sábado, 24 junho 2017

A paisagem e as escolhas

Escrito por sexta, 15 abril 2016 01:10
Tudo muda devido às escolhas que fazemos. Tanto a nossa vida pessoal e profissional, como a vida dos outros que se atravessam nas nossas escolhas. Da mesma forma, também todos nós mudamos, quando fazemos parte das escolhas dos outros ou simplesmente quando também nos atravessamos nos seus caminhos.
 
Apenas não escolhemos nascer. No entanto, essa dádiva também resulta de uma escolha que os nossos pais fizeram: perpetuar, através de outra vida, o seu material genético.
 
Escolhemos os amigos, quem queremos amar, nalguns casos com quem queremos casar, se queremos ou não ter filhos, também nalguns casos naquilo em que queremos trabalhar, onde, quando e com quem queremos ir... Bem ou mal, a nossa vida é feita de um número infinito de opções, muitas delas tomadas sem que sequer nos apercebamos que estamos a escolher.
 
O que temos certo é que as escolhas terão sempre consequências. Por isso, precisamos de refletir nas escolhas que fazemos, pois certamente elas mudarão para sempre as nossas vidas e, eventualmente, a vidas de muitas outras pessoas. E é preciso que estejamos conscientes de que não há possibilidade de voltar atrás, por muito que nalguns casos se tentem remediar ou mitigar os efeitos das nossas decisões.
 
Uma vez que a paisagem resulta da ação humana, também ela evolui em função das escolhas que o Homem faz, em determinado tempo e espaço. Quando intervenho na paisagem, seja à escala do território seja à escala de um pequeno jardim, tenho à minha disposição um conjunto de opções que irão determinar a configuração, a imagem, desse espaço de intervenção. Se optar por não introduzir um elemento de água num jardim, a minha escolha determinará mais aridez e menos frescura. Se, pelo contrário, optar por criar um plano de água estática, o espaço e quem o vive nunca poderão experimentar as ambiências e sonoridades da água em movimento. Se decidir utilizar pavimentos em calçada de mármore, a imagem será naturalmente diferente daquela que se obtém ao construir uma calçada em granito. Se optar por introduzir árvores de folha perene num parque, a sua sombra será deliciosa no verão, mas de nada servirá durante os frios dias de inverno. Se, num determinado plano de ordenamento do território, escolher uma determinada localização para a passagem de uma via rodoviária, para a instalação de um equipamento público, uma zona industrial ou qualquer outra infraestrutura, estou ciente de que as mesmas terão sempre impactos positivos e negativos na paisagem, independentemente das suas eventuais mais valias económicas, sociais ou ambientais. 
 
Muitas vezes escolhemos por uma questão de gosto pessoal, mas não menos vezes somos obrigados a optar em função do gosto dos outros. É muito frequente em arquitetura paisagista, quando nos encomendam um determinado projeto, mas também é assim em inúmeras outras situações do nosso dia-a-dia e muito especialmente quando se tratam de escolhas políticas. 
 

Todos temos um papel a desempenhar na paisagem, com maior ou menor importância e intervenção, com mais ou menos possibilidades ou oportunidades, mas igualmente importante e necessário para que ela funcione. As escolhas que fizermos determinarão se a paisagem funciona melhor ou pior. Mas não nos iludamos: seja qual for o papel que desempenhemos na paisagem, ela continuará a existir sem a nossa presença.

É neste campo da política que mais frequentemente as escolhas são alvo de opiniões contraditórias. É perfeitamente legítimo ter opinião contrária, mas também é legítimo que os outros possam escolher de forma diferente. O que acontece quase sempre é que, por muito boas que certas escolhas sejam, ou nos pareçam ser, não são as que os outros fariam e, por isso, opomo-nos a elas. Por que se vendeu, por que se comprou, por que se construiu, por que se isentou ou não, por que se optou por esta ou por aquela estratégia... Temos que ter noção de que estas escolhas, sejam elas quais forem, foram eventualmente objeto de estudo, de planeamento e de análise aprofundada acerca dos prós, dos contras e das consequências. É o processo natural de quem tem que tomar decisões políticas, todas elas legitimadas por uma escolha anterior - a das pessoas que deram, através do voto, a sua confiança a quem tem que tomar estas opções políticas. Seria muito bom que todos escolhêssemos respeitar essas opções, por mais que não concordemos com elas.
 
Assim, e devido à relação que as nossas escolhas têm com as dos outros, parece-me que tão importante como escolher é saber respeitar as escolhas que os outros fazem. Digo isto com a consciência de que, muitas vezes, não o faço. Faz parte da natureza humana ser assim e eu sou humano. Mas esforço-me todos os dias por tentar entender as escolhas dos outros e é por isso que, na maior parte das vezes, não critico, não me oponho, não me importo com elas. É, também, uma escolha que faço.
 
Outras vezes, porém, escolho ter voz ativa, interferir, participar, dar a minha opinião sobre determinadas escolhas. Não me podem censurar por isso. É também uma escolha que faço e saberei viver com as consequências que daí advém. Faço-o porque, desde muito cedo, escolhi fazer parte da solução e não do problema. 
 
As nossas escolhas farão parte da nossa história e deixarão sempre marcas na paisagem, de forma mais ou menos vincada, em função da dimensão da nossa atuação na vida pessoal e em comunidade. Todos temos um papel a desempenhar na paisagem, com maior ou menor importância e intervenção, com mais ou menos possibilidades ou oportunidades, mas igualmente importante e necessário para que ela funcione. As escolhas que fizermos determinarão se a paisagem funciona melhor ou pior. Mas não nos iludamos: seja qual for o papel que desempenhemos na paisagem, ela continuará a existir sem a nossa presença. Tal como escreveu José Saramago, na epígrafe de "A Viagem do Elefante", "sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam". É o que temos mais certo e, tal como nascer, não depende da nossa escolha.
 
Se estivermos conscientes disso, de certeza que daremos mais atenção às nossas escolhas e que conseguiremos respeitar as escolhas que os outros fazem. A vida é curta demais para que a vivamos sempre mais preocupados a questionar as opções alheias.
 
* Arquiteto Paisagista António Serrano
 

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