz Vermelha, a Cáritas, as Misericórdias, enfim uma panóplia de instituições que funcionam com o apoio voluntário de muitas pessoas que continuam a despender o seu tempo em prole do bem estar comunitário. Foram-se criando os úteis Bancos do Tempo para simplesmente o trocar. Esse tempo é tempo também voluntário, tempo trocado por serviços e acções que ajudam o próximo.
 
O voluntário não tem idade. Ainda que muitas das leis internacionais restrinjam a ajuda voluntária a menores de 18 anos, eu acredito que o voluntário também é criança e jovem, não somente adulto e até mesmo idoso. O voluntariado pode ser exercido em casa, junto da família, dos amigos, na rua, no bairro, na escola, na igreja de cada um, no clube, na política, nos demais movimentos associativos. De certa forma em qualquer lugar e hora esse exercício de cidadania pode ser realizado. No entanto há que ressalvar a diferença entre o voluntariado formal e informal. O primeiro é aquele que é feito junto das organizações sem fins lucrativos, o outro é o individual, o do dia-a-dia. 
 
O altruísmo acaba por ser, consequentemente com o voluntariado, um dos grandes impulsionadores das organizações não-governamentais, as chamadas ONG’s. Elas desenvolvem papéis de extraordinária importância num mundo demasiadamente desigual como é o nosso. 
 
Todos somos um bocadinho voluntários quando, por exemplo, doamos sangue, quando oferecemos livros, quando ajudamos a limpar florestas, quando contribuímos como “curadores” de idosos, quando ajudamos o velhote a atravessar a rua, ou quando simplesmente reciclamos. São demasiados os actos voluntários que o comprovam, basta intervirmos civicamente, de uma forma simples ou até científica, educativa, saudável, cultural, desportiva, protectora, tolerante. O voluntário pode sê-lo por inúmeros motivos, por convicção, por caridade, por educação, por fé, por amor, no fundo basta que no ADN esteja um bocadinho de personalidade, basta que se tenha prazer em ajudar os outros, os mais vulneráveis, os mais necessitados. O que é certo é que nunca saberemos se esses necessitados não poderemos ser nós um dia. Talvez como forma de agradecimento, não raras vezes, o acto voluntário é replicado por quem já um dia usufruiu directamente da ajuda.
 
Trabalhar de forma a poder minimizar o impacto do mundo na vida das pessoas é com certeza uma das gratificações que o voluntário sente, outra será a de se sentir bem consigo próprio depois de ter cumprido esse seu desígnio.
 
Mais do que nunca, nos dias de hoje é importantíssimo constar num simples curriculum vitae de candidatura a um emprego, a participação voluntária em actividades colaborativas ou de cooperação social. 
 

Trabalhar de forma a poder minimizar o impacto do mundo na vida das pessoas é com certeza uma das gratificações que o voluntário sente, outra será a de se sentir bem consigo próprio depois de ter cumprido esse seu desígnio.

Talvez pelo facto de trabalhar com crianças e jovens, eu próprio seja sensível ao trabalho voluntário desempenhado em prole da sua ocupação de tempos livres. Desde o trabalho desenvolvido em instituições religiosas, clubes desportivos e culturais e associações de diversa índole, destaco a transmissão de valores como elemento preponderante de cada uma das acções por eles desenvolvidas. 
 
Para o desenvolvimento da minha personalidade tenho que dar enfase aos movimentos católicos por onde andei, dos grupos de jovens aos escuteiros (dos quais fiz parte do primeiro grupo da minha cidade há mais de trinta anos), devo realçar o fantástico trabalho voluntário prestado por aqueles monitores, um trabalho que moldou consciências, formou pessoas, desenvolveu em muitos de nós o companheirismo, a lealdade, a fraternidade, a solidariedade, os laços de amizade que ainda hoje perduram, a entreajuda, a moral, a ética, a resistência, apurou-nos os sentidos, trouxe-nos humildade, honestidade, liberdade, fez-nos procurar a verdade, fez com que nos “desenrascássemos”, desenvolveu-nos a criatividade, o respeito pelo próximo e pela natureza, trouxe-nos sobretudo humanidade, responsabilidade e capacidade de intervenção.
 
Dos muitos ensinamentos que retirei na minha juventude partilho convosco um excerto da última mensagem de Baden-Powell, o fundador do escutismo, palavras essas que, ainda hoje, fazem parte da forma como vivo a minha vida: “Contentai-vos com o que tendes e tirai dele o maior proveito que puderdes. Vede sempre o lado melhor das coisas e não o pior. Mas o melhor meio para alcançar a felicidade é contribuir para a felicidade dos outros. Procurai deixar o mundo um pouco melhor de que o encontrastes e quando vos chegar a vez de morrer, podeis morrer felizes sentindo que ao menos não desperdiçastes o tempo e fizestes todo o possível por praticar o bem.
 
O trabalho voluntário daqueles monitores conseguiu que cada um de nós moldasse o seu próprio carácter e conseguisse ter a capacidade para agradecer. Eu fiquei com a capacidade de reconhecer essa gratidão e por isso mesmo, a todas as pessoas que caminharam ao meu lado só lhes posso expressar uma palavra… OBRIGADO!
 
*Professor Luís Parente
 
 

Um ensaio sobre a cegueira

Escrito por sexta, 18 março 2016 01:21
Durante a apresentação de mais uma iniciativa que vai acontecer na nossa cidade, o projeto Miss Estremoz, integrado na organização da Miss Portuguesa 2016, disseram-me que Estremoz tem atualmente uma das melhores dinâmicas culturais do Alentejo. É algo que me deixa muito feliz e orgulhoso, como estremocense, e com o qual concordo em absoluto.
 
Não percebo, por isso, por que razão algumas pretensas personalidades desta terra continuam a procurar fazer passar a ideia de que em Estremoz nada acontece e que não existe "cultura".
 
Em primeiro lugar, o que se entende por Cultura? Será que o fazer Cultura se esgota apenas na realização das ditas "iniciativas culturais"? Na realização de eventos ou atividades artísticas? Não. Cultura é mais, muito mais...
 

Sempre ouvi dizer que o maior cego é aquele que não quer ver. No que me diz respeito, continuarei a tentar ver mais além e a combater acerrimamente todos aqueles que teimem em continuar na sua cegueira, pelo menos enquanto houver pessoas cujo único objetivo é tentar afundar o barco, ao invés de ajudar a remar para que ele chegue a bom porto e a criar algo culturalmente positivo.

Obviamente que não será necessário munirmo-nos de um dicionário da Língua Portuguesa e procurar o significado do termo para perceber isso. Cultura terá sempre que ser entendida como todas as interações entre o Homem e o seu meio envolvente, ou seja, a paisagem. O próprio conceito de paisagem encerra em si uma forte componente cultural, uma vez que aquela resulta do somatório das diversas manifestações naturais (solo, ar, água, vegetação, fauna...) com as atividades humanas que decorrem nesse suporte biofísico. Assim sendo, à exceção dos elementos que a Natureza fabrica sem a intervenção do Homem, podemos dizer que todos os restantes elementos que existem na paisagem e que resultam da sua humanização, são formas de Cultura.
 
A oliveira é um elemento natural. Não temos quaisquer dúvidas em relação a este facto. No entanto, o olival plantado pelo Homem é um elemento cultural, pois resulta da manipulação de um elemento natural para atingir um fim produtivo e útil para a humanidade. Plantar um olival também é fazer Cultura, se a entendermos como um conjunto de respostas, contrastantes com a Natureza, para satisfazer as necessidades e os desejos humanos.
 
A Cultura é, assim, um conjunto de ideais, símbolos, comportamentos e práticas humanas que são transmitidas de geração em geração, através da nossa vivência em sociedade. Por isso, fazer Cultura é criar algo. Criar espaço, criar formas, criar nova vida, criar alternativas, criar soluções, criar vontades, criar utilidade, criar prazer, criar lazer, criar trabalho, criar identidade... deixar a nossa marca no tempo e no espaço em que vivemos e transmitir os nossos conhecimentos às gerações seguintes, que os poderão utilizar ou renovar.
 
Todos os dias estamos a conceber Cultura e em Estremoz obviamente isso também acontece. Seja através das criações dos indivíduos, das famílias, das coletividades, das empresas, das escolas, das instituições públicas e privadas ou da comunidade.
 
No desenvolvimento cultural de uma comunidade parece-me de grande relevância o papel das coletividades e dos municípios.
 
As coletividades, com mais ou menos história ou existência, pela forma como transmitem a outros indivíduos os mais diversos saberes e tradições da comunidade. No concelho de Estremoz existem cerca de meia centena de coletividades, desde ranchos folclóricos a clubes desportivos, sociedades filarmónicas, orfeão, grupos de dança, grupos de teatro, grupos musicais, comissões de festas, sociedades recreativas e muitas outras instituições que têm sabido, ao longo do tempo, criar a Cultura e a identidade estremocense. E continuam a fazê-lo muito bem. Não é à toa que praticamente todos os fins-de-semana existem inúmeras atividades organizadas pelas diversas coletividades, de acordo com as suas respetivas missões, para além das atividades que dinamizam durante os restantes dias da semana, quer se trate do ensino da música, do aperfeiçoamento das técnicas de dança, do treino desportivo ou pura e simplesmente do convívio entre os seus associados. 
 

...mesmo que eu fosse daqueles que entendem a Cultura de uma forma muito minimalista, continuaria sem perceber qual a razão que os leva a afirmar que em Estremoz não se faz Cultura. Ou a resumir, como alguns já o tentaram fazer, a atividade cultural do concelho de Estremoz a duas ou três iniciativas de carácter individual, independentemente do mérito que elas tenham ou que se lhes reconheça.

Aos municípios cabe gerir o desenvolvimento cultural do concelho, apoiar as atividades desenvolvidas pelas associações, divulgar e guardar conhecimento, recuperar património e, naturalmente, organizar atividades de enriquecimento cultural da comunidade. Em Estremoz, centenas de pessoas trabalham diariamente para conseguir atingir estes objetivos, designadamente nos Museus, no Arquivo Municipal, na Biblioteca, no Posto de Turismo, nos equipamentos culturais, nos equipamentos desportivos, e em muitos outros sectores da atividade administrativa e operacional do Município. Ainda que resumíssemos a Cultura apenas àquilo que é mais óbvio e comummente aceite como tal - as iniciativas ditas culturais - era-me impossível enumerar, no espaço que disponho para escrever, todas as atividades que o Município realiza anualmente e que contribuem para fazer Cultura, no âmbito das suas atribuições e competências (e, não raras vezes, muito para além delas).
 
Por isso, e mesmo que eu fosse daqueles que entendem a Cultura de uma forma muito minimalista, continuaria sem perceber qual a razão que os leva a afirmar que em Estremoz não se faz Cultura. Ou a resumir, como alguns já o tentaram fazer, a atividade cultural do concelho de Estremoz a duas ou três iniciativas de carácter individual, independentemente do mérito que elas tenham ou que se lhes reconheça. Isso será, no mínimo, ter uma visão muito redutora da Cultura e um total desrespeito para com todos os indivíduos, empresas, associações e instituições que todos os dias contribuem para o desenvolvimento cultural de Estremoz, nas suas mais variadas formas.
 
Desconheço se o fazem por ignorância, por mesquinhez ou simplesmente pela sua incapacidade de ver mais além, de fazer igual ou de fazer melhor do que aquilo que é feito. Ou talvez porque são daquele tipo de pessoas que apenas gostam de ser do contra, ou que se julgam entidades superiores e, por isso, acham que a sua opinião tem tão especial importância que deve ser partilhada...
 
Sempre ouvi dizer que o maior cego é aquele que não quer ver. No que me diz respeito, continuarei a tentar ver mais além e a combater acerrimamente todos aqueles que teimem em continuar na sua cegueira, pelo menos enquanto houver pessoas cujo único objetivo é tentar afundar o barco, ao invés de ajudar a remar para que ele chegue a bom porto e a criar algo culturalmente positivo.
 
* Arquiteto Paisagista António Serrano
 

Boa Sorte, Presidente

Escrito por sexta, 11 março 2016 00:57
Marcelo Rebelo de Sousa, tal como se esperava, pouco teve de fazer para vencer as Presidenciais. Gastou pouco, e bem, até porque sabia que era desnecessário. Homem experiente, e bastante habituado a ter holofotes na sua direção, Marcelo soube bem aproveitar o "palco" que teve ao longo dos últimos anos. No entanto, digo eu, não foi só por isso que venceu as eleições. Durante a campanha, leu-se aqui e ali que se tratava, apenas, de um comentador. Não concordo. Marcelo preparou-se para este desafio, traçou uma meta e chegou ao fim em primeiro. 
 
Teremos, acredito, um Presidente mais activo, mais presente, mais abrangente. Tal e qual como eu esperava, o seu primeiro discurso foi brilhante. Foi um discurso de união, de motivação nacional. Logo na primeira vez que falou ao país, Marcelo olhou para o que temos de bom e que é preciso aproveitar. No dia da sua vitória, já se havia mostrado disponível para "unir aquilo que as conjunturas dividam". Parece ser essa a sua grande bandeira.
 

Marcelo disse também, no seu discurso, que não quererá ser "mais do que a Constituição permite", mas também não será "menos do que a Constituição impõe". A meu ver, este foi um recado bastante importante. Não se tratou apenas de protocolo, tratou-se de um aviso muito sério de que Belém vai ficar mais próximo de São Bento.

Marcelo percebe bem os problemas do pais. No seu discurso de posse, lembrou o "jovem que quer exercitar as suas qualificações e, debalde, procura emprego", a "mulher que espera ver mais reconhecido o seu papel num mundo ainda tão desigual", o "pensionista ou reformado que sonhou, há trinta ou quarenta anos, com um 25 de Abril que não corresponde ao seu atual horizonte de vida", o "cientista à procura de incentivos sempre adiados", o "agricultor, o comerciante, o industrial, que, dia a dia, sobrevive ao mundo de obstáculos que o rodeiam", o "trabalhador por conta de outrem ou independente, que paga os impostos que vão sustentando muito dos sistemas que legitimamente protegem os que mais sofrem no nosso Estado Social", a "IPSS, da Misericórdia, da instituição mais próxima das pessoas – nas Regiões Autónomas e nas Autarquias –, que cuida de muitos, de quem ninguém mais pode cuidar melhor". Esta parte do seu brilhante discurso, atesta que Marcelo conhece perfeitamente o país onde vive e o desafio que agora tem pela frente.
 
Marcelo disse também, no seu discurso, que não quererá ser "mais do que a Constituição permite", mas também não será "menos do que a Constituição impõe". A meu ver, este foi um recado bastante importante. Não se tratou apenas de protocolo, tratou-se de um aviso muito sério de que Belém vai ficar mais próximo de São Bento. 
 
Num Estado Democrático, ninguém é obrigado a aplaudir ninguém. Defendo, até, que os aplausos devem ser sempre sinceros. No entanto, há momentos em que devemos aplaudir por respeito. Podemos não concordar com o que ouvimos, mas deveremos respeitar... aplaudindo. Assim como em 2006, aquando da primeira eleição de Cavaco Silva, também em 2016 houve bancadas quietas. Palmas, dessas mesmas bancadas, apenas se ouviram quando Marcelo falou numas "Forças Armadas sempre fiéis a Portugal" e recordou que "assim foi, também, em 25 de Abril de 1974, com os jovens capitães, resgatando a liberdade, anunciando a democracia, permitindo converter o império colonial em comunidade de povos e estados independentes, prometendo a paz, o desenvolvimento e a justiça para todos." Esta foi uma "ponte" que Marcelo, e bem, quis fazer. Acho mesmo, que as bancadas de que falo foram surpreendidas. PCP e Bloco não esperavam este discurso do novo Presidente.
 
Esperar para ver, é sempre melhor. Se "nem Deus agradou a toda a gente", não será Marcelo Rebelo de Sousa que irá agradar. A meu ver, tem tudo para ser um bom Presidente. Tem tudo para ser mais activo que o normal e não ser peça decorativa. Isso, acho eu, já deu para perceber. A forma activa como tem estado na vida e na política atesta que assim será. Teremos, a meu ver, um Presidente atento e disposto a intervir. Não será criador de roturas e mostrou, até agora, ser um defensor de consensos. Já no seu primeiro discurso, Marcelo aconselhou-nos a ter orgulho no país onde vivemos e a olhar de frente para os grandes problemas sociais. Sinceramente, gostei. Não estava lá mas, se estivesse, teria com toda a certeza o meu aplauso, sincero... e de pé. Boa sorte, Presidente.
 
José Lameiras - Jornalista

O Mundo num Sorriso

Escrito por domingo, 06 março 2016 17:17
O sorriso enriquece quem o recebe, sem empobrecer quem o dá.” 
                                                                                    Autor Desconhecido
 
O sorriso dura somente um instante, mas os seus efeitos perduram no tempo.
                                                                                                          Autor Desconhecido
 
"Não critique, ajude; não grite, converse; não acuse, ampare e… não se irrite, sorria.
                                                                                                                     Autor Desconhecido
 
Ainda que haja noite no coração, vale a pena sorrir para que haja estrelas na escuridão.
                                                                                                                     Arnaldo Alvaro Padovani
 
Por acaso já sorriram hoje? 
 
Já fizeram alguém sorrir hoje?
 
Experimentem, vão ver que é tão bom como sempre! Sim, eu sei que há gostos para tudo e esses, dizem, não se discutem. Haverá provavelmente pessoas que não gostem de sorrir. Eu adoro sorrir! Se calhar às vezes até faço figuras de parvo, desmesuradamente mesmo, mas como não me preocupo nem um bocadinho com o que cada um pensa da minha pessoa, não tenho qualquer tipo de problema em assumir que as faço, e digo mais, como sou uma pessoa brincalhona e extrovertida, até gosto, por vezes, de desempenhar esse papel, por estranho que possa parecer.
 
Existem, naturalmente, diferenças entre sorrir, rir e gargalhar, mas apesar dos seus significados diferirem e serem tão distantes, os mesmos são igualmente próximos, nem que seja na íntima proximidade do sentimento. Da parte que me toca nutro uma grande afectividade, na mesma medida, por ambas as acções, tento sempre, a este propósito, viver a minha vida seguindo o meu lema “Rir é o melhor remédio, para tudo… mesmo”. Quem me conhece minimamente sabe que é este o meu espírito.
 

A minha perspectiva é a de que o mundo só evolui com sorrisos. Como optimista que sou, tenho para mim que o rosto das pessoas foi criado para sorrir, para sorrir com o coração, não só com os lábios, mas com o coração. Sorrir é como o abrir a boca, contagia. E sempre que esse contágio acontece o mundo vai melhorando um pouco.

Quem diz um simples riso, diz uma sonora gargalhada ou um discreto sorriso, ambos são importantes para o meu bem-estar não só emocional, mas também físico. Na verdade, segundo a ciência, sorrir liberta uma substância natural chamada endorfina, que no fundo é uma espécie de hormona responsável pelo tal bem-estar. Assim sendo, e posto isto, está mais que provado que sorrir faz bem à saúde. Aliás, existem mesmo estudos que dizem que o sorriso pode ser responsável pela redução do stress, da própria tensão arterial e até do risco de Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC), para além de que estimula o cérebro, promove o bom humor, a confiança e consequentemente faz aumentar a concentração e a produtividade. Há quem diga mesmo que faz bem à circulação sanguínea, à digestão e até à pele. Por isso mesmo existem inúmeras terapias nos dias de hoje que fazem, precisamente o apelo ao riso, uma das mais propaladas é o Yoga do Riso que, basicamente funciona como uma técnica que começa por provocar um riso forçado, mas que a pouco e pouco o vai tornando espontâneo. No fundo serve para aumentar a auto-estima e, de certa maneira, reduzir os estados de ansiedade e até de dor.
 
Pensando bem, como é possível que um ligeiro movimento dos lábios possa provocar tanta coisa? Como é possível tanto efeito colateral só por causa de um simples movimento de músculos?
 
Ainda assim, e no que diz respeito ao sorriso, há que o saber distinguir. Nenhum sorriso se iguala a outro. Sim, o sorriso pode mudar! Aquele que é esboçado de dentro para fora não é igual ao que vai de fora para dentro, este último pode ser sarcástico, o chamado sorriso amarelo, falso, malicioso, o cínico, o forçado, o hipócrita, ao passo que o primeiro é o espontâneo, o da alegria, do prazer, da satisfação, o descontraído, o solidário, o da contemplação e até mesmo o sorrisinho da vergonha, o sorrisinho tolo, o sorriso sentido que pode trazer lágrimas ou mesmo o sorriso iluminado que faz ler o coração.
 
O acto de sorrir não deve, na minha opinião, ser um acto egoísta. O sorriso, o riso e até a gargalhada, apesar das evidentes diferenças, devem ser actos partilhados despudoradamente, sem qualquer tipo de receio do ridículo. Nem sempre as pessoas o conseguem fazer e desculpas como as que se seguem são por demais evidentes daquilo que vos digo: “- Eu tenho uma gargalhada muito alta!”, “- O meu riso é muito estridente!”, “- Eu ronco quando estou a rir!”, “- Detesto o meu sorriso, tenho uma boca muito feia!”, “- Os meus dentes são horríveis!”, “- E eu que nem sequer tenho dentes…”. E daí? Não sentem todos o prazer de uma boa gargalhada? Desdentados ou não, com boca bonita ou feia, com sorriso metálico, rindo com altos ou baixos decibéis e até mesmo roncando, sorrindo de boca escancarada ou fechada, o que nos interessa mesmo é a sensação que o acto nos transmite. O sorriso está intrinsecamente ligado à sensação de satisfação, de prazer.
 
A minha perspectiva é a de que o mundo só evolui com sorrisos. Como optimista que sou, tenho para mim que o rosto das pessoas foi criado para sorrir, para sorrir com o coração, não só com os lábios, mas com o coração. Sorrir é como o abrir a boca, contagia. E sempre que esse contágio acontece o mundo vai melhorando um pouco.
 
Que bom que é ver o primeiro sorriso no rosto de uma criança…
 
Que bom que é presentear alguém com o nosso sorriso… Já experimentaram? E quando há retorno desse sorriso?
 
Que bom que é fazer sorrir… Que bom que é ver sorrir…
 
Que bom que é sorrir assim, sozinho, acompanhado, a pares, em grupo…
 
O sorriso não tem cor, não tem raça, nem credo e muito menos clube… é ele que vai iluminando os caminhos.
 
Eu não me canso de sorrir! Quem sabe não será este o meu pequeno contributo para um mundo melhor?
 
A este propósito vem-me à ideia uma daquelas frases que nos vão surgindo em tudo quanto é rede social mas que por qualquer motivo ficou na minha memória, se não me engano é de Shakespeare e é qualquer coisa comoÉ mais fácil obter o que se deseja com um sorriso do que com a ponta de uma espada. Eu, honestamente, acredito!
 
Se acreditar nisto e sorrir assim é sinónimo de imaturidade então eu sou um puto que nunca vai crescer!
 
* Professor Luís Parente
 

Encontro com Freud - Crónica X

Escrito por domingo, 06 março 2016 15:35
…hoje fui ao serviço de oncologia do hospital de Évora. Tranquilos, fui entregar uma carta, embora uma carta de um dos meus. Entrei no serviço e gelei por completo, quase como quando entrei pela primeira vez no IPO de Lisboa, com a minha amiga Ana Bastos, e dessa vez por um dos dela, que de alguma forma se tornam nossos, porque o que nos liga é mais forte e porque “O” dos nossos, através desse laço, passam a ser nossos também.
 
Ou quando a minha amiga Lena me deu o diagnóstico, acabadinhas de nos conhecermos, ou quando o meu tio Jaime entrou nessa viagem de luta e desespero, ou quando a minha madrinha de Crisma, Lina, recebe a notícia por telefone que iria travar uma nova batalha, ou quando soube do nosso André e um “acreditar coletivo” se instalou nos nossos corações… e quando a luz se apagou… ou quando… entre tantos outros, mais ou menos próximos, (desculpem os que não nomeei, a memória já falha) nos deram momentos de tranquilidade, de serenidade, de paz, porque as batalhas foram sendo vencidas, porque o final feliz estava cada vez mais perto…e sorri, por Vós mas também por mim e talvez tenha tido apenas isto para Vos dar, o meu Sorriso, mesmo interior, principalmente para os que não conheço tão bem.
 

A senhora do atendimento / informação, respondeu a uma das utentes como se estivesse a falar com uma familiar, gostei. Quando me dirigi ao balcão, sorriu, gostei. Quando saí e um senhor se aproximava da máquina das senhas, entreguei a que não cheguei a utilizar, sorriu, gostei. Pequenos gestos, diante de um turbilhão de sentimentos, medos, angústias, tristeza…

… hoje em cada olhar quis tanto ver esperança, Fé, entrega e um sorriso, apenas um sorriso que me dissesse que apesar de tudo, estamos bem, hoje estamos bem. Egoísmo o meu, é difícil confrontar-nos com o sofrimento dos outros e com o nosso, claro! E ser Psicóloga(o) não nos dá imunidade nem tão pouco nos torna vazios de sentimentos e empatia… ainda bem. 
 
A senhora do atendimento / informação, respondeu a uma das utentes como se estivesse a falar com uma familiar, gostei. Quando me dirigi ao balcão, sorriu, gostei. Quando saí e um senhor se aproximava da máquina das senhas, entreguei a que não cheguei a utilizar, sorriu, gostei. Pequenos gestos, diante de um turbilhão de sentimentos, medos, angústias, tristeza… Sorri e quis ficar, quis tanto ficar ali, não, não para saber nada em especial de nenhuma daquelas pessoas, porque sei o suficiente para ter vontade de ficar ali, só ficar. 
 
Enquanto a vida passa, cá fora, entre atropelos, muros, zonas cinzentas, lá dentro o peso da Vida que se quer agarrar é tão grande, que às vezes e quase sempre tem de ser a quatro, seis, oito e infinitas mãos para a segurar e eu quis tanto ficar, só para serem mais duas e sorrirmos! 
 
A todos quanto trabalham, se dedicam, vivem com a Dor do Outro e a Todos quanto nos ensinam que difícil não é impossível.
 
* Psicóloga Helena Chouriço
 

A beleza do amor

Escrito por quinta, 18 fevereiro 2016 00:44
Salomão, no século X a.C., descrevia desta e de outras formas, no seu Cântico dos Cânticos, a beleza feminina:
 
"(...) És um jardim fechado, minha irmã e minha esposa; um jardim fechado, uma fonte selada. Os teus rebentos são um pomar de romãzeiras com frutos deliciosos (...) com todos os bálsamos escolhidos. É fonte de jardim, nascente de água viva (...) Afasta de mim os teus olhos, os olhos que me enlouquecem. Quem é essa que desponta como a aurora, bela como a Lua, fulgurante como o Sol, terrível como as coisas grandiosas? (...) Como és bela, como és desejável, meu amor, com tais delícias(...)" [1] 
 
São muitos os significados alegóricos presentes no magnífico texto desta obra, mas é sobretudo o ideal da beleza da mulher, à época de Salomão, que nos é transmitido através da boca do Esposo, que reconhece e enaltece as graças visíveis e invisíveis da sua Esposa.
 
A beleza feminina e o amor são dois dos temas mais debatidos ao longo da História da Humanidade e que, por isso, serviram de inspiração às artes e à própria vivência humana: a beleza de Eva, que encantou Adão no Jardim do Éden; a beleza da Vénus de Willendorf, cujas formas arredondadas terão certamente encantado os homens de há mais de trinta mil anos; a beleza da Vénus de Milo, que muitos suspiros terá suscitado aos homens da Grécia e da Roma Clássicas; a beleza da fragilidade inatingível das damas dos romances de cavalaria medievais; a beleza mágica das formas proporcionais da mulher renascentista, que tão bem foi retratada por Botticelli em O Nascimento de Vénus ou por Leonardo Da Vinci na sua Mona Lisa; a beleza escondida pelo ornamento excessivo e curvilíneo, embora mais livre e dinâmica, da mulher do período Barroco; o pormenor e o rigor das formas da mulher neoclássica, como Canova os soube transmitir à escultura de Paolina Borghese no início do século XIX; o misto de beleza melancólica e racional das mulheres do Romantismo; a beleza geométrica das mulheres pintadas por Picasso no início do século XX; ou a beleza feminina que nos é hoje trazida diariamente através das inúmeras imagens difundidas em livros e revistas, na televisão ou na Internet.
 
Estes foram apenas alguns dos muitos exemplos que servem para ilustrar o facto de que, tal como em todas as outras matérias do âmbito da estética, também os cânones da beleza feminina são fruto da época e dos homens que a viveram ou vivem. São subjetivos, dependendo do espaço, do tempo e do observador.
 
Aparentemente, a temática do amor é menos complexa que a discussão acerca da beleza e não terá tido grandes alterações ao longo dos tempos. Ainda assim, são conhecidas muitas formas de amor: o amor de mãe, o amor de pai, o amor de filho, o amor de esposo/a, o amor de namorado/a, o amor de amigo/a, o amor platónico, o amor impossível, o amor proibido, o amor livre... entre tantos outros amores e desamores. Mas se considerarmos que associado ao amor há sempre um qualquer tipo de beleza, nem que seja pela beleza que é amar alguém ou alguma coisa, então também todas as formas de amor são subjetivas e se alteram com o tempo, com o espaço e com a vontade dos homens. É também por amor que o Homem intervém na paisagem. Um amor que procura a beleza, a ordem, a proporção, a harmonia... o microcosmos. 
 

Amo a minha vida. A minha vida resume-se a duas pessoas: a minha mulher e a minha filha. Portanto, amo a minha mulher e a minha filha. Para mim, esse é o sentimento mais belo que um ser humano pode ter. Tão importante como a beleza feminina delas, é a forma como entendo no sentimento de amá-las uma beleza subtil e, ao mesmo tempo, intensa.

Uma das mais recentes manifestações da celebração do amor é, precisamente, a comemoração do Dia de São Valentim, que aconteceu há poucos dias. E para comemorar esta data através da escrita, nada me parece mais justo do que falar acerca daquilo que eu amo e da beleza que há nesse amor.
 
Amo a minha vida. A minha vida resume-se a duas pessoas: a minha mulher e a minha filha. Portanto, amo a minha mulher e a minha filha. Para mim, esse é o sentimento mais belo que um ser humano pode ter. Tão importante como a beleza feminina delas, é a forma como entendo no sentimento de amá-las uma beleza subtil e, ao mesmo tempo, intensa.
 
Amo-as na beleza que é estarmos sempre juntos e de fazermos tudo juntos, na beleza que é partilharmos as alegrias e as tristezas, de sofrermos as nossas derrotas e saborearmos as nossas vitórias em conjunto. São elas o meu ideal de beleza feminina, sem que isto nada tenha a ver com o belo pelo belo. A beleza disto está, obviamente, naquilo que estar com elas significa para mim. E, para mim, significa tudo.
 
Se tivesse que descrever a minha filha, compará-la-ia ao Sol. É ela que está no centro do meu Universo. Quem tiver filhos sabe daquilo que falo. Desde o momento em que nascem, a nossa vida gira loucamente em torno deles, tal como os planetas orbitam em torno da sua estrela. A minha filha é a minha estrela e possui o maior brilho do Universo. Admiro a sua energia, a sua maturidade (ainda que seja ainda muito jovem), a sua inteligência e a sua persistência. Gosto de pensar que a minha filha representa também esperança. Esperança pela forma como se traduz na minha eternidade. Através dela, continuarei a viver outras vidas, eternamente. São estas as principais razões da beleza do amor que sinto por ela, que é superior ao amor que sinto pela própria vida.
 
A minha mulher é a minha companheira de todos os momentos. O porto de abrigo a que regresso sempre e que me acolhe após as tormentas do dia-a-dia. A minha confidente e a minha primeira crítica. Amo-a na beleza que é conseguirmos adivinhar os pensamentos um do outro e de darmos por nós a pensarmos exatamente da mesma forma em várias situações. Amo-a na beleza que é ensinarmo-nos mutuamente e pela forma como me tem ajudado a ser um homem melhor. Se a minha filha é o meu Sol, então a minha mulher é a minha Lua. Sinto todos os dias o efeito da força da gravidade que nos atrai mutuamente e que é cada dia mais forte. Completamo-nos. Nela, a beleza reside no facto de saber que estaremos eternamente unidos por este amor.
 
Tal como Salomão, também eu quis dedicar às duas belas Mulheres da minha vida este meu Cântico. Elas já mereciam que as incluísse no meu mundo da escrita. Porque sinto que também já era tempo de lhes dar algo em troca daquilo que me dão todos os dias: a beleza do seu amor incondicional por mim.
 
Arquitecto Paisagista António Serrano - 18-02-2016
 
[1]Excertos da obra "Cântico dos Cânticos", Salomão, século X a.C

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