sábado, 16 dezembro 2017

Património, valor e salvaguarda

Escrito por sexta, 08 julho 2016 14:52
Património… Termo frequentemente utilizado para designar algo que é herança dos nossos antepassados. Móvel ou imóvel, material ou imaterial, natural ou cultural, muitas são as tipologias de património presentes na paisagem e com as quais nos deparamos todos os dias.
 
Não é preciso percorrermos uma grande distância para experienciarmos uma viagem pelas múltiplas formas de património. Comecemos pelo património que nos define e diferencia dos demais – o nosso património hereditário. De seguida, olhemos para os nossos pertences – a casa, os móveis, os elementos decorativos, os utilitários, o jardim e a sua vegetação, o carro, a bicicleta, os patins e a bola de futebol… e finalmente, deliciemo-nos com a imensidão do património que é comum e propriedade de todos aqueles que já o viveram, daqueles que agora o vivem e dos muitos que ainda o viverão depois de nós – a paisagem e os seus elementos naturais e construídos. 
 
A maior parte das pessoas apenas entende como património aquilo que, à partida, tem um valor especial, tendo em conta um determinado número de critérios definidos por alguém que não conhecemos. Muitas vezes, confundimos património com “monumento” e nem sequer nos questionamos se realmente há razões para atribuir a qualquer bem esse valor especial. Deixamo-nos levar por pré-conceitos e deslumbramo-nos com o alegado valor atribuído pelos outros, o que, naturalmente, não significa que o valor não exista. Contudo, a apreciação desse valor é subjetiva, dependente da sensibilidade e das vivências individuais, razão pela qual é imperativo que olhemos sempre para todas as manifestações de património com uma atitude crítica em relação ao seu valor. 
 

Na minha opinião, mais importante do que a venda do edifício ou do que as vozes, sempre contrárias, que se levantam, é o facto de que finalmente este património, com mais ou menos valor, será reabilitado, devidamente valorizado e, respeitando também um pouco da sua memória, terá uma utilidade no presente e contribuirá para garantir algo para o futuro da cidade e das suas gentes.

É assim que olho para o património. Nas minhas viagens tento sempre conhecer mais para além daquilo que vem nos guias e que é normal todos conhecerem, procurando outras formas de interagir com o património, seja ele de que tipo for. Por exemplo, de que me serviria ter visitado a Basílica de São Pedro, se não tivesse tido também a oportunidade de espreitar a sua cúpula a partir de um buraco de fechadura no Aventino? Banal, dirão alguns, despropositado, dirão outros. Andar alguns quilómetros só para isso? No entanto, se assim não tivesse acontecido, a minha experiência pessoal com a Basílica teria sido muito semelhante à de milhões de outras pessoas. É inegável o valor patrimonial per si da Basílica de São Pedro, mas o valor que lhe atribuo é ainda maior graças àquela minha simples vivência de espreitar e vê-la, ao longe, pelo buraco de uma fechadura...
 
Se víssemos mais vezes aquilo que nos rodeia, ao invés de apenas olharmos, talvez não nos deslumbrássemos tão facilmente com aquilo que foi definido como valor patrimonial pelos outros. Damos facilmente valor ao Património Mundial e a outros tipos de património classificado, esquecendo ou não dando importância ao nosso património - aquele que pode não ter valor para a humanidade, mas que certamente se reveste de uma enorme importância nas nossas vidas diárias.
 
É certo que a classificação do património é importante, mas não o deve ser apenas por uma questão de valorização, devendo sê-lo principalmente pela sua salvaguarda. Contudo, muitas vezes a classificação de bens é feita pura e simplesmente para lhes aumentar valor e, não menos vezes, para alimentar o ego de quem promove o processo de classificação. 
 
A classificação de um bem na categoria de Património Mundial, na grande maioria dos casos, nada tem a ver com a necessidade da sua salvaguarda para a humanidade e para as gerações vindouras, mas sim com a intenção de satisfazer uma necessidade presente de exaltação do seu valor perante os outros, motivada pela procura de daí retirar dividendos económicos, à custa do turismo. 
 
Não sou contra que se explore o património através do turismo. Pelo contrário, acredito que o turismo, quando planeado e estrategicamente estruturado, é um fator de desenvolvimento sustentado de uma região. No entanto, desenvolvimento sustentado significa conjugar eficazmente três vetores: social, económico e ambiental. No caso do desenvolvimento sustentado do turismo associado ao património, significa olhar para todos os tipos de património e fazer interagir todas as suas potencialidades, conferindo-lhe mais valor e, ao mesmo tempo, salvaguardando a sua utilização no futuro. Para além disso, é fazer com que o valor possa ser visto a partir de diferentes perspetivas e não apenas da mais óbvia, igual a tantas outras e que não marca pela diferença ou pela inovação.
 
Sobre este propósito, reparei que circula pela Internet uma petição contra a venda da Antiga Casa do Alcaide-Mor de Estremoz, vulgarmente e erradamente conhecida como Antiga Casa da Câmara. Trata-se de um imóvel situado na Rua do Arco de Santarém, e que foi, também por erro, classificado como Monumento Nacional. Hoje é uma ruína em pleno núcleo medieval da cidade, ameaçando a segurança de pessoas e bens, mas sobretudo atentando contra a boa imagem da acrópole estremocense.
 

Além disso, salvaguardar património é também dar-lhe um uso adequado às exigências dos tempos que correm. A paisagem e o património evoluem. Não podemos viver apenas agarrados às memórias. Neste caso e em muitos outros, o passado é como uma roupa que já não nos serve.

Não me interessa discutir de quem é a culpa do estado de degradação a que o edifício chegou, até porque já alguém o fez recentemente e, em minha opinião, muito bem. O que interessa é que, em boa hora, a Câmara Municipal decidiu vendê-la, com a condição de que a sua utilização futura apenas poderia ser afetada à atividade turística. Aplaudo esta decisão, pois parece-me a mais adequada para o caso do património em questão. Há muito que se perdeu o seu eventual valor, a classificação como Monumento Nacional nunca lhe adiantou muito e não vai deixar de existir, a Câmara livrou-se de mais um problema no centro histórico, a recuperação e utilização por privados criará dinâmicas sociais e económicas (mais empregos e receitas turísticas), criar-se-á mais um estabelecimento hoteleiro (que tanta falta faz a Estremoz) e, principalmente, não terão que ser todos os contribuintes a pagar por isso.
 
Embora aceite a existência de outras possibilidades para o edifício, em minha opinião a que é apontada pelos subscritores da petição nada acrescenta de novo a Estremoz. É mais do mesmo. Outro espaço museológico, desta feita sobre a história medieval da cidade, mas cuja recuperação e construção teriam de ser pagas por dinheiros públicos, bem como a sua manutenção futura.
 
Além disso, salvaguardar património é também dar-lhe um uso adequado às exigências dos tempos que correm. A paisagem e o património evoluem. Não podemos viver apenas agarrados às memórias. Neste caso e em muitos outros, o passado é como uma roupa que já não nos serve.
 
Na minha opinião, mais importante do que a venda do edifício ou do que as vozes, sempre contrárias, que se levantam, é o facto de que finalmente este património, com mais ou menos valor, será reabilitado, devidamente valorizado e, respeitando também um pouco da sua memória, terá uma utilidade no presente e contribuirá para garantir algo para o futuro da cidade e das suas gentes.
 
* Arquitecto-Paisagista António Serrano

Acreditar, Sempre - Parte II

Escrito por sábado, 02 julho 2016 01:04
Escrevo estas linhas poucos momentos depois do penalti marcado por Quaresma. Festejei bastante. Não concordo que este tipo de desempates se trate de "uma lotaria", pois acho que aqui continua a mandar a competência e a concentração. Portugal foi melhor durante o jogo e foi também melhor nos penaltis. É bom não esquecer que a Polónia não tinha falhado nenhum penalti com a Suiça. Desta vez, Rui Patrício defendeu, e bem, um dos lances e os marcadores "só" tiveram de fazer o seu papel. A forma como marcámos as grandes penalidades, confirma que é preciso competência e não apenas sorte. O jogador polaco que não conseguiu marcar, não o fez porque o Patrício fez uma grande defesa. 
 

Soube-se depois, que quando Fernando Santos perguntou quem queria marcar, Ronaldo disse que marcava o primeiro e Renato disse logo que marcava o segundo.  Será maturidade... ou irreverência? Não sei, mas sei que há muito qualidade.

Quem comigo estava a ver o jogo, pode confirmar o que eu disse quando vi Renato Sanches encaminhar-se para marcar. Não concordei com a escolha pois já tinha visto este filme muitas vezes... Depois o miúdo que o Bayern veio buscar à Luz não tremeu e marcou. Soube-se depois, que quando Fernando Santos perguntou quem queria marcar, Ronaldo disse que marcava o primeiro e Renato disse logo que marcava o segundo.  Será maturidade... ou irreverência? Não sei, mas sei que há muito qualidade. 
 
Portugal ainda não ganhou nenhum jogo nos 90 minutos... mas também ainda não perdeu. Não temos o volume de ataque que esperava, nem lá perto, mas temos muita união. Temos um Ronaldo a fazer um Europeu de muito sacrifício e em prol do colectivo, jogando fora da sua posição habitual. Temos um Pepe a mostrar que é mesmo um dos melhores centrais do mundo. Temos um Quaresma com estatuto de temível arma secreta. Temos um Nani que até cansa de ver correr e ajudar a defender e, claro, temos Renato Sanches que mostra que o futebol afinal é muito mais fácil de jogar e menos complicado do que se pensa. William, João Mário e Adrien, têm feito muito bem o seu papel. De um modo geral, apesar de por vezes não termos jogado bem, os jogadores têm corrido e merecido a confiança. Estão com o treinador e isso, acredito, é mais de meio caminho andado.
 
Fernando Santos disse que queria ser campeão. É legítimo, como escrevi no texto anterior. Portugal vai estar pela quinta vez na meia-final de um Europeu e até já esteve na final. Fazer melhor, só ganhando. Por cá, só temos de acreditar, sempre!

Acreditar, Sempre!

Escrito por sexta, 03 junho 2016 01:50
Nós, portugueses, parece que por vezes temos dificuldade em valorizar-nos. Há, de um modo geral, um sentimento generalizado de que os outros são sempre melhores e fazem tudo melhor que nós. Temos dificuldade em elogiar o que temos, ou o que somos, e a qualquer momento um português solta a célebre frase: "Se fosse lá fora era diferente".

Trago este assunto depois de ouvir Fernando Santos dizer que queria ser Campeão da Europa. "Queremos chegar à final e queremos ganhá-la!" É simples não é? Portugal será, teoricamente, candidato a ganhar o Europeu? Eu acho que não, mas não ficava muito surpreendido se tal acontecesse. É arriscada esta declaração de Fernando Santos? Talvez até seja. É descabida? Claro que não. Não é descabida porque Portugal tem seleção para se bater com qualquer uma. Não estou a dizer que temos uma seleção melhor que esta ou que aquela, penso sim que temos plantel e treinador para nos batermos com qualquer outra e lutar pela vitória em todos os jogos. 
 
Fernando Santos é um treinador experiente e sabe o que são fases finais de grandes competições. Sabe que os estatutos não ganham jogos nem torneios. Ter "estrelas", e Portugal até tem uma das mais brilhantes, não significa que se ganhem jogos. Estas fases finais são pródigas em surpresas e outsiders que depois se tornam casos muito sérios. Quem são os favoritos? Os mesmos de sempre. Portugal, e bem, já disse que quer vencer a competição. 
 

Foi, curiosamente, um estrangeiro que nos motivou a "pintarmos" as nossas janelas com bandeiras da seleção. Lembram-se? Pois. Foi Scolari, que até é brasileiro, que fez com que os portugueses olhassem finalmente para a sua seleção com olhos de quem tem orgulho e acredita.

O Euro 2004, há 12 anos atrás, foi um bom exemplo da nossa capacidade. Aqui, digo eu, capacidade até demais pois fizeram-se estádios que hoje não servem para nada. No entanto, olhando para a parte positiva, passámos com distinção neste teste e demos uma lição a quem não quis fazer connosco uma candidatura conjunta. Demos inúmeros exemplos de fair-play, recebendo de braços abertos todos os que nos visitaram. No campo, também empurrados pelo público, chegámos à final e podíamos mesmo ter ganho. Foi por muito pouco e isso só prova que o Selecionador tem razão. Já lá estivemos e só faltou mesmo ganhar. 
 
Ainda olhando para esse tempo, é bom lembrar quem nos fez gostar mais de nós. Foi, curiosamente, um estrangeiro que nos motivou a "pintarmos" as nossas janelas com bandeiras da seleção. Lembram-se? Pois. Foi Scolari, que até é brasileiro, que fez com que os portugueses olhassem finalmente para a sua seleção com olhos de quem tem orgulho e acredita. Até aí, eram todos bons menos os nossos. Ainda hoje, infelizmente, há quem assim pense. Eu próprio, por vezes dou por mim a "resmungar" com a falta de qualidade do futebol que vejo praticar a nossa seleção. No entanto, chegando estas fases finais, faço por acreditar e perceber que não são só os outros que são bons. Nós também somos.
 
Já não é altura de discutir opções ou a falta deste ou daquele. Agora, começando o Europeu, é altura de fazer com que os 11 que estão no campo sintam o apoio dos 11 milhões. Aqui, podemos também tirar uma lição para a vida. Acreditar sempre. As grandes batalhas, são sempre para os melhores soldados. Que a bola comece a rolar...e que Portugal seja Campeão. 
 
* Jornalista José Lameiras

Um dia todos seremos velhos

Escrito por sexta, 27 maio 2016 15:48
Há dias, ao ver na SIC o programa “E se Fosse Consigo?” sobre os maus tratos a idosos fiquei estupefacto, revoltado mas também desiludido com as atrocidades inimagináveis que são perpetradas contra os idosos. Não que não soubesse que elas existem, porque sei, mas senti-me de tal forma desiludido com a regressão da espécie humana. Sim porque neste sentido tem havido um claro retrocesso e, Deus queira que não cheguemos aos tempos da Grécia Antiga em que a velhice era pouco valorizada ou mesmo a determinada altura da “Época Romana” em que essa mesma velhice era mesmo rejeitada. Estou em crer que isso não voltará a acontecer, pelo menos enquanto acreditar que a esperança existe.
 
O tipo de vida que se vive nos nossos dias em que tudo “é para ontem”, onde se valoriza mais a economia do que a vida humana, onde não há tempo para parar e reflectir porque o tempo corre incessantemente atrás do próprio tempo, é um tipo de vida que permite ao mundo ver atrocidades tais que envergonham qualquer ser humano que possua um espírito de comprometimento com os valores da humanidade, da solidariedade, da amizade, da compaixão, da cumplicidade, do reconhecimento.
 

Há dias, ao ver na SIC o programa “E se Fosse Consigo?” sobre os maus tratos a idosos fiquei estupefacto, revoltado mas também desiludido com as atrocidades inimagináveis que são perpetradas contra os idosos.

Depois de ver aquele programa fui, por curiosidade, ao site da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) e aí descobri que em Portugal todas as semanas, em média, cerca de 20 idosos são vítimas de violência. Segundo a APAV a idade média dos idosos vítimas de maus tratos ronda os 75 anos e a grande maioria dos casos são do sexo feminino. Observei ainda que estas médias são muito superiores quando comparadas com outros países da União Europeia. Descobri que a maioria das agressões são feitas por familiares e que existem vários tipos violência contra idosos, desde logo a violência física, a psicológica, a sexual, de índole financeira, a negligência ou a violação dos seus direitos.  Todos estes tipos de violência estão bem expressos e explicados no já mencionado site da APAV, ainda assim, a estes, eu acrescentaria, só mesmo para reforçar o que pretendo, e mesmo estando já implícita nos outros, a violência contra os valores morais. Quando vejo os números da APAV questiono-me de imediato: E os outros velhotes? Aqueles que por um qualquer tipo de receio não se conseguem libertar da teia de pressão em que vivem? Aqueles que sofrem repetidamente abusos em casa ou em contextos institucionais? Aqueles que são explorados e extorquidos pelos seus próximos, sejam eles familiares, vizinhos, “amigos” ou cuidadores? Aqueles que sofrem de doenças, sejam elas incapacitantes fisicamente ou não? Aqueles a quem a medicação ministrada serve também para os prostrar? Tenho a certeza que se todos os casos fossem contabilizados estaríamos aqui a falar de números absolutamente abismais. 
 
Sobre esta problemática há uma outra coisa que me aflige ainda mais, a cumplicidade dos silêncios, o virar de costas, a inércia dos que vêem e fingem não ver. Este é um problema social e há que assumi-lo como tal. Há que aumentar e desenvolver mecanismos e estratégias de protecção da pessoa idosa de forma a evitar os abusos de que diariamente ouvimos relatos em tudo o que é comunicação social. Sinceramente não faço ideia de como se poderão desenvolver esses mecanismos mas já que temos tantas mentes brilhantes no nosso país, talvez seja a altura de os pôr a agir e não só a pensar e a mandar uns “bitaites” ou então começar a direccionar o seu próprio pensamento para aquilo que realmente tem importância… as pessoas, e neste caso particular as pessoas idosas. 
 
Na minha opinião não sei se será eficaz unicamente a aplicação de medidas legais de punição dos infractores/agressores ou somente fazendo alterações da própria legislação nesse sentido. Acho que é preciso actuar antes da velhice como forma de prevenção, não se pode actuar só depois, é preciso haver uma concertação de esforços para o agora e sobretudo para o antes, quem sabe se através de planeamentos e/ou programas que exijam aos adultos não séniores a própria preparação de auto defesas para a velhice; quem sabe talvez começando, ainda nas escolas e de uma forma mais incisiva e acentuada, a preparar uma cidadania de respeito pelos mais velhos. A este propósito eu mesmo, fruto da minha actividade profissional, já tenho vivenciado programas de excelente partilha de vivências entre idosos e jovens. Talvez seja por aqui que deve começar o apoio, talvez seja dando ao idoso o que fazer e não deixá-lo ali a um canto da casa, do lar, ou de onde quer que seja a definhar até a infinita noite chegar. Quiçá o segredo não seja aumentar a auto estima do idoso? Parar é morrer e a idade tem que voltar a ser um posto como se diz na gíria popular.
 
Ao longo da vida os nossos cabelos mudam de cor e a cor branca que adquirimos não é só física, os cabelos brancos trazem consigo a experiência, os ensinamentos. Os mais velhotes, é certo, andam mais devagar, mas muitas vezes pensam muito mais rápido, é essa tal experiência a falar do alto da idade.
 
Quando falamos em velhotes lembramo-nos certamente dos nossos avós. Eu lembro-me da minha avó “Bidá” – Claridade era difícil de dizer – (os meus outros avós, infelizmente, pouco os conheci) deliciava-me a ouvir as suas histórias sobre os seus tempos áureos de “menina e moça”. Com a minha avó aprendi a cozinhar um frango com cenouras soberbo, com ela aprendi, imagine-se, a coser à máquina numa daquelas máquinas SINGER antigas. Como já tinha muitas dificuldades de visão pediu-me para, com a sua supervisão, lhe virar um enlutado vestido de Verão que já estava muito ruço. E eu não me fiz de rogado e avancei.
 
Na casa da minha avó tudo era mais saboroso. Tive a felicidade de viver 18 anos na casa ao lado da dela e às vezes bastava a mãe passar a sopa pelo muro, para a avó, e utilizar uma mentirinha piedosa dizendo que a sopa era dela para que a mesma soubesse divinamente. Na verdade os cozinhados das avós são sempre os melhores. Há sabores e odores que ainda hoje sinto, com saudade é verdade, mas ainda os sinto. Acho que toda a gente tem na memória sabores e cheiros dos cozinhados dos avós. Têm mãos de fada os avós, adoram fazer coisas com os netos à escondida dos pais, inventam teatros, têm uma paciência de Jó. Mas quem fala em avós pode falar em pais e em tios, pode falar em avós que não o são geneticamente mas que contribuem em muito para a felicidade e para a formação pessoal e social dos “netos”. Todos eles deixam marcas profundas no coração, mesmo aqueles que não sendo nada em termos familiares acabam por ser pessoas que passam por nós e deixam atrás o seu rasto.
 

Para ajudarmos os idosos é preciso despendermos do nosso tempo, é verdade. Mas não gastaram já eles o seu próprio tempo connosco? Esta é a altura de retribuir!

Os mais velhos transmitem-nos paz, conhecimento, sabedoria, dão-nos sábios conselhos, demonstram amadurecimento, são vigilantes, dão-nos afecto, são em muitos casos almofada, confortam-nos, dão-nos carinho, divertem-nos, dão-nos prazer, colo, são super defensores, ensinam-nos músicas, lengalengas, contos, são portadores de valores de amor incondicional, de determinação e respeito. Eles sabem benzeduras que nos tiram o “cobranto”, sabem mezinhas que nos aliviam as dores e passam de geração em geração, eles deixam raízes no mais fundo de nós.
 
Obviamente que nem tudo são rosas, com a idade vêm também problemas associados à saúde mas esses, esses não os podemos evitar, os outros sim, os tais que são afectos à violência, esses sim podemos evitá-los. Os meus velhotes sempre me disseram “Não faças aos outros aquilo que não gostavas que te fizessem a ti.” Tento seguir este ensinamento ao máximo e se as minhas faculdades mo permitirem continuarei sempre a fazê-lo.
 
Congratulo-me, na realidade, com o que já existe no campo da prevenção, com os apoios concedidos pela APAV, por instituições como a PSP e a GNR, pelas Misericórdias, pelos Centros de Saúde, Centros de Dia, Lares e até mesmo pelas Universidades Séniores que fazem com que a 3ª idade passe com muito mais suavidade. Ainda assim é preciso mais não só porque UM DIA TODOS SEREMOS VELHOS mas para fazer ver àqueles que mesmo sendo novos são mais velhos que os próprios velhos pela forma absolutamente irracional como agem e pensam.
 
Para ajudarmos os idosos é preciso despendermos do nosso tempo, é verdade. Mas não gastaram já eles o seu próprio tempo connosco? Esta é a altura de retribuir!
 
A infinita noite cairá para todos e nem a lua, ainda que cheia e brilhante iluminará o que quer que seja. Até lá aproveitemos para agir, para ajudar, contribuindo para um mundo melhor e façamos com que a vida seja só o dia e a noite para que, quando essa infinita noite cair, possamos dizer num último suspiro: “Valeu a pena!” 
 
Nota: No dia 15 de Junho comemora-se o Dia Internacional de Combate à Violência Contra a Pessoa Idosa         
                                                                                                                                                                                                                         
                                                                                                                                                                                                                              * Professor Luís Parente  

O Campeonato do Senhor Rui

Escrito por quinta, 26 maio 2016 00:47
O futebol é um fenómeno fantástico. Mesmo com tudo aquilo que traz de mau, ou menos bom, é preciso saber tirar a parte positiva e as lições que este fenómeno nos dá. No caso do campeonato principal desta época em Portugal, há uma lição que podemos transportar para outras áreas da nossa vida: As contas fazem-se no fim.
 
A Educação e o Respeito pelos outros são valores incontornáveis. São valores que devemos sempre preservar. Todos nós temos adversários ao longo da nossa vida e não podemos viver sem eles. No caso particular do desporto, seja no futebol ou não, são os adversários que valorizam as nossas vitórias. São eles que nos ajudam a sermos melhores e mais competentes. É fundamental respeitar e entender quem luta connosco por este ou aquele objectivo.
 
No Benfica, Rui Vitória não poderia ter tido pior começo. Exibições sofríveis da equipa na pré-temporada trouxeram as primeiras desconfianças dos adeptos e dos comentadores. Depois, a derrota com o Sporting na Supertaça, ainda por cima treinado por Jorge Jesus e com uma exibição muito pobre, fizeram com que grande parte dos adeptos temesse por uma época desastrosa. Na segunda jornada do campeonato, o Benfica perde com o Arouca. Quase tudo correu mal até ao jogo em casa com o Sporting. Nesse jogo, apesar do Benfica ter perdido por 3-0, e já com o resultado feito, foram os adeptos a puxar pelos jogadores numa demostranção clara que o futebol não se joga só dentro do campo. Quando se esperava uma séria reprovação pela exibição e resultado, das bancadas veio um coro dizendo "Eu amo o Benfica". 
 
Começa aqui a conquista do campeonato. Depois desse jogo, o Benfica apenas empatou na Madeira e perdeu em casa com o Porto, apesar de ter feito uma das melhores exibições na Liga. Em Alvalade, frente ao eterno rival que até tinha tudo para dar um passo de gigante rumo ao título tão desejado, o Benfica marcou e soube sofrer. Depois desse jogo, as duas equipas ganharam todos os que se seguiram. É notável.
 

O Senhor Rui, acreditou sempre que seria possível. O Senhor Rui fugiu muitas vezes de polémicas, nunca deixando que a sua imagem se desgastasse e deixando que outros assumissem esse papel.

Não acredito muito na sorte quando se fala de futebol, acho sim que há trabalho e competência. Rui Vitória, neste Benfica, nunca se desviou do seu objectivo. Foi já um pouco tarde que a equipa começou a acertar, mas foi bem a tempo. Foi a tempo de fazer uma segunda volta fantástica no campeonato e uma campanha bastante positiva na Europa. Mudavam os jogadores, mas não as ambições. Em cada jogo, era possível perceber a união que havia no grupo e a unanimidade em torno do treinador. Para isso, digo eu, terá também contribuído Jorge Jesus. Desclassificando o seu colega, Jesus fez com que o grupo de trabalho tivesse ainda mais motivação e vontade de conquistar o título.
 
O Senhor Rui, nunca chamou a si os feitos, entregando todo o mérito aos jogadores e aos adeptos. O Senhor Rui percebeu, com humildade, que teria de aproveitar o melhor do seu antecessor. O Senhor Rui, acreditou sempre que seria possível. O Senhor Rui fugiu muitas vezes de polémicas, nunca deixando que a sua imagem se desgastasse e deixando que outros assumissem esse papel. O Senhor Rui reconheceu, e provou, que é uma boa estrutura que faz os campeões e não apenas os treinadores. O Senhor Rui mereceu, e muito, este campeonato.
 
* Jornalista José Lameiras

Encontro com Freud - Crónica XII

Escrito por sexta, 20 maio 2016 08:26
O meu encontro com Freud e a Auto-Estima, “Era uma vez uma coruja, que necessitando deixar temporariamente o ninho e os filhotes para procurar alimento, colocou o problema de que estes pudessem ser comidos pela águia sua vizinha. Em missão de paz, procurou a águia e pediu-lhe que não comesse os seus filhos porque os amava muito e sem eles não poderia viver.
 
A águia perguntou-lhe como os reconheceria entre os outros pássaros, para os poupar, a coruja respondeu:
 
- Não tem dificuldade nenhuma, são os pássaros mais bonitos da floresta, reconhecê-los-ás pela sua beleza e perfeição…
 
A águia comeu os filhotes da coruja, que lhe pareceram aves feias e empenadas”.
 
Esta atitude de sobrevalorização revelou-se fatal para os seus filhos. Passando para os Humanos, a desvalorização sistemática das capacidades e competências das crianças, revela-se como igualmente grave.
 

Por outro lado, nós adultos, pais, professores, educadores e comunidade em geral, não basta sabermos dos sucessos e fracassos das nossas crianças, é preciso manifestar-lhes a nossa alegria pelos sucessos e a nossa convicção de que as dificuldades serão ultrapassadas e a nossa total disponibilidade para colaborar nessa mesma superação.

O papel dos pais ou seus substitutos é determinante na construção da auto-estima das crianças desde a primeira infância. As crianças a quem foram valorizados os primeiros passos, as primeiras autonomias, as primeiras barreiras ultrapassadas, são crianças que nutrem a seu respeito expectativas mais positivas. São crianças que, ao saírem do seu meio social restrito, a família, estão mais apetrechadas para no inicio do seu percurso escolar, continuarem a construir o seu auto-conceito sem sobressaltos.
 
Por um lado, é na comparação com os pares e no contacto com os mesmos que resultará grande parte da imagem de si próprios. Os companheiros de brincadeiras, sucessos e fracassos têm um papel decisivamente regulador da sua posição no contexto social. Por outro lado, nós adultos, pais, professores, educadores e comunidade em geral, não basta sabermos dos sucessos e fracassos das nossas crianças, é preciso manifestar-lhes a nossa alegria pelos sucessos e a nossa convicção de que as dificuldades serão ultrapassadas e a nossa total disponibilidade para colaborar nessa mesma superação.
 
Verbalize, o quanto está contente com comportamentos adequados e ajustados, com resultados escolares positivos e ao mesmo tempo incentive a superação das dificuldades, acreditando de forma genuína com a certeza de que as conseguirão superar.
 
Valorize-se e a criança aprenderá a valorizar-se, valorize a escola e a aprendizagem e a criança, aprenderá a valorizá-la igualmente. Verbalize sentimentos, compreenda o choro como forma de expressar uma frustração ou um qualquer insucesso e a criança aprenderá a expressar o que sente sem sentimentos de culpa e vergonha. O modelo que proponho neste encontro é tão somente para que cada vez mais facilitarmos e produzirmos felicidade e segurança, nas mais diferentes idades. As crianças serão adultos autónomos, com imagem positiva de si mesmos, capazes de incentivar e ao mesmo tempo ultrapassar obstáculos e gerir frustrações.
 
Queremos construir um mundo melhor, comecemos pelas crianças e desde já, o tempo corre e sem pressa mas com tempo, tornemo-nos efectivamente modelos saudáveis e capazes de valorizar e fazer crescer o melhor de cada um para com todos. 

FIAPE: momentos de uma paisagem sazonal

Escrito por sexta, 13 maio 2016 23:07
Ano após ano, há uma paisagem sazonal que faz parte da minha vida. Chamo-lhe sazonal porque dura apenas cinco breves dias e porque regressa sempre. Cinco breves dias que demoram meses a planear. Cinco breves dias que requerem muita entrega por parte de todos aqueles que participam na sua organização e construção. Trata-se de uma paisagem sazonal que me acompanha há muitos anos e da qual me habituei a gostar muito: a FIAPE.
 

Há que reconhecer e enaltecer o trabalho e a persistência de todos aqueles que, há 30 anos, estiveram na origem deste grande projeto para Estremoz. A Câmara Municipal e a ACORE fizeram-no, e muito bem, na cerimónia de inauguração da FIAPE 2016. Nunca é demais valorizar e reconhecer o mérito de quem se esforça por criar a diferença e por procurar formas de potenciar o desenvolvimento da nossa cidade.

Ainda me lembro muito bem das primeiras edições da FIAPE, no Rossio. Claro que não me recordo da 1.ª edição, pois em 1983 Estremoz ainda ficava muito longe para mim... Mas recordo, com alguma saudade, os tempos em que estudei em Estremoz e via o Rossio encher-se de tratores e máquinas agrícolas e eu atravessava aquela imensidão de ferro colorido, no meu caminho para a antiga Rodoviária. Dessa época, também me lembro da exposição pecuária no Pavilhão do atual Mercado Abastecedor, muito graças ao facto de sempre ter pertencido às turmas de Agropecuária na Escola Secundária. Tudo isto há de ter acontecido quando a FIAPE ainda era uma criança, mas a imagem que tenho presente é a de uma feira de grande dimensão e com uma forte componente agrícola. Há que reconhecer e enaltecer o trabalho e a persistência de todos aqueles que, há 30 anos, estiveram na origem deste grande projeto para Estremoz. A Câmara Municipal e a ACORE fizeram-no, e muito bem, na cerimónia de inauguração da FIAPE 2016. Nunca é demais valorizar e reconhecer o mérito de quem se esforça por criar a diferença e por procurar formas de potenciar o desenvolvimento da nossa cidade.
 
Numa fase posterior da minha vida, há cerca de 18 anos, comecei a ver a FIAPE com outros olhos. Deixei de ser apenas espetador e passei a estar do outro lado. Nos primeiros anos, ainda que de uma forma muito subtil, fui-me embrenhando nos meandros da organização e apercebendo da verdadeira dimensão do certame.
 
Durante alguns anos, a FIAPE não conseguiu fazer frente à teimosia dos que insistiam em mantê-la estrangulada, sem hipóteses de evoluir para um modelo mais adaptado às exigências impostas pelo tempo. Continuou no Rossio, a definhar e a acompanhar a crise que se vivia na agricultura portuguesa em finais do século XX. Com ela continuou o modelo das barracas de chapa, dos espaços da Feira de Artesanato sem condições, do pavilhão do gado construído com rede sombreira e o insalubre piso enlameado do Rossio (pois também nesta época chovia sempre). Há quem diga que este modelo é que era bom. Que isto é que trazia mais vida à cidade. A mim, sinceramente, dói-me a alma só de pensar nas condições em que a feira se continuava a fazer, sem qualquer perspetiva de futuro, decaindo ano após ano.
 
Felizmente, alguém teve a coragem de a libertar daquele espaço e de a levar para o local onde hoje se realiza - o Parque de Feiras. Para muitos (se calhar já não são assim tantos), este equipamento sempre foi considerado um "elefante branco", sob o pretexto de que a sua utilização anual é diminuta e não justifica o investimento. Ainda que assim fosse (e eu sei bem que não é assim), para mim bastava que existisse apenas para realizar a FIAPE, porque este certame merece um espaço assim. A nossa cidade, as pessoas que vivem em Estremoz e as pessoas que visitam a feira merecem que a FIAPE se realize num espaço assim.
 
Só com um espaço destes é possível que, passados 30 anos, a FIAPE tenha tido este ano mais de 450 expositores, devidamente acomodados em espaços dignos e com excelentes condições de exposição e venda dos seus produtos. Só neste espaço se conseguem dar mais condições de acolhimento aos mais de 60.000 visitantes que estiveram na FIAPE este ano. Devemos orgulhar-nos pelo facto de Estremoz possuir um recinto com estas características e por este ter as condições necessárias para receber um certame como a FIAPE. Sem a existência deste espaço duvido muito que a FIAPE tivesse crescido o que cresceu e que fosse hoje um dos principais certames económicos da região Alentejo.
 
Como disse, a FIAPE já faz parte de mim. Recordo-me dos três anos em que estive novamente afastado, do lado de lá, do lado do espetador. De como nessa altura foi penoso para mim entrar na FIAPE, numa paisagem que eu tinha ajudado a crescer e que, então, era intocável. Não consigo descrever a impotência que sentia por não poder tocar-lhe.
 
Mas o tempo tudo dá e tudo tira. A mim, deu-me de volta a FIAPE. Mas já não era a mesma FIAPE. Estava agora repleta de marcas estranhas, depois de tocada por mãos que nunca souberam compreender bem a sua verdadeira essência. Os visitantes e os expositores estavam saturados do seu modelo.  Foi preciso um esforço enorme para que retomasse de novo o seu caminho.
 
Acredito que hoje o caminho já foi encontrado e a FIAPE é, sem qualquer sombra de dúvida, um extraordinário evento que anualmente fica na memória de todos aqueles que a vivenciam: organização, trabalhadores, expositores e visitantes.
 

Como disse, a FIAPE já faz parte de mim. Recordo-me dos três anos em que estive novamente afastado, do lado de lá, do lado do espetador. De como nessa altura foi penoso para mim entrar na FIAPE, numa paisagem que eu tinha ajudado a crescer e que, então, era intocável. Não consigo descrever a impotência que sentia por não poder tocar-lhe.

Na minha memória ficarão para sempre os momentos especiais que esta experiência me proporciona: a gratidão que sinto pelo espírito de entrega de todas as pessoas que comigo trabalham na FIAPE e que tudo fazem para que ela brilhe da forma como brilha. O início das montagens. A confiança que os expositores depositam na feira e a forma como são bem tratados e que os faz voltar ano após ano a Estremoz. A constante procura de inovação, que nos faz apresentar sempre algo diferente todos os anos e tentar fazer mais e melhor. A correria para que tudo esteja pronto a horas. A cerimónia de inauguração. O pulsar diário das atividades. Os sons, os cheiros e os sabores da feira. O brilho das luzes dos divertimentos. A ansiedade das dez da noite, à espera que chegue o mar de gente. O mar de gente. O movimento das pessoas na feira. O início dos espetáculos. A cor e o barulho da massa humana a vibrar com os espetáculos. A lotação esgotada. O chegar a casa com a alegria de ter conseguido atingir os objetivos...
 
No fim, fica a triste memória do regresso das carrinhas e dos camiões, que tudo levam dali. O espaço vazio. O caos que se instala devido a algo que já aconteceu e que só irá regressar dali a um ano. A constatação final da efemeridade e da sazonalidade do evento. As dores no corpo que nos fazem recordar os bons momentos. A tristeza por a FIAPE ter terminado tão rapidamente...
 
Não é costume acontecer, mas ao escrever sobre os momentos que a FIAPE me proporciona, já me chegaram as lágrimas aos olhos por mais do que uma vez... Não me importo de chorar pela recordação de bons momentos, principalmente quando sei que, mais dia menos dia, esta paisagem sazonal estará de regresso à minha vida.
 
Arquiteto Paisagista António Serrano
 

Até sempre… nossa gente!!!

Escrito por sexta, 29 abril 2016 13:06
Acho que não sou muito dado a superstições. Para mim uma sexta-feira pode ser treze… o gato pode ser preto e atravessar-se à minha frente… os talheres podem estar cruzados… posso até entrar com o pé esquerdo em qualquer lugar… abrir um guarda-chuva dentro de casa… contar as estrelas até me apetecer… pendurar um quadro e deixá-lo torto… uma ferradura, para mim, não é nenhum amuleto… o trevo de quatro folhas é só um capricho da natureza… se a minha orelha está quente é só porque não está fria… se vestir uma peça de roupa do avesso é só uma chatice porque tenho que a despir e voltar a vesti-la das “direitas”… não encontro problema algum em brindar com bebidas não alcoólicas… para além de mim podem estar mais doze pessoas na mesma mesa sem qualquer receio… nunca parti um espelho mas acredito que não dê sete anos de infortúnio… enquanto solteiro varreram-me os pés e sentei-me inúmeras vezes a um canto da mesa e no entanto casei… já visionei centenas de estrelas cadentes e formulei o mesmo número de desejos, ainda assim, só como mero exemplo, ainda não me saiu o euromilhões… cada vez que comemoro mais um aniversário peço também um desejo e, sinceramente, não sei se algum me foi atendido… contudo, a este respeito, há uma coisa que não consigo fazer, passar por baixo de uma escada. Não me perguntem porquê que nem eu próprio consigo responder. Esta coisa das superstições tem muito que se lhe diga. Quem é que, por exemplo, nunca bateu três vezes na madeira para afastar o azar?
 

...para além de mim podem estar mais doze pessoas na mesma mesa sem qualquer receio… nunca parti um espelho mas acredito que não dê sete anos de infortúnio… enquanto solteiro varreram-me os pés e sentei-me inúmeras vezes a um canto da mesa e no entanto casei…

Na realidade, com o constante progresso que o nosso mundo vai evidenciando, é surpreendentemente estranho que, nas sociedades desenvolvidas dos dias de hoje, se continuem a valorizar as crendices e as superstições. Muitos não concordarão comigo, mas o que é certo é que elas existem e até mesmo nos países mais desenvolvidos.
 
No mundo do futebol as superstições, as rezas, as crenças são mais que muitas e a esse respeito, na ordem do dia, há até um jogador do Arsenal de Londres, chamado Aaron Ramsey, que dizem carregar consigo uma maldição, o que acontece é que cada vez que o mesmo marca um golo, há uma dita celebridade que morre. Obviamente que para mim são meras coincidências, no entanto como as pessoas ouvem isto repetidamente nos órgãos de comunicação social começam a partilhar da coincidência e a acreditar que tal pode ser verdadeiro.
 
Mesmo sem partilhar dessas crenças ou superstições, que são por vezes exacerbadas, tenho que reconhecer que, para já, este ano de 2016 tem sido surpreendentemente fértil em acontecimentos trágicos para o mundo do “show business”, sendo por esse facto motivo de análise em tudo quanto é sítio. Deste modo, dada a actualidade do assunto, pode ser interessante escalpelizar um pouco o sentimento que nos assola quando vemos partir do nosso dia-a-dia personagens, intérpretes, sítios ou sons que mais não são do que pessoas como nós, por vezes endeusados é certo, mas simples mortais que fizeram e fazem parte do nosso passado, do nosso presente e até do nosso futuro através de uma coisa tão fantástica que é a memória de cada um de nós. No fundo essas pessoas são parte das nossas vidas, temo-las quase como fazendo parte das nossas próprias famílias e também sofremos com a sua ausência física, chegamos mesmo a ficar chocados com o seu desaparecimento. Na verdade, nem sequer os conhecemos pessoalmente e ainda que só os conheçamos unicamente através de uma pequena caixa mágica, o tal ecrã de televisão ou o monitor do computador, parece-nos irreal que tal individualidade tenha a ousadia de desaparecer assim sem mais nem menos.
 
Este ano tem sido pródigo em desaparecimentos de gente da “família”. Todos os anos acontece, é verdade. Sempre irá acontecer, é um facto. Contudo, para a minha geração, tudo se torna um pouco mais inquietante, se assim lhe posso chamar. Ver partir referências da música, da representação, da arte, do humor, da cultura, faz com que nos apercebamos ainda mais que “todos somos pó” e que uma simples brisa nos pode levar para longe, num ápice. Na realidade todos somos iguais, não há ricos nem pobres, altos nem baixos, pretos ou brancos, muçulmanos ou católicos, ainda mais quando o que mais certo temos é mesmo a morte, e essa, calha a todos. Aí não há discriminações de qualquer género.
   
Para mim não existem celebridades ou famosos, para mim existem indivíduos que se evidenciam um pouco mais do que os outros na sua actividade profissional e com as quais as pessoas se vão identificando, quer seja pela forma como agem, como falam, como cantam, como vivem, como representam, como escrevem, como desenham. De alguma forma, houve algo nessas pessoas que despertou emoções, sentimentos… uma letra de uma canção sentida num momento especial (quem não tem uma música que considera a sua?)… um livro que descreveu de uma forma de tal maneira real determinada situação que nos fez entrar nele e fazer de nós próprios a personagem principal…  um simples conjunto de traços que formaram um desenho que nos fez soltar um “Uau!!” … um filme que nos levou às lágrimas e nos fez suspirar por determinada atriz (ou actor)… uma peça de teatro que também nos levou às lágrimas mas de tanto rirmos… uma jogada de génio de um futebolista, basquetebolista ou jogador de ténis… uma dança de tal forma harmoniosa que nos fez levitar como uma pena ao vento… uma voz de arrepiar numa simples emissão de rádio.
  

Superstições à parte, e mesmo sendo um ano bissexto, 2016 está a ser difícil, e difícil pelo partir das tais referências. Ainda assim, essas mesmas referências, deixam um legado que faz com que se tornem imortais, nem que seja nas nossas próprias memórias.

Nos nossos dias são principalmente as redes sociais que fazem com que o luto sentido com o desaparecimento de uma dessas pessoas, que denominam de “famosos”, seja ainda mais intenso e prolongado no tempo. Proliferam os comentários, os “posts” de vídeos, as imagens com os rostos com pequenas frases associadas aos indivíduos, tudo isso se revela um motivo para o homenagear e assim prolongar no tempo a memória do mesmo.
 
Quando num acidente de viação no tão propalado “Tunnel de l’Alma” em Paris faleceu a princesa Diana de Gales, o mundo ficou em estado de choque, não só por ser a pessoa mais fotografada por “paparazzis” em todo o mundo, mas por ser uma pessoa boa de quem toda a gente gostava e dotada da humildade que normalmente a sobranceira realeza não tem.
 
Superstições à parte, e mesmo sendo um ano bissexto, 2016 está a ser difícil, e difícil pelo partir das tais referências. Ainda assim, essas mesmas referências, deixam um legado que faz com que se tornem imortais, nem que seja nas nossas próprias memórias. Em Portugal José Boavida, Nicolau Breyner e Francisco Nicholson deixaram o sorriso, a simpatia e os ensinamentos a muitos realizadores e escritores, actores e actrizes em ascensão… Nuno Teotónio Pereira deixou o nosso país mais rico pela sua arquitectura… O mundo ficou melhor com o legado musical deixado pelo camaleónico David Bowie e pelo multi-instrumentista Prince… beneficiou com o brilhantismo de Johan Cruijff no futebol, com a voz e a extraordinária representação de Alan Rickman no teatro e no cinema e com o fantástico discorrer de palavras do notável Umberto Eco.
 
E porque esta gente merece e todos somos gente… até sempre, nossa gente!!!
 
* Professor Luís Parente

Encontro com Freud - Crónica XI

Escrito por quinta, 21 abril 2016 17:24
Encontrei-me com Freud, para reflectir sobre o envelhecimento, o que é isto de envelhecer? Da idade nos trazer obrigatoriamente, mais experiência, mais conhecimento, mais tolerância, menos preconceitos, mais maturidade, menos saúde e mais dependência… Ou não. Se imaginarmos o nosso organismo e a nossa mente, enquanto máquina, compreenderemos facilmente que a forma como a desgastamos ao longo da vida, influencia o envelhecimento da mesma. No entanto, e no que à minha área diz respeito, o envelhecimento como processo natural também está dependente da forma como ao longo da vida, e até ao dia de hoje, nós expressámos emoções, aprendemos e apreendemos dos outros o melhor de todos, como tolerámos atitudes, crenças, culturas e gostos diferentes dos nossos, como gerimos conflitos nos vários contextos em que nos movemos. Por outro lado, como lidámos com as perdas, separações, mortes, entre tantas outras. O que escolhemos, para nós mesmos? Foi efectivamente o que decidimos naquele momento ou fomos pressionados por vontades alheias as quais não quisemos ou não conseguimos contrariar? O tempo passa, olhamos para trás e tendemos a ver o que não conseguimos, o que perdemos, o que não fizemos bem, então pergunto, e o que alcancei mesmo quando achei que já não tinha forças, e o que ganhei quando achei que já não haveria nada para mim, e o que perdoei quando num reencontro sorri e me deixei ficar?
 

E pode ser uma eternidade, porque a tolerância torna-nos mais leves, o respeito torna-nos mais humanos, o amor torna-nos mais livres e a compreensão torna-nos mais sábios.

Somos filhos de um tempo, num tempo que é de todos, onde bebemos das fontes mais diversas e únicas, porque também elas são filhas de um tempo, num tempo que foi de todos. Então, “eu não sou do tempo”, não, eu recuso-me a ser de um tempo, como algo estático, que não avança, que não progride, que não evolui, que não aprende, que não se adapta, que não escuta, que não vê, que não ouve, recuso … o meu tempo é hoje, o meu lugar é este ou outro qualquer porque estarei sempre a tempo de, enquanto viver, fazer do tempo um lugar qualquer. Beber das mesmas fontes e de outras fontes quaisquer, aprender no tempo o que ainda não sei, receber do tempo o que ainda não tive, tolerar e aceitar com tempo o que é diferente de mim, acarinhar e guardar todo o tempo que estiveres aqui.
 
E pode ser uma eternidade, porque a tolerância torna-nos mais leves, o respeito torna-nos mais humanos, o amor torna-nos mais livres e a compreensão torna-nos mais sábios.
 
* Psicóloga Helena Chouriço
 

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