quarta, 22 novembro 2017

Feliz Ano Novo!

Escrito por quinta, 15 setembro 2016 18:55
Feliz ano novo numa altura destas? É verdade! Para quem está, como eu, ligado à educação o ano civil confunde-se muitas vezes com o ano lectivo. E digo mais, se calhar, quem está deste lado, até dá mais importância ao ano que inicia em Setembro do que àquele que começa em Janeiro. É certo que tudo dependerá da intensidade com que se vive a educação e da forma como a transportamos na nossa vida. Hoje começa mais um ano lectivo para milhares de crianças e jovens do nosso país. O planeamento de um ano lectivo inicia-se muito antes do mesmo ter iniciado, tudo começa ainda dentro do ano anterior com o balanço emanado de inúmeras reuniões de debate sobre o que correu bem e menos bem durante o tempo efectivamente lectivo. Quando ouço, muitas vezes, as pessoas a comentarem a “boa vida” dos docentes fico, de certa forma, triste porque não considero essas críticas justas. Só quem está na área pode, com clareza e objectividade testemunhar o que aqui descrevo. O trabalho dos professores é intenso e, muitas vezes esgotante. Quando digo esgotante refiro-me ao sem número de funções burocráticas que o docente tem que desempenhar no seu dia-a-dia, ao preenchimento de inúmeros documentos que muitas vezes não se lhe reconhece utilidade. Com isto não quero dizer que alguns não sejam, na realidade, necessários e que facilitem posteriores situações. Se o professor só ensinasse e os alunos só aprendessem tudo seria menos complicado e menos esgotante. O que eu critico é o tempo que o professor dedica aos alunos. Na minha opinião o docente gasta demasiado tempo com essas tarefas burocráticas e administrativas e deixa para segundo plano aquilo que, no meu ponto de vista é essencial, o trabalho para e com os alunos. Eu que até reconheço e valorizo as virtudes das novas tecnologias chego a pensar que em muitos casos elas vieram dificultar ao invés de facilitar. Mas a realidade da educação nos dias de hoje é esta mesmo e é com ela que temos que viver, o que não quer dizer que não tenhamos opinião e não a possamos manifestar.
 

Ainda há dias aqui em casa, em conversa com amigos, alguns deles também ligados à educação, eu barafustei, resmunguei com o papel que o professor hoje desempenha, com o facto de haver colegas desterrados e longe das suas famílias e cheguei mesmo a manifestar a intenção de abandonar “tudo isto” se porventura o futuro me afastar do mais importante da minha vida que é a minha família.

Desde que iniciei a minha carreira já vi “passar” pela tutela da educação mais de uma dezena de ministros. Cada equipa que chega muda tudo e mais alguma coisa, de mandatos para mandatos andamos de experiências em experiências e a consolidação dessas mesmas experiências nunca é feita e nunca se sabe a médio/longo prazo o resultado das mesmas. Talvez por aí também o trabalho dos docentes não seja beneficiado em prole dos seus alunos e comece a haver uma certa desmotivação no próprio corpo docente. Quando ainda recentemente li que grande parte dos docentes, se pudesse, mudava de vida, reflecti e cheguei à conclusão de que o que acabei de descrever podem ser alguns dos motivos para que isso aconteça. Confesso que às vezes eu próprio também me apetece “sair”. Ainda há dias aqui em casa, em conversa com amigos, alguns deles também ligados à educação, eu barafustei, resmunguei com o papel que o professor hoje desempenha, com o facto de haver colegas desterrados e longe das suas famílias e cheguei mesmo a manifestar a intenção de abandonar “tudo isto” se porventura o futuro me afastar do mais importante da minha vida que é a minha família. Mas depois caio na real e penso que existem milhares que gostavam simplesmente de estar no meu lugar e, para ser sincero, não sou pessoa de desistir assim às primeiras. Vou lutar! E vou lutar porque gosto disto, não das papeladas e burocracias que me passam pela frente a toda a hora mas dos alunos e da relação que se estabelece com eles. Nós, muitas vezes conhecemos melhor as crianças e jovens que passam os seus dias connosco do que propriamente as suas famílias. Quando há pouco falava das injustas acusações com que muitas vezes os professores são confrontados referia-me ao papel, muitas vezes invisível que o professor desempenha no seu dia-a-dia. A educação não é só ensinar e aprender, a educação de hoje tem um sem número de vertentes e variáveis que se devem ter em conta. O descrédito dado aos docentes, a sua perca de autoridade, a forma como muitas das vezes os mesmos são tratados na opinião pública, pelos meios de comunicação social, por alguns pais, famílias, encarregados de educação e até mesmo pelas sucessivas equipas ministeriais não valoriza nem credibiliza a complexa miríade de funções que o docente desempenha junto dos seus alunos. Ser professor é ser professor, é ser psicólogo, pai, mãe, tio, avó, amigo, vizinho, assistente social, juíz, transmissor de afectos, educador, confidente… ser professor é ser um guia, um confessor, um sociólogo, um analista… ser professor é ser dono do tempo, é viajar até ao fim do mundo, é rir, chorar, cantar, dançar, correr… ser professor é perguntar, responder, transformar, pintar, crescer… ser professor é motivar, é ensinar a lidar com os sucessos mas também com os fracassos… é ter convicção, inovar, abraçar, é alargar horizontes, é mostrar caminhos… ser professor é lidar com bons comportamentos mas também com comportamentos disruptivos, é mediar expectativas, é trabalhar para resultados, é usar distintas terminologias, é falar de diferentes formas… ser professor é trabalhar sem recursos, é trabalhar com manuais, com recursos multimédia, é avaliar processos, fazer introspecção, é ter a capacidade de fazer uma constante auto-avaliação, é ser capaz de trabalhar tanto com métodos quantitativos como qualitativos, é fazer formação para melhorar estratégias de acção, é viver com rotinas, sem rotinas… ser professor é ultrapassar obstáculos, é trabalhar com turmas grandes e com turmas pequenas, é trabalhar com brancos, pretos, amarelos, ciganos, russos, árabes, é trabalhar com ricos, com pobres, com pessoas com dificuldades cognitivas, de locomoção, com deficiência visual e auditiva… ser professor é tudo isto e mais uma panóplia de coisas. Digam-me agora que a profissão docente não é intensa, muitas vezes esgotante e de uma enorme exigência! Acredito piamente que mais de noventa por cento dos professores têm a preocupação em dar tudo isto aos seus alunos, acredito que eles dão o melhor de si, não só transmitindo-lhes os seus conhecimentos mas dando-lhes, inúmeras vezes, a tal orientação de que as famílias muitas vezes se “esquecem” de dar. Sobre tudo isto até me podem dizer que, como sou professor, estou unicamente a defender a minha classe. Meus amigos, se há classe mais desunida, é a nossa. Basta vermos a quantidade de sindicatos que existem para nos defender. Se fossemos realmente unidos um bastava para defender os nossos interesses.
 

Uma vez que os docentes têm a capacidade de fazer tudo isto, têm que ter a capacidade para também entenderem que cada vez mais as aulas não podem ser iguais para todos os alunos. Cada pessoa é uma só e os alunos não fogem à regra. Cada vez mais me convenço que o ritmo de cada um é distinto e a experiência tem-me revelado precisamente isso. O professor não pode fechar-se no seu “ninho” e ousar pensar e acreditar que é sempre eficaz nas suas decisões e na forma como vive a sua Educação. Também erramos, também falhamos mas uma coisa é certa, temos que ter a capacidade de nos renovarmos. Não estou aqui, de forma alguma, a pôr em causa as capacidades e a competência pedagógica de cada um, unicamente acho que temos que ter a capacidade de reconhecer o erro.
 
Fala-se muito na educação da Finlândia como sendo a que melhores resultados apresenta em todo o mundo. Acerca disto às vezes ponho-me a pensar: Será que os nossos alunos não estarão fartos do nosso tipo de ensino com demasiado tempo na escola, com um currículo demasiadamente cheio e sem tempo para poderem sequer brincar, tal não é o conjunto de actividades escolares e extra escolares que eles têm? Será que não seria mais benéfico se lhes dessemos a liberdade de os deixarmos brincar até chegarem ao ponto de se “aborrecerem” para que eles próprios sentissem individualmente a necessidade de procurar saber mais e mais? Será que resultava num tipo de ensino mais apelativo? Será que no nosso país funcionaria? Se querem que vos diga também não sei mas com tantas experiências que já foram feitas não me chocava nada se apostassem numa desta natureza.
 

O sucesso dos nossos alunos não pode passar só pela parte académica, esta é importante, sem dúvida, mas o que nos interessa sermos superinteligentes e saber tudo e mais alguma coisa se depois não temos a capacidade de sermos humildes e ajudar os outros, de reconhecermos erros, de assumirmos responsabilidades, de sermos bem-educados, cordiais, simpáticos.

A este propósito e dado o extenso currículo do ensino em Portugal parece-me que por vezes se dá pouca importância àquilo que considero primordial que é a aposta na formação pessoal de cada um dos alunos que nos passam pelas mãos, o tentar fazer com que sejam pessoas equilibradas, responsáveis e assumam sem subterfúgios e receios as suas responsabilidades… o tentar fazer com que sejam honestos e humildes, dinâmicos, activos, trabalhadores e esforçados, respeitadores e justos, solidários e empreendedores. No fundo tentar fazer com que sejam boas pessoas.
 
O sucesso dos nossos alunos não pode passar só pela parte académica, esta é importante, sem dúvida, mas o que nos interessa sermos superinteligentes e saber tudo e mais alguma coisa se depois não temos a capacidade de sermos humildes e ajudar os outros, de reconhecermos erros, de assumirmos responsabilidades, de sermos bem-educados, cordiais, simpáticos. Na minha opinião a humanização da educação é tão importante quanto a importância que se dá aos currículos e às metas.
 
É certo que não há maior satisfação profissional como aquela que sentimos quando vemos que os alunos que um dia estiveram connosco a partilhar também os seus conhecimentos (sim porque eu não consigo ensinar sem deles também aprender todos os dias) – a partilhar as suas dúvidas, as suas alegrias, tristezas, os seus segredos, as suas birras, os seus primeiros namoricos, no fundo a infância e a adolescência das suas vidas, não há, efectivamente, maior satisfação para nós do que vê-los vencer na vida… dá-nos um gozo especial, é certo, quando entram na Universidade mas, quer entrem na faculdade e se tornem investigadores, médicos, enfermeiros, gestores, professores, arquitectos, quer façam um percurso diferente e sigam a vida militar, as artes, a música, quer criem o seu posto de trabalho ou trabalhem por conta de outrem, quer sejam cozinheiros, empregados fabris, agricultores, sapateiros ou até varredores, a maior satisfação é vê-los pessoas… pessoas na verdadeira acepção da palavra com todos os verbos, substantivos e adjectivos que a si se podem agregar.
 
Sabemos que deixamos “marcas” nos nossos alunos quando nos encontram em qualquer lugar e se dirigem a nós para nos cumprimentar e falar um pouco sobre as conquistas das suas vidas.
 
Li algures que ser professor também é isto… “sentir-se realizado e feliz com as conquistas dos nossos alunos”
 
Para o ano lectivo que hoje se inicia desejo a todos: docentes, técnicos que colaboram nas escolas, alunos, assistentes operacionais e técnicos (que desempenham um papel importantíssimo no dia-a-dia das escolas) parceiros e famílias um Feliz Ano Lectivo!!!
 
* Professor Luís Parente
 

Este mundo está uma “merda”!

Escrito por quinta, 18 agosto 2016 15:46
Quem lê um título como este imagina que a pessoa que o escreve é uma pessoa triste, desiludida com a vida, que liberta fel por todos os poros, ou então que está cansada, chateada, stressada, sozinha ou mesmo desiludida com o seu mundo. Na realidade, apesar de ser o oposto de tudo isto, sinto-me efectivamente magoado com este mundo. Depois de ver e ouvir as constantes notícias de barbaridades que se passam por este planeta fora, pergunto-me muitas vezes… que mundo é este em que vivemos?... o que está a humanidade a criar?
 
Vejamos então… Ainda que cada pessoa deva ter a sua 
forma de pensar e ter o direito de usar o seu pensamento para aquilo que lhe aprouver, não consigo compreender como é que as pessoas têm dificuldade em utilizar essa maravilhosa capacidade de pensarem por si próprias e preferem enveredar pelo fácil seguidismo. Nos Estados unidos da América, por exemplo, foi recentemente nomeado pelo partido republicano, como candidato à presidência do país, uma pessoa que, na minha opinião, é desprovida de qualquer tipo de sensibilidade e como consequência sem capacidade para presidir um dos países mais influentes do mundo. Pior do que isso é a sociedade que foi criada para que essa situação fosse hoje possível, não se conseguindo discernir um propagandista, aproveitador e ainda por cima xenófobo que se arrisca a ser presidente (lagarto… lagarto… lagarto) daquele que por muitos é considerado o país mais multicultural e multiétnico do mundo. Será que as pessoas não vêem que o mundo não é um reality show? Aliás, esse fácil seguidismo parece que é uma regra e existe por todo o espectro político-partidário, pelos vistos, e obviamente, não só no que à realidade nacional diz respeito. É por isso que a política cada vez mais me desilude. Porque é que uma proposta de lei que beneficia os cidadãos e é apresentada por um partido seja de direita ou de esquerda não permite ao cidadão eleito pelas pessoas, “vulgo” deputado, decidir em sua consciência e não ir atrás do que o seu partido quer? Poder-me-ão dizer que são as regras dos partidos e que o cidadão/deputado quando foi eleito já as conhecia e teria que as cumprir. E pergunto eu… mas afinal não é uma pessoa que é eleita? É mais importante um partido ou as pessoas? Mudem-se as regras dos partidos então! A própria palavra “partido” já nos diz que há algo que está fragmentado, dividido. Então se assim é porque não pode expressar o cidadão/deputado o seu voto em plena liberdade de consciência, mesmo que “o seu fragmento” seja diferente dos do seu partido? Na minha singela opinião, todo o mundo teria a beneficiar se assim fosse. Dir-me-ão que assim os partidos políticos não faziam sentido, talvez seja verdade. Mas as pessoas quando são eleitas não servem para tentar resolver os problemas dos eleitores? Porque será então que muitas vezes os complicam só para fazerem oposição partidária?
 

O mundo não é perfeito, meus amigos, não é mesmo! A este propósito ouvi ou li, não posso precisar, uma frase que ficou retida na minha memória, é qualquer coisa deste género: “Nós nunca veremos um mundo perfeito nem justo”. Na realidade isso não vai mesmo acontecer, mas o que é certo é que foi neste mundo que nós nascemos e é aqui que podemos e devemos enfrentar o que nos incomoda…

Quando verificamos que há na nossa sociedade valores tão simples que estão completamente distorcidos, e posso abordar alguns dos mais básicos como são, por exemplo, o cuidar… o tão simples e puro gesto de cuidar do outro, que nestes tempos tem passado muitas vezes para um plano quase invisível, vemos efectivamente que há algo que não está bem neste mundo. Exemplo disso mesmo é o facto de na nossa própria Assembleia da República ter sido aprovada uma lei que penaliza o abandono de animais, da qual eu concordo em absoluto, e não ter sido aprovada uma outra que penaliza quem abandona os idosos. Meus amigos, desde quando é que os animais são mais importantes que as pessoas? Por muito que se goste de animais, as pessoas têm sempre que estar primeiro. Até me podem dizer que não conheço a proposta dos partidos “X” e “Y” sobre este assunto. A minha resposta é simples: “Estou-me lixando para os partidos!” O que sai cá para fora é a penalização de quem abandona um hamster e o fechar dos olhos, como que fingindo que não se vê, quando um velhote é abandonado num qualquer lar, no seu próprio lar, em hospitais, casas de repouso ou outros sítios que nem quero imaginar. Não me venham com a história das propostas muitas vezes utópicas das esquerdas ou das muitas vezes radicais das direitas. Para a “pessoa” não interessam esquerdas nem direitas, à “pessoa” só interessa que até ao fim dos seus dias lhes seja dada dignidade e afecto.
 
A nossa sociedade está de tal forma doente que, há relativamente pouco tempo, cheguei a ler comentários de pessoas que, muito bem, defendem os animais em qualquer circunstância, mas que depois têm a rudeza ou a crueldade (para não lhe chamar estupidez) de se vangloriar com a morte de uma pessoa numa praça de touros. Meus amigos, o extremismo não é bom nem para um lado nem para o outro, aliás, os próprios tempos dizem-nos que nunca o foram. Há que haver equilíbrio e esse é um dos grandes problemas deste mundo, a falta de equilíbrio. E a falta desse equilíbrio leva precisamente ao extremismo que pode trazer o ódio, o egoísmo, que pode abarcar inúmeros substantivos e adjectivos mas todos com uma conotação negativa.
 
Pelo mundo há pessoas que, em nome de um qualquer Deus, são capazes de criar um terror de tal maneira atroz que repugna só de se pensar no sofrimento causado por atrocidades que nem o pior dos vilões criados pela dramaturgia ou pela literatura eram capazes de imaginar. Os ataques terroristas têm crescido exponencialmente de ano para ano e desde que apareceu o “daesh” as atrocidades têm crescido ainda mais.
 
MAS O QUE PRETENDE DO MUNDO ESTA GENTE? Criar o medo? Radicalizar tudo e mais alguma coisa? Potenciar o terror? Criar tensão? Paralisar tudo e todos? Controlar a moral das pessoas? PORQUE MATA ESTA GENTE? Porque os acha imorais? Porque os sente como almas perdidas? Porque os acha inimigos do seu Deus? DEUS NÃO TEM INIMIGOS!!! Acredito que nem mesmo o demónio é Seu inimigo!!! COMO É QUE ALGUÉM É CAPAZ DE MATAR EM NOME DE DEUS? Não acredito que algum Deus, se é que existe mais do que um e, seja ele qual for, mande, nos seus ensinamentos matar alguém e espalhar o terror.
 
O mundo tem, de facto, as prioridades trocadas. Naturalmente que a Europa também se enquadra neste rol. Como diz o meu irmão “Enquanto a Europa brinca aos castigos” dos países “incumpridores” há atrocidades como as de Paris e de Nice em França, como as de Bruxelas, na Bélgica, como as que acontecem diariamente na Síria, como as que aconteceram no Mali, na Tunísia, no Líbano, no Quénia, na Nigéria, no Kuwait, na Indonésia, no Burquina Faso, na Turquia e até nos Estados Unidos, como as que regularmente acontecem no Paquistão, no Afeganistão e no Iraque.
 
Desculpem-me os mais sensíveis mas este mundo está, na realidade, uma “merda”! Hoje mesmo li que o dia 8 de Agosto de 2016 foi a data limite, deste mesmo ano, em que a humanidade consumiu os recursos naturais de que o planeta é capaz de produzir ao longo de um ano, ou seja de Janeiro a Agosto gastámos tudo o que devíamos gastar em 12 meses. Mais recentemente, no que ao nosso país diz respeito, e infelizmente de há demasiados anos a esta parte, assistimos, Verão após Verão, a um país a ficar em cinzas, grande parte das vezes devido a encapuzados interesses económicos ou a mentes completamente enfermas que pelo simples prazer de ver tudo a arder, realizam deliberadamente acções absolutamente revoltantes como as que aconteceram na lindíssima ilha da Madeira e que provocam o sofrimento de centenas de pessoas ao verem as suas casas e os seus pertences a serem levados com o vento, no fumo que leva também os sonhos e as recordações dessas mesmas pessoas. É triste ver, nestas circunstâncias, a impotência das populações e das heróicas corporações de bombeiros, completamente exaustas a lutarem, muitas vezes em vão, para salvar pessoas e bens dos terríveis incêndios que a política, seja de esquerda ou de direita, continua insistentemente a enviar para segundo plano, não fazendo o “trabalho de casa” para tentar evitar tragédias como estas que todos os anos acontecem de norte a sul do país.
 
Enfim, é o que temos, um mundo de abusos e desigualdades. Mas apesar deste mundo estar como está, e de eu próprio me sentir magoado com ele, é nele que vivemos e é aqui que temos que fazer o que estiver ao nosso alcance para o podermos melhorar um pouco. Nós não somos donos do mundo mas temos o dever de o proteger, não só para nós mas sobretudo para o deixarmos melhor para os nossos filhos.
 

A nossa sociedade está de tal forma doente que, há relativamente pouco tempo, cheguei a ler comentários de pessoas que, muito bem, defendem os animais em qualquer circunstância, mas que depois têm a rudeza ou a crueldade (para não lhe chamar estupidez) de se vangloriar com a morte de uma pessoa numa praça de touros. Meus amigos, o extremismo não é bom nem para um lado nem para o outro, aliás, os próprios tempos dizem-nos que nunca o foram.

O mundo já esteve pior, é certo. Apesar do caos que hoje se vive, tenho a noção de que antes era bem pior, basta recordarmo-nos daquilo que a história nos ensinou, da agressividade da forca ou do chicote, por exemplo. Sim porque a sociedade já “patrocinou” penalizações horríveis ao longo dos tempos. Felizmente o mundo foi evoluindo, lentamente, é verdade. Mas se observarmos o que o mundo era e o que é, se fizermos uma análise bem mais abrangente, entendemos que essa evolução existe, ainda que aqui e ali vejamos situações que nos fazem duvidar disso mesmo.
 
O mundo não é perfeito, meus amigos, não é mesmo! A este propósito ouvi ou li, não posso precisar, uma frase que ficou retida na minha memória, é qualquer coisa deste género: “Nós nunca veremos um mundo perfeito nem justo”. Na realidade isso não vai mesmo acontecer, mas o que é certo é que foi neste mundo que nós nascemos e é aqui que podemos e devemos enfrentar o que nos incomoda… há claramente algo que nós podemos fazer, escolher a forma para podermos precisamente enfrentar esses incómodos. Uma das formas com que enfrento os meus é com um sorriso, não um sorriso sarcástico ou de indiferença, um sorriso de acção, de contágio. Sabem, eu sou daquelas pessoas que acredita que o contágio pode ser bom. Ora, se o mal, como dizem, pode ser contagioso, o sorriso também o será… e se o sorriso também o é, acredito que a bondade também seja. O mundo está assim mas reconheçamos que também há milhões de coisas boas no mundo, há que as aproveitar e desfrutar, tudo com o equilíbrio necessário. Há que equilibrar o mundo, meus amigos… Há que ter esperança num mundo melhor.
 
* Professor Luís Parente

Estremoz: uma paisagem de sensações

Escrito por sábado, 06 agosto 2016 16:43
Acabadinho de chegar de férias, de regresso à cidade que tem mais encanto, decidi fazer uma das coisas que me dá mais prazer: caminhar pela paisagem urbana de Estremoz. E, descansem, não o fiz à procura de Pókemons, pois orgulho-me de a minha sanidade mental ainda estar intacta.
 
Caminhar pela cidade é algo que sempre me deu muita satisfação. Faço-o com o intuito de proporcionar a mim mesmo uma vida saudável, mas também porque gosto de apreciar os encantos que se escondem para além de cada rua, de cada edifício e de cada pedra. Quando o faço, gosto de olhar e ver, não gosto de apenas olhar. Às vezes olhamos muito para as coisas e não vemos nada. E em Estremoz há tanto para ver…
 

Começo por percorrer a Avenida Rainha Santa Isabel, o novo passeio público da cidade, e delicio-me com o vai-e-vem de pessoas, umas a pé, outras de bicicleta, que diariamente passeiam pelo calçadão de mármore. Sigo, consciente de que a conceção daquela ciclovia foi a única possível, dadas as circunstâncias em que foi projetada, mas se calhar penso assim porque compreendo em pormenor essas circunstâncias e não porque me apeteça simplesmente armar em conhecedor da verdade absoluta sobre tudo e mais alguma coisa.

Começo por percorrer a Avenida Rainha Santa Isabel, o novo passeio público da cidade, e delicio-me com o vai-e-vem de pessoas, umas a pé, outras de bicicleta, que diariamente passeiam pelo calçadão de mármore. Sigo, consciente de que a conceção daquela ciclovia foi a única possível, dadas as circunstâncias em que foi projetada, mas se calhar penso assim porque compreendo em pormenor essas circunstâncias e não porque me apeteça simplesmente armar em conhecedor da verdade absoluta sobre tudo e mais alguma coisa. Ao caminhar, reparo na satisfação dos transeuntes por terem aquele espaço de lazer e vejo que é isso que realmente importa quando projetamos paisagem, pois de nada servem espaços extraordinariamente bem concebidos se não forem do agrado dos seus utilizadores.

 

Depois, subo a Avenida de Santo António e fico maravilhado com a beleza que a calçada de mármore e os canteiros ondulantes de arctotis e ginkgos, conferiram a uma das principais vias de acesso ao centro da cidade e que outrora mais pareceu a triste entrada de uma cidade fantasma. Em boa hora se fez esta reabilitação, que tanto serviu para adicionar mais encanto a Estremoz.
 
Passo pelo Rossio, detenho-me frente-a-frente com a imponência da Igreja dos Congregados e sinto esperança. Esperança de que seja possível, através do Plano Estratégico de Desenvolvimento Urbano de Estremoz, recentemente aprovado pela Câmara Municipal, dar continuidade à recuperação da Grande Praça. Da praça que, todos os sábados, é palco do nosso mercado tradicional, aquele que é constantemente referido em publicações nacionais e internacionais, como um dos mais pitorescos e encantadores mercados do Mundo, pelas suas características únicas, pela explosão de sensações que proporciona a quem o visita e pela forma como faz relacionar o campo com a cidade. O Rossio merece uma intervenção paisagística que lhe confira ainda mais valor e estou convicto de que é esta a oportunidade para a concretizar. 
 
Sigo em direção ao castelo, pela Porta da Frandina, e o meu coração bate mais forte. Não devido ao cansaço da subida, mas pela emoção que sinto a cada vez que entro no Largo D. Dinis, o núcleo medieval de Estremoz – a acrópole, como gosto de lhe chamar. Inspiro o ar que ali se respira e sinto a história e as estórias que são transmitidas por cada bloco de pedra mármore que dá sustento às paredes da Torre de Menagem. É impressionante a harmonia existente entre cada edifício naquele espaço. É quase indescritível a vista panorâmica sobre o vale da Ribeira de Têra e a Serra d’Ossa, com o (meu) castelo de Evoramonte a coroar a sua extremidade ocidental, enquadrado pelo verde-escuro dos montados de sobro e de azinho, pelos tons quentes de um pôr-do-sol ou pelas centenas de pontos brilhantes que, à noite, dão mais luz àquele vale, que de dia se veste do amarelo-torrado das pastagens estivais e, cada vez mais, do verde vivo das vinhas donde se extrai o excelente vinho de Estremoz.
 
Enquanto ali estou, lembro-me que mesmo ao lado, no Museu Municipal, mora a Coleção Reis Pereira de Bonecos de Estremoz, que também acredito que um dia será classificada como Tesouro Nacional, assim como a Produção de Figurado em Barro será Património da Humanidade. No cantinho da Praça, escondida por detrás de um trabalhado portão de ferro, vejo a Capela da Rainha Santa, a Isabel de Aragão, que ainda hoje continua a inspirar os estremocenses. Por vezes, dou uma espreitadela à cidade a partir de uma janela que ali foi deixada propositadamente naquele miradouro e não me admira nada se ela estiver ocupada por um casalinho qualquer, tão apaixonado pelo seu par como pela vista que tem à sua frente.
 
Desço quase sempre pelo Bairro de Santiago, deixando para trás a Porta do Arco de Santarém. Encanta-me a Rua Direita e a matriz ortogonal das restantes ruas, com a Igreja de Santiago ao fundo e o casario abraçado pelas fortificações seiscentistas. Um bom exemplo, que ainda hoje se conserva, de cidade medieval planeada, tão ao estilo das bastides francesas.
 
Algures pelo caminho, já não me lembro bem onde, mas também não tem qualquer importância, há um cheiro de grelhados no ar. Na cozinha ou no quintal de uma habitação ou de qualquer restaurante, assam-se carnes ou peixes, temperados com ervas aromáticas e acompanhados de sabores e saberes ancestrais. Também na gastronomia Estremoz é rainha.
 
Depois de me refrescar na fonte do Espírito Santo, que ali está no largo do mesmo nome, à sombra das Torres da Couraça, lamento que esta última tenha sido sacrificada para dar lugar à Rua D. Afonso III. Sei de que nada vale lamentar-me, pois isso faz parte da normal evolução dos lugares, mas confesso que gostava de poder ter caminhado também por entre as paredes desta estrutura medieval, que há de ter sido impressionante.
 
Chego ao Lago do Gadanha e logo a presença da água me dá novo ânimo. A luz que emana do plano de água, o enquadramento que proporciona ao castelo lá no alto e o som da água em movimento constante nos repuxos, faz do Gadanha um dos espaços que considero mais espetaculares em Estremoz. Nunca me canso de por ali passar, de olhar para todo aquele espaço aberto, enquadrado pelo verde da vegetação, pela singular fachada da Igreja de São Francisco e pelo mármore. Sempre o mármore…
 
A minha caminhada por Estremoz continua sobre as calçadas do mesmo mármore, adornadas com dezenas de motivos, algumas evocando marcos históricos da vida estremocense ou das suas tradições. Aceno de fugida ao Teatro Bernardim Ribeiro, rodeado de bonitos exemplares de edifícios Art Noveau e alcanço a Avenida 9 de Abril, quase no fim deste meu périplo pela urbe.
 

Podem até achar estranho que goste muito da minha cidade e que tenha a minha opinião sobre este ou aquele assunto. Podem insurgir-se das mais diversas formas, mas as emoções e opiniões são minhas. Não as tenho por fazer parte de qualquer tipo de entourage com que me identifique. Espelharão sempre os sentimentos de alguém que nunca se cansará de apregoar que Estremoz tem mais encanto!

Terminada a caminhada, enquanto regresso a casa e já ao volante do meu carro, penso nas boas sensações que experimentei durante esta hora em que olhei para a cidade com olhos de ver. Também experimentei sensações menos boas, é verdade, pois Estremoz também as tem, como qualquer cidade. Registo-as e denuncio-as no sítio certo, sempre com a intenção de lhes pôr um fim ou de as melhorar. Nunca com qualquer outro tipo de motivação. Para isso, já cá temos os do costume.
 
Prefiro fazer uma abordagem positiva, pois Estremoz assim o merece, pela sua excecional singularidade, pela diversidade de estilos artísticos que está presente na sua arquitetura e urbanismo, pela monumentalidade dos espaços e edifícios, pela forma como é vivida pelas pessoas. Mas merece-o principalmente porque é nela que experimentamos a sensação de habitar. É ela o palco em que se desenrolam as nossas vidas e é a ela que retornamos sempre. Merece, por isso, o nosso respeito e que gostemos dela.
 
Podem até achar estranho que goste muito da minha cidade e que tenha a minha opinião sobre este ou aquele assunto. Podem insurgir-se das mais diversas formas, mas as emoções e opiniões são minhas. Não as tenho por fazer parte de qualquer tipo de entourage com que me identifique. Espelharão sempre os sentimentos de alguém que nunca se cansará de apregoar que Estremoz tem mais encanto!
 
* Arquiteto-paisagista António Serrano
 

A sorte, que a França não teve

Escrito por terça, 12 julho 2016 23:24
Acreditar, como já por aqui escrevi, vale sempre a pena. Não tínhamos a melhor seleção nem jogámos o melhor futebol, é verdade, mas ganhámos e é isso que fica para a história. As críticas à qualidade do nosso futebol valem o que valem. Quando vêm de gente parcial e ressabiada, então não valem mesmo nada. Valem o número de golos que Portugal sofreu nas meias-finais e final do Euro (zero).
 
É claro que não podemos dizer que apresentámos um grande futebol desde que a competição começou. É claro que não "massacrámos" nem dominamos os jogos todos, é claro que não mostrámos a tão falada "nota artística". No entanto, fomos eficazes e a Taça já cá está.
 
É verdade que empatámos os primeiros três jogos. No entanto, é bom recordar, que empatámos com quem mandou a Inglaterra para casa e participámos num dos melhores jogos do Europeu, no sofrido empate com a Hungria. A meu ver, o menos conseguido foi mesmo o nulo com a Áustria. Depois, entendemos que a Croácia tinha uma grande equipa e já tinha derrotado a campeã Espanha. Tapamos-lhe os caminhos e esperámos um erro deles. Fomos cínicos, dizem. Cá para mim, fomos realistas.
 
Depois veio a Polónia, uma equipa sem a qualidade da Croácia mas que tinha pouco a perder. Até sofremos primeiro mas fomos em busca do empate. Aí, voltámos a não nos destapar e vieram os penaltis. Fomos competentes e não falhámos nenhum. Rui Patrício defendeu um e Quaresma depois não tremeu. Seguiu-se outra das surpresas da prova. O País de Gales mandou para casa uma Bélgica que mostrava sinais de ser um "outsider" de respeito. Nesse jogo, soubemos respeitar o adversário mas também resolvemos bem e depressa depois do intervalo. A final voltava mesmo a ser uma realidade.
 
Como se não bastasse a motivação de jogar uma final, os nossos adversários fizeram questão de nos motivar ainda mais. Não há coisa que motive mais do que ser desvalorizado. No jogo decisivo, táticamente entendemos a França, tivemos um enorme Rui Patrício e um espírito de equipa fantástico. Fernando Santos lançou Éder na altura certa, passámos a ter bola na frente e o "patinho feio" resolveu. Irónico, pelo menos.
 
Há momentos que marcam esta caminhada e que em muito contribuíram para este final em festa. Desde logo, a união bem patente no grupo e a liderança exemplar de Cristiano Ronaldo. O sacrifício do capitão em prol do grupo, do primeiro ao último minuto da competição, foi decisivo. Os jogadores, entendendo humildemente a importância de Ronaldo, seguiram a sua crença e a sua enorme vontade de dar um título a Portugal. Foram grandes discípulos e uniram-se ainda mais na final, após a saída em lágrimas do capitão. Isto, foi decisivo.
 

Como se não bastasse a motivação de jogar uma final, os nossos adversários fizeram questão de nos motivar ainda mais. Não há coisa que motive mais do que ser desvalorizado. No jogo decisivo, táticamente entendemos a França, tivemos um enorme Rui Patrício e um espírito de equipa fantástico. Fernando Santos lançou Éder na altura certa, passámos a ter bola na frente e o "patinho feio" resolveu. Irónico, pelo menos.

Agora, Fernando Santos. Que cara terão feito agora aqueles que se riram quando ele disse que voltaria para casa só dia 11 de julho e seria recebido em festa? Pois. Para muitos, pareceu arriscado e até caricato Fernando Santos dizer que queria ser campeão. Aqueles que diziam que era Jorge Mendes que treinava a seleção desapareceram ou mudaram o discurso? E aqueles que diziam que o Ronaldo não joga na seleção metade do que joga no Real Madrid? E aqueles que diziam que Renato Sanches nem deveria ser convocado para o Europeu? Já nem vale a pena falar dos que dizem que Éder é um pino. Atenção que agora Éder não passou a ser, para mim, um grande ponta de lança. É o que temos e, pelos vistos, serviu muito bem. 
 
Aqueles que começaram o Europeu a dizer que Portugal não jogava nada, agora não têm a humildade de reconhecer que a equipa cresceu durante o torneio? Não há coragem para dizer que Fernando Santos foi realista e à sua vasta experiência se deve em grande parte este Europeu? Tivemos sorte? Sorte de quê? Tivemos sorte em ter o melhor guarda-redes da competição, o melhor jovem, o bola de prata, um dos melhores centrais, um dos melhores avançados e o melhor lateral esquerdo? Tivemos sorte em ter sofrido apenas um golo nos quatro jogos da fase a eliminar? Tivemos sorte em ter os emigrantes sempre por perto? Ah, já sei, tivemos sorte porque calhámos do lado que "não tinha tubarões até à final", "porque a Islândia marcou um golo nos descontos". O que é certo, é que derrotámos a equipa que passou pelo meio dos "tubarões", se é que eles existem mesmo.
 
Não sei se tivemos sorte ou não. O que sei é que a França não teve sorte em nos encontrar na final. 
 
* Jornalista José Lameiras
 

Património, valor e salvaguarda

Escrito por sexta, 08 julho 2016 14:52
Património… Termo frequentemente utilizado para designar algo que é herança dos nossos antepassados. Móvel ou imóvel, material ou imaterial, natural ou cultural, muitas são as tipologias de património presentes na paisagem e com as quais nos deparamos todos os dias.
 
Não é preciso percorrermos uma grande distância para experienciarmos uma viagem pelas múltiplas formas de património. Comecemos pelo património que nos define e diferencia dos demais – o nosso património hereditário. De seguida, olhemos para os nossos pertences – a casa, os móveis, os elementos decorativos, os utilitários, o jardim e a sua vegetação, o carro, a bicicleta, os patins e a bola de futebol… e finalmente, deliciemo-nos com a imensidão do património que é comum e propriedade de todos aqueles que já o viveram, daqueles que agora o vivem e dos muitos que ainda o viverão depois de nós – a paisagem e os seus elementos naturais e construídos. 
 
A maior parte das pessoas apenas entende como património aquilo que, à partida, tem um valor especial, tendo em conta um determinado número de critérios definidos por alguém que não conhecemos. Muitas vezes, confundimos património com “monumento” e nem sequer nos questionamos se realmente há razões para atribuir a qualquer bem esse valor especial. Deixamo-nos levar por pré-conceitos e deslumbramo-nos com o alegado valor atribuído pelos outros, o que, naturalmente, não significa que o valor não exista. Contudo, a apreciação desse valor é subjetiva, dependente da sensibilidade e das vivências individuais, razão pela qual é imperativo que olhemos sempre para todas as manifestações de património com uma atitude crítica em relação ao seu valor. 
 

Na minha opinião, mais importante do que a venda do edifício ou do que as vozes, sempre contrárias, que se levantam, é o facto de que finalmente este património, com mais ou menos valor, será reabilitado, devidamente valorizado e, respeitando também um pouco da sua memória, terá uma utilidade no presente e contribuirá para garantir algo para o futuro da cidade e das suas gentes.

É assim que olho para o património. Nas minhas viagens tento sempre conhecer mais para além daquilo que vem nos guias e que é normal todos conhecerem, procurando outras formas de interagir com o património, seja ele de que tipo for. Por exemplo, de que me serviria ter visitado a Basílica de São Pedro, se não tivesse tido também a oportunidade de espreitar a sua cúpula a partir de um buraco de fechadura no Aventino? Banal, dirão alguns, despropositado, dirão outros. Andar alguns quilómetros só para isso? No entanto, se assim não tivesse acontecido, a minha experiência pessoal com a Basílica teria sido muito semelhante à de milhões de outras pessoas. É inegável o valor patrimonial per si da Basílica de São Pedro, mas o valor que lhe atribuo é ainda maior graças àquela minha simples vivência de espreitar e vê-la, ao longe, pelo buraco de uma fechadura...
 
Se víssemos mais vezes aquilo que nos rodeia, ao invés de apenas olharmos, talvez não nos deslumbrássemos tão facilmente com aquilo que foi definido como valor patrimonial pelos outros. Damos facilmente valor ao Património Mundial e a outros tipos de património classificado, esquecendo ou não dando importância ao nosso património - aquele que pode não ter valor para a humanidade, mas que certamente se reveste de uma enorme importância nas nossas vidas diárias.
 
É certo que a classificação do património é importante, mas não o deve ser apenas por uma questão de valorização, devendo sê-lo principalmente pela sua salvaguarda. Contudo, muitas vezes a classificação de bens é feita pura e simplesmente para lhes aumentar valor e, não menos vezes, para alimentar o ego de quem promove o processo de classificação. 
 
A classificação de um bem na categoria de Património Mundial, na grande maioria dos casos, nada tem a ver com a necessidade da sua salvaguarda para a humanidade e para as gerações vindouras, mas sim com a intenção de satisfazer uma necessidade presente de exaltação do seu valor perante os outros, motivada pela procura de daí retirar dividendos económicos, à custa do turismo. 
 
Não sou contra que se explore o património através do turismo. Pelo contrário, acredito que o turismo, quando planeado e estrategicamente estruturado, é um fator de desenvolvimento sustentado de uma região. No entanto, desenvolvimento sustentado significa conjugar eficazmente três vetores: social, económico e ambiental. No caso do desenvolvimento sustentado do turismo associado ao património, significa olhar para todos os tipos de património e fazer interagir todas as suas potencialidades, conferindo-lhe mais valor e, ao mesmo tempo, salvaguardando a sua utilização no futuro. Para além disso, é fazer com que o valor possa ser visto a partir de diferentes perspetivas e não apenas da mais óbvia, igual a tantas outras e que não marca pela diferença ou pela inovação.
 
Sobre este propósito, reparei que circula pela Internet uma petição contra a venda da Antiga Casa do Alcaide-Mor de Estremoz, vulgarmente e erradamente conhecida como Antiga Casa da Câmara. Trata-se de um imóvel situado na Rua do Arco de Santarém, e que foi, também por erro, classificado como Monumento Nacional. Hoje é uma ruína em pleno núcleo medieval da cidade, ameaçando a segurança de pessoas e bens, mas sobretudo atentando contra a boa imagem da acrópole estremocense.
 

Além disso, salvaguardar património é também dar-lhe um uso adequado às exigências dos tempos que correm. A paisagem e o património evoluem. Não podemos viver apenas agarrados às memórias. Neste caso e em muitos outros, o passado é como uma roupa que já não nos serve.

Não me interessa discutir de quem é a culpa do estado de degradação a que o edifício chegou, até porque já alguém o fez recentemente e, em minha opinião, muito bem. O que interessa é que, em boa hora, a Câmara Municipal decidiu vendê-la, com a condição de que a sua utilização futura apenas poderia ser afetada à atividade turística. Aplaudo esta decisão, pois parece-me a mais adequada para o caso do património em questão. Há muito que se perdeu o seu eventual valor, a classificação como Monumento Nacional nunca lhe adiantou muito e não vai deixar de existir, a Câmara livrou-se de mais um problema no centro histórico, a recuperação e utilização por privados criará dinâmicas sociais e económicas (mais empregos e receitas turísticas), criar-se-á mais um estabelecimento hoteleiro (que tanta falta faz a Estremoz) e, principalmente, não terão que ser todos os contribuintes a pagar por isso.
 
Embora aceite a existência de outras possibilidades para o edifício, em minha opinião a que é apontada pelos subscritores da petição nada acrescenta de novo a Estremoz. É mais do mesmo. Outro espaço museológico, desta feita sobre a história medieval da cidade, mas cuja recuperação e construção teriam de ser pagas por dinheiros públicos, bem como a sua manutenção futura.
 
Além disso, salvaguardar património é também dar-lhe um uso adequado às exigências dos tempos que correm. A paisagem e o património evoluem. Não podemos viver apenas agarrados às memórias. Neste caso e em muitos outros, o passado é como uma roupa que já não nos serve.
 
Na minha opinião, mais importante do que a venda do edifício ou do que as vozes, sempre contrárias, que se levantam, é o facto de que finalmente este património, com mais ou menos valor, será reabilitado, devidamente valorizado e, respeitando também um pouco da sua memória, terá uma utilidade no presente e contribuirá para garantir algo para o futuro da cidade e das suas gentes.
 
* Arquitecto-Paisagista António Serrano

Acreditar, Sempre - Parte II

Escrito por sábado, 02 julho 2016 01:04
Escrevo estas linhas poucos momentos depois do penalti marcado por Quaresma. Festejei bastante. Não concordo que este tipo de desempates se trate de "uma lotaria", pois acho que aqui continua a mandar a competência e a concentração. Portugal foi melhor durante o jogo e foi também melhor nos penaltis. É bom não esquecer que a Polónia não tinha falhado nenhum penalti com a Suiça. Desta vez, Rui Patrício defendeu, e bem, um dos lances e os marcadores "só" tiveram de fazer o seu papel. A forma como marcámos as grandes penalidades, confirma que é preciso competência e não apenas sorte. O jogador polaco que não conseguiu marcar, não o fez porque o Patrício fez uma grande defesa. 
 

Soube-se depois, que quando Fernando Santos perguntou quem queria marcar, Ronaldo disse que marcava o primeiro e Renato disse logo que marcava o segundo.  Será maturidade... ou irreverência? Não sei, mas sei que há muito qualidade.

Quem comigo estava a ver o jogo, pode confirmar o que eu disse quando vi Renato Sanches encaminhar-se para marcar. Não concordei com a escolha pois já tinha visto este filme muitas vezes... Depois o miúdo que o Bayern veio buscar à Luz não tremeu e marcou. Soube-se depois, que quando Fernando Santos perguntou quem queria marcar, Ronaldo disse que marcava o primeiro e Renato disse logo que marcava o segundo.  Será maturidade... ou irreverência? Não sei, mas sei que há muito qualidade. 
 
Portugal ainda não ganhou nenhum jogo nos 90 minutos... mas também ainda não perdeu. Não temos o volume de ataque que esperava, nem lá perto, mas temos muita união. Temos um Ronaldo a fazer um Europeu de muito sacrifício e em prol do colectivo, jogando fora da sua posição habitual. Temos um Pepe a mostrar que é mesmo um dos melhores centrais do mundo. Temos um Quaresma com estatuto de temível arma secreta. Temos um Nani que até cansa de ver correr e ajudar a defender e, claro, temos Renato Sanches que mostra que o futebol afinal é muito mais fácil de jogar e menos complicado do que se pensa. William, João Mário e Adrien, têm feito muito bem o seu papel. De um modo geral, apesar de por vezes não termos jogado bem, os jogadores têm corrido e merecido a confiança. Estão com o treinador e isso, acredito, é mais de meio caminho andado.
 
Fernando Santos disse que queria ser campeão. É legítimo, como escrevi no texto anterior. Portugal vai estar pela quinta vez na meia-final de um Europeu e até já esteve na final. Fazer melhor, só ganhando. Por cá, só temos de acreditar, sempre!

Acreditar, Sempre!

Escrito por sexta, 03 junho 2016 01:50
Nós, portugueses, parece que por vezes temos dificuldade em valorizar-nos. Há, de um modo geral, um sentimento generalizado de que os outros são sempre melhores e fazem tudo melhor que nós. Temos dificuldade em elogiar o que temos, ou o que somos, e a qualquer momento um português solta a célebre frase: "Se fosse lá fora era diferente".

Trago este assunto depois de ouvir Fernando Santos dizer que queria ser Campeão da Europa. "Queremos chegar à final e queremos ganhá-la!" É simples não é? Portugal será, teoricamente, candidato a ganhar o Europeu? Eu acho que não, mas não ficava muito surpreendido se tal acontecesse. É arriscada esta declaração de Fernando Santos? Talvez até seja. É descabida? Claro que não. Não é descabida porque Portugal tem seleção para se bater com qualquer uma. Não estou a dizer que temos uma seleção melhor que esta ou que aquela, penso sim que temos plantel e treinador para nos batermos com qualquer outra e lutar pela vitória em todos os jogos. 
 
Fernando Santos é um treinador experiente e sabe o que são fases finais de grandes competições. Sabe que os estatutos não ganham jogos nem torneios. Ter "estrelas", e Portugal até tem uma das mais brilhantes, não significa que se ganhem jogos. Estas fases finais são pródigas em surpresas e outsiders que depois se tornam casos muito sérios. Quem são os favoritos? Os mesmos de sempre. Portugal, e bem, já disse que quer vencer a competição. 
 

Foi, curiosamente, um estrangeiro que nos motivou a "pintarmos" as nossas janelas com bandeiras da seleção. Lembram-se? Pois. Foi Scolari, que até é brasileiro, que fez com que os portugueses olhassem finalmente para a sua seleção com olhos de quem tem orgulho e acredita.

O Euro 2004, há 12 anos atrás, foi um bom exemplo da nossa capacidade. Aqui, digo eu, capacidade até demais pois fizeram-se estádios que hoje não servem para nada. No entanto, olhando para a parte positiva, passámos com distinção neste teste e demos uma lição a quem não quis fazer connosco uma candidatura conjunta. Demos inúmeros exemplos de fair-play, recebendo de braços abertos todos os que nos visitaram. No campo, também empurrados pelo público, chegámos à final e podíamos mesmo ter ganho. Foi por muito pouco e isso só prova que o Selecionador tem razão. Já lá estivemos e só faltou mesmo ganhar. 
 
Ainda olhando para esse tempo, é bom lembrar quem nos fez gostar mais de nós. Foi, curiosamente, um estrangeiro que nos motivou a "pintarmos" as nossas janelas com bandeiras da seleção. Lembram-se? Pois. Foi Scolari, que até é brasileiro, que fez com que os portugueses olhassem finalmente para a sua seleção com olhos de quem tem orgulho e acredita. Até aí, eram todos bons menos os nossos. Ainda hoje, infelizmente, há quem assim pense. Eu próprio, por vezes dou por mim a "resmungar" com a falta de qualidade do futebol que vejo praticar a nossa seleção. No entanto, chegando estas fases finais, faço por acreditar e perceber que não são só os outros que são bons. Nós também somos.
 
Já não é altura de discutir opções ou a falta deste ou daquele. Agora, começando o Europeu, é altura de fazer com que os 11 que estão no campo sintam o apoio dos 11 milhões. Aqui, podemos também tirar uma lição para a vida. Acreditar sempre. As grandes batalhas, são sempre para os melhores soldados. Que a bola comece a rolar...e que Portugal seja Campeão. 
 
* Jornalista José Lameiras

Um dia todos seremos velhos

Escrito por sexta, 27 maio 2016 15:48
Há dias, ao ver na SIC o programa “E se Fosse Consigo?” sobre os maus tratos a idosos fiquei estupefacto, revoltado mas também desiludido com as atrocidades inimagináveis que são perpetradas contra os idosos. Não que não soubesse que elas existem, porque sei, mas senti-me de tal forma desiludido com a regressão da espécie humana. Sim porque neste sentido tem havido um claro retrocesso e, Deus queira que não cheguemos aos tempos da Grécia Antiga em que a velhice era pouco valorizada ou mesmo a determinada altura da “Época Romana” em que essa mesma velhice era mesmo rejeitada. Estou em crer que isso não voltará a acontecer, pelo menos enquanto acreditar que a esperança existe.
 
O tipo de vida que se vive nos nossos dias em que tudo “é para ontem”, onde se valoriza mais a economia do que a vida humana, onde não há tempo para parar e reflectir porque o tempo corre incessantemente atrás do próprio tempo, é um tipo de vida que permite ao mundo ver atrocidades tais que envergonham qualquer ser humano que possua um espírito de comprometimento com os valores da humanidade, da solidariedade, da amizade, da compaixão, da cumplicidade, do reconhecimento.
 

Há dias, ao ver na SIC o programa “E se Fosse Consigo?” sobre os maus tratos a idosos fiquei estupefacto, revoltado mas também desiludido com as atrocidades inimagináveis que são perpetradas contra os idosos.

Depois de ver aquele programa fui, por curiosidade, ao site da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) e aí descobri que em Portugal todas as semanas, em média, cerca de 20 idosos são vítimas de violência. Segundo a APAV a idade média dos idosos vítimas de maus tratos ronda os 75 anos e a grande maioria dos casos são do sexo feminino. Observei ainda que estas médias são muito superiores quando comparadas com outros países da União Europeia. Descobri que a maioria das agressões são feitas por familiares e que existem vários tipos violência contra idosos, desde logo a violência física, a psicológica, a sexual, de índole financeira, a negligência ou a violação dos seus direitos.  Todos estes tipos de violência estão bem expressos e explicados no já mencionado site da APAV, ainda assim, a estes, eu acrescentaria, só mesmo para reforçar o que pretendo, e mesmo estando já implícita nos outros, a violência contra os valores morais. Quando vejo os números da APAV questiono-me de imediato: E os outros velhotes? Aqueles que por um qualquer tipo de receio não se conseguem libertar da teia de pressão em que vivem? Aqueles que sofrem repetidamente abusos em casa ou em contextos institucionais? Aqueles que são explorados e extorquidos pelos seus próximos, sejam eles familiares, vizinhos, “amigos” ou cuidadores? Aqueles que sofrem de doenças, sejam elas incapacitantes fisicamente ou não? Aqueles a quem a medicação ministrada serve também para os prostrar? Tenho a certeza que se todos os casos fossem contabilizados estaríamos aqui a falar de números absolutamente abismais. 
 
Sobre esta problemática há uma outra coisa que me aflige ainda mais, a cumplicidade dos silêncios, o virar de costas, a inércia dos que vêem e fingem não ver. Este é um problema social e há que assumi-lo como tal. Há que aumentar e desenvolver mecanismos e estratégias de protecção da pessoa idosa de forma a evitar os abusos de que diariamente ouvimos relatos em tudo o que é comunicação social. Sinceramente não faço ideia de como se poderão desenvolver esses mecanismos mas já que temos tantas mentes brilhantes no nosso país, talvez seja a altura de os pôr a agir e não só a pensar e a mandar uns “bitaites” ou então começar a direccionar o seu próprio pensamento para aquilo que realmente tem importância… as pessoas, e neste caso particular as pessoas idosas. 
 
Na minha opinião não sei se será eficaz unicamente a aplicação de medidas legais de punição dos infractores/agressores ou somente fazendo alterações da própria legislação nesse sentido. Acho que é preciso actuar antes da velhice como forma de prevenção, não se pode actuar só depois, é preciso haver uma concertação de esforços para o agora e sobretudo para o antes, quem sabe se através de planeamentos e/ou programas que exijam aos adultos não séniores a própria preparação de auto defesas para a velhice; quem sabe talvez começando, ainda nas escolas e de uma forma mais incisiva e acentuada, a preparar uma cidadania de respeito pelos mais velhos. A este propósito eu mesmo, fruto da minha actividade profissional, já tenho vivenciado programas de excelente partilha de vivências entre idosos e jovens. Talvez seja por aqui que deve começar o apoio, talvez seja dando ao idoso o que fazer e não deixá-lo ali a um canto da casa, do lar, ou de onde quer que seja a definhar até a infinita noite chegar. Quiçá o segredo não seja aumentar a auto estima do idoso? Parar é morrer e a idade tem que voltar a ser um posto como se diz na gíria popular.
 
Ao longo da vida os nossos cabelos mudam de cor e a cor branca que adquirimos não é só física, os cabelos brancos trazem consigo a experiência, os ensinamentos. Os mais velhotes, é certo, andam mais devagar, mas muitas vezes pensam muito mais rápido, é essa tal experiência a falar do alto da idade.
 
Quando falamos em velhotes lembramo-nos certamente dos nossos avós. Eu lembro-me da minha avó “Bidá” – Claridade era difícil de dizer – (os meus outros avós, infelizmente, pouco os conheci) deliciava-me a ouvir as suas histórias sobre os seus tempos áureos de “menina e moça”. Com a minha avó aprendi a cozinhar um frango com cenouras soberbo, com ela aprendi, imagine-se, a coser à máquina numa daquelas máquinas SINGER antigas. Como já tinha muitas dificuldades de visão pediu-me para, com a sua supervisão, lhe virar um enlutado vestido de Verão que já estava muito ruço. E eu não me fiz de rogado e avancei.
 
Na casa da minha avó tudo era mais saboroso. Tive a felicidade de viver 18 anos na casa ao lado da dela e às vezes bastava a mãe passar a sopa pelo muro, para a avó, e utilizar uma mentirinha piedosa dizendo que a sopa era dela para que a mesma soubesse divinamente. Na verdade os cozinhados das avós são sempre os melhores. Há sabores e odores que ainda hoje sinto, com saudade é verdade, mas ainda os sinto. Acho que toda a gente tem na memória sabores e cheiros dos cozinhados dos avós. Têm mãos de fada os avós, adoram fazer coisas com os netos à escondida dos pais, inventam teatros, têm uma paciência de Jó. Mas quem fala em avós pode falar em pais e em tios, pode falar em avós que não o são geneticamente mas que contribuem em muito para a felicidade e para a formação pessoal e social dos “netos”. Todos eles deixam marcas profundas no coração, mesmo aqueles que não sendo nada em termos familiares acabam por ser pessoas que passam por nós e deixam atrás o seu rasto.
 

Para ajudarmos os idosos é preciso despendermos do nosso tempo, é verdade. Mas não gastaram já eles o seu próprio tempo connosco? Esta é a altura de retribuir!

Os mais velhos transmitem-nos paz, conhecimento, sabedoria, dão-nos sábios conselhos, demonstram amadurecimento, são vigilantes, dão-nos afecto, são em muitos casos almofada, confortam-nos, dão-nos carinho, divertem-nos, dão-nos prazer, colo, são super defensores, ensinam-nos músicas, lengalengas, contos, são portadores de valores de amor incondicional, de determinação e respeito. Eles sabem benzeduras que nos tiram o “cobranto”, sabem mezinhas que nos aliviam as dores e passam de geração em geração, eles deixam raízes no mais fundo de nós.
 
Obviamente que nem tudo são rosas, com a idade vêm também problemas associados à saúde mas esses, esses não os podemos evitar, os outros sim, os tais que são afectos à violência, esses sim podemos evitá-los. Os meus velhotes sempre me disseram “Não faças aos outros aquilo que não gostavas que te fizessem a ti.” Tento seguir este ensinamento ao máximo e se as minhas faculdades mo permitirem continuarei sempre a fazê-lo.
 
Congratulo-me, na realidade, com o que já existe no campo da prevenção, com os apoios concedidos pela APAV, por instituições como a PSP e a GNR, pelas Misericórdias, pelos Centros de Saúde, Centros de Dia, Lares e até mesmo pelas Universidades Séniores que fazem com que a 3ª idade passe com muito mais suavidade. Ainda assim é preciso mais não só porque UM DIA TODOS SEREMOS VELHOS mas para fazer ver àqueles que mesmo sendo novos são mais velhos que os próprios velhos pela forma absolutamente irracional como agem e pensam.
 
Para ajudarmos os idosos é preciso despendermos do nosso tempo, é verdade. Mas não gastaram já eles o seu próprio tempo connosco? Esta é a altura de retribuir!
 
A infinita noite cairá para todos e nem a lua, ainda que cheia e brilhante iluminará o que quer que seja. Até lá aproveitemos para agir, para ajudar, contribuindo para um mundo melhor e façamos com que a vida seja só o dia e a noite para que, quando essa infinita noite cair, possamos dizer num último suspiro: “Valeu a pena!” 
 
Nota: No dia 15 de Junho comemora-se o Dia Internacional de Combate à Violência Contra a Pessoa Idosa         
                                                                                                                                                                                                                         
                                                                                                                                                                                                                              * Professor Luís Parente  

O Campeonato do Senhor Rui

Escrito por quinta, 26 maio 2016 00:47
O futebol é um fenómeno fantástico. Mesmo com tudo aquilo que traz de mau, ou menos bom, é preciso saber tirar a parte positiva e as lições que este fenómeno nos dá. No caso do campeonato principal desta época em Portugal, há uma lição que podemos transportar para outras áreas da nossa vida: As contas fazem-se no fim.
 
A Educação e o Respeito pelos outros são valores incontornáveis. São valores que devemos sempre preservar. Todos nós temos adversários ao longo da nossa vida e não podemos viver sem eles. No caso particular do desporto, seja no futebol ou não, são os adversários que valorizam as nossas vitórias. São eles que nos ajudam a sermos melhores e mais competentes. É fundamental respeitar e entender quem luta connosco por este ou aquele objectivo.
 
No Benfica, Rui Vitória não poderia ter tido pior começo. Exibições sofríveis da equipa na pré-temporada trouxeram as primeiras desconfianças dos adeptos e dos comentadores. Depois, a derrota com o Sporting na Supertaça, ainda por cima treinado por Jorge Jesus e com uma exibição muito pobre, fizeram com que grande parte dos adeptos temesse por uma época desastrosa. Na segunda jornada do campeonato, o Benfica perde com o Arouca. Quase tudo correu mal até ao jogo em casa com o Sporting. Nesse jogo, apesar do Benfica ter perdido por 3-0, e já com o resultado feito, foram os adeptos a puxar pelos jogadores numa demostranção clara que o futebol não se joga só dentro do campo. Quando se esperava uma séria reprovação pela exibição e resultado, das bancadas veio um coro dizendo "Eu amo o Benfica". 
 
Começa aqui a conquista do campeonato. Depois desse jogo, o Benfica apenas empatou na Madeira e perdeu em casa com o Porto, apesar de ter feito uma das melhores exibições na Liga. Em Alvalade, frente ao eterno rival que até tinha tudo para dar um passo de gigante rumo ao título tão desejado, o Benfica marcou e soube sofrer. Depois desse jogo, as duas equipas ganharam todos os que se seguiram. É notável.
 

O Senhor Rui, acreditou sempre que seria possível. O Senhor Rui fugiu muitas vezes de polémicas, nunca deixando que a sua imagem se desgastasse e deixando que outros assumissem esse papel.

Não acredito muito na sorte quando se fala de futebol, acho sim que há trabalho e competência. Rui Vitória, neste Benfica, nunca se desviou do seu objectivo. Foi já um pouco tarde que a equipa começou a acertar, mas foi bem a tempo. Foi a tempo de fazer uma segunda volta fantástica no campeonato e uma campanha bastante positiva na Europa. Mudavam os jogadores, mas não as ambições. Em cada jogo, era possível perceber a união que havia no grupo e a unanimidade em torno do treinador. Para isso, digo eu, terá também contribuído Jorge Jesus. Desclassificando o seu colega, Jesus fez com que o grupo de trabalho tivesse ainda mais motivação e vontade de conquistar o título.
 
O Senhor Rui, nunca chamou a si os feitos, entregando todo o mérito aos jogadores e aos adeptos. O Senhor Rui percebeu, com humildade, que teria de aproveitar o melhor do seu antecessor. O Senhor Rui, acreditou sempre que seria possível. O Senhor Rui fugiu muitas vezes de polémicas, nunca deixando que a sua imagem se desgastasse e deixando que outros assumissem esse papel. O Senhor Rui reconheceu, e provou, que é uma boa estrutura que faz os campeões e não apenas os treinadores. O Senhor Rui mereceu, e muito, este campeonato.
 
* Jornalista José Lameiras

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