terça, 17 outubro 2017

Luís Parente

Quase 12 anos

Quase 12 anos

Há quase 12 anos, durante o mês de Agosto, o meu telefone tocou. Do outro lad ...

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Um dia todos seremos velhos

Escrito por sexta, 27 maio 2016 15:48
Há dias, ao ver na SIC o programa “E se Fosse Consigo?” sobre os maus tratos a idosos fiquei estupefacto, revoltado mas também desiludido com as atrocidades inimagináveis que são perpetradas contra os idosos. Não que não soubesse que elas existem, porque sei, mas senti-me de tal forma desiludido com a regressão da espécie humana. Sim porque neste sentido tem havido um claro retrocesso e, Deus queira que não cheguemos aos tempos da Grécia Antiga em que a velhice era pouco valorizada ou mesmo a determinada altura da “Época Romana” em que essa mesma velhice era mesmo rejeitada. Estou em crer que isso não voltará a acontecer, pelo menos enquanto acreditar que a esperança existe.
 
O tipo de vida que se vive nos nossos dias em que tudo “é para ontem”, onde se valoriza mais a economia do que a vida humana, onde não há tempo para parar e reflectir porque o tempo corre incessantemente atrás do próprio tempo, é um tipo de vida que permite ao mundo ver atrocidades tais que envergonham qualquer ser humano que possua um espírito de comprometimento com os valores da humanidade, da solidariedade, da amizade, da compaixão, da cumplicidade, do reconhecimento.
 

Há dias, ao ver na SIC o programa “E se Fosse Consigo?” sobre os maus tratos a idosos fiquei estupefacto, revoltado mas também desiludido com as atrocidades inimagináveis que são perpetradas contra os idosos.

Depois de ver aquele programa fui, por curiosidade, ao site da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) e aí descobri que em Portugal todas as semanas, em média, cerca de 20 idosos são vítimas de violência. Segundo a APAV a idade média dos idosos vítimas de maus tratos ronda os 75 anos e a grande maioria dos casos são do sexo feminino. Observei ainda que estas médias são muito superiores quando comparadas com outros países da União Europeia. Descobri que a maioria das agressões são feitas por familiares e que existem vários tipos violência contra idosos, desde logo a violência física, a psicológica, a sexual, de índole financeira, a negligência ou a violação dos seus direitos.  Todos estes tipos de violência estão bem expressos e explicados no já mencionado site da APAV, ainda assim, a estes, eu acrescentaria, só mesmo para reforçar o que pretendo, e mesmo estando já implícita nos outros, a violência contra os valores morais. Quando vejo os números da APAV questiono-me de imediato: E os outros velhotes? Aqueles que por um qualquer tipo de receio não se conseguem libertar da teia de pressão em que vivem? Aqueles que sofrem repetidamente abusos em casa ou em contextos institucionais? Aqueles que são explorados e extorquidos pelos seus próximos, sejam eles familiares, vizinhos, “amigos” ou cuidadores? Aqueles que sofrem de doenças, sejam elas incapacitantes fisicamente ou não? Aqueles a quem a medicação ministrada serve também para os prostrar? Tenho a certeza que se todos os casos fossem contabilizados estaríamos aqui a falar de números absolutamente abismais. 
 
Sobre esta problemática há uma outra coisa que me aflige ainda mais, a cumplicidade dos silêncios, o virar de costas, a inércia dos que vêem e fingem não ver. Este é um problema social e há que assumi-lo como tal. Há que aumentar e desenvolver mecanismos e estratégias de protecção da pessoa idosa de forma a evitar os abusos de que diariamente ouvimos relatos em tudo o que é comunicação social. Sinceramente não faço ideia de como se poderão desenvolver esses mecanismos mas já que temos tantas mentes brilhantes no nosso país, talvez seja a altura de os pôr a agir e não só a pensar e a mandar uns “bitaites” ou então começar a direccionar o seu próprio pensamento para aquilo que realmente tem importância… as pessoas, e neste caso particular as pessoas idosas. 
 
Na minha opinião não sei se será eficaz unicamente a aplicação de medidas legais de punição dos infractores/agressores ou somente fazendo alterações da própria legislação nesse sentido. Acho que é preciso actuar antes da velhice como forma de prevenção, não se pode actuar só depois, é preciso haver uma concertação de esforços para o agora e sobretudo para o antes, quem sabe se através de planeamentos e/ou programas que exijam aos adultos não séniores a própria preparação de auto defesas para a velhice; quem sabe talvez começando, ainda nas escolas e de uma forma mais incisiva e acentuada, a preparar uma cidadania de respeito pelos mais velhos. A este propósito eu mesmo, fruto da minha actividade profissional, já tenho vivenciado programas de excelente partilha de vivências entre idosos e jovens. Talvez seja por aqui que deve começar o apoio, talvez seja dando ao idoso o que fazer e não deixá-lo ali a um canto da casa, do lar, ou de onde quer que seja a definhar até a infinita noite chegar. Quiçá o segredo não seja aumentar a auto estima do idoso? Parar é morrer e a idade tem que voltar a ser um posto como se diz na gíria popular.
 
Ao longo da vida os nossos cabelos mudam de cor e a cor branca que adquirimos não é só física, os cabelos brancos trazem consigo a experiência, os ensinamentos. Os mais velhotes, é certo, andam mais devagar, mas muitas vezes pensam muito mais rápido, é essa tal experiência a falar do alto da idade.
 
Quando falamos em velhotes lembramo-nos certamente dos nossos avós. Eu lembro-me da minha avó “Bidá” – Claridade era difícil de dizer – (os meus outros avós, infelizmente, pouco os conheci) deliciava-me a ouvir as suas histórias sobre os seus tempos áureos de “menina e moça”. Com a minha avó aprendi a cozinhar um frango com cenouras soberbo, com ela aprendi, imagine-se, a coser à máquina numa daquelas máquinas SINGER antigas. Como já tinha muitas dificuldades de visão pediu-me para, com a sua supervisão, lhe virar um enlutado vestido de Verão que já estava muito ruço. E eu não me fiz de rogado e avancei.
 
Na casa da minha avó tudo era mais saboroso. Tive a felicidade de viver 18 anos na casa ao lado da dela e às vezes bastava a mãe passar a sopa pelo muro, para a avó, e utilizar uma mentirinha piedosa dizendo que a sopa era dela para que a mesma soubesse divinamente. Na verdade os cozinhados das avós são sempre os melhores. Há sabores e odores que ainda hoje sinto, com saudade é verdade, mas ainda os sinto. Acho que toda a gente tem na memória sabores e cheiros dos cozinhados dos avós. Têm mãos de fada os avós, adoram fazer coisas com os netos à escondida dos pais, inventam teatros, têm uma paciência de Jó. Mas quem fala em avós pode falar em pais e em tios, pode falar em avós que não o são geneticamente mas que contribuem em muito para a felicidade e para a formação pessoal e social dos “netos”. Todos eles deixam marcas profundas no coração, mesmo aqueles que não sendo nada em termos familiares acabam por ser pessoas que passam por nós e deixam atrás o seu rasto.
 

Para ajudarmos os idosos é preciso despendermos do nosso tempo, é verdade. Mas não gastaram já eles o seu próprio tempo connosco? Esta é a altura de retribuir!

Os mais velhos transmitem-nos paz, conhecimento, sabedoria, dão-nos sábios conselhos, demonstram amadurecimento, são vigilantes, dão-nos afecto, são em muitos casos almofada, confortam-nos, dão-nos carinho, divertem-nos, dão-nos prazer, colo, são super defensores, ensinam-nos músicas, lengalengas, contos, são portadores de valores de amor incondicional, de determinação e respeito. Eles sabem benzeduras que nos tiram o “cobranto”, sabem mezinhas que nos aliviam as dores e passam de geração em geração, eles deixam raízes no mais fundo de nós.
 
Obviamente que nem tudo são rosas, com a idade vêm também problemas associados à saúde mas esses, esses não os podemos evitar, os outros sim, os tais que são afectos à violência, esses sim podemos evitá-los. Os meus velhotes sempre me disseram “Não faças aos outros aquilo que não gostavas que te fizessem a ti.” Tento seguir este ensinamento ao máximo e se as minhas faculdades mo permitirem continuarei sempre a fazê-lo.
 
Congratulo-me, na realidade, com o que já existe no campo da prevenção, com os apoios concedidos pela APAV, por instituições como a PSP e a GNR, pelas Misericórdias, pelos Centros de Saúde, Centros de Dia, Lares e até mesmo pelas Universidades Séniores que fazem com que a 3ª idade passe com muito mais suavidade. Ainda assim é preciso mais não só porque UM DIA TODOS SEREMOS VELHOS mas para fazer ver àqueles que mesmo sendo novos são mais velhos que os próprios velhos pela forma absolutamente irracional como agem e pensam.
 
Para ajudarmos os idosos é preciso despendermos do nosso tempo, é verdade. Mas não gastaram já eles o seu próprio tempo connosco? Esta é a altura de retribuir!
 
A infinita noite cairá para todos e nem a lua, ainda que cheia e brilhante iluminará o que quer que seja. Até lá aproveitemos para agir, para ajudar, contribuindo para um mundo melhor e façamos com que a vida seja só o dia e a noite para que, quando essa infinita noite cair, possamos dizer num último suspiro: “Valeu a pena!” 
 
Nota: No dia 15 de Junho comemora-se o Dia Internacional de Combate à Violência Contra a Pessoa Idosa         
                                                                                                                                                                                                                         
                                                                                                                                                                                                                              * Professor Luís Parente  

O Campeonato do Senhor Rui

Escrito por quinta, 26 maio 2016 00:47
O futebol é um fenómeno fantástico. Mesmo com tudo aquilo que traz de mau, ou menos bom, é preciso saber tirar a parte positiva e as lições que este fenómeno nos dá. No caso do campeonato principal desta época em Portugal, há uma lição que podemos transportar para outras áreas da nossa vida: As contas fazem-se no fim.
 
A Educação e o Respeito pelos outros são valores incontornáveis. São valores que devemos sempre preservar. Todos nós temos adversários ao longo da nossa vida e não podemos viver sem eles. No caso particular do desporto, seja no futebol ou não, são os adversários que valorizam as nossas vitórias. São eles que nos ajudam a sermos melhores e mais competentes. É fundamental respeitar e entender quem luta connosco por este ou aquele objectivo.
 
No Benfica, Rui Vitória não poderia ter tido pior começo. Exibições sofríveis da equipa na pré-temporada trouxeram as primeiras desconfianças dos adeptos e dos comentadores. Depois, a derrota com o Sporting na Supertaça, ainda por cima treinado por Jorge Jesus e com uma exibição muito pobre, fizeram com que grande parte dos adeptos temesse por uma época desastrosa. Na segunda jornada do campeonato, o Benfica perde com o Arouca. Quase tudo correu mal até ao jogo em casa com o Sporting. Nesse jogo, apesar do Benfica ter perdido por 3-0, e já com o resultado feito, foram os adeptos a puxar pelos jogadores numa demostranção clara que o futebol não se joga só dentro do campo. Quando se esperava uma séria reprovação pela exibição e resultado, das bancadas veio um coro dizendo "Eu amo o Benfica". 
 
Começa aqui a conquista do campeonato. Depois desse jogo, o Benfica apenas empatou na Madeira e perdeu em casa com o Porto, apesar de ter feito uma das melhores exibições na Liga. Em Alvalade, frente ao eterno rival que até tinha tudo para dar um passo de gigante rumo ao título tão desejado, o Benfica marcou e soube sofrer. Depois desse jogo, as duas equipas ganharam todos os que se seguiram. É notável.
 

O Senhor Rui, acreditou sempre que seria possível. O Senhor Rui fugiu muitas vezes de polémicas, nunca deixando que a sua imagem se desgastasse e deixando que outros assumissem esse papel.

Não acredito muito na sorte quando se fala de futebol, acho sim que há trabalho e competência. Rui Vitória, neste Benfica, nunca se desviou do seu objectivo. Foi já um pouco tarde que a equipa começou a acertar, mas foi bem a tempo. Foi a tempo de fazer uma segunda volta fantástica no campeonato e uma campanha bastante positiva na Europa. Mudavam os jogadores, mas não as ambições. Em cada jogo, era possível perceber a união que havia no grupo e a unanimidade em torno do treinador. Para isso, digo eu, terá também contribuído Jorge Jesus. Desclassificando o seu colega, Jesus fez com que o grupo de trabalho tivesse ainda mais motivação e vontade de conquistar o título.
 
O Senhor Rui, nunca chamou a si os feitos, entregando todo o mérito aos jogadores e aos adeptos. O Senhor Rui percebeu, com humildade, que teria de aproveitar o melhor do seu antecessor. O Senhor Rui, acreditou sempre que seria possível. O Senhor Rui fugiu muitas vezes de polémicas, nunca deixando que a sua imagem se desgastasse e deixando que outros assumissem esse papel. O Senhor Rui reconheceu, e provou, que é uma boa estrutura que faz os campeões e não apenas os treinadores. O Senhor Rui mereceu, e muito, este campeonato.
 
* Jornalista José Lameiras

Encontro com Freud - Crónica XII

Escrito por sexta, 20 maio 2016 08:26
O meu encontro com Freud e a Auto-Estima, “Era uma vez uma coruja, que necessitando deixar temporariamente o ninho e os filhotes para procurar alimento, colocou o problema de que estes pudessem ser comidos pela águia sua vizinha. Em missão de paz, procurou a águia e pediu-lhe que não comesse os seus filhos porque os amava muito e sem eles não poderia viver.
 
A águia perguntou-lhe como os reconheceria entre os outros pássaros, para os poupar, a coruja respondeu:
 
- Não tem dificuldade nenhuma, são os pássaros mais bonitos da floresta, reconhecê-los-ás pela sua beleza e perfeição…
 
A águia comeu os filhotes da coruja, que lhe pareceram aves feias e empenadas”.
 
Esta atitude de sobrevalorização revelou-se fatal para os seus filhos. Passando para os Humanos, a desvalorização sistemática das capacidades e competências das crianças, revela-se como igualmente grave.
 

Por outro lado, nós adultos, pais, professores, educadores e comunidade em geral, não basta sabermos dos sucessos e fracassos das nossas crianças, é preciso manifestar-lhes a nossa alegria pelos sucessos e a nossa convicção de que as dificuldades serão ultrapassadas e a nossa total disponibilidade para colaborar nessa mesma superação.

O papel dos pais ou seus substitutos é determinante na construção da auto-estima das crianças desde a primeira infância. As crianças a quem foram valorizados os primeiros passos, as primeiras autonomias, as primeiras barreiras ultrapassadas, são crianças que nutrem a seu respeito expectativas mais positivas. São crianças que, ao saírem do seu meio social restrito, a família, estão mais apetrechadas para no inicio do seu percurso escolar, continuarem a construir o seu auto-conceito sem sobressaltos.
 
Por um lado, é na comparação com os pares e no contacto com os mesmos que resultará grande parte da imagem de si próprios. Os companheiros de brincadeiras, sucessos e fracassos têm um papel decisivamente regulador da sua posição no contexto social. Por outro lado, nós adultos, pais, professores, educadores e comunidade em geral, não basta sabermos dos sucessos e fracassos das nossas crianças, é preciso manifestar-lhes a nossa alegria pelos sucessos e a nossa convicção de que as dificuldades serão ultrapassadas e a nossa total disponibilidade para colaborar nessa mesma superação.
 
Verbalize, o quanto está contente com comportamentos adequados e ajustados, com resultados escolares positivos e ao mesmo tempo incentive a superação das dificuldades, acreditando de forma genuína com a certeza de que as conseguirão superar.
 
Valorize-se e a criança aprenderá a valorizar-se, valorize a escola e a aprendizagem e a criança, aprenderá a valorizá-la igualmente. Verbalize sentimentos, compreenda o choro como forma de expressar uma frustração ou um qualquer insucesso e a criança aprenderá a expressar o que sente sem sentimentos de culpa e vergonha. O modelo que proponho neste encontro é tão somente para que cada vez mais facilitarmos e produzirmos felicidade e segurança, nas mais diferentes idades. As crianças serão adultos autónomos, com imagem positiva de si mesmos, capazes de incentivar e ao mesmo tempo ultrapassar obstáculos e gerir frustrações.
 
Queremos construir um mundo melhor, comecemos pelas crianças e desde já, o tempo corre e sem pressa mas com tempo, tornemo-nos efectivamente modelos saudáveis e capazes de valorizar e fazer crescer o melhor de cada um para com todos. 

FIAPE: momentos de uma paisagem sazonal

Escrito por sexta, 13 maio 2016 23:07
Ano após ano, há uma paisagem sazonal que faz parte da minha vida. Chamo-lhe sazonal porque dura apenas cinco breves dias e porque regressa sempre. Cinco breves dias que demoram meses a planear. Cinco breves dias que requerem muita entrega por parte de todos aqueles que participam na sua organização e construção. Trata-se de uma paisagem sazonal que me acompanha há muitos anos e da qual me habituei a gostar muito: a FIAPE.
 

Há que reconhecer e enaltecer o trabalho e a persistência de todos aqueles que, há 30 anos, estiveram na origem deste grande projeto para Estremoz. A Câmara Municipal e a ACORE fizeram-no, e muito bem, na cerimónia de inauguração da FIAPE 2016. Nunca é demais valorizar e reconhecer o mérito de quem se esforça por criar a diferença e por procurar formas de potenciar o desenvolvimento da nossa cidade.

Ainda me lembro muito bem das primeiras edições da FIAPE, no Rossio. Claro que não me recordo da 1.ª edição, pois em 1983 Estremoz ainda ficava muito longe para mim... Mas recordo, com alguma saudade, os tempos em que estudei em Estremoz e via o Rossio encher-se de tratores e máquinas agrícolas e eu atravessava aquela imensidão de ferro colorido, no meu caminho para a antiga Rodoviária. Dessa época, também me lembro da exposição pecuária no Pavilhão do atual Mercado Abastecedor, muito graças ao facto de sempre ter pertencido às turmas de Agropecuária na Escola Secundária. Tudo isto há de ter acontecido quando a FIAPE ainda era uma criança, mas a imagem que tenho presente é a de uma feira de grande dimensão e com uma forte componente agrícola. Há que reconhecer e enaltecer o trabalho e a persistência de todos aqueles que, há 30 anos, estiveram na origem deste grande projeto para Estremoz. A Câmara Municipal e a ACORE fizeram-no, e muito bem, na cerimónia de inauguração da FIAPE 2016. Nunca é demais valorizar e reconhecer o mérito de quem se esforça por criar a diferença e por procurar formas de potenciar o desenvolvimento da nossa cidade.
 
Numa fase posterior da minha vida, há cerca de 18 anos, comecei a ver a FIAPE com outros olhos. Deixei de ser apenas espetador e passei a estar do outro lado. Nos primeiros anos, ainda que de uma forma muito subtil, fui-me embrenhando nos meandros da organização e apercebendo da verdadeira dimensão do certame.
 
Durante alguns anos, a FIAPE não conseguiu fazer frente à teimosia dos que insistiam em mantê-la estrangulada, sem hipóteses de evoluir para um modelo mais adaptado às exigências impostas pelo tempo. Continuou no Rossio, a definhar e a acompanhar a crise que se vivia na agricultura portuguesa em finais do século XX. Com ela continuou o modelo das barracas de chapa, dos espaços da Feira de Artesanato sem condições, do pavilhão do gado construído com rede sombreira e o insalubre piso enlameado do Rossio (pois também nesta época chovia sempre). Há quem diga que este modelo é que era bom. Que isto é que trazia mais vida à cidade. A mim, sinceramente, dói-me a alma só de pensar nas condições em que a feira se continuava a fazer, sem qualquer perspetiva de futuro, decaindo ano após ano.
 
Felizmente, alguém teve a coragem de a libertar daquele espaço e de a levar para o local onde hoje se realiza - o Parque de Feiras. Para muitos (se calhar já não são assim tantos), este equipamento sempre foi considerado um "elefante branco", sob o pretexto de que a sua utilização anual é diminuta e não justifica o investimento. Ainda que assim fosse (e eu sei bem que não é assim), para mim bastava que existisse apenas para realizar a FIAPE, porque este certame merece um espaço assim. A nossa cidade, as pessoas que vivem em Estremoz e as pessoas que visitam a feira merecem que a FIAPE se realize num espaço assim.
 
Só com um espaço destes é possível que, passados 30 anos, a FIAPE tenha tido este ano mais de 450 expositores, devidamente acomodados em espaços dignos e com excelentes condições de exposição e venda dos seus produtos. Só neste espaço se conseguem dar mais condições de acolhimento aos mais de 60.000 visitantes que estiveram na FIAPE este ano. Devemos orgulhar-nos pelo facto de Estremoz possuir um recinto com estas características e por este ter as condições necessárias para receber um certame como a FIAPE. Sem a existência deste espaço duvido muito que a FIAPE tivesse crescido o que cresceu e que fosse hoje um dos principais certames económicos da região Alentejo.
 
Como disse, a FIAPE já faz parte de mim. Recordo-me dos três anos em que estive novamente afastado, do lado de lá, do lado do espetador. De como nessa altura foi penoso para mim entrar na FIAPE, numa paisagem que eu tinha ajudado a crescer e que, então, era intocável. Não consigo descrever a impotência que sentia por não poder tocar-lhe.
 
Mas o tempo tudo dá e tudo tira. A mim, deu-me de volta a FIAPE. Mas já não era a mesma FIAPE. Estava agora repleta de marcas estranhas, depois de tocada por mãos que nunca souberam compreender bem a sua verdadeira essência. Os visitantes e os expositores estavam saturados do seu modelo.  Foi preciso um esforço enorme para que retomasse de novo o seu caminho.
 
Acredito que hoje o caminho já foi encontrado e a FIAPE é, sem qualquer sombra de dúvida, um extraordinário evento que anualmente fica na memória de todos aqueles que a vivenciam: organização, trabalhadores, expositores e visitantes.
 

Como disse, a FIAPE já faz parte de mim. Recordo-me dos três anos em que estive novamente afastado, do lado de lá, do lado do espetador. De como nessa altura foi penoso para mim entrar na FIAPE, numa paisagem que eu tinha ajudado a crescer e que, então, era intocável. Não consigo descrever a impotência que sentia por não poder tocar-lhe.

Na minha memória ficarão para sempre os momentos especiais que esta experiência me proporciona: a gratidão que sinto pelo espírito de entrega de todas as pessoas que comigo trabalham na FIAPE e que tudo fazem para que ela brilhe da forma como brilha. O início das montagens. A confiança que os expositores depositam na feira e a forma como são bem tratados e que os faz voltar ano após ano a Estremoz. A constante procura de inovação, que nos faz apresentar sempre algo diferente todos os anos e tentar fazer mais e melhor. A correria para que tudo esteja pronto a horas. A cerimónia de inauguração. O pulsar diário das atividades. Os sons, os cheiros e os sabores da feira. O brilho das luzes dos divertimentos. A ansiedade das dez da noite, à espera que chegue o mar de gente. O mar de gente. O movimento das pessoas na feira. O início dos espetáculos. A cor e o barulho da massa humana a vibrar com os espetáculos. A lotação esgotada. O chegar a casa com a alegria de ter conseguido atingir os objetivos...
 
No fim, fica a triste memória do regresso das carrinhas e dos camiões, que tudo levam dali. O espaço vazio. O caos que se instala devido a algo que já aconteceu e que só irá regressar dali a um ano. A constatação final da efemeridade e da sazonalidade do evento. As dores no corpo que nos fazem recordar os bons momentos. A tristeza por a FIAPE ter terminado tão rapidamente...
 
Não é costume acontecer, mas ao escrever sobre os momentos que a FIAPE me proporciona, já me chegaram as lágrimas aos olhos por mais do que uma vez... Não me importo de chorar pela recordação de bons momentos, principalmente quando sei que, mais dia menos dia, esta paisagem sazonal estará de regresso à minha vida.
 
Arquiteto Paisagista António Serrano
 

Até sempre… nossa gente!!!

Escrito por sexta, 29 abril 2016 13:06
Acho que não sou muito dado a superstições. Para mim uma sexta-feira pode ser treze… o gato pode ser preto e atravessar-se à minha frente… os talheres podem estar cruzados… posso até entrar com o pé esquerdo em qualquer lugar… abrir um guarda-chuva dentro de casa… contar as estrelas até me apetecer… pendurar um quadro e deixá-lo torto… uma ferradura, para mim, não é nenhum amuleto… o trevo de quatro folhas é só um capricho da natureza… se a minha orelha está quente é só porque não está fria… se vestir uma peça de roupa do avesso é só uma chatice porque tenho que a despir e voltar a vesti-la das “direitas”… não encontro problema algum em brindar com bebidas não alcoólicas… para além de mim podem estar mais doze pessoas na mesma mesa sem qualquer receio… nunca parti um espelho mas acredito que não dê sete anos de infortúnio… enquanto solteiro varreram-me os pés e sentei-me inúmeras vezes a um canto da mesa e no entanto casei… já visionei centenas de estrelas cadentes e formulei o mesmo número de desejos, ainda assim, só como mero exemplo, ainda não me saiu o euromilhões… cada vez que comemoro mais um aniversário peço também um desejo e, sinceramente, não sei se algum me foi atendido… contudo, a este respeito, há uma coisa que não consigo fazer, passar por baixo de uma escada. Não me perguntem porquê que nem eu próprio consigo responder. Esta coisa das superstições tem muito que se lhe diga. Quem é que, por exemplo, nunca bateu três vezes na madeira para afastar o azar?
 

...para além de mim podem estar mais doze pessoas na mesma mesa sem qualquer receio… nunca parti um espelho mas acredito que não dê sete anos de infortúnio… enquanto solteiro varreram-me os pés e sentei-me inúmeras vezes a um canto da mesa e no entanto casei…

Na realidade, com o constante progresso que o nosso mundo vai evidenciando, é surpreendentemente estranho que, nas sociedades desenvolvidas dos dias de hoje, se continuem a valorizar as crendices e as superstições. Muitos não concordarão comigo, mas o que é certo é que elas existem e até mesmo nos países mais desenvolvidos.
 
No mundo do futebol as superstições, as rezas, as crenças são mais que muitas e a esse respeito, na ordem do dia, há até um jogador do Arsenal de Londres, chamado Aaron Ramsey, que dizem carregar consigo uma maldição, o que acontece é que cada vez que o mesmo marca um golo, há uma dita celebridade que morre. Obviamente que para mim são meras coincidências, no entanto como as pessoas ouvem isto repetidamente nos órgãos de comunicação social começam a partilhar da coincidência e a acreditar que tal pode ser verdadeiro.
 
Mesmo sem partilhar dessas crenças ou superstições, que são por vezes exacerbadas, tenho que reconhecer que, para já, este ano de 2016 tem sido surpreendentemente fértil em acontecimentos trágicos para o mundo do “show business”, sendo por esse facto motivo de análise em tudo quanto é sítio. Deste modo, dada a actualidade do assunto, pode ser interessante escalpelizar um pouco o sentimento que nos assola quando vemos partir do nosso dia-a-dia personagens, intérpretes, sítios ou sons que mais não são do que pessoas como nós, por vezes endeusados é certo, mas simples mortais que fizeram e fazem parte do nosso passado, do nosso presente e até do nosso futuro através de uma coisa tão fantástica que é a memória de cada um de nós. No fundo essas pessoas são parte das nossas vidas, temo-las quase como fazendo parte das nossas próprias famílias e também sofremos com a sua ausência física, chegamos mesmo a ficar chocados com o seu desaparecimento. Na verdade, nem sequer os conhecemos pessoalmente e ainda que só os conheçamos unicamente através de uma pequena caixa mágica, o tal ecrã de televisão ou o monitor do computador, parece-nos irreal que tal individualidade tenha a ousadia de desaparecer assim sem mais nem menos.
 
Este ano tem sido pródigo em desaparecimentos de gente da “família”. Todos os anos acontece, é verdade. Sempre irá acontecer, é um facto. Contudo, para a minha geração, tudo se torna um pouco mais inquietante, se assim lhe posso chamar. Ver partir referências da música, da representação, da arte, do humor, da cultura, faz com que nos apercebamos ainda mais que “todos somos pó” e que uma simples brisa nos pode levar para longe, num ápice. Na realidade todos somos iguais, não há ricos nem pobres, altos nem baixos, pretos ou brancos, muçulmanos ou católicos, ainda mais quando o que mais certo temos é mesmo a morte, e essa, calha a todos. Aí não há discriminações de qualquer género.
   
Para mim não existem celebridades ou famosos, para mim existem indivíduos que se evidenciam um pouco mais do que os outros na sua actividade profissional e com as quais as pessoas se vão identificando, quer seja pela forma como agem, como falam, como cantam, como vivem, como representam, como escrevem, como desenham. De alguma forma, houve algo nessas pessoas que despertou emoções, sentimentos… uma letra de uma canção sentida num momento especial (quem não tem uma música que considera a sua?)… um livro que descreveu de uma forma de tal maneira real determinada situação que nos fez entrar nele e fazer de nós próprios a personagem principal…  um simples conjunto de traços que formaram um desenho que nos fez soltar um “Uau!!” … um filme que nos levou às lágrimas e nos fez suspirar por determinada atriz (ou actor)… uma peça de teatro que também nos levou às lágrimas mas de tanto rirmos… uma jogada de génio de um futebolista, basquetebolista ou jogador de ténis… uma dança de tal forma harmoniosa que nos fez levitar como uma pena ao vento… uma voz de arrepiar numa simples emissão de rádio.
  

Superstições à parte, e mesmo sendo um ano bissexto, 2016 está a ser difícil, e difícil pelo partir das tais referências. Ainda assim, essas mesmas referências, deixam um legado que faz com que se tornem imortais, nem que seja nas nossas próprias memórias.

Nos nossos dias são principalmente as redes sociais que fazem com que o luto sentido com o desaparecimento de uma dessas pessoas, que denominam de “famosos”, seja ainda mais intenso e prolongado no tempo. Proliferam os comentários, os “posts” de vídeos, as imagens com os rostos com pequenas frases associadas aos indivíduos, tudo isso se revela um motivo para o homenagear e assim prolongar no tempo a memória do mesmo.
 
Quando num acidente de viação no tão propalado “Tunnel de l’Alma” em Paris faleceu a princesa Diana de Gales, o mundo ficou em estado de choque, não só por ser a pessoa mais fotografada por “paparazzis” em todo o mundo, mas por ser uma pessoa boa de quem toda a gente gostava e dotada da humildade que normalmente a sobranceira realeza não tem.
 
Superstições à parte, e mesmo sendo um ano bissexto, 2016 está a ser difícil, e difícil pelo partir das tais referências. Ainda assim, essas mesmas referências, deixam um legado que faz com que se tornem imortais, nem que seja nas nossas próprias memórias. Em Portugal José Boavida, Nicolau Breyner e Francisco Nicholson deixaram o sorriso, a simpatia e os ensinamentos a muitos realizadores e escritores, actores e actrizes em ascensão… Nuno Teotónio Pereira deixou o nosso país mais rico pela sua arquitectura… O mundo ficou melhor com o legado musical deixado pelo camaleónico David Bowie e pelo multi-instrumentista Prince… beneficiou com o brilhantismo de Johan Cruijff no futebol, com a voz e a extraordinária representação de Alan Rickman no teatro e no cinema e com o fantástico discorrer de palavras do notável Umberto Eco.
 
E porque esta gente merece e todos somos gente… até sempre, nossa gente!!!
 
* Professor Luís Parente

Encontro com Freud - Crónica XI

Escrito por quinta, 21 abril 2016 17:24
Encontrei-me com Freud, para reflectir sobre o envelhecimento, o que é isto de envelhecer? Da idade nos trazer obrigatoriamente, mais experiência, mais conhecimento, mais tolerância, menos preconceitos, mais maturidade, menos saúde e mais dependência… Ou não. Se imaginarmos o nosso organismo e a nossa mente, enquanto máquina, compreenderemos facilmente que a forma como a desgastamos ao longo da vida, influencia o envelhecimento da mesma. No entanto, e no que à minha área diz respeito, o envelhecimento como processo natural também está dependente da forma como ao longo da vida, e até ao dia de hoje, nós expressámos emoções, aprendemos e apreendemos dos outros o melhor de todos, como tolerámos atitudes, crenças, culturas e gostos diferentes dos nossos, como gerimos conflitos nos vários contextos em que nos movemos. Por outro lado, como lidámos com as perdas, separações, mortes, entre tantas outras. O que escolhemos, para nós mesmos? Foi efectivamente o que decidimos naquele momento ou fomos pressionados por vontades alheias as quais não quisemos ou não conseguimos contrariar? O tempo passa, olhamos para trás e tendemos a ver o que não conseguimos, o que perdemos, o que não fizemos bem, então pergunto, e o que alcancei mesmo quando achei que já não tinha forças, e o que ganhei quando achei que já não haveria nada para mim, e o que perdoei quando num reencontro sorri e me deixei ficar?
 

E pode ser uma eternidade, porque a tolerância torna-nos mais leves, o respeito torna-nos mais humanos, o amor torna-nos mais livres e a compreensão torna-nos mais sábios.

Somos filhos de um tempo, num tempo que é de todos, onde bebemos das fontes mais diversas e únicas, porque também elas são filhas de um tempo, num tempo que foi de todos. Então, “eu não sou do tempo”, não, eu recuso-me a ser de um tempo, como algo estático, que não avança, que não progride, que não evolui, que não aprende, que não se adapta, que não escuta, que não vê, que não ouve, recuso … o meu tempo é hoje, o meu lugar é este ou outro qualquer porque estarei sempre a tempo de, enquanto viver, fazer do tempo um lugar qualquer. Beber das mesmas fontes e de outras fontes quaisquer, aprender no tempo o que ainda não sei, receber do tempo o que ainda não tive, tolerar e aceitar com tempo o que é diferente de mim, acarinhar e guardar todo o tempo que estiveres aqui.
 
E pode ser uma eternidade, porque a tolerância torna-nos mais leves, o respeito torna-nos mais humanos, o amor torna-nos mais livres e a compreensão torna-nos mais sábios.
 
* Psicóloga Helena Chouriço
 

A paisagem e as escolhas

Escrito por sexta, 15 abril 2016 01:10
Tudo muda devido às escolhas que fazemos. Tanto a nossa vida pessoal e profissional, como a vida dos outros que se atravessam nas nossas escolhas. Da mesma forma, também todos nós mudamos, quando fazemos parte das escolhas dos outros ou simplesmente quando também nos atravessamos nos seus caminhos.
 
Apenas não escolhemos nascer. No entanto, essa dádiva também resulta de uma escolha que os nossos pais fizeram: perpetuar, através de outra vida, o seu material genético.
 
Escolhemos os amigos, quem queremos amar, nalguns casos com quem queremos casar, se queremos ou não ter filhos, também nalguns casos naquilo em que queremos trabalhar, onde, quando e com quem queremos ir... Bem ou mal, a nossa vida é feita de um número infinito de opções, muitas delas tomadas sem que sequer nos apercebamos que estamos a escolher.
 
O que temos certo é que as escolhas terão sempre consequências. Por isso, precisamos de refletir nas escolhas que fazemos, pois certamente elas mudarão para sempre as nossas vidas e, eventualmente, a vidas de muitas outras pessoas. E é preciso que estejamos conscientes de que não há possibilidade de voltar atrás, por muito que nalguns casos se tentem remediar ou mitigar os efeitos das nossas decisões.
 
Uma vez que a paisagem resulta da ação humana, também ela evolui em função das escolhas que o Homem faz, em determinado tempo e espaço. Quando intervenho na paisagem, seja à escala do território seja à escala de um pequeno jardim, tenho à minha disposição um conjunto de opções que irão determinar a configuração, a imagem, desse espaço de intervenção. Se optar por não introduzir um elemento de água num jardim, a minha escolha determinará mais aridez e menos frescura. Se, pelo contrário, optar por criar um plano de água estática, o espaço e quem o vive nunca poderão experimentar as ambiências e sonoridades da água em movimento. Se decidir utilizar pavimentos em calçada de mármore, a imagem será naturalmente diferente daquela que se obtém ao construir uma calçada em granito. Se optar por introduzir árvores de folha perene num parque, a sua sombra será deliciosa no verão, mas de nada servirá durante os frios dias de inverno. Se, num determinado plano de ordenamento do território, escolher uma determinada localização para a passagem de uma via rodoviária, para a instalação de um equipamento público, uma zona industrial ou qualquer outra infraestrutura, estou ciente de que as mesmas terão sempre impactos positivos e negativos na paisagem, independentemente das suas eventuais mais valias económicas, sociais ou ambientais. 
 
Muitas vezes escolhemos por uma questão de gosto pessoal, mas não menos vezes somos obrigados a optar em função do gosto dos outros. É muito frequente em arquitetura paisagista, quando nos encomendam um determinado projeto, mas também é assim em inúmeras outras situações do nosso dia-a-dia e muito especialmente quando se tratam de escolhas políticas. 
 

Todos temos um papel a desempenhar na paisagem, com maior ou menor importância e intervenção, com mais ou menos possibilidades ou oportunidades, mas igualmente importante e necessário para que ela funcione. As escolhas que fizermos determinarão se a paisagem funciona melhor ou pior. Mas não nos iludamos: seja qual for o papel que desempenhemos na paisagem, ela continuará a existir sem a nossa presença.

É neste campo da política que mais frequentemente as escolhas são alvo de opiniões contraditórias. É perfeitamente legítimo ter opinião contrária, mas também é legítimo que os outros possam escolher de forma diferente. O que acontece quase sempre é que, por muito boas que certas escolhas sejam, ou nos pareçam ser, não são as que os outros fariam e, por isso, opomo-nos a elas. Por que se vendeu, por que se comprou, por que se construiu, por que se isentou ou não, por que se optou por esta ou por aquela estratégia... Temos que ter noção de que estas escolhas, sejam elas quais forem, foram eventualmente objeto de estudo, de planeamento e de análise aprofundada acerca dos prós, dos contras e das consequências. É o processo natural de quem tem que tomar decisões políticas, todas elas legitimadas por uma escolha anterior - a das pessoas que deram, através do voto, a sua confiança a quem tem que tomar estas opções políticas. Seria muito bom que todos escolhêssemos respeitar essas opções, por mais que não concordemos com elas.
 
Assim, e devido à relação que as nossas escolhas têm com as dos outros, parece-me que tão importante como escolher é saber respeitar as escolhas que os outros fazem. Digo isto com a consciência de que, muitas vezes, não o faço. Faz parte da natureza humana ser assim e eu sou humano. Mas esforço-me todos os dias por tentar entender as escolhas dos outros e é por isso que, na maior parte das vezes, não critico, não me oponho, não me importo com elas. É, também, uma escolha que faço.
 
Outras vezes, porém, escolho ter voz ativa, interferir, participar, dar a minha opinião sobre determinadas escolhas. Não me podem censurar por isso. É também uma escolha que faço e saberei viver com as consequências que daí advém. Faço-o porque, desde muito cedo, escolhi fazer parte da solução e não do problema. 
 
As nossas escolhas farão parte da nossa história e deixarão sempre marcas na paisagem, de forma mais ou menos vincada, em função da dimensão da nossa atuação na vida pessoal e em comunidade. Todos temos um papel a desempenhar na paisagem, com maior ou menor importância e intervenção, com mais ou menos possibilidades ou oportunidades, mas igualmente importante e necessário para que ela funcione. As escolhas que fizermos determinarão se a paisagem funciona melhor ou pior. Mas não nos iludamos: seja qual for o papel que desempenhemos na paisagem, ela continuará a existir sem a nossa presença. Tal como escreveu José Saramago, na epígrafe de "A Viagem do Elefante", "sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam". É o que temos mais certo e, tal como nascer, não depende da nossa escolha.
 
Se estivermos conscientes disso, de certeza que daremos mais atenção às nossas escolhas e que conseguiremos respeitar as escolhas que os outros fazem. A vida é curta demais para que a vivamos sempre mais preocupados a questionar as opções alheias.
 
* Arquiteto Paisagista António Serrano
 

As Voltas que dou ao Rossio

Escrito por quarta, 13 abril 2016 01:41

Conversar é sempre uma boa alternativa. Num mundo em que estamos cada vez mais isolados, apesar de estarmos ligados de mil e uma maneiras, o simples acto de conversar é gratificante. No À Volta do Rossio, programa que conduzo há três anos na Rádio Despertar e onde tive a responsabilidade de substituir o José Gonçalez, tenho essa possibilidade. Tenho a possibilidade de convidar alguém e conversarmos, aparentemente sozinhos, mas muito bem acompanhados.

O acto de, simplesmente, conversar, é hoje uma coisa rara e este programa permite isso mesmo. Permite que se conheça quem por vezes estã tão próximo de nós mas que conhecemos mal. Permite dar a conhecer alguém que, simplesmente, é bom no que faz e pode servir de exemplo para tantos outros.

Este programa tem sido, também, uma excelente oportunidade de perceber o trabalho e a carreira de muita gente. Tenho percebido que há muito talento, trabalho...e pouca sorte. A sorte dá muito trabalho e em cada convidado entendo isso. A sorte procura-se e é uma mistura de talento, oportunidade e trabalho. Tenho conhecido homens e mulheres que são bons naquilo que fazem. Tenho conhecido jovens, por exemplo de Estremoz, que estão a dar cartas na área em que sonharam trabalhar. Grande parte deles, são bons exemplos e admirados pelos mais próximos. 
 
Nas voltas que dou ao Rossio, também cresço. Aprendo bastante e divirto-me. Tiro, acreditem, bastante partido destas conversas. Aprendo porque saio de cada conversa a saber mais. Divirto-me, porque tenho muitas vezes a oportunidade de entrevistar amigos pessoais e estar com os amigos é sempre divertido. Também, na maior parte das vezes, fico a admirar ainda mais a pessoa que convidei para conversar. Lembro-me, por exemplo, de ver a emoção nos olhos de muitos deles. Lembro-me do Sr. Humberto Frade a recordar, com lágrimas nos olhos, os tempos de jogador de futebol em Angola. Registo, com muito agrado e orgulho, a presença no programa de antigos colegas de escola. É bom sinal. Com colegas de profissão, que tenho também trazido ao programa, tenho aprendido bastante. Com empresários de sucesso, tenho percebido o porquê desse mesmo sucesso. Temos conhecido também o outro lado de políticos. Com músicos, ouvimos música, conversamos e percebemos o caminho da cada um. Com professores, voltamos a aprender e recordamos os tempos de estudante. Com amigos, por vezes esquecemo-nos que estamos na rádio. 
 
Há três anos atrás, quando comecei a dar estas voltas ao Rossio, não tinha noção do que iria ter para frente. Numa época tão marcada pelo isolamento em redor das novas tecnologias, a rádio permite que apenas se converse. Parece pouco, mas não é. O acto de, simplesmente, conversar, é hoje uma coisa rara e este programa permite isso mesmo. Permite que se conheça quem por vezes estã tão próximo de nós mas que conhecemos mal. Permite dar a conhecer alguém que, simplesmente, é bom no que faz e pode servir de exemplo para tantos outros. É um programa feito pelos convidados e para os ouvintes. A rádio, felizmente, permite essa relação única.
 
*Jornalista José Lameiras
 

"Hoje vou ser... Cronista!"

Escrito por terça, 05 abril 2016 19:41
No passado dia 21 de Março, assinalou-se o Dia Mundial Contra a Discriminação, e no âmbito do projecto de férias “Hoje Vou Ser”, fomos “comentadores”. Com o José Lameiras, na Rádio Despertar - Voz de Estremoz, debatemos o tema da discriminação, moderado pela coordenadora do nosso ATL, a Dra. Lena Chouriço.
 
Através de uma outra parceria com o “Ardina do Alentejo” passamos agora também a ser “Cronistas”, ou seja, juntámos as nossas ideias sobre o tema e o resultado do nosso debate, que aqui deixamos a todos os leitores.
 
Os comentadores e cronistas são Maria Inês Lopes, Marta Carujo, Daniel Balejo, Luís Parreira, João Pirra e Daniela Rodrigues, todos com idades compreendidas entre os 10 e os 16 anos.
 
Relativamente ao tema, o conceito para nós de Discriminação é uma certa pessoa discriminar outra, por ser de uma etnia diferente ou pela sua maneira de ser. Por exemplo, quando mudamos de escola, devemos fazer amigos. Já vimos amigos da nossa escola serem maltratados, do tipo “gozar”. Uma das formas para resolver isto é falar com um adulto, cara a cara, sem violência.
 
Nós não concordamos que as pessoas devam discriminar as outras por vestirem roupas de marca, ou por calçarem ténis sem qualidade, porque isso não tem nada a ver, porque não é só fisicamente que nós vamos descrever as pessoas, porque o que importa é o que somos. Há escolas que defendem o uso de uma farda, mas nós achamos que não é por aí, vai sempre haver preconceito. Mas temos de arranjar forma de o combater, é difícil mas alguém tem de começar. Tipo, não há pessoas iguais, cada um faz o que quer e o que gosta, dependendo da personalidade da pessoa.
 
Uma pessoa quando é discriminada sente-se triste, sozinha, magoada e deixa marcas. Nunca vai esquecer aquilo que lhe fizeram e vai sempre lembrar-se disso. As pessoas que não dizem, nós pensamos que é por vergonha e por medo e choram, mas chorar  alivia. O nosso dever é proteger.
 
As duas pessoas têm um problema. A que discrimina, porque isso é mau, e a que se cala, porque devemos expressar o que sentimos.
 
Tem de haver coragem para denunciar essas situações, falando com os Professores, fazendo participações. Fora da escola temos a polícia.
 
Nós podemos dar o exemplo, não discriminando ninguém. Sem amigos ninguém sobrevive.
 

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