terça, 24 abril 2018

Luís Parente

Quase 12 anos

Quase 12 anos

Há quase 12 anos, durante o mês de Agosto, o meu telefone tocou. Do outro lad ...

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Esperança... e mais esperança!

Escrito por sexta, 09 dezembro 2016 17:09
A palavra Esperança foi a última que utilizei no texto do mês anterior. Com a aproximação da época natalícia e do final do ano, a mesma palavra tem uma força em si só ainda maior. Num ano difícil como este parece-me ser de bom-tom realçá-la como forma de ambicionar um novo ano muito melhor do que este de 2016.
 
Este ano trouxe, de facto, muitas complicações ao mundo, trouxe muitas perdas de gente, famosa ou não, que sempre fez parte das vidas de cada um de nós, mas, na realidade, também trouxe coisas boas. Veja-se por exemplo o desporto. Como amante do futebol em particular e do próprio desporto em geral, ainda que possa ser criticado por ocultar outros feitos do desporto nacional, devo realçar cinco acontecimentos marcantes neste ano, a conquista do Tri Campeonato de futebol do meu BENFICA, a conquista inédita do Campeonato Europeu de Futebol por parte da selecção de PORTUGAL, a conquista, também por PORTUGAL, do Campeonato Europeu de Hóquei em Patins, algo que não acontecia há 18 anos, a conquista de uma medalha olímpica no Rio de Janeiro por parte da judoca Telma Monteiro, que na realidade, para o nosso país soube a pouco, e finalmente o primeiro apuramento de sempre da selecção portuguesa de futebol feminino para uma grande competição internacional que, no caso, se trata do Campeonato da Europa a realizar na Holanda no próximo ano.
 
Para ser sincero, a nível pessoal, este ano não me vai deixar saudades nenhumas, tive saúde é certo, mas a nível familiar essa mesma saúde não esteve como todos esperávamos. O mês de Janeiro foi, quanto a mim, o pior de todos, aquele que mais “abalo” deu ao psicológico da família.
 

Dizem que a esperança é a última a morrer, que é verde e que é a que faz superar o desespero. Eu digo que a esperança não tem cor, ou então que tem todas as cores, não só é verde, é azul, amarela, vermelha, branca, laranja, ocre, anil, violeta, púrpura, carmim, bordeaux. A esperança pode sim fazer superar o desespero mas acredito que, para muitos, os que sofrem de incessantes dores físicas mas também de dores psicológicas, seja o fim da vida a derradeira esperança. Se calhar teríamos que dividir aqui a esperança em boa e má mas como isso é de tal forma subjectivo, se calhar é melhor nem continuar este assunto e parar por aqui.

Uma coisa é certa, já tenho idade suficiente para começar a perceber que a vida nem sempre é como esperamos e que a todos os segundos que passam estamos com mais idade. Não quero nunca pensar que os meus “velhotes”, um dia, caminharão rumo a outras paragens, eu juro que me tento mentalizar que isso um dia acontecerá mas não consigo não ter esperança que seja só um dia muito, muito longínquo. Sim, eu sei que quanto mais idade temos mais maleitas nos aparecem e a esperança de vida vai diminuindo. Mas não diminui ela todos os dias? todas as horas? todos os minutos? todos os segundos? toda a vida? Eu tenho essa consciência, no entanto quero acreditar que todos viverão até, pelo menos, aos 150 anos com qualidade de vida.
 
Irracional! É verdade, às vezes (muitas) consigo ser assim, irracional mas, na verdade, é também essa irracionalidade que faz com que tenha bem viva a luz da esperança. É essa irracionalidade que me faz acreditar que o mundo viverá em paz, com as iguais diferenças de cada um, com o respeito mútuo por opiniões divergentes, com justiça, com responsabilidade, com alegria, amizade… é essa irracionalidade que me faz ter a confiança no equilíbrio, naquilo que tem faltado nos dias de hoje que é sabermos colocar-nos no lugar do outro, olharmos para o outro e não só para o nosso umbigo… é essa irracionalidade que me faz crer que as pessoas vivam as suas vidas e não as dos outros, que me faz ter a expectativa de não haver preconceitos, que me faz ter a ilusão de vivermos todos unidos e embriagados de um amor infinito. Talvez seja utópico da minha parte pensar desta maneira mas, de certa forma, a esperança também é utopia, fantasia, sonho. No entanto está mais que provado que há sonhos que se realizam, certo? Também é certo que diariamente a esperança é posta à prova pelos inúmeros acontecimentos quase irreais do nosso mundo. Muitas vezes chego a pensar se não será pela esperança que surge a infelicidade, por exemplo por não se conseguir almejar algo que sonhávamos e para o qual a esperança fez o favor de nos alimentar a expectativa, mas depois há sempre uma nova esperança que surge, que faz voltar a alimentar a ilusão e me faz desacreditar daquele pensamento. É como que uma espécie de ciclo que vive de esperança em esperança.
 
Dizem que a esperança é a última a morrer, que é verde e que é a que faz superar o desespero. Eu digo que a esperança não tem cor, ou então que tem todas as cores, não só é verde, é azul, amarela, vermelha, branca, laranja, ocre, anil, violeta, púrpura, carmim, bordeaux. A esperança pode sim fazer superar o desespero mas acredito que, para muitos, os que sofrem de incessantes dores físicas mas também de dores psicológicas, seja o fim da vida a derradeira esperança. Se calhar teríamos que dividir aqui a esperança em boa e má mas como isso é de tal forma subjectivo, se calhar é melhor nem continuar este assunto e parar por aqui. Nem consigo sequer imaginar, e para ser sincero também não quero, a enorme dificuldade de quem sofre e a quem a esperança insiste em empurrar a vida para a hora ou para o dia seguinte. É como que um ciclo dentro de outro ciclo, dentro do outro tal ciclo das esperanças. Não sei se me fiz entender com esta confusão toda.
 
Mas eu sou positivo, e como positivo que sou, entendo a esperança presente mas com ambição de futuro. No fundo quase que me considero um “vendedor” de esperança. Talvez vendedor não seja o termo correcto, se calhar é mais transmissor de esperança. Sim porque eu acredito veementemente e tenho esperança num futuro melhor para todos e como o futuro deste estranho ano de 2016 é o mesmo de todos os anos, terminar em 31 de Dezembro, só há a esperança que o próximo seja bem melhor do que o anterior.
 
A todos um Feliz Natal e um ano de 2017 cheio de boa? esperança.
 
* Professor Luís Parente

Um dia, poderá ser bem pior

Escrito por sábado, 19 novembro 2016 15:35
Tratamos, hoje em dia, as coisas com muita descontração. Quem utiliza as redes sociais com frequência, rapidamente discordará da primeira afirmação deste texto. Abrimos o Facebook, por exemplo, e todos têm uma opinião. Muitos se atropelam para serem os primeiros a criticar e a dizer que isto ou aquilo se devia fazer desta ou de outra maneira. Depois, fora do ecrã, a conversa é outra.
 
Quantos dos que criticaram a eleição de Trump, na América, vão votar em Portugal quando há eleições? Quantos conhecem claramente as ideias e intenções do novo presidente americano? Quantos acompanharam toda a campanha e não têm a opinião formada apenas por aquilo que nos chegava já filtrado? Quantos criticam apenas por ver os outros criticar? 
 
Eu não conheço bem o programa de Donald Trump, tal como não conhecia o de Hilarry Clinton. Se tivesse que votar na América, escolhia Clinton e nem sei bem explicar porquê. Talvez tivesse sido influenciado pela campanha que foi feita para a vitória de Hillary ou talvez não simpatize mesmo com a postura de Trump e com algumas das suas ideias disparatadas. 
 

...quem somos nós, que já elegemos em Portugal vários "artistas", para agora dizermos que os americanos estão ou são malucos? Nós vivemos num país onde o "Tino de Rans" teve 150 mil votos. Com todo o respeito que o Vitorino Silva merece, ficámos a saber que em Portugal há cerca de 150 mil pessoas que gostavam que o "Tino de Rans" fosse Presidente da República.

O que é certo é que Donald Trump ganhou. Ganhou porque quem quis a sua vitória foi votar e mobilizou-se para que outros votassem. Dito assim, até parece fácil. Viver em democracia é isto mesmo. Apesar de Hillary ter mais votos na urna, manda o sistema eleitoral que assim seja. Contra tudo e quase todos, Trump ganhou.
 
E ganhou porquê? Ganhou porque alguém votou nele. Trump é o exemplo do que hoje muitas vezes acontece em muitas eleições em muitos países. Lançam-se candidaturas que parecem "mortas" à nascença, seja pela opinião pública ou até pelos mais altos entendidos, mas depois toda a gente se esquece que é preciso ir votar. Eu, de um modo geral, confio em sondagens. No entanto, parece que cada vez mais elas são desmentidas no dia do acto eleitoral. Há candidatos vitoriosos antes do "jogo" começar e muitos possíveis derrotados. Depois, mandam as máquinas de mobilização e de contra-informação. Muitas vezes, o jogo vira-se e o fetiço atinge mesmo o feiticeiro.
 
Fiquei muitas vezes incrédulo a ouvir certos discursos de Donald Trump. No entanto, quem somos nós, que já elegemos em Portugal vários "artistas", para agora dizermos que os americanos estão ou são malucos? Nós vivemos num país onde o "Tino de Rans" teve 150 mil votos. Com todo o respeito que o Vitorino Silva merece, ficámos a saber que em Portugal há cerca de 150 mil pessoas que gostavam que o "Tino de Rans" fosse Presidente da República.
 
Olho para Trump como um produto da nova sociedade para a qual caminhamos, onde o "parecer" se torna bem mais importante do que o "ser". Este estado de coisas, onde o desinteresse político é preocupante e onde o populismo se instala rapidamente, é que faz eleger Trump's. A comunicação social tem aqui muita responsabilidade. Este é o veículo que leva as mensagens e que, naturalmente, forma opinião. A tal opinião, que ridicularizava Trump e que chegou a preconizar um passeio para Clinton. A candidatura do bilionário, na parte inicial, nunca foi levada muito a sério e esse foi, para mim, o seu grande trunfo.
 
O resultado é uma lição. É uma lição que não deve ficar só na América. É que, um dia, poderá ser bem pior.
 
* Jornalista José Lameiras

Coitado do Donald... Duck!

Escrito por segunda, 14 novembro 2016 00:13
Parecia que estava a adivinhar… esperei até hoje para escrever o texto deste mês e, por coincidência ou não, muitos de nós acordaram com a mais surpreendente das notícias, o anúncio da eleição do novo presidente dos Estados Unidos. Não sou analista político nem sequer almejo vir um dia a sê-lo, no entanto, e mesmo não gostando muito de comentar os assuntos “do momento” entendo que hoje devo fazê-lo.  
 
Em outras ocasiões eleitorais daquele país era, para nós portugueses, mais ou menos indiferente que quem fosse gerir os destinos da maior economia do mundo fosse democrata ou republicano. No entanto, este ano de 2016, já de si estranho, revelou aquilo que todos já sabemos… ainda não terminou e “até ao lavar dos cestos é vindima”, o que quer dizer que muito pode ainda acontecer ao enfermo mundo em que vivemos, aliás diariamente surgem notícias que nos fazem duvidar se algum dia o conseguiremos regenerar. 
 

Estas eleições revestiram-se de uma importância acrescida pelo facto de haver um candidato com um discurso, na minha opinião, deplorável, absolutamente demente e completamente fora do tão propalado discurso do politicamente correcto, um sujeito que, pelo seu raciocínio, podemos classificar de xenófobo, misógino, incitador de violência e ódio, homofóbico e preconceituoso. Nunca tal havia sido observado no mundo moderno e nem mesmo a campanha a favor do Brexit do ex Mayor de Londres e membro do partido conservador Boris Jonhson, ou do eurocéptico líder do Partido da Independência do Reino Unido, mais conhecido por UKIP, Nigel Farage, chegou ao baixo nível da campanha eleitoral norte americana. 
 
Em Agosto último escrevia nestas linhas do ARDINA o seguinte excerto: “Nos Estados Unidos da América, por exemplo, foi recentemente nomeado pelo partido republicano, como candidato à presidência do país, uma pessoa que, na minha opinião, é desprovida de qualquer tipo de sensibilidade e como consequência sem capacidade para presidir um dos países mais influentes do mundo. Pior do que isso é a sociedade que foi criada para que essa situação fosse hoje possível, não se conseguindo discernir um propagandista, aproveitador e ainda por cima xenófobo que se arrisca a ser presidente (lagarto… lagarto… lagarto) daquele que por muitos é considerado o país mais multicultural e multiétnico do mundo.” Passados três meses a minha opinião sobre o senhor continua a ser a mesma. No entanto, àquilo que escrevi, pode agora ser adicionada uma nova variável, a sua efectiva eleição para presidente dos Estados Unidos da América. Ainda assim, continuo a achar que não tem capacidade para presidir os destinos do seu país e considero mesmo que não tem sequer a noção do que lhe aconteceu nem daquilo que lhe foi “oferecido” pela livre vontade dos americanos expressa em votos nas urnas de cada um dos 50 estados daquele país. As notícias que hoje nos chegam da terra do “tio Sam” dão-nos conta de uma vitória absolutamente esmagadora do candidato republicano que consegue a maioria no Senado e no Congresso. 
 
O resultado destas eleições reflecte agora, mais que nunca, que as pessoas estão efectivamente descontentes com a forma como os políticos gerem as suas vidas. Quem sabe, tudo isto do Brexit e das eleições norte americanas, não seja até bom para que os decisores políticos reflictam e comecem a pensar efectivamente nas pessoas e não só na economia. É que as pessoas têm necessidades… muito maiores que a economia… é que as pessoas são pessoas e é para elas que os governantes devem governar. Se essa reflexão for célere quiçá não se chegue a tempo de evitar mais preocupações do género das que aconteceram hoje noutros países do mundo.
 
Durante o dia de hoje (9 de Novembro) dei-me ao trabalho de ir lendo os comentários que iam surgindo nas diferentes redes sociais sobre a inesperada vitória do candidato republicano, onde nem as próprias sondagens lhe davam algum tipo de vantagem, daí a vitória se revelar surpreendente e inesperada. As opiniões que surgiram foram inúmeras e parece que toda a gente tinha uma sobre o assunto do dia. Umas mais sarcásticas, outras furiosas, umas mais tristes (a maior parte), outras muito divertidas, umas a favor, outras contra, umas que comparavam a série de desenhos animados dos Simpsons com a realidade, outras irónicas, outras ainda sobre teorias da conspiração, enfim, uma panóplia de opiniões que continuarão a proliferar nos próximos tempos por essa web fora. 
 
Na minha opinião nenhum dos dois candidatos tem o perfil para ser presidente dos Estados Unidos, nem Trump nem Clinton. O primeiro por demonstrar tudo o que já aqui referi e a segunda não só por eventualmente se subjugar a interesses obscuros que quiçá lhe tenham financiado a própria campanha eleitoral como por não lhe reconhecer capacidade decisória para o exercício do cargo. 
 
Dos muitos comentários que li, ainda antes destas eleições, o mais consensual, se assim lhe posso chamar, foi o “de um ao outro venha o diabo e escolha”. No entanto também li muitos a preferir o “sistema” de Hillary ao abuso de autoridade de Trump a quem muita gente considerou de perigoso. Talvez eu próprio também preferisse o mal menor do sistema instituído. 
 

Na minha opinião nenhum dos dois candidatos tem o perfil para ser presidente dos Estados Unidos,nem Trump nem Clinton. O primeiro por demonstrar tudo o que já aqui referi e a segunda não só por eventualmente se subjugar a interesses obscuros que quiçá lhe tenham financiado a própria campanha eleitoral como por não lhe reconhecer capacidade decisória para o exercício do cargo.

Eu tenho para mim que o agora eleito 45º Presidente dos Estados Unidos não vai concretizar a maior parte das promessas eleitorais que fez. Concordo com o escritor Miguel Esteves Cardoso que escreveu um artigo de opinião sobre o assunto que diz que Donald Trump "conseguiu o que queria. Há-de voltar as costas ao eleitorado que o elegeu logo que perceba que a única coisa que esse eleitorado tinha para lhe dar já foi dado: os votos de que ele precisava para ser eleito. Já fez o elogio de Hillary Clinton. Já disse que vai representar todos os americanos. Vai-se tornar lentamente um republicano moderado e liberal. Os oportunistas têm sempre essa vantagem da metamorfose". Aguardemos então essa metamorfose, talvez Trump se transforme em Donald Duck para animar isto um bocadinho mais. Não! Coitado do Donald Duck! (Walt Disney de certeza que se viraria na tumba só de pensar nisso).
 
Não costumo ser muito pessimista mas confesso que este acontecimento de hoje me deixou algo apreensivo e, no deslizar do dedo pelo meu smartphone, encontrei, através de uma amiga e colega, um pequeno texto, que quero aqui partilhar convosco, de uma entrevista de Al Berto à revista Ler em 1989 que reflecte um pouco daquilo que é o meu sentimento no dia de hoje: "Este Não-Futuro que a Gente Vive -
Será que nos resta muito depois disto tudo, destes dias assim, deste não-futuro que a gente vive? (...) Bom, tudo seria mais fácil se eu tivesse um curso, um motorista a conduzir o meu carro, e usasse gravatas sempre. Às vezes uso, mas é diferente usar uma gravata no pescoço e usá-la na cabeça. Tudo aconteceu a partir do momento em que eu perdi a noção dos valores. Todos os valores se me gastaram, mesmo à minha frente. O dinheiro gasta-se, o corpo gasta-se. A memória. (...) Não me atrai ser banqueiro, ter dinheiro. Há pessoas diferentes. Atrai-me o outro lado da vida, o outro lado do mar, alguma coisa perfeita, um dia que tenha uma manhã com muito orvalho, restos de geada… De resto, não tenho grandes projectos. Acho que o planeta está perdido e que, provavelmente, a hipótese de António José Saraiva está certa: é melhor que isto se estrague mais um bocadinho, para ver se as pessoas têm mais tempo para olhar para os outros". É um facto que me preocupa muitíssimo esta ausência de valores mas também me preocupa a pouca consciência que temos dos trilhos por onde andámos para chegarmos aqui, ao ponto em que estamos, ao mundo que temos. Ainda assim, e como sou uma pessoa de fé, tenho esperança que o mundo mude para melhor.
 
Do que li, a propósito do resultado destas eleições para a “Casa Branca” quero ainda destacar o que Gabriela Ruivo Trindade, vencedora do Prémio LeYa em 2013, a viver no Reino Unido, escreveu no seu Facebook:  
Não fossem os teus olhos, o mundo seria hoje um lugar muito mais feio.
(Devíamos enviar mensagens de amor. Eu dedico esta a todos os que amo. Hoje ganhou, mais uma vez, o ódio. Aconteceu o mesmo aqui com o Brexit e a doença vai continuar a espalhar-se. O pior é que já vimos este filme, e não sabemos como pará-lo: quanto mais inseguras e assustadas, quanto mais desesperadas, mais as pessoas se tornam presas fáceis do discurso do ódio. Porque é tão mais fácil arranjar bodes expiatórios do que procurar em si o que está mal. Dá tanto jeito arranjar culpados, desde que sejam os outros. O outro. É a união, a solidariedade, a empatia, o amor pelo outro que estão ameaçados. E contra o ódio, só existe um remédio: amor. Muito amor.)
 
É verdade! Estão ameaçados… mas há defesas e essas não vivem só no amor, elas vivem também na palavra ESPERANÇA. 
 
* Professor Luís Parente
 

American Horror Story

Escrito por sexta, 11 novembro 2016 02:16
O dia 9 de Novembro de 2016 ficará para sempre marcado como o dia em que o Mundo acordou abalado com a eleição do republicano Donald Trump como próximo Presidente dos Estados Unidos da América, depois de durante meses a sua opositora democrática, Hillary Clinton, ter estado sempre à sua frente nas sondagens e pese embora as polémicas afirmações, tomadas de posição e promessas eleitorais do vencedor.
 
Sem ter qualquer tipo de pretensão de que percebo de alguma coisa, confesso que ainda percebo menos de política internacional, apenas podendo basear a minha opinião naquilo que apreendi do pouco tempo que dispensei às eleições nos EUA. Contudo, não posso deixar de ficar chocado com esta eleição, apesar de naturalmente respeitar a opção da maioria dos cidadãos norte-americanos que expressaram a sua preferência por Trump. É assim que normalmente acontece em democracia: os vencedores são (na maioria dos casos, não no caso português) aqueles que reúnem o maior número de votos e assim aconteceu com Donald Trump. Esta vitória só confirma que as eleições não se vencem nas sondagens, mas sim após o exercício do direito de voto pelos cidadãos.
 
Por todas as redes sociais na Internet, nas televisões, jornais e rádios surgiram comentários e publicações de desagrado pelo facto de Trump ter sido eleito e, desta forma, ter-se tornado no proclamado “homem mais poderoso do Mundo”. Segundo muitos, Trump não é merecedor desta vitória, em especial depois das suas mais que polémicas afirmações durante a campanha, tudo levando a crer que jamais se sentaria na cadeira do poder, nem mesmo no pior dos pesadelos. Este episódio, de proporções mundiais, é bem capaz de dar uma valente abada a qualquer uma das temporadas de American Horror Story, pelo que os produtores bem podem ir pensando em renovar esta série por mais um ano – pelo menos já têm argumento. 
 
Que se cuidem os muçulmanos, os latino-americanos e os 11 milhões de imigrantes clandestinos que vivem atualmente no território dos EUA, pois parece que as palavras de ordem são expulsão e deportação. Os mexicanos que partam à procura do “sonho americano” também não terão a vida facilitada, devido à proposta de construção de um “grande e lindo muro” na fronteira entre os dois países. O governo mexicano já fez saber que não contribuirá com um único peso para construir este muro, o que acho perfeitamente natural, pois as ideias loucas têm que ser pagas por quem as tem.
 
As futuras relações económicas com o exterior, em especial com a União Europeia, provavelmente sairão lesadas, na medida em que o mais certo é que Trump venha a tomar uma série de políticas protecionistas de proibição ou restrição do comércio livre, deitando a perder tudo aquilo por que os seus antecessores batalharam nas últimas décadas, numa perspetiva de aproximação dos Estados Unidos ao Mundo e de cooperação com as restantes nações.
 
E que dizer da sua política de segurança externa? Segundo afirmações de Trump durante a sua campanha, os aliados europeus e asiáticos da NATO terão de pagar mais para se sentirem seguros e receberem a proteção dos EUA. Parece ainda estar disposto a uma aproximação com a Rússia (resta saber se Moscovo está interessada) e a ser capaz de bombardear o Estado Islâmico “até ao tutano”. Vislumbra-se aqui uma nova Guerra do Golfo ou uma III Guerra Mundial? Não sabemos e espero que não tenhamos que vir a saber.
 
Mas a eleição de Donald Trump terá também consequências diretas sobre a paisagem, na medida em que, segundo muitos, esta sua vitória representa uma clara derrota dos ambientalistas e de todos os líderes mundiais que se têm debatido com as questões relacionadas com o aquecimento global. É mais que sabido que a emissão de gases de estufa contribui para o aquecimento global, com graves consequências em termos de alterações climáticas e da destruição de ecossistemas, habitats e espécies naturais. Trump não acredita nisso, atira as culpas do aquecimento global à política económica dos chineses e promete cancelar o dinheiro gasto em programas da ONU para combate às alterações climáticas, sob o pretexto de utilizar esses milhares de milhões de dólares na criação de mais infraestruturas nos Estados Unidos e, assim, aumentar a sua pegada ecológica. 
 

É bom que Donald Trump não se esqueça que presidentes muito mais populares do que ele tiveram os dias contados, devido a questões com as quais era bem mais fácil de lidar do que com a sua peculiar visão do Mundo.

Os Estados Unidos da América são a nação mais multicultural do Planeta, albergando milhões de pessoas que para ali foram viver à procura do tal sonho americano de que tanto ouvimos falar nos filmes de Hollywood e que agora Trump deseja renovar. Sempre foi reconhecida como uma nação onde são respeitados o direito à diferença e à igualdade, à liberdade de expressão e de crença, bem como os demais direitos fundamentais do ser humano. Com Donald Trump na Casa Branca e a avaliar pelas suas afirmações em período eleitoral, não quero imaginar como irá ser a vida futura dos emigrantes, dos homossexuais e, principalmente, das mulheres nos EUA. 
 
Seja como for, como disse, não percebo nada de política internacional e espero sinceramente estar errado quando penso que esta eleição representa um retrocesso na longa caminhada da Humanidade pelo reconhecimento dos seus direitos fundamentais, bem como na sua tentativa de construir uma relação mais harmoniosa com o Mundo que nos rodeia – uma relação de respeito pela paisagem e por todos os atores que contribuem para a sua construção, aqui se incluindo os homens e as mulheres.
 
Porventura estarei a ser pessimista ou a ser induzido por esta “onda” de pavor que se apoderou do Mundo nestes últimos dias, pelo que mais vale estar atento à política nacional e local. Ainda que provavelmente não o consiga fazer, pois todas as televisões, jornais, redes sociais e rádios nacionais fazem questão de me bombardear o juízo apenas com aquilo que se passa para lá do Oceano Atlântico.
 
De facto, valia mais que dessem atenção àquilo que de realmente bom acontece em Portugal (não me refiro, obviamente, à entrega voluntária de um criminoso às autoridades, nem à Casa dos Segredos, à “música” da Maria Leal ou às telenovelas). Ainda que tendo uma dimensão muito pequena (cabem mais de cem países com a área do nosso no território dos EUA), Portugal tem uma riqueza enorme e, infelizmente, nem sempre esse valor é reconhecido pelos próprios portuguese e muito menos pela nossa comunicação social. Só é notícia e só vende aquilo que de mau acontece em Portugal e no Mundo. Por isso Donald Trump é notícia e muito provavelmente continuará a sê-lo por algum tempo.
 
Contudo, não devemos esquecer os ensinamentos da História. No outro dia ouvi alguém dizer que o passado é um espaço grande demais para que nos estejamos sempre a preocupar com ele, mas o que é facto é que nos ensina muito para podermos definir as nossas ações no presente. É bom que Donald Trump não se esqueça que presidentes muito mais populares do que ele tiveram os dias contados, devido a questões com as quais era bem mais fácil de lidar do que com a sua peculiar visão do Mundo. Abraham Lincoln foi um fervoroso defensor dos direitos humanos, aboliu a escravatura e uniu a nação. Ainda assim, conhecemos o seu desfecho. James Garfield, William McKinley e John Kennedy também tiveram o mesmo destino, não obstante a sua popularidade e os feitos dos dois últimos (Garfield nem sequer teve tempo de aquecer a cadeira). 
 
Claro que não desejo o mesmo destino a Donald Trump, mas sinceramente não acredito que ele tenha tempo para “começar a renovar o sonho americano”, como prometeu no seu discurso da vitória. Espero ansiosamente pelo próximo capítulo.
 
* Arquiteto Paisagista António Serrano

O Sonho da Carolina

Escrito por quarta, 26 outubro 2016 23:41
O ano de 2016 ficará para sempre marcado na história do futebol português. Depois do título no Europeu de Futebol em França pela equipa masculina, agora acontece este apuramento para o Europeu Feminino. É difícil perceber a dimensão deste feito mas é fácil perceber o que isto pode significar.
 
É difícil perceber a dimensão do feito pois em Portugal, e está é uma verdade incontornável, só há bem pouco tempo se começou a dar importância ao Futebol Feminino. Até pode não ser ainda a importância justa, mas o caminho está a fazer-se e as condições, para as meninas que querem jogar futebol, estão a aumentar. Braga e Sporting, sendo dois dos maiores clubes portugueses ao nível do futebol, já deram o exemplo e formaram equipa feminina. Belenenses e Estoril também aceitaram o convite endereçado aos emblemas da Liga NOS e fizeram o mesmo, juntando-se assim ao Boavista que já tinha futebol feminino. Benfica e Porto, pelo menos, deveriam fazer o mesmo. A criação da Liga de Futebol Feminino foi uma grande ideia e um passo decisivo rumo à tão desejada evolução. Este feito, da Seleção, é ainda maior se nos lembrarmos que nem todas as internacionais são profissionais. Muitas das jogadoras até jogam no estrangeiro, e em ligas competitivas como a Inglesa, Espanhola ou Sueca, o que prova a sua qualidade. Não é de espantar, pois, que tal como no futebol masculino a seleção tenha muitas jogadoras que jogam fora de Portugal. Até aqui, muitas delas eram desconhecidas do grande público mas agora tudo mudou. O jogo desta última terça-feira, foi o programa mais visto na televisão entre todos os canais do cabo. 
 
É fácil perceber o que isto pode significar. No dia seguinte, o Record, e muito bem, fez capa com este feito. O Futebol Feminino saiu um bocado da sombra e este é o maior retorno deste feito e que é preciso aproveitar. No seu Facebook, Carolina Mendes, a ilustre estremocense que foi uma das pedras fundamentais para este sucesso, falava num "sonho realizado", um sonho que era destas jogadoras e de tantas outras que passaram pela Seleção de Portugal, assim como de treinadores e dirigentes. 
 

Há muito tempo que o Futebol Feminino precisava disto e sonhava com isto. Carolina Mendes, é um bom exemplo da luta que foi travada. A perseguir o seu sonho e a sua ambição, já jogou em Espanha, Itália, Rússia e agora está na Suécia. Não se resignou e, é claro que também fruto da sua qualidade, tem aproveitado as oportunidades... e, Carolina, os estremocenses estão muito orgulhosos de ti.

Há muito tempo que o Futebol Feminino precisava disto e sonhava com isto. Carolina Mendes, é um bom exemplo da luta que foi travada. A perseguir o seu sonho e a sua ambição, já jogou em Espanha, Itália, Rússia e agora está na Suécia. Não se resignou e, é claro que também fruto da sua qualidade, tem aproveitado as oportunidades. Também nesse texto no Facebook, Carolina esclareceu: "Para quem está fora do país como eu, questionamo-nos muitas vezes se vale a pena abdicar da família, dos amigos, do nosso país, tudo pelo prazer de jogar futebol e não, não ganhamos milhões nem milhares...uns 'trocos' para quem sacrifica tanto por puro prazer ou simplesmente para ser melhor". Está tudo dito e, Carolina, os estremocenses estão muito orgulhosos de ti.
 
O Sonho da Carolina, é um sonho de muitas meninas e meninos que andam por esses campos ou pavilhões. É o desporto no seu estado mais puro, é o desejo de se fazer o que se gosta verdadeiramente e de ir conquistando objectivos. Parece pouco, mas não é. Muitos desses sonhos ficaram por realizar pois, naturalmente, muitos e muitas voltaram para trás. A Carolina, e as suas colegas, olharam em frente, não aceitaram os prognósticos pouco animadores e lutaram até ao fim. Elas acreditaram...e isso fez toda a diferença. Graças a esta geração, o Futebol Feminino em Portugal nunca mais será o mesmo.
 
* Jornalista José Lameiras
 
 

Pensar "Fora da Caixa"

Escrito por terça, 18 outubro 2016 11:57
Gosto de pensar “Fora da Caixa”. Pensar “Fora da Caixa” pode ser assim como que deter uma capacidade de resistência à tentação do óbvio, pode ser conseguir esquecer ou pôr de parte, ali num cantinho, aquilo que nos inflama, aquilo que, de certa forma nos enraivece, aquilo que nos dá a volta às entranhas e nos pode fazer reagir sem reflectir, “disparar” por impulso - que é uma coisa que não faz muito parte da minha forma de ser. Se calhar às vezes até perco por isso, umas vezes por não conseguir outras por não querer. Quantas vezes não fico irritado comigo mesmo por não responder de imediato a determinada provocação? Penso sempre “porque é que não disse isto… e aquilo… e o outro”, mas o que é certo é que não digo e há certas coisas que deixam de fazer sentido ditas num momento posterior. De certa forma, e como acredito que nada acontece por acaso, entendo que talvez tenha mesmo que ser assim, no fundo também serve como forma de aprendizagem e crescimento pessoal.
 

Quantas vezes não fico irritado comigo mesmo por não responder de imediato a determinada provocação? Penso sempre “porque é que não disse isto… e aquilo… e o outro”, mas o que é certo é que não digo e há certas coisas que deixam de fazer sentido ditas num momento posterior.

Quem vai lendo o que por aqui escrevo já percebeu, certamente, que poucas vezes escrevi sobre a actualidade. Tento sempre fugir àquilo que os “opinion makers” trazem à luz do dia diariamente nas televisões, nos jornais, na blogosfera ou nas redes sociais, até porque eu acho que, não raras vezes, o que os mesmos pretendem é tentar influenciar opiniões e, desse modo, não existe, para mim, compatibilidade com o pensamento que quero independente e racional. Seria muito fácil opinar sobre a crescente tensão entre russos e norte americanos sobre o que se passa na Síria, sobre o orçamento de estado para o próximo ano, sobre a recente eleição do engenheiro António Guterres para Secretário-geral da Organização das Nações Unidas, sobre a forma absurda como os agentes de autoridade portugueses são tratados pelos sucessivos governos, cuja autoridade é posta em causa a cada acção mais… tensa, digamos assim, ou até mesmo sobre se o Prémio Nobel da Literatura foi ou não bem atribuído ao letrista e cantautor Bob Dylan. 
 
Mas pensar “Fora da Caixa” não é só o que referi anteriormente, pensar “Fora da Caixa” é pensar alternativamente, é sair do convencional, quebrar convenções, é não seguir ideias pré-concebidas, é ter a liberdade para ousar pensar diferente… pensar “Fora da Caixa” é imaginar mundos de vida, sonhos de canela, calçadas de estrelas, céus de algodão, grãos de areia falantes – Jesus!! Se os grãos de areia falassem ninguém poderia estar na praia, dificilmente se conseguiria entender o que quer que fosse, nem o som das ondas do mar se faria ouvir. Pensar “Fora da Caixa” é mesclar a imaginação com a memória e recorrer a ela e às vivências passadas… é ter a capacidade de criar, inventar, sujar o pensamento com pinceladas de tudo e de todas as cores… é falar sobre o pêlo da marta, sobre o cheiro do campo, a cor da cidade, a textura dos mundos, o sabor da vida… pensar “Fora da Caixa” é contar histórias fantásticas, viver os sonhos sonhados, saborear o som do silêncio, observar o toque do tempo. No fundo é baralhar os sentidos, misturá-los e encadeá-los no mundo.
 
Já várias vezes aqui escrevi sobre a forma como o mundo em que vivemos está e sobre o resquício de valores adjacentes à vida dos nossos dias. Na realidade há algo que me faz acreditar que esta decadência pode ser revertida. Essa reversão só pode mesmo passar pelo facto de podermos pensar “Fora da Caixa”. Se calhar tudo dará mais trabalho mas acredito que esta pode ser a medida mais eficaz e duradoura para um mundo menos mau.
 

Se há coisa que eu adoro são letras e palavras. A este propósito, quantas letras e palavras não se juntaram já e se tornaram “best sellers” por haver um escritor com a capacidade de desenvolver mecanismos intelectuais que potenciaram esse pensamento “Fora da Caixa”?

Quantos medicamentos e curas, por exemplo, não foram já descobertos pelo simples facto de ter havido um mero investigador que se lembrou de pensar “Fora da Caixa”?
 
Quantas soluções simples não foram já apresentadas para resolver problemas complexos só porque alguém arriscou a pensar “Fora da Caixa”?
 
Quantas vidas não foram já salvas porque o bombeiro, o enfermeiro ou o médico decidiram algo não convencional pensando “Fora da Caixa”?
 
Quantos novos cheiros não se sentiram só porque houve alguém que pensou “Fora da Caixa” e decidiu aquela mistura de fragâncias que ditaram um novo perfume?  
 
Quantos sabores novos e bons não se saborearam pelo simples facto do cozinheiro ter pensado “Fora da Caixa” e ter experimentado adicionar aquele ingrediente que ninguém imaginava?
 
Se há coisa que eu adoro são letras e palavras. A este propósito, quantas letras e palavras não se juntaram já e se tornaram “best sellers” por haver um escritor com a capacidade de desenvolver mecanismos intelectuais que potenciaram esse pensamento “Fora da Caixa”?
 
Percebem agora, só por estes simples exemplos, o motivo pelo qual eu acho que uma das soluções para o mundo é pensar “Fora da Caixa”? Sinceramente eu sou daqueles que não acreditam que só consegue pensar “Fora da Caixa” quem conhece muito bem o interior da mesma. Para mim não é preciso conhecer cada canto interior da “Caixa”, é preciso é fazer com que a tampa da “Caixa” salte, ainda que de quando em vez, e o pensamento se espalhe para fora dela, pelo mundo fora.
 
* Professor Luís Parente

Era uma vez…

Escrito por segunda, 10 outubro 2016 02:44
Quantas vezes iniciámos, assim, uma história, como se fosse “uma só vez” e não voltasse a acontecer, não houvesse igual e de fato é possível que assim seja… cada um de nós, contará a sua história, quem sabe um dia, e será realmente única e tudo o que aconteceu, terá acontecido apenas uma vez e não haverá igual. Muitos caminhos se terão cruzado com o nosso, muitos sonhos terão ficado por realizar, muitos amores por viver, muitos abraços por dar e muitas emoções por sentir… ou não.
 
A vida parecer-nos-á complexa e o que somos um labirinto de perguntas e respostas que muitas vezes foram feitas e dadas em momentos que não percebemos o sentido, mas lembramos certamente que tudo foi sentido. Somos obras inacabadas e únicas, que ao longo da vida vão sendo esculpidas por nós mesmos, pelos que nos rodeiam e por tudo aquilo que vamos vivendo mas principalmente por tudo aquilo que sentimos. É isso, somos o que sentimos.
 

Da história das nossas histórias, sobrará o que sentimos em tudo o que vivemos. O sentimento é a força que nos leva a procurar o sentido, a emoção a forma que temos de o expressar e o “Era uma vez…” a maneira com que todos um dia a havemos de contar.

…e Era uma vez… um sentimento que fez com que tudo acontecesse, não o vou definir nem dar nome, porque muitos são os sentimentos possíveis e muitas as consequências de cada um deles. Afinal não somos assim tão diferentes, procuramos no outro o que nos faz bem e queremos dar o que temos de melhor.
 
Mas teremos o poder de querer ou não sentir? Facilmente responderemos “Não, não temos”. A nossa história está repleta de sentimentos que nos fizeram e fazem, rasgar sorrisos e gargalhadas e outros que queríamos tanto apagar da nossa memória, mas todos estão lá, são argumento dessa história que inevitavelmente será única e muito provavelmente não se repetirá e também muito provavelmente estará inacabada … quando chegar o “Fim”.
 
Da história das nossas histórias, sobrará o que sentimos em tudo o que vivemos. O sentimento é a força que nos leva a procurar o sentido, a emoção a forma que temos de o expressar e o “Era uma vez…” a maneira com que todos um dia a havemos de contar.
 
* Psicóloga Helena Chouriço
 

Evoramonte: a paisagem e as memórias

Escrito por sexta, 30 setembro 2016 01:42
A paisagem constrói-se também através das memórias daquilo que foi antes de a conhecermos. Uma das principais “regras” da intervenção na paisagem, seja à escala do projeto, seja à grande escala do ordenamento do território, é o respeito pelos seus antecedentes, por aquilo que já existia muito antes de sequer pensarmos em intervir. Por isso, podemos dizer que o carácter, ou espírito, de um lugar é definido, em grande parte, pelas memórias que transmitiu àqueles que o habitam ou vivem.
 
Todos temos memórias acerca dos lugares onde vivemos ou por onde passamos. Boas ou más, serão as memórias que nos acompanharão sempre e que definirão aquilo que pensamos acerca desses lugares.
 
Quando penso em Evoramonte, as memórias fazem-me regressar à minha infância e à minha juventude. Nesses tempos, tive o privilégio de acordar todos os dias e de, ao abrir a janela, poder deslumbrar-me com o imponente castelo que tinha à minha frente e que já então me enchia o meu pequeno coração de orgulho, ao saber que era único no Mundo. Mais: por ter crescido ali, tive ainda o privilégio de poder percorrer as suas muralhas muitas vezes e de me sentir regalado com a policromia e com a beleza da paisagem que se avista daquele lugar altaneiro.
 

Quando penso em Evoramonte, as memórias fazem-me regressar à minha infância e à minha juventude. Nesses tempos, tive o privilégio de acordar todos os dias e de, ao abrir a janela, poder deslumbrar-me com o imponente castelo que tinha à minha frente e que já então me enchia o meu pequeno coração de orgulho, ao saber que era único no Mundo.

Quem faz todo o circuito das muralhas, certamente não fica indiferente à diversidade de formas e texturas que a natureza e os homens construíram na envolvente de Evoramonte: de um lado a leve ondulação da peneplanície, salpicada por montados de sobro e de azinho, por olivais ou por campos de pastagem, outrora povoados por culturas cerealíferas; do outro, a Serra d’Ossa a marcar a sua presença, com a sua mancha escura de eucaliptal, lembrando-nos que estamos na sua extremidade, que é ali o seu derradeiro limite.
 
Ainda me lembro de como era a paisagem desse lado da serra, antes de ser devassada, primeiro pela autoestrada e depois, mais recentemente, pela linha de muito alta tensão. Sinais de modernidade e de evolução, que hoje aceito com naturalidade, pois dá-me muito jeito chegar mais rapidamente aonde aquela estrada me leva e vivo numa era em que não dispenso os benefícios da luz elétrica, mas que nunca se irão sobrepor à imagem da Ermida de Santa Margarida com o vale da Ribeira de São Brás por detrás, quando ainda não existiam nem o comprido viaduto nem os altos postes de metal. Como era delicioso o assado de borrego, na segunda-feira de Páscoa, comido à sombra de uma figueira (que hoje ainda lá está!), vendo a procissão, com a imagem de Santa Margarida e a imensidão da serra como pano de fundo, até onde a vista alcançava. A vastidão da serra que muitas vezes me fez percorrer montes e vales, a pé ou de bicicleta, com o objetivo de chegar ao São Gens e, dali, poder admirar o meu castelo.
 
Já naquele tempo, durante a minha tenra juventude, despontava em mim um grande gosto pelo desenho e por construir paisagem. Eu ainda não o sabia, mas aqueles desenhos que eu fazia eram já qualquer coisa parecida com arquitetura paisagista… nas folhas dos meus cadernos eu planeava a Evoramonte ideal, que viria a ser construída no futuro, com as suas grandes avenidas, os seus prédios de cinco andares, os seus jardins, estádio, piscinas, escolas e equipamentos capazes de albergar uma população muito superior àquilo que Evoramonte alguma vez teve ou terá. Incapaz, ainda, de perceber que aqueles planos só noutra dimensão ou noutro mundo paralelo poderiam acontecer, eu continuava a sonhar com uma Evoramonte à altura das grandes cidades que conhecia e que, na verdade, também ainda eram muito poucas nessa época. Também de memórias utópicas alimentamos a nossa existência.
 
A verdade é que, desde muito cedo, sempre acreditei no potencial daquela terra. Não é para menos, pois é inegável a riqueza do património de Evoramonte, com o seu castelo recheado de História, construído para gáudio dos Duques de Bragança e para afirmação do seu poder no Reino de Portugal. Não foi à toa a inserção de Evoramonte na paisagem, como que a coroar aquela colina, avistando-se de tudo quanto é lugar a muitos quilómetros de distância. “Depois de Vós, Nós”, o lema da Casa de Bragança, está bem vincado nos laços que abraçam a Torre/Paço Ducal, lembrando-nos que apenas a Casa Real estava acima dos Braganças, àquela época. 
 
A Torre de Evoramonte é uma obra de arquitetura militar renascentista, sem antecedentes nem precedentes em Portugal e, por isso, sempre acreditei que devia ser mais valorizada pela entidade que sempre teve a sua tutela – antes o IPPAR, depois o IGESPAR e hoje a Direção Regional de Cultura do Alentejo. Infelizmente, tirando as controversas, mas necessárias, obras de recuperação de que foi alvo durante os anos oitenta do século passado e a valorização da envolvente, já no início deste século, pouco tem sido feito para valorizar este monumento. As obras de recuperação da Torre são outra das minhas memórias. Nessa altura, quando abria a janela e olhava para o castelo, uma imensidão de andaimes envolvia a Torre e as muralhas, não deixando antever aquilo que estava para acontecer. Recordo-me que foi complicado convencer os Evoramontenses de que aquele reboco amarelo era semelhante ao que tinha sido aplicado no século XVI. Ainda hoje não sei se estão convencidos, pois a imagem de um castelo com a pedra à vista, sem rebocos, estará para sempre presente na memória das gerações que, tal como eu, ainda vivem e se recordam do castelo da outra forma.
 
Mas Evoramonte encerra em si muito mais que a Torre de Menagem dos Braganças! A Igreja Matriz, que esteve durante muitos anos em ruína e que abriu recentemente ao culto, depois de obras realizadas, em boa hora, pela Paróquia de Evoramonte, e que possui um altar de talha dourada extraordinariamente belo; a pequenina Igreja da Misericórdia, com o seu altar e nave revestidos a azulejos que nos relembram as obras de misericórdia; a graciosa casa onde, na tarde de 26 de maio de 1834, os representantes de D. Pedro IV e D. Miguel assinaram a Convenção que restabeleceu a paz em Portugal, após vários anos de sangrenta guerra civil; os antigos Paços do Concelho, com a sua torre do relógio e as ruínas do pelourinho. E depois disto tudo, o caminhar pelas suas ruelas de pedra, admirar o pôr-do-sol lá do alto e sentir o cheiro da giesta ou da esteva, “ver os milhanos pelas costas”, envolvido por um silêncio e uma calma que em poucos lugares se encontram, são experiências únicas que estarão para sempre na minha memória.
 

Estou convencido que Evoramonte ainda tem muito para dar. Mas há um longo caminho a percorrer. É preciso recuperar mais património, público e privado, reabilitar espaços e criar mais motivos de atratividade turística. Essa atratividade já existe no património monumental, mas por si só não é suficiente.

Foi devido a tudo aquilo que Evoramonte tem para oferecer que dediquei parte da minha vida a tentar contribuir para o seu desenvolvimento, através da participação ativa nas coletividades locais, na autarquia e na vida desta terra que me viu nascer e crescer, e à qual regresso sempre que posso, através das minhas memórias.
 
Estou convencido que Evoramonte ainda tem muito para dar. Mas há um longo caminho a percorrer. É preciso recuperar mais património, público e privado, reabilitar espaços e criar mais motivos de atratividade turística. Essa atratividade já existe no património monumental, mas por si só não é suficiente. Sem investimento privado na criação de condições de acolhimento turístico, nada do que se faça de investimento público será suficiente. São necessários investimentos privados que abram restaurantes típicos, espaços de venda de artesanato e alojamentos, acompanhados de investimentos na reabilitação do património e do espaço público, sustentados pela posterior criação de espaços museológicos, estruturas de acolhimento turístico e criação de oferta cultural capaz de captar visitantes. Mas, acima de tudo, é necessário que estes investimentos sejam também um convite a que mais pessoas vivam em Evoramonte e no seu centro histórico, hoje com menos de 20 habitantes.
 
O PEDU – Plano Estratégico de Desenvolvimento Urbano de Estremoz abre novas perspetivas para Evoramonte, através de diversas iniciativas de reabilitação urbana do seu centro histórico e é, por isso, um momento único para esta vila. Na vida existem duas coisas importantes: o motivo e o momento. É certo que os motivos poderão repetir-se ao longo da História, mas os momentos são únicos. Este será o momento para Evoramonte renascer das cinzas.
 
É necessário que Evoramonte invista em si própria, que a maioria dos seus habitantes deixe de olhar para o castelo e veja apenas “um monte de pedras”. Que veja nessas pedras do passado, nestas memórias, a oportunidade de construir o futuro. Eu não tenho dúvidas de que é possível construir outro futuro para Evoramonte.
 
* Arquiteto Paisagista António Serrano

E se um dia, simplesmente, acabar?

Escrito por sexta, 23 setembro 2016 08:14
Em 30 de janeiro de 2002, quis o destino que o Benfica tivesse de vir a Estremoz disputar a 3ª eliminatória da Taça de Portugal de Hóquei em Patins. O Pavilhão, como se esperava, ia rebentando pelas costuras. Os bilhetes, que custavam três euros, "voavam" e não chegavam. Só quem viveu essa noite pode mesmo comprovar que o nosso enorme pavilhão foi pequeno para tanta gente. 
 
O Benfica tinha uma das melhores equipas de sempre. Panchito era considerado o melhor do mundo, o mais habilidoso. Mas havia mais, muito mais. Além do astro argentino, estava também o seu irmão Mariano, Gaidão, Luís Ferreira, Fortunato, Miguel Dantas, Ricardo Pereira, na baliza Zé Carlos e no banco Carlos Dantas. Atenção, que estamos a falar de campeões do mundo e do melhor que Portugal já teve. Além de todos estes, por lesão de Alan Fernandes, foi chamado um júnior que tinha sido formado em Estremoz, Pedro Gomes.
 

Quando comecei, bem novo, a ir ver hóquei, via as bancadas do pavilhão compostas e um ambiente que era infernal para quem nos visitava. Fazíamos claque com bandeiras e tudo. Era o público que muitas vezes ganhava os jogos empurrando a equipa para a frente e desconcentrando os adversários. Em dia de hóquei, até se sentia uma atmosfera diferente em Estremoz.

Foi uma noite histórica. Lembro-me que entrámos bem no jogo e que o Rúben, o nosso guarda-redes, fez uma exibição sensacional. O Vasco marcou um "golão" que fez tremer as bancadas e o Rui Mata outro. Vibrava-se como nunca naquele pavilhão. Ao intervalo, 2-2 e uma meia-surpresa já conseguida. Na segunda metade do jogo, como se esperava, vieram ao de cima os mais fortes argumentos do Benfica e a goleada aconteceu por 11-2. Tudo normal e para a história uma exibição bastante digna e competitiva da equipa de Estremoz.
 
Antes do jogo, confidenciaram-me, foi este mais ou menos o discurso do Carlos Dantas, no balnerário do Benfica: "Meus amigos, atenção que isto não são favas contadas. Vocês vão jogar numa terra de hóquei e onde as pessoas gostam e vibram muito com isto. Por isso, olhos abertos e concentração. Já viram como está este pavilhão?" No discurso do treinador do Benfica, está todo o respeito que o CF Estremoz conquistou ao longo de muitos anos nesta modalidade. Não foi com um ou dois jogos que esse respeito foi conquistado. Foi um respeito conquistado com décadas de entrega, superação e muitos quilómetros percorridos, por todo o país, com condições que hoje não fariam qualquer atleta sair do sofá.
 
Para muitos, isto é muito pouco. Para alguns jogadores que nem sabem a honra que tiveram em vestir esta camisola, talvez tivesse faltado quem lhe passasse esta mensagem. Modéstia a mais, digo eu, é hipócrisia e por isso é bom reforçar tudo o que este clube já conquistou e que hoje é algo banalizado. 
 
Quando comecei, bem novo, a ir ver hóquei, via as bancadas do pavilhão compostas e um ambiente que era infernal para quem nos visitava. Fazíamos claque com bandeiras e tudo. Era o público que muitas vezes ganhava os jogos empurrando a equipa para a frente e desconcentrando os adversários. Em dia de hóquei, até se sentia uma atmosfera diferente em Estremoz. É disso que me lembro e, naquelas bancadas, sonhava um dia poder estar dentro do campo a sentir aquilo. Senti, ainda nas camadas jovens, muitas vezes essa energia, mas nada comparado com o orgulho que senti quando tive a oportunidade de pertencer à equipa principal do meu "Estremoz". Por isso mesmo, faz-me confusão como hoje, na maior parte das vezes, não se sente o mesmo.
 
Para nós, o hóquei não era só um hobby ou um desporto. O hóquei e o "Estremoz" era uma obrigação. Ainda nas camadas jovens, íamos para o pavilhão uma hora antes do treino só para lá estarmos mais tempo e nas vésperas dos jogos até tinhamos dificuldade em adormecer. Lembro-me, de ser míudo e ir na sexta-feira à noite ao Pavilhão só para ver o material dos séniores ser preparado para o jogo do dia seguinte.
 
Hoje, as coisas mudaram...e muito. Algo dessa mudança tem muito de normal, pois a oferta para ocupação de tempos livres é mais vasta. No entanto, para quem joga, essa mudança não deveria acontecer. Para quem se compromete e assume querer vestir aquela camisola, nada deveria ter mudado. Mudou, e muito, a quantidade de público que assiste aos jogos, que hoje até são de entrada livre. Quando há mais público num jogo de uma equipa da formação do que num jogo da equipa principal, está tudo dito. 
 
Alguns, ao ler este texto, vão dizer que em todo lado agora é assim. Não é em todo o lado, mas é uma realidade em outros locais. No entanto, a mim, só me interessa o "Estremoz". Se o hóquei em Estremoz não for apoiado e visto como ele merece por atletas, treinadores, dirigentes, encarregados de educação e público em geral, ninguém deve ficar surpreendido se um dia chegar a notícia de que, simplesmente, acabou.
 

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