sexta, 18 agosto 2017

Luís Parente

Quase 12 anos

Quase 12 anos

Há quase 12 anos, durante o mês de Agosto, o meu telefone tocou. Do outro lad ...

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Encontro com Freud - Crónica XII

Escrito por sexta, 20 maio 2016 08:26
O meu encontro com Freud e a Auto-Estima, “Era uma vez uma coruja, que necessitando deixar temporariamente o ninho e os filhotes para procurar alimento, colocou o problema de que estes pudessem ser comidos pela águia sua vizinha. Em missão de paz, procurou a águia e pediu-lhe que não comesse os seus filhos porque os amava muito e sem eles não poderia viver.
 
A águia perguntou-lhe como os reconheceria entre os outros pássaros, para os poupar, a coruja respondeu:
 
- Não tem dificuldade nenhuma, são os pássaros mais bonitos da floresta, reconhecê-los-ás pela sua beleza e perfeição…
 
A águia comeu os filhotes da coruja, que lhe pareceram aves feias e empenadas”.
 
Esta atitude de sobrevalorização revelou-se fatal para os seus filhos. Passando para os Humanos, a desvalorização sistemática das capacidades e competências das crianças, revela-se como igualmente grave.
 

Por outro lado, nós adultos, pais, professores, educadores e comunidade em geral, não basta sabermos dos sucessos e fracassos das nossas crianças, é preciso manifestar-lhes a nossa alegria pelos sucessos e a nossa convicção de que as dificuldades serão ultrapassadas e a nossa total disponibilidade para colaborar nessa mesma superação.

O papel dos pais ou seus substitutos é determinante na construção da auto-estima das crianças desde a primeira infância. As crianças a quem foram valorizados os primeiros passos, as primeiras autonomias, as primeiras barreiras ultrapassadas, são crianças que nutrem a seu respeito expectativas mais positivas. São crianças que, ao saírem do seu meio social restrito, a família, estão mais apetrechadas para no inicio do seu percurso escolar, continuarem a construir o seu auto-conceito sem sobressaltos.
 
Por um lado, é na comparação com os pares e no contacto com os mesmos que resultará grande parte da imagem de si próprios. Os companheiros de brincadeiras, sucessos e fracassos têm um papel decisivamente regulador da sua posição no contexto social. Por outro lado, nós adultos, pais, professores, educadores e comunidade em geral, não basta sabermos dos sucessos e fracassos das nossas crianças, é preciso manifestar-lhes a nossa alegria pelos sucessos e a nossa convicção de que as dificuldades serão ultrapassadas e a nossa total disponibilidade para colaborar nessa mesma superação.
 
Verbalize, o quanto está contente com comportamentos adequados e ajustados, com resultados escolares positivos e ao mesmo tempo incentive a superação das dificuldades, acreditando de forma genuína com a certeza de que as conseguirão superar.
 
Valorize-se e a criança aprenderá a valorizar-se, valorize a escola e a aprendizagem e a criança, aprenderá a valorizá-la igualmente. Verbalize sentimentos, compreenda o choro como forma de expressar uma frustração ou um qualquer insucesso e a criança aprenderá a expressar o que sente sem sentimentos de culpa e vergonha. O modelo que proponho neste encontro é tão somente para que cada vez mais facilitarmos e produzirmos felicidade e segurança, nas mais diferentes idades. As crianças serão adultos autónomos, com imagem positiva de si mesmos, capazes de incentivar e ao mesmo tempo ultrapassar obstáculos e gerir frustrações.
 
Queremos construir um mundo melhor, comecemos pelas crianças e desde já, o tempo corre e sem pressa mas com tempo, tornemo-nos efectivamente modelos saudáveis e capazes de valorizar e fazer crescer o melhor de cada um para com todos. 

FIAPE: momentos de uma paisagem sazonal

Escrito por sexta, 13 maio 2016 23:07
Ano após ano, há uma paisagem sazonal que faz parte da minha vida. Chamo-lhe sazonal porque dura apenas cinco breves dias e porque regressa sempre. Cinco breves dias que demoram meses a planear. Cinco breves dias que requerem muita entrega por parte de todos aqueles que participam na sua organização e construção. Trata-se de uma paisagem sazonal que me acompanha há muitos anos e da qual me habituei a gostar muito: a FIAPE.
 

Há que reconhecer e enaltecer o trabalho e a persistência de todos aqueles que, há 30 anos, estiveram na origem deste grande projeto para Estremoz. A Câmara Municipal e a ACORE fizeram-no, e muito bem, na cerimónia de inauguração da FIAPE 2016. Nunca é demais valorizar e reconhecer o mérito de quem se esforça por criar a diferença e por procurar formas de potenciar o desenvolvimento da nossa cidade.

Ainda me lembro muito bem das primeiras edições da FIAPE, no Rossio. Claro que não me recordo da 1.ª edição, pois em 1983 Estremoz ainda ficava muito longe para mim... Mas recordo, com alguma saudade, os tempos em que estudei em Estremoz e via o Rossio encher-se de tratores e máquinas agrícolas e eu atravessava aquela imensidão de ferro colorido, no meu caminho para a antiga Rodoviária. Dessa época, também me lembro da exposição pecuária no Pavilhão do atual Mercado Abastecedor, muito graças ao facto de sempre ter pertencido às turmas de Agropecuária na Escola Secundária. Tudo isto há de ter acontecido quando a FIAPE ainda era uma criança, mas a imagem que tenho presente é a de uma feira de grande dimensão e com uma forte componente agrícola. Há que reconhecer e enaltecer o trabalho e a persistência de todos aqueles que, há 30 anos, estiveram na origem deste grande projeto para Estremoz. A Câmara Municipal e a ACORE fizeram-no, e muito bem, na cerimónia de inauguração da FIAPE 2016. Nunca é demais valorizar e reconhecer o mérito de quem se esforça por criar a diferença e por procurar formas de potenciar o desenvolvimento da nossa cidade.
 
Numa fase posterior da minha vida, há cerca de 18 anos, comecei a ver a FIAPE com outros olhos. Deixei de ser apenas espetador e passei a estar do outro lado. Nos primeiros anos, ainda que de uma forma muito subtil, fui-me embrenhando nos meandros da organização e apercebendo da verdadeira dimensão do certame.
 
Durante alguns anos, a FIAPE não conseguiu fazer frente à teimosia dos que insistiam em mantê-la estrangulada, sem hipóteses de evoluir para um modelo mais adaptado às exigências impostas pelo tempo. Continuou no Rossio, a definhar e a acompanhar a crise que se vivia na agricultura portuguesa em finais do século XX. Com ela continuou o modelo das barracas de chapa, dos espaços da Feira de Artesanato sem condições, do pavilhão do gado construído com rede sombreira e o insalubre piso enlameado do Rossio (pois também nesta época chovia sempre). Há quem diga que este modelo é que era bom. Que isto é que trazia mais vida à cidade. A mim, sinceramente, dói-me a alma só de pensar nas condições em que a feira se continuava a fazer, sem qualquer perspetiva de futuro, decaindo ano após ano.
 
Felizmente, alguém teve a coragem de a libertar daquele espaço e de a levar para o local onde hoje se realiza - o Parque de Feiras. Para muitos (se calhar já não são assim tantos), este equipamento sempre foi considerado um "elefante branco", sob o pretexto de que a sua utilização anual é diminuta e não justifica o investimento. Ainda que assim fosse (e eu sei bem que não é assim), para mim bastava que existisse apenas para realizar a FIAPE, porque este certame merece um espaço assim. A nossa cidade, as pessoas que vivem em Estremoz e as pessoas que visitam a feira merecem que a FIAPE se realize num espaço assim.
 
Só com um espaço destes é possível que, passados 30 anos, a FIAPE tenha tido este ano mais de 450 expositores, devidamente acomodados em espaços dignos e com excelentes condições de exposição e venda dos seus produtos. Só neste espaço se conseguem dar mais condições de acolhimento aos mais de 60.000 visitantes que estiveram na FIAPE este ano. Devemos orgulhar-nos pelo facto de Estremoz possuir um recinto com estas características e por este ter as condições necessárias para receber um certame como a FIAPE. Sem a existência deste espaço duvido muito que a FIAPE tivesse crescido o que cresceu e que fosse hoje um dos principais certames económicos da região Alentejo.
 
Como disse, a FIAPE já faz parte de mim. Recordo-me dos três anos em que estive novamente afastado, do lado de lá, do lado do espetador. De como nessa altura foi penoso para mim entrar na FIAPE, numa paisagem que eu tinha ajudado a crescer e que, então, era intocável. Não consigo descrever a impotência que sentia por não poder tocar-lhe.
 
Mas o tempo tudo dá e tudo tira. A mim, deu-me de volta a FIAPE. Mas já não era a mesma FIAPE. Estava agora repleta de marcas estranhas, depois de tocada por mãos que nunca souberam compreender bem a sua verdadeira essência. Os visitantes e os expositores estavam saturados do seu modelo.  Foi preciso um esforço enorme para que retomasse de novo o seu caminho.
 
Acredito que hoje o caminho já foi encontrado e a FIAPE é, sem qualquer sombra de dúvida, um extraordinário evento que anualmente fica na memória de todos aqueles que a vivenciam: organização, trabalhadores, expositores e visitantes.
 

Como disse, a FIAPE já faz parte de mim. Recordo-me dos três anos em que estive novamente afastado, do lado de lá, do lado do espetador. De como nessa altura foi penoso para mim entrar na FIAPE, numa paisagem que eu tinha ajudado a crescer e que, então, era intocável. Não consigo descrever a impotência que sentia por não poder tocar-lhe.

Na minha memória ficarão para sempre os momentos especiais que esta experiência me proporciona: a gratidão que sinto pelo espírito de entrega de todas as pessoas que comigo trabalham na FIAPE e que tudo fazem para que ela brilhe da forma como brilha. O início das montagens. A confiança que os expositores depositam na feira e a forma como são bem tratados e que os faz voltar ano após ano a Estremoz. A constante procura de inovação, que nos faz apresentar sempre algo diferente todos os anos e tentar fazer mais e melhor. A correria para que tudo esteja pronto a horas. A cerimónia de inauguração. O pulsar diário das atividades. Os sons, os cheiros e os sabores da feira. O brilho das luzes dos divertimentos. A ansiedade das dez da noite, à espera que chegue o mar de gente. O mar de gente. O movimento das pessoas na feira. O início dos espetáculos. A cor e o barulho da massa humana a vibrar com os espetáculos. A lotação esgotada. O chegar a casa com a alegria de ter conseguido atingir os objetivos...
 
No fim, fica a triste memória do regresso das carrinhas e dos camiões, que tudo levam dali. O espaço vazio. O caos que se instala devido a algo que já aconteceu e que só irá regressar dali a um ano. A constatação final da efemeridade e da sazonalidade do evento. As dores no corpo que nos fazem recordar os bons momentos. A tristeza por a FIAPE ter terminado tão rapidamente...
 
Não é costume acontecer, mas ao escrever sobre os momentos que a FIAPE me proporciona, já me chegaram as lágrimas aos olhos por mais do que uma vez... Não me importo de chorar pela recordação de bons momentos, principalmente quando sei que, mais dia menos dia, esta paisagem sazonal estará de regresso à minha vida.
 
Arquiteto Paisagista António Serrano
 

Até sempre… nossa gente!!!

Escrito por sexta, 29 abril 2016 13:06
Acho que não sou muito dado a superstições. Para mim uma sexta-feira pode ser treze… o gato pode ser preto e atravessar-se à minha frente… os talheres podem estar cruzados… posso até entrar com o pé esquerdo em qualquer lugar… abrir um guarda-chuva dentro de casa… contar as estrelas até me apetecer… pendurar um quadro e deixá-lo torto… uma ferradura, para mim, não é nenhum amuleto… o trevo de quatro folhas é só um capricho da natureza… se a minha orelha está quente é só porque não está fria… se vestir uma peça de roupa do avesso é só uma chatice porque tenho que a despir e voltar a vesti-la das “direitas”… não encontro problema algum em brindar com bebidas não alcoólicas… para além de mim podem estar mais doze pessoas na mesma mesa sem qualquer receio… nunca parti um espelho mas acredito que não dê sete anos de infortúnio… enquanto solteiro varreram-me os pés e sentei-me inúmeras vezes a um canto da mesa e no entanto casei… já visionei centenas de estrelas cadentes e formulei o mesmo número de desejos, ainda assim, só como mero exemplo, ainda não me saiu o euromilhões… cada vez que comemoro mais um aniversário peço também um desejo e, sinceramente, não sei se algum me foi atendido… contudo, a este respeito, há uma coisa que não consigo fazer, passar por baixo de uma escada. Não me perguntem porquê que nem eu próprio consigo responder. Esta coisa das superstições tem muito que se lhe diga. Quem é que, por exemplo, nunca bateu três vezes na madeira para afastar o azar?
 

...para além de mim podem estar mais doze pessoas na mesma mesa sem qualquer receio… nunca parti um espelho mas acredito que não dê sete anos de infortúnio… enquanto solteiro varreram-me os pés e sentei-me inúmeras vezes a um canto da mesa e no entanto casei…

Na realidade, com o constante progresso que o nosso mundo vai evidenciando, é surpreendentemente estranho que, nas sociedades desenvolvidas dos dias de hoje, se continuem a valorizar as crendices e as superstições. Muitos não concordarão comigo, mas o que é certo é que elas existem e até mesmo nos países mais desenvolvidos.
 
No mundo do futebol as superstições, as rezas, as crenças são mais que muitas e a esse respeito, na ordem do dia, há até um jogador do Arsenal de Londres, chamado Aaron Ramsey, que dizem carregar consigo uma maldição, o que acontece é que cada vez que o mesmo marca um golo, há uma dita celebridade que morre. Obviamente que para mim são meras coincidências, no entanto como as pessoas ouvem isto repetidamente nos órgãos de comunicação social começam a partilhar da coincidência e a acreditar que tal pode ser verdadeiro.
 
Mesmo sem partilhar dessas crenças ou superstições, que são por vezes exacerbadas, tenho que reconhecer que, para já, este ano de 2016 tem sido surpreendentemente fértil em acontecimentos trágicos para o mundo do “show business”, sendo por esse facto motivo de análise em tudo quanto é sítio. Deste modo, dada a actualidade do assunto, pode ser interessante escalpelizar um pouco o sentimento que nos assola quando vemos partir do nosso dia-a-dia personagens, intérpretes, sítios ou sons que mais não são do que pessoas como nós, por vezes endeusados é certo, mas simples mortais que fizeram e fazem parte do nosso passado, do nosso presente e até do nosso futuro através de uma coisa tão fantástica que é a memória de cada um de nós. No fundo essas pessoas são parte das nossas vidas, temo-las quase como fazendo parte das nossas próprias famílias e também sofremos com a sua ausência física, chegamos mesmo a ficar chocados com o seu desaparecimento. Na verdade, nem sequer os conhecemos pessoalmente e ainda que só os conheçamos unicamente através de uma pequena caixa mágica, o tal ecrã de televisão ou o monitor do computador, parece-nos irreal que tal individualidade tenha a ousadia de desaparecer assim sem mais nem menos.
 
Este ano tem sido pródigo em desaparecimentos de gente da “família”. Todos os anos acontece, é verdade. Sempre irá acontecer, é um facto. Contudo, para a minha geração, tudo se torna um pouco mais inquietante, se assim lhe posso chamar. Ver partir referências da música, da representação, da arte, do humor, da cultura, faz com que nos apercebamos ainda mais que “todos somos pó” e que uma simples brisa nos pode levar para longe, num ápice. Na realidade todos somos iguais, não há ricos nem pobres, altos nem baixos, pretos ou brancos, muçulmanos ou católicos, ainda mais quando o que mais certo temos é mesmo a morte, e essa, calha a todos. Aí não há discriminações de qualquer género.
   
Para mim não existem celebridades ou famosos, para mim existem indivíduos que se evidenciam um pouco mais do que os outros na sua actividade profissional e com as quais as pessoas se vão identificando, quer seja pela forma como agem, como falam, como cantam, como vivem, como representam, como escrevem, como desenham. De alguma forma, houve algo nessas pessoas que despertou emoções, sentimentos… uma letra de uma canção sentida num momento especial (quem não tem uma música que considera a sua?)… um livro que descreveu de uma forma de tal maneira real determinada situação que nos fez entrar nele e fazer de nós próprios a personagem principal…  um simples conjunto de traços que formaram um desenho que nos fez soltar um “Uau!!” … um filme que nos levou às lágrimas e nos fez suspirar por determinada atriz (ou actor)… uma peça de teatro que também nos levou às lágrimas mas de tanto rirmos… uma jogada de génio de um futebolista, basquetebolista ou jogador de ténis… uma dança de tal forma harmoniosa que nos fez levitar como uma pena ao vento… uma voz de arrepiar numa simples emissão de rádio.
  

Superstições à parte, e mesmo sendo um ano bissexto, 2016 está a ser difícil, e difícil pelo partir das tais referências. Ainda assim, essas mesmas referências, deixam um legado que faz com que se tornem imortais, nem que seja nas nossas próprias memórias.

Nos nossos dias são principalmente as redes sociais que fazem com que o luto sentido com o desaparecimento de uma dessas pessoas, que denominam de “famosos”, seja ainda mais intenso e prolongado no tempo. Proliferam os comentários, os “posts” de vídeos, as imagens com os rostos com pequenas frases associadas aos indivíduos, tudo isso se revela um motivo para o homenagear e assim prolongar no tempo a memória do mesmo.
 
Quando num acidente de viação no tão propalado “Tunnel de l’Alma” em Paris faleceu a princesa Diana de Gales, o mundo ficou em estado de choque, não só por ser a pessoa mais fotografada por “paparazzis” em todo o mundo, mas por ser uma pessoa boa de quem toda a gente gostava e dotada da humildade que normalmente a sobranceira realeza não tem.
 
Superstições à parte, e mesmo sendo um ano bissexto, 2016 está a ser difícil, e difícil pelo partir das tais referências. Ainda assim, essas mesmas referências, deixam um legado que faz com que se tornem imortais, nem que seja nas nossas próprias memórias. Em Portugal José Boavida, Nicolau Breyner e Francisco Nicholson deixaram o sorriso, a simpatia e os ensinamentos a muitos realizadores e escritores, actores e actrizes em ascensão… Nuno Teotónio Pereira deixou o nosso país mais rico pela sua arquitectura… O mundo ficou melhor com o legado musical deixado pelo camaleónico David Bowie e pelo multi-instrumentista Prince… beneficiou com o brilhantismo de Johan Cruijff no futebol, com a voz e a extraordinária representação de Alan Rickman no teatro e no cinema e com o fantástico discorrer de palavras do notável Umberto Eco.
 
E porque esta gente merece e todos somos gente… até sempre, nossa gente!!!
 
* Professor Luís Parente

Encontro com Freud - Crónica XI

Escrito por quinta, 21 abril 2016 17:24
Encontrei-me com Freud, para reflectir sobre o envelhecimento, o que é isto de envelhecer? Da idade nos trazer obrigatoriamente, mais experiência, mais conhecimento, mais tolerância, menos preconceitos, mais maturidade, menos saúde e mais dependência… Ou não. Se imaginarmos o nosso organismo e a nossa mente, enquanto máquina, compreenderemos facilmente que a forma como a desgastamos ao longo da vida, influencia o envelhecimento da mesma. No entanto, e no que à minha área diz respeito, o envelhecimento como processo natural também está dependente da forma como ao longo da vida, e até ao dia de hoje, nós expressámos emoções, aprendemos e apreendemos dos outros o melhor de todos, como tolerámos atitudes, crenças, culturas e gostos diferentes dos nossos, como gerimos conflitos nos vários contextos em que nos movemos. Por outro lado, como lidámos com as perdas, separações, mortes, entre tantas outras. O que escolhemos, para nós mesmos? Foi efectivamente o que decidimos naquele momento ou fomos pressionados por vontades alheias as quais não quisemos ou não conseguimos contrariar? O tempo passa, olhamos para trás e tendemos a ver o que não conseguimos, o que perdemos, o que não fizemos bem, então pergunto, e o que alcancei mesmo quando achei que já não tinha forças, e o que ganhei quando achei que já não haveria nada para mim, e o que perdoei quando num reencontro sorri e me deixei ficar?
 

E pode ser uma eternidade, porque a tolerância torna-nos mais leves, o respeito torna-nos mais humanos, o amor torna-nos mais livres e a compreensão torna-nos mais sábios.

Somos filhos de um tempo, num tempo que é de todos, onde bebemos das fontes mais diversas e únicas, porque também elas são filhas de um tempo, num tempo que foi de todos. Então, “eu não sou do tempo”, não, eu recuso-me a ser de um tempo, como algo estático, que não avança, que não progride, que não evolui, que não aprende, que não se adapta, que não escuta, que não vê, que não ouve, recuso … o meu tempo é hoje, o meu lugar é este ou outro qualquer porque estarei sempre a tempo de, enquanto viver, fazer do tempo um lugar qualquer. Beber das mesmas fontes e de outras fontes quaisquer, aprender no tempo o que ainda não sei, receber do tempo o que ainda não tive, tolerar e aceitar com tempo o que é diferente de mim, acarinhar e guardar todo o tempo que estiveres aqui.
 
E pode ser uma eternidade, porque a tolerância torna-nos mais leves, o respeito torna-nos mais humanos, o amor torna-nos mais livres e a compreensão torna-nos mais sábios.
 
* Psicóloga Helena Chouriço
 

A paisagem e as escolhas

Escrito por sexta, 15 abril 2016 01:10
Tudo muda devido às escolhas que fazemos. Tanto a nossa vida pessoal e profissional, como a vida dos outros que se atravessam nas nossas escolhas. Da mesma forma, também todos nós mudamos, quando fazemos parte das escolhas dos outros ou simplesmente quando também nos atravessamos nos seus caminhos.
 
Apenas não escolhemos nascer. No entanto, essa dádiva também resulta de uma escolha que os nossos pais fizeram: perpetuar, através de outra vida, o seu material genético.
 
Escolhemos os amigos, quem queremos amar, nalguns casos com quem queremos casar, se queremos ou não ter filhos, também nalguns casos naquilo em que queremos trabalhar, onde, quando e com quem queremos ir... Bem ou mal, a nossa vida é feita de um número infinito de opções, muitas delas tomadas sem que sequer nos apercebamos que estamos a escolher.
 
O que temos certo é que as escolhas terão sempre consequências. Por isso, precisamos de refletir nas escolhas que fazemos, pois certamente elas mudarão para sempre as nossas vidas e, eventualmente, a vidas de muitas outras pessoas. E é preciso que estejamos conscientes de que não há possibilidade de voltar atrás, por muito que nalguns casos se tentem remediar ou mitigar os efeitos das nossas decisões.
 
Uma vez que a paisagem resulta da ação humana, também ela evolui em função das escolhas que o Homem faz, em determinado tempo e espaço. Quando intervenho na paisagem, seja à escala do território seja à escala de um pequeno jardim, tenho à minha disposição um conjunto de opções que irão determinar a configuração, a imagem, desse espaço de intervenção. Se optar por não introduzir um elemento de água num jardim, a minha escolha determinará mais aridez e menos frescura. Se, pelo contrário, optar por criar um plano de água estática, o espaço e quem o vive nunca poderão experimentar as ambiências e sonoridades da água em movimento. Se decidir utilizar pavimentos em calçada de mármore, a imagem será naturalmente diferente daquela que se obtém ao construir uma calçada em granito. Se optar por introduzir árvores de folha perene num parque, a sua sombra será deliciosa no verão, mas de nada servirá durante os frios dias de inverno. Se, num determinado plano de ordenamento do território, escolher uma determinada localização para a passagem de uma via rodoviária, para a instalação de um equipamento público, uma zona industrial ou qualquer outra infraestrutura, estou ciente de que as mesmas terão sempre impactos positivos e negativos na paisagem, independentemente das suas eventuais mais valias económicas, sociais ou ambientais. 
 
Muitas vezes escolhemos por uma questão de gosto pessoal, mas não menos vezes somos obrigados a optar em função do gosto dos outros. É muito frequente em arquitetura paisagista, quando nos encomendam um determinado projeto, mas também é assim em inúmeras outras situações do nosso dia-a-dia e muito especialmente quando se tratam de escolhas políticas. 
 

Todos temos um papel a desempenhar na paisagem, com maior ou menor importância e intervenção, com mais ou menos possibilidades ou oportunidades, mas igualmente importante e necessário para que ela funcione. As escolhas que fizermos determinarão se a paisagem funciona melhor ou pior. Mas não nos iludamos: seja qual for o papel que desempenhemos na paisagem, ela continuará a existir sem a nossa presença.

É neste campo da política que mais frequentemente as escolhas são alvo de opiniões contraditórias. É perfeitamente legítimo ter opinião contrária, mas também é legítimo que os outros possam escolher de forma diferente. O que acontece quase sempre é que, por muito boas que certas escolhas sejam, ou nos pareçam ser, não são as que os outros fariam e, por isso, opomo-nos a elas. Por que se vendeu, por que se comprou, por que se construiu, por que se isentou ou não, por que se optou por esta ou por aquela estratégia... Temos que ter noção de que estas escolhas, sejam elas quais forem, foram eventualmente objeto de estudo, de planeamento e de análise aprofundada acerca dos prós, dos contras e das consequências. É o processo natural de quem tem que tomar decisões políticas, todas elas legitimadas por uma escolha anterior - a das pessoas que deram, através do voto, a sua confiança a quem tem que tomar estas opções políticas. Seria muito bom que todos escolhêssemos respeitar essas opções, por mais que não concordemos com elas.
 
Assim, e devido à relação que as nossas escolhas têm com as dos outros, parece-me que tão importante como escolher é saber respeitar as escolhas que os outros fazem. Digo isto com a consciência de que, muitas vezes, não o faço. Faz parte da natureza humana ser assim e eu sou humano. Mas esforço-me todos os dias por tentar entender as escolhas dos outros e é por isso que, na maior parte das vezes, não critico, não me oponho, não me importo com elas. É, também, uma escolha que faço.
 
Outras vezes, porém, escolho ter voz ativa, interferir, participar, dar a minha opinião sobre determinadas escolhas. Não me podem censurar por isso. É também uma escolha que faço e saberei viver com as consequências que daí advém. Faço-o porque, desde muito cedo, escolhi fazer parte da solução e não do problema. 
 
As nossas escolhas farão parte da nossa história e deixarão sempre marcas na paisagem, de forma mais ou menos vincada, em função da dimensão da nossa atuação na vida pessoal e em comunidade. Todos temos um papel a desempenhar na paisagem, com maior ou menor importância e intervenção, com mais ou menos possibilidades ou oportunidades, mas igualmente importante e necessário para que ela funcione. As escolhas que fizermos determinarão se a paisagem funciona melhor ou pior. Mas não nos iludamos: seja qual for o papel que desempenhemos na paisagem, ela continuará a existir sem a nossa presença. Tal como escreveu José Saramago, na epígrafe de "A Viagem do Elefante", "sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam". É o que temos mais certo e, tal como nascer, não depende da nossa escolha.
 
Se estivermos conscientes disso, de certeza que daremos mais atenção às nossas escolhas e que conseguiremos respeitar as escolhas que os outros fazem. A vida é curta demais para que a vivamos sempre mais preocupados a questionar as opções alheias.
 
* Arquiteto Paisagista António Serrano
 

As Voltas que dou ao Rossio

Escrito por quarta, 13 abril 2016 01:41

Conversar é sempre uma boa alternativa. Num mundo em que estamos cada vez mais isolados, apesar de estarmos ligados de mil e uma maneiras, o simples acto de conversar é gratificante. No À Volta do Rossio, programa que conduzo há três anos na Rádio Despertar e onde tive a responsabilidade de substituir o José Gonçalez, tenho essa possibilidade. Tenho a possibilidade de convidar alguém e conversarmos, aparentemente sozinhos, mas muito bem acompanhados.

O acto de, simplesmente, conversar, é hoje uma coisa rara e este programa permite isso mesmo. Permite que se conheça quem por vezes estã tão próximo de nós mas que conhecemos mal. Permite dar a conhecer alguém que, simplesmente, é bom no que faz e pode servir de exemplo para tantos outros.

Este programa tem sido, também, uma excelente oportunidade de perceber o trabalho e a carreira de muita gente. Tenho percebido que há muito talento, trabalho...e pouca sorte. A sorte dá muito trabalho e em cada convidado entendo isso. A sorte procura-se e é uma mistura de talento, oportunidade e trabalho. Tenho conhecido homens e mulheres que são bons naquilo que fazem. Tenho conhecido jovens, por exemplo de Estremoz, que estão a dar cartas na área em que sonharam trabalhar. Grande parte deles, são bons exemplos e admirados pelos mais próximos. 
 
Nas voltas que dou ao Rossio, também cresço. Aprendo bastante e divirto-me. Tiro, acreditem, bastante partido destas conversas. Aprendo porque saio de cada conversa a saber mais. Divirto-me, porque tenho muitas vezes a oportunidade de entrevistar amigos pessoais e estar com os amigos é sempre divertido. Também, na maior parte das vezes, fico a admirar ainda mais a pessoa que convidei para conversar. Lembro-me, por exemplo, de ver a emoção nos olhos de muitos deles. Lembro-me do Sr. Humberto Frade a recordar, com lágrimas nos olhos, os tempos de jogador de futebol em Angola. Registo, com muito agrado e orgulho, a presença no programa de antigos colegas de escola. É bom sinal. Com colegas de profissão, que tenho também trazido ao programa, tenho aprendido bastante. Com empresários de sucesso, tenho percebido o porquê desse mesmo sucesso. Temos conhecido também o outro lado de políticos. Com músicos, ouvimos música, conversamos e percebemos o caminho da cada um. Com professores, voltamos a aprender e recordamos os tempos de estudante. Com amigos, por vezes esquecemo-nos que estamos na rádio. 
 
Há três anos atrás, quando comecei a dar estas voltas ao Rossio, não tinha noção do que iria ter para frente. Numa época tão marcada pelo isolamento em redor das novas tecnologias, a rádio permite que apenas se converse. Parece pouco, mas não é. O acto de, simplesmente, conversar, é hoje uma coisa rara e este programa permite isso mesmo. Permite que se conheça quem por vezes estã tão próximo de nós mas que conhecemos mal. Permite dar a conhecer alguém que, simplesmente, é bom no que faz e pode servir de exemplo para tantos outros. É um programa feito pelos convidados e para os ouvintes. A rádio, felizmente, permite essa relação única.
 
*Jornalista José Lameiras
 

"Hoje vou ser... Cronista!"

Escrito por terça, 05 abril 2016 19:41
No passado dia 21 de Março, assinalou-se o Dia Mundial Contra a Discriminação, e no âmbito do projecto de férias “Hoje Vou Ser”, fomos “comentadores”. Com o José Lameiras, na Rádio Despertar - Voz de Estremoz, debatemos o tema da discriminação, moderado pela coordenadora do nosso ATL, a Dra. Lena Chouriço.
 
Através de uma outra parceria com o “Ardina do Alentejo” passamos agora também a ser “Cronistas”, ou seja, juntámos as nossas ideias sobre o tema e o resultado do nosso debate, que aqui deixamos a todos os leitores.
 
Os comentadores e cronistas são Maria Inês Lopes, Marta Carujo, Daniel Balejo, Luís Parreira, João Pirra e Daniela Rodrigues, todos com idades compreendidas entre os 10 e os 16 anos.
 
Relativamente ao tema, o conceito para nós de Discriminação é uma certa pessoa discriminar outra, por ser de uma etnia diferente ou pela sua maneira de ser. Por exemplo, quando mudamos de escola, devemos fazer amigos. Já vimos amigos da nossa escola serem maltratados, do tipo “gozar”. Uma das formas para resolver isto é falar com um adulto, cara a cara, sem violência.
 
Nós não concordamos que as pessoas devam discriminar as outras por vestirem roupas de marca, ou por calçarem ténis sem qualidade, porque isso não tem nada a ver, porque não é só fisicamente que nós vamos descrever as pessoas, porque o que importa é o que somos. Há escolas que defendem o uso de uma farda, mas nós achamos que não é por aí, vai sempre haver preconceito. Mas temos de arranjar forma de o combater, é difícil mas alguém tem de começar. Tipo, não há pessoas iguais, cada um faz o que quer e o que gosta, dependendo da personalidade da pessoa.
 
Uma pessoa quando é discriminada sente-se triste, sozinha, magoada e deixa marcas. Nunca vai esquecer aquilo que lhe fizeram e vai sempre lembrar-se disso. As pessoas que não dizem, nós pensamos que é por vergonha e por medo e choram, mas chorar  alivia. O nosso dever é proteger.
 
As duas pessoas têm um problema. A que discrimina, porque isso é mau, e a que se cala, porque devemos expressar o que sentimos.
 
Tem de haver coragem para denunciar essas situações, falando com os Professores, fazendo participações. Fora da escola temos a polícia.
 
Nós podemos dar o exemplo, não discriminando ninguém. Sem amigos ninguém sobrevive.
 

Alguém se voluntaria?

Escrito por segunda, 04 abril 2016 02:08
Quando esta pergunta é formulada por alguém, sinto que a maioria, para não dizer 99% das pessoas, tenta esconder-se atrás de quem está à frente para não ser visto ou, estando na primeira fila, desviar o olhar para não o cruzar com quem formulou a questão, “não vá o diabo tecê-las” e decidir o interlocutor chamar-nos e tornar-nos voluntários à força. A este propósito relembro que há uns anos atrás fui com as minhas filhas ao circo e, num número de um palhaço, perante uma assistência “praí” de 200 ou 300 pessoas, o palhaço escolheu 3 pessoas… adivinhem quem era uma dessas pessoas… pois é, eu mesmo. Logo eu que estava na última fila lá mesmo no cimo… Não me fiz de rogado e lá fui com o meu espírito de brincalhão aceder às palhaçadas propostas pelo palhaço-mor. Acabou por ser uma experiência divertida que pôs toda a gente a rir mas, para ser sincero eu fui um daqueles 99% a tentar esconder-se atrás dos outros. Pois é, nem sempre o facto de nos escondermos nos serve de muito, aliás, acredito mesmo que não é por nos escondermos que as coisas não nos podem acontecer.
 

O voluntariado pode ser exercido em casa, junto da família, dos amigos, na rua, no bairro, na escola, na igreja de cada um, no clube, na política, nos demais movimentos associativos. De certa forma em qualquer lugar e hora esse exercício de cidadania pode ser realizado.

Isto de ser voluntário para coisas que aparentemente nos escapam por não sabermos para o que vamos, tem muito que se lhe diga. Mesmo para aquilo que se sabe já parece ser difícil ser-se voluntário. Muitas vezes diz-se “- Mais valia estar sossegado no meu cantinho que tinha com certeza menos trabalho!”. Até pode ser verdade mas o sal da vida pede-nos para intervirmos, eu pelo menos dificilmente rejeito um desafio onde sinto que posso ser útil. É importante sentirmo-nos úteis e contribuirmos para o bem estar dos outros. Aliás, a convivência social e as nossas próprias vidas impelem-nos para isso mesmo, para a partilha de serviços, de ajuda, de comunicação. No fundo, por intermédio desse voluntariado, há relações sociais que evoluem, relacionamentos que se solidificam.
 
Segundo a lei portuguesa voluntariado é “… o conjunto de acções de interesse social e comunitário realizadas de forma desinteressada…”. Na realidade o voluntariado está ligado umbilicalmente ao trabalho, ainda que o mesmo seja não remunerado e funcione como um complemento ao trabalho que é desenvolvido pelas administrações, sejam elas públicas ou privadas.
 
O voluntário vê-se em todo o lado, cruza-se diariamente connosco. Ainda que oculto nas horas e nos minutos que passam por nós, ele está ali, alerta, pronto a intervir e, se assim for, disposto a dar a vida pelos outros. Veja-se o caso dos Bombeiros que para salvarem os nossos bens arriscam a vida, eles que, de quando em vez, tanta dificuldade têm em arranjar voluntários, a Cruz Vermelha, a Cáritas, as Misericórdias, enfim uma panóplia de instituições que funcionam com o apoio voluntário de muitas pessoas que continuam a despender o seu tempo em prole do bem estar comunitário. Foram-se criando os úteis Bancos do Tempo para simplesmente o trocar. Esse tempo é tempo também voluntário, tempo trocado por serviços e acções que ajudam o próximo.
 
O voluntário não tem idade. Ainda que muitas das leis internacionais restrinjam a ajuda voluntária a menores de 18 anos, eu acredito que o voluntário também é criança e jovem, não somente adulto e até mesmo idoso. O voluntariado pode ser exercido em casa, junto da família, dos amigos, na rua, no bairro, na escola, na igreja de cada um, no clube, na política, nos demais movimentos associativos. De certa forma em qualquer lugar e hora esse exercício de cidadania pode ser realizado. No entanto há que ressalvar a diferença entre o voluntariado formal e informal. O primeiro é aquele que é feito junto das organizações sem fins lucrativos, o outro é o individual, o do dia-a-dia. 
 
O altruísmo acaba por ser, consequentemente com o voluntariado, um dos grandes impulsionadores das organizações não-governamentais, as chamadas ONG’s. Elas desenvolvem papéis de extraordinária importância num mundo demasiadamente desigual como é o nosso. 
 
Todos somos um bocadinho voluntários quando, por exemplo, doamos sangue, quando oferecemos livros, quando ajudamos a limpar florestas, quando contribuímos como “curadores” de idosos, quando ajudamos o velhote a atravessar a rua, ou quando simplesmente reciclamos. São demasiados os actos voluntários que o comprovam, basta intervirmos civicamente, de uma forma simples ou até científica, educativa, saudável, cultural, desportiva, protectora, tolerante. O voluntário pode sê-lo por inúmeros motivos, por convicção, por caridade, por educação, por fé, por amor, no fundo basta que no ADN esteja um bocadinho de personalidade, basta que se tenha prazer em ajudar os outros, os mais vulneráveis, os mais necessitados. O que é certo é que nunca saberemos se esses necessitados não poderemos ser nós um dia. Talvez como forma de agradecimento, não raras vezes, o acto voluntário é replicado por quem já um dia usufruiu directamente da ajuda.
 
Trabalhar de forma a poder minimizar o impacto do mundo na vida das pessoas é com certeza uma das gratificações que o voluntário sente, outra será a de se sentir bem consigo próprio depois de ter cumprido esse seu desígnio.
 
Mais do que nunca, nos dias de hoje é importantíssimo constar num simples curriculum vitae de candidatura a um emprego, a participação voluntária em actividades colaborativas ou de cooperação social. 
 

Trabalhar de forma a poder minimizar o impacto do mundo na vida das pessoas é com certeza uma das gratificações que o voluntário sente, outra será a de se sentir bem consigo próprio depois de ter cumprido esse seu desígnio.

Talvez pelo facto de trabalhar com crianças e jovens, eu próprio seja sensível ao trabalho voluntário desempenhado em prole da sua ocupação de tempos livres. Desde o trabalho desenvolvido em instituições religiosas, clubes desportivos e culturais e associações de diversa índole, destaco a transmissão de valores como elemento preponderante de cada uma das acções por eles desenvolvidas. 
 
Para o desenvolvimento da minha personalidade tenho que dar enfase aos movimentos católicos por onde andei, dos grupos de jovens aos escuteiros (dos quais fiz parte do primeiro grupo da minha cidade há mais de trinta anos), devo realçar o fantástico trabalho voluntário prestado por aqueles monitores, um trabalho que moldou consciências, formou pessoas, desenvolveu em muitos de nós o companheirismo, a lealdade, a fraternidade, a solidariedade, os laços de amizade que ainda hoje perduram, a entreajuda, a moral, a ética, a resistência, apurou-nos os sentidos, trouxe-nos humildade, honestidade, liberdade, fez-nos procurar a verdade, fez com que nos “desenrascássemos”, desenvolveu-nos a criatividade, o respeito pelo próximo e pela natureza, trouxe-nos sobretudo humanidade, responsabilidade e capacidade de intervenção.
 
Dos muitos ensinamentos que retirei na minha juventude partilho convosco um excerto da última mensagem de Baden-Powell, o fundador do escutismo, palavras essas que, ainda hoje, fazem parte da forma como vivo a minha vida: “Contentai-vos com o que tendes e tirai dele o maior proveito que puderdes. Vede sempre o lado melhor das coisas e não o pior. Mas o melhor meio para alcançar a felicidade é contribuir para a felicidade dos outros. Procurai deixar o mundo um pouco melhor de que o encontrastes e quando vos chegar a vez de morrer, podeis morrer felizes sentindo que ao menos não desperdiçastes o tempo e fizestes todo o possível por praticar o bem.
 
O trabalho voluntário daqueles monitores conseguiu que cada um de nós moldasse o seu próprio carácter e conseguisse ter a capacidade para agradecer. Eu fiquei com a capacidade de reconhecer essa gratidão e por isso mesmo, a todas as pessoas que caminharam ao meu lado só lhes posso expressar uma palavra… OBRIGADO!
 
*Professor Luís Parente
 
 

Um ensaio sobre a cegueira

Escrito por sexta, 18 março 2016 01:21
Durante a apresentação de mais uma iniciativa que vai acontecer na nossa cidade, o projeto Miss Estremoz, integrado na organização da Miss Portuguesa 2016, disseram-me que Estremoz tem atualmente uma das melhores dinâmicas culturais do Alentejo. É algo que me deixa muito feliz e orgulhoso, como estremocense, e com o qual concordo em absoluto.
 
Não percebo, por isso, por que razão algumas pretensas personalidades desta terra continuam a procurar fazer passar a ideia de que em Estremoz nada acontece e que não existe "cultura".
 
Em primeiro lugar, o que se entende por Cultura? Será que o fazer Cultura se esgota apenas na realização das ditas "iniciativas culturais"? Na realização de eventos ou atividades artísticas? Não. Cultura é mais, muito mais...
 

Sempre ouvi dizer que o maior cego é aquele que não quer ver. No que me diz respeito, continuarei a tentar ver mais além e a combater acerrimamente todos aqueles que teimem em continuar na sua cegueira, pelo menos enquanto houver pessoas cujo único objetivo é tentar afundar o barco, ao invés de ajudar a remar para que ele chegue a bom porto e a criar algo culturalmente positivo.

Obviamente que não será necessário munirmo-nos de um dicionário da Língua Portuguesa e procurar o significado do termo para perceber isso. Cultura terá sempre que ser entendida como todas as interações entre o Homem e o seu meio envolvente, ou seja, a paisagem. O próprio conceito de paisagem encerra em si uma forte componente cultural, uma vez que aquela resulta do somatório das diversas manifestações naturais (solo, ar, água, vegetação, fauna...) com as atividades humanas que decorrem nesse suporte biofísico. Assim sendo, à exceção dos elementos que a Natureza fabrica sem a intervenção do Homem, podemos dizer que todos os restantes elementos que existem na paisagem e que resultam da sua humanização, são formas de Cultura.
 
A oliveira é um elemento natural. Não temos quaisquer dúvidas em relação a este facto. No entanto, o olival plantado pelo Homem é um elemento cultural, pois resulta da manipulação de um elemento natural para atingir um fim produtivo e útil para a humanidade. Plantar um olival também é fazer Cultura, se a entendermos como um conjunto de respostas, contrastantes com a Natureza, para satisfazer as necessidades e os desejos humanos.
 
A Cultura é, assim, um conjunto de ideais, símbolos, comportamentos e práticas humanas que são transmitidas de geração em geração, através da nossa vivência em sociedade. Por isso, fazer Cultura é criar algo. Criar espaço, criar formas, criar nova vida, criar alternativas, criar soluções, criar vontades, criar utilidade, criar prazer, criar lazer, criar trabalho, criar identidade... deixar a nossa marca no tempo e no espaço em que vivemos e transmitir os nossos conhecimentos às gerações seguintes, que os poderão utilizar ou renovar.
 
Todos os dias estamos a conceber Cultura e em Estremoz obviamente isso também acontece. Seja através das criações dos indivíduos, das famílias, das coletividades, das empresas, das escolas, das instituições públicas e privadas ou da comunidade.
 
No desenvolvimento cultural de uma comunidade parece-me de grande relevância o papel das coletividades e dos municípios.
 
As coletividades, com mais ou menos história ou existência, pela forma como transmitem a outros indivíduos os mais diversos saberes e tradições da comunidade. No concelho de Estremoz existem cerca de meia centena de coletividades, desde ranchos folclóricos a clubes desportivos, sociedades filarmónicas, orfeão, grupos de dança, grupos de teatro, grupos musicais, comissões de festas, sociedades recreativas e muitas outras instituições que têm sabido, ao longo do tempo, criar a Cultura e a identidade estremocense. E continuam a fazê-lo muito bem. Não é à toa que praticamente todos os fins-de-semana existem inúmeras atividades organizadas pelas diversas coletividades, de acordo com as suas respetivas missões, para além das atividades que dinamizam durante os restantes dias da semana, quer se trate do ensino da música, do aperfeiçoamento das técnicas de dança, do treino desportivo ou pura e simplesmente do convívio entre os seus associados. 
 

...mesmo que eu fosse daqueles que entendem a Cultura de uma forma muito minimalista, continuaria sem perceber qual a razão que os leva a afirmar que em Estremoz não se faz Cultura. Ou a resumir, como alguns já o tentaram fazer, a atividade cultural do concelho de Estremoz a duas ou três iniciativas de carácter individual, independentemente do mérito que elas tenham ou que se lhes reconheça.

Aos municípios cabe gerir o desenvolvimento cultural do concelho, apoiar as atividades desenvolvidas pelas associações, divulgar e guardar conhecimento, recuperar património e, naturalmente, organizar atividades de enriquecimento cultural da comunidade. Em Estremoz, centenas de pessoas trabalham diariamente para conseguir atingir estes objetivos, designadamente nos Museus, no Arquivo Municipal, na Biblioteca, no Posto de Turismo, nos equipamentos culturais, nos equipamentos desportivos, e em muitos outros sectores da atividade administrativa e operacional do Município. Ainda que resumíssemos a Cultura apenas àquilo que é mais óbvio e comummente aceite como tal - as iniciativas ditas culturais - era-me impossível enumerar, no espaço que disponho para escrever, todas as atividades que o Município realiza anualmente e que contribuem para fazer Cultura, no âmbito das suas atribuições e competências (e, não raras vezes, muito para além delas).
 
Por isso, e mesmo que eu fosse daqueles que entendem a Cultura de uma forma muito minimalista, continuaria sem perceber qual a razão que os leva a afirmar que em Estremoz não se faz Cultura. Ou a resumir, como alguns já o tentaram fazer, a atividade cultural do concelho de Estremoz a duas ou três iniciativas de carácter individual, independentemente do mérito que elas tenham ou que se lhes reconheça. Isso será, no mínimo, ter uma visão muito redutora da Cultura e um total desrespeito para com todos os indivíduos, empresas, associações e instituições que todos os dias contribuem para o desenvolvimento cultural de Estremoz, nas suas mais variadas formas.
 
Desconheço se o fazem por ignorância, por mesquinhez ou simplesmente pela sua incapacidade de ver mais além, de fazer igual ou de fazer melhor do que aquilo que é feito. Ou talvez porque são daquele tipo de pessoas que apenas gostam de ser do contra, ou que se julgam entidades superiores e, por isso, acham que a sua opinião tem tão especial importância que deve ser partilhada...
 
Sempre ouvi dizer que o maior cego é aquele que não quer ver. No que me diz respeito, continuarei a tentar ver mais além e a combater acerrimamente todos aqueles que teimem em continuar na sua cegueira, pelo menos enquanto houver pessoas cujo único objetivo é tentar afundar o barco, ao invés de ajudar a remar para que ele chegue a bom porto e a criar algo culturalmente positivo.
 
* Arquiteto Paisagista António Serrano
 

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