terça, 17 outubro 2017

Luís Parente

Quase 12 anos

Quase 12 anos

Há quase 12 anos, durante o mês de Agosto, o meu telefone tocou. Do outro lad ...

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Pensar "Fora da Caixa"

Escrito por terça, 18 outubro 2016 11:57
Gosto de pensar “Fora da Caixa”. Pensar “Fora da Caixa” pode ser assim como que deter uma capacidade de resistência à tentação do óbvio, pode ser conseguir esquecer ou pôr de parte, ali num cantinho, aquilo que nos inflama, aquilo que, de certa forma nos enraivece, aquilo que nos dá a volta às entranhas e nos pode fazer reagir sem reflectir, “disparar” por impulso - que é uma coisa que não faz muito parte da minha forma de ser. Se calhar às vezes até perco por isso, umas vezes por não conseguir outras por não querer. Quantas vezes não fico irritado comigo mesmo por não responder de imediato a determinada provocação? Penso sempre “porque é que não disse isto… e aquilo… e o outro”, mas o que é certo é que não digo e há certas coisas que deixam de fazer sentido ditas num momento posterior. De certa forma, e como acredito que nada acontece por acaso, entendo que talvez tenha mesmo que ser assim, no fundo também serve como forma de aprendizagem e crescimento pessoal.
 

Quantas vezes não fico irritado comigo mesmo por não responder de imediato a determinada provocação? Penso sempre “porque é que não disse isto… e aquilo… e o outro”, mas o que é certo é que não digo e há certas coisas que deixam de fazer sentido ditas num momento posterior.

Quem vai lendo o que por aqui escrevo já percebeu, certamente, que poucas vezes escrevi sobre a actualidade. Tento sempre fugir àquilo que os “opinion makers” trazem à luz do dia diariamente nas televisões, nos jornais, na blogosfera ou nas redes sociais, até porque eu acho que, não raras vezes, o que os mesmos pretendem é tentar influenciar opiniões e, desse modo, não existe, para mim, compatibilidade com o pensamento que quero independente e racional. Seria muito fácil opinar sobre a crescente tensão entre russos e norte americanos sobre o que se passa na Síria, sobre o orçamento de estado para o próximo ano, sobre a recente eleição do engenheiro António Guterres para Secretário-geral da Organização das Nações Unidas, sobre a forma absurda como os agentes de autoridade portugueses são tratados pelos sucessivos governos, cuja autoridade é posta em causa a cada acção mais… tensa, digamos assim, ou até mesmo sobre se o Prémio Nobel da Literatura foi ou não bem atribuído ao letrista e cantautor Bob Dylan. 
 
Mas pensar “Fora da Caixa” não é só o que referi anteriormente, pensar “Fora da Caixa” é pensar alternativamente, é sair do convencional, quebrar convenções, é não seguir ideias pré-concebidas, é ter a liberdade para ousar pensar diferente… pensar “Fora da Caixa” é imaginar mundos de vida, sonhos de canela, calçadas de estrelas, céus de algodão, grãos de areia falantes – Jesus!! Se os grãos de areia falassem ninguém poderia estar na praia, dificilmente se conseguiria entender o que quer que fosse, nem o som das ondas do mar se faria ouvir. Pensar “Fora da Caixa” é mesclar a imaginação com a memória e recorrer a ela e às vivências passadas… é ter a capacidade de criar, inventar, sujar o pensamento com pinceladas de tudo e de todas as cores… é falar sobre o pêlo da marta, sobre o cheiro do campo, a cor da cidade, a textura dos mundos, o sabor da vida… pensar “Fora da Caixa” é contar histórias fantásticas, viver os sonhos sonhados, saborear o som do silêncio, observar o toque do tempo. No fundo é baralhar os sentidos, misturá-los e encadeá-los no mundo.
 
Já várias vezes aqui escrevi sobre a forma como o mundo em que vivemos está e sobre o resquício de valores adjacentes à vida dos nossos dias. Na realidade há algo que me faz acreditar que esta decadência pode ser revertida. Essa reversão só pode mesmo passar pelo facto de podermos pensar “Fora da Caixa”. Se calhar tudo dará mais trabalho mas acredito que esta pode ser a medida mais eficaz e duradoura para um mundo menos mau.
 

Se há coisa que eu adoro são letras e palavras. A este propósito, quantas letras e palavras não se juntaram já e se tornaram “best sellers” por haver um escritor com a capacidade de desenvolver mecanismos intelectuais que potenciaram esse pensamento “Fora da Caixa”?

Quantos medicamentos e curas, por exemplo, não foram já descobertos pelo simples facto de ter havido um mero investigador que se lembrou de pensar “Fora da Caixa”?
 
Quantas soluções simples não foram já apresentadas para resolver problemas complexos só porque alguém arriscou a pensar “Fora da Caixa”?
 
Quantas vidas não foram já salvas porque o bombeiro, o enfermeiro ou o médico decidiram algo não convencional pensando “Fora da Caixa”?
 
Quantos novos cheiros não se sentiram só porque houve alguém que pensou “Fora da Caixa” e decidiu aquela mistura de fragâncias que ditaram um novo perfume?  
 
Quantos sabores novos e bons não se saborearam pelo simples facto do cozinheiro ter pensado “Fora da Caixa” e ter experimentado adicionar aquele ingrediente que ninguém imaginava?
 
Se há coisa que eu adoro são letras e palavras. A este propósito, quantas letras e palavras não se juntaram já e se tornaram “best sellers” por haver um escritor com a capacidade de desenvolver mecanismos intelectuais que potenciaram esse pensamento “Fora da Caixa”?
 
Percebem agora, só por estes simples exemplos, o motivo pelo qual eu acho que uma das soluções para o mundo é pensar “Fora da Caixa”? Sinceramente eu sou daqueles que não acreditam que só consegue pensar “Fora da Caixa” quem conhece muito bem o interior da mesma. Para mim não é preciso conhecer cada canto interior da “Caixa”, é preciso é fazer com que a tampa da “Caixa” salte, ainda que de quando em vez, e o pensamento se espalhe para fora dela, pelo mundo fora.
 
* Professor Luís Parente

Era uma vez…

Escrito por segunda, 10 outubro 2016 02:44
Quantas vezes iniciámos, assim, uma história, como se fosse “uma só vez” e não voltasse a acontecer, não houvesse igual e de fato é possível que assim seja… cada um de nós, contará a sua história, quem sabe um dia, e será realmente única e tudo o que aconteceu, terá acontecido apenas uma vez e não haverá igual. Muitos caminhos se terão cruzado com o nosso, muitos sonhos terão ficado por realizar, muitos amores por viver, muitos abraços por dar e muitas emoções por sentir… ou não.
 
A vida parecer-nos-á complexa e o que somos um labirinto de perguntas e respostas que muitas vezes foram feitas e dadas em momentos que não percebemos o sentido, mas lembramos certamente que tudo foi sentido. Somos obras inacabadas e únicas, que ao longo da vida vão sendo esculpidas por nós mesmos, pelos que nos rodeiam e por tudo aquilo que vamos vivendo mas principalmente por tudo aquilo que sentimos. É isso, somos o que sentimos.
 

Da história das nossas histórias, sobrará o que sentimos em tudo o que vivemos. O sentimento é a força que nos leva a procurar o sentido, a emoção a forma que temos de o expressar e o “Era uma vez…” a maneira com que todos um dia a havemos de contar.

…e Era uma vez… um sentimento que fez com que tudo acontecesse, não o vou definir nem dar nome, porque muitos são os sentimentos possíveis e muitas as consequências de cada um deles. Afinal não somos assim tão diferentes, procuramos no outro o que nos faz bem e queremos dar o que temos de melhor.
 
Mas teremos o poder de querer ou não sentir? Facilmente responderemos “Não, não temos”. A nossa história está repleta de sentimentos que nos fizeram e fazem, rasgar sorrisos e gargalhadas e outros que queríamos tanto apagar da nossa memória, mas todos estão lá, são argumento dessa história que inevitavelmente será única e muito provavelmente não se repetirá e também muito provavelmente estará inacabada … quando chegar o “Fim”.
 
Da história das nossas histórias, sobrará o que sentimos em tudo o que vivemos. O sentimento é a força que nos leva a procurar o sentido, a emoção a forma que temos de o expressar e o “Era uma vez…” a maneira com que todos um dia a havemos de contar.
 
* Psicóloga Helena Chouriço
 

Evoramonte: a paisagem e as memórias

Escrito por sexta, 30 setembro 2016 01:42
A paisagem constrói-se também através das memórias daquilo que foi antes de a conhecermos. Uma das principais “regras” da intervenção na paisagem, seja à escala do projeto, seja à grande escala do ordenamento do território, é o respeito pelos seus antecedentes, por aquilo que já existia muito antes de sequer pensarmos em intervir. Por isso, podemos dizer que o carácter, ou espírito, de um lugar é definido, em grande parte, pelas memórias que transmitiu àqueles que o habitam ou vivem.
 
Todos temos memórias acerca dos lugares onde vivemos ou por onde passamos. Boas ou más, serão as memórias que nos acompanharão sempre e que definirão aquilo que pensamos acerca desses lugares.
 
Quando penso em Evoramonte, as memórias fazem-me regressar à minha infância e à minha juventude. Nesses tempos, tive o privilégio de acordar todos os dias e de, ao abrir a janela, poder deslumbrar-me com o imponente castelo que tinha à minha frente e que já então me enchia o meu pequeno coração de orgulho, ao saber que era único no Mundo. Mais: por ter crescido ali, tive ainda o privilégio de poder percorrer as suas muralhas muitas vezes e de me sentir regalado com a policromia e com a beleza da paisagem que se avista daquele lugar altaneiro.
 

Quando penso em Evoramonte, as memórias fazem-me regressar à minha infância e à minha juventude. Nesses tempos, tive o privilégio de acordar todos os dias e de, ao abrir a janela, poder deslumbrar-me com o imponente castelo que tinha à minha frente e que já então me enchia o meu pequeno coração de orgulho, ao saber que era único no Mundo.

Quem faz todo o circuito das muralhas, certamente não fica indiferente à diversidade de formas e texturas que a natureza e os homens construíram na envolvente de Evoramonte: de um lado a leve ondulação da peneplanície, salpicada por montados de sobro e de azinho, por olivais ou por campos de pastagem, outrora povoados por culturas cerealíferas; do outro, a Serra d’Ossa a marcar a sua presença, com a sua mancha escura de eucaliptal, lembrando-nos que estamos na sua extremidade, que é ali o seu derradeiro limite.
 
Ainda me lembro de como era a paisagem desse lado da serra, antes de ser devassada, primeiro pela autoestrada e depois, mais recentemente, pela linha de muito alta tensão. Sinais de modernidade e de evolução, que hoje aceito com naturalidade, pois dá-me muito jeito chegar mais rapidamente aonde aquela estrada me leva e vivo numa era em que não dispenso os benefícios da luz elétrica, mas que nunca se irão sobrepor à imagem da Ermida de Santa Margarida com o vale da Ribeira de São Brás por detrás, quando ainda não existiam nem o comprido viaduto nem os altos postes de metal. Como era delicioso o assado de borrego, na segunda-feira de Páscoa, comido à sombra de uma figueira (que hoje ainda lá está!), vendo a procissão, com a imagem de Santa Margarida e a imensidão da serra como pano de fundo, até onde a vista alcançava. A vastidão da serra que muitas vezes me fez percorrer montes e vales, a pé ou de bicicleta, com o objetivo de chegar ao São Gens e, dali, poder admirar o meu castelo.
 
Já naquele tempo, durante a minha tenra juventude, despontava em mim um grande gosto pelo desenho e por construir paisagem. Eu ainda não o sabia, mas aqueles desenhos que eu fazia eram já qualquer coisa parecida com arquitetura paisagista… nas folhas dos meus cadernos eu planeava a Evoramonte ideal, que viria a ser construída no futuro, com as suas grandes avenidas, os seus prédios de cinco andares, os seus jardins, estádio, piscinas, escolas e equipamentos capazes de albergar uma população muito superior àquilo que Evoramonte alguma vez teve ou terá. Incapaz, ainda, de perceber que aqueles planos só noutra dimensão ou noutro mundo paralelo poderiam acontecer, eu continuava a sonhar com uma Evoramonte à altura das grandes cidades que conhecia e que, na verdade, também ainda eram muito poucas nessa época. Também de memórias utópicas alimentamos a nossa existência.
 
A verdade é que, desde muito cedo, sempre acreditei no potencial daquela terra. Não é para menos, pois é inegável a riqueza do património de Evoramonte, com o seu castelo recheado de História, construído para gáudio dos Duques de Bragança e para afirmação do seu poder no Reino de Portugal. Não foi à toa a inserção de Evoramonte na paisagem, como que a coroar aquela colina, avistando-se de tudo quanto é lugar a muitos quilómetros de distância. “Depois de Vós, Nós”, o lema da Casa de Bragança, está bem vincado nos laços que abraçam a Torre/Paço Ducal, lembrando-nos que apenas a Casa Real estava acima dos Braganças, àquela época. 
 
A Torre de Evoramonte é uma obra de arquitetura militar renascentista, sem antecedentes nem precedentes em Portugal e, por isso, sempre acreditei que devia ser mais valorizada pela entidade que sempre teve a sua tutela – antes o IPPAR, depois o IGESPAR e hoje a Direção Regional de Cultura do Alentejo. Infelizmente, tirando as controversas, mas necessárias, obras de recuperação de que foi alvo durante os anos oitenta do século passado e a valorização da envolvente, já no início deste século, pouco tem sido feito para valorizar este monumento. As obras de recuperação da Torre são outra das minhas memórias. Nessa altura, quando abria a janela e olhava para o castelo, uma imensidão de andaimes envolvia a Torre e as muralhas, não deixando antever aquilo que estava para acontecer. Recordo-me que foi complicado convencer os Evoramontenses de que aquele reboco amarelo era semelhante ao que tinha sido aplicado no século XVI. Ainda hoje não sei se estão convencidos, pois a imagem de um castelo com a pedra à vista, sem rebocos, estará para sempre presente na memória das gerações que, tal como eu, ainda vivem e se recordam do castelo da outra forma.
 
Mas Evoramonte encerra em si muito mais que a Torre de Menagem dos Braganças! A Igreja Matriz, que esteve durante muitos anos em ruína e que abriu recentemente ao culto, depois de obras realizadas, em boa hora, pela Paróquia de Evoramonte, e que possui um altar de talha dourada extraordinariamente belo; a pequenina Igreja da Misericórdia, com o seu altar e nave revestidos a azulejos que nos relembram as obras de misericórdia; a graciosa casa onde, na tarde de 26 de maio de 1834, os representantes de D. Pedro IV e D. Miguel assinaram a Convenção que restabeleceu a paz em Portugal, após vários anos de sangrenta guerra civil; os antigos Paços do Concelho, com a sua torre do relógio e as ruínas do pelourinho. E depois disto tudo, o caminhar pelas suas ruelas de pedra, admirar o pôr-do-sol lá do alto e sentir o cheiro da giesta ou da esteva, “ver os milhanos pelas costas”, envolvido por um silêncio e uma calma que em poucos lugares se encontram, são experiências únicas que estarão para sempre na minha memória.
 

Estou convencido que Evoramonte ainda tem muito para dar. Mas há um longo caminho a percorrer. É preciso recuperar mais património, público e privado, reabilitar espaços e criar mais motivos de atratividade turística. Essa atratividade já existe no património monumental, mas por si só não é suficiente.

Foi devido a tudo aquilo que Evoramonte tem para oferecer que dediquei parte da minha vida a tentar contribuir para o seu desenvolvimento, através da participação ativa nas coletividades locais, na autarquia e na vida desta terra que me viu nascer e crescer, e à qual regresso sempre que posso, através das minhas memórias.
 
Estou convencido que Evoramonte ainda tem muito para dar. Mas há um longo caminho a percorrer. É preciso recuperar mais património, público e privado, reabilitar espaços e criar mais motivos de atratividade turística. Essa atratividade já existe no património monumental, mas por si só não é suficiente. Sem investimento privado na criação de condições de acolhimento turístico, nada do que se faça de investimento público será suficiente. São necessários investimentos privados que abram restaurantes típicos, espaços de venda de artesanato e alojamentos, acompanhados de investimentos na reabilitação do património e do espaço público, sustentados pela posterior criação de espaços museológicos, estruturas de acolhimento turístico e criação de oferta cultural capaz de captar visitantes. Mas, acima de tudo, é necessário que estes investimentos sejam também um convite a que mais pessoas vivam em Evoramonte e no seu centro histórico, hoje com menos de 20 habitantes.
 
O PEDU – Plano Estratégico de Desenvolvimento Urbano de Estremoz abre novas perspetivas para Evoramonte, através de diversas iniciativas de reabilitação urbana do seu centro histórico e é, por isso, um momento único para esta vila. Na vida existem duas coisas importantes: o motivo e o momento. É certo que os motivos poderão repetir-se ao longo da História, mas os momentos são únicos. Este será o momento para Evoramonte renascer das cinzas.
 
É necessário que Evoramonte invista em si própria, que a maioria dos seus habitantes deixe de olhar para o castelo e veja apenas “um monte de pedras”. Que veja nessas pedras do passado, nestas memórias, a oportunidade de construir o futuro. Eu não tenho dúvidas de que é possível construir outro futuro para Evoramonte.
 
* Arquiteto Paisagista António Serrano

E se um dia, simplesmente, acabar?

Escrito por sexta, 23 setembro 2016 08:14
Em 30 de janeiro de 2002, quis o destino que o Benfica tivesse de vir a Estremoz disputar a 3ª eliminatória da Taça de Portugal de Hóquei em Patins. O Pavilhão, como se esperava, ia rebentando pelas costuras. Os bilhetes, que custavam três euros, "voavam" e não chegavam. Só quem viveu essa noite pode mesmo comprovar que o nosso enorme pavilhão foi pequeno para tanta gente. 
 
O Benfica tinha uma das melhores equipas de sempre. Panchito era considerado o melhor do mundo, o mais habilidoso. Mas havia mais, muito mais. Além do astro argentino, estava também o seu irmão Mariano, Gaidão, Luís Ferreira, Fortunato, Miguel Dantas, Ricardo Pereira, na baliza Zé Carlos e no banco Carlos Dantas. Atenção, que estamos a falar de campeões do mundo e do melhor que Portugal já teve. Além de todos estes, por lesão de Alan Fernandes, foi chamado um júnior que tinha sido formado em Estremoz, Pedro Gomes.
 

Quando comecei, bem novo, a ir ver hóquei, via as bancadas do pavilhão compostas e um ambiente que era infernal para quem nos visitava. Fazíamos claque com bandeiras e tudo. Era o público que muitas vezes ganhava os jogos empurrando a equipa para a frente e desconcentrando os adversários. Em dia de hóquei, até se sentia uma atmosfera diferente em Estremoz.

Foi uma noite histórica. Lembro-me que entrámos bem no jogo e que o Rúben, o nosso guarda-redes, fez uma exibição sensacional. O Vasco marcou um "golão" que fez tremer as bancadas e o Rui Mata outro. Vibrava-se como nunca naquele pavilhão. Ao intervalo, 2-2 e uma meia-surpresa já conseguida. Na segunda metade do jogo, como se esperava, vieram ao de cima os mais fortes argumentos do Benfica e a goleada aconteceu por 11-2. Tudo normal e para a história uma exibição bastante digna e competitiva da equipa de Estremoz.
 
Antes do jogo, confidenciaram-me, foi este mais ou menos o discurso do Carlos Dantas, no balnerário do Benfica: "Meus amigos, atenção que isto não são favas contadas. Vocês vão jogar numa terra de hóquei e onde as pessoas gostam e vibram muito com isto. Por isso, olhos abertos e concentração. Já viram como está este pavilhão?" No discurso do treinador do Benfica, está todo o respeito que o CF Estremoz conquistou ao longo de muitos anos nesta modalidade. Não foi com um ou dois jogos que esse respeito foi conquistado. Foi um respeito conquistado com décadas de entrega, superação e muitos quilómetros percorridos, por todo o país, com condições que hoje não fariam qualquer atleta sair do sofá.
 
Para muitos, isto é muito pouco. Para alguns jogadores que nem sabem a honra que tiveram em vestir esta camisola, talvez tivesse faltado quem lhe passasse esta mensagem. Modéstia a mais, digo eu, é hipócrisia e por isso é bom reforçar tudo o que este clube já conquistou e que hoje é algo banalizado. 
 
Quando comecei, bem novo, a ir ver hóquei, via as bancadas do pavilhão compostas e um ambiente que era infernal para quem nos visitava. Fazíamos claque com bandeiras e tudo. Era o público que muitas vezes ganhava os jogos empurrando a equipa para a frente e desconcentrando os adversários. Em dia de hóquei, até se sentia uma atmosfera diferente em Estremoz. É disso que me lembro e, naquelas bancadas, sonhava um dia poder estar dentro do campo a sentir aquilo. Senti, ainda nas camadas jovens, muitas vezes essa energia, mas nada comparado com o orgulho que senti quando tive a oportunidade de pertencer à equipa principal do meu "Estremoz". Por isso mesmo, faz-me confusão como hoje, na maior parte das vezes, não se sente o mesmo.
 
Para nós, o hóquei não era só um hobby ou um desporto. O hóquei e o "Estremoz" era uma obrigação. Ainda nas camadas jovens, íamos para o pavilhão uma hora antes do treino só para lá estarmos mais tempo e nas vésperas dos jogos até tinhamos dificuldade em adormecer. Lembro-me, de ser míudo e ir na sexta-feira à noite ao Pavilhão só para ver o material dos séniores ser preparado para o jogo do dia seguinte.
 
Hoje, as coisas mudaram...e muito. Algo dessa mudança tem muito de normal, pois a oferta para ocupação de tempos livres é mais vasta. No entanto, para quem joga, essa mudança não deveria acontecer. Para quem se compromete e assume querer vestir aquela camisola, nada deveria ter mudado. Mudou, e muito, a quantidade de público que assiste aos jogos, que hoje até são de entrada livre. Quando há mais público num jogo de uma equipa da formação do que num jogo da equipa principal, está tudo dito. 
 
Alguns, ao ler este texto, vão dizer que em todo lado agora é assim. Não é em todo o lado, mas é uma realidade em outros locais. No entanto, a mim, só me interessa o "Estremoz". Se o hóquei em Estremoz não for apoiado e visto como ele merece por atletas, treinadores, dirigentes, encarregados de educação e público em geral, ninguém deve ficar surpreendido se um dia chegar a notícia de que, simplesmente, acabou.
 

Feliz Ano Novo!

Escrito por quinta, 15 setembro 2016 18:55
Feliz ano novo numa altura destas? É verdade! Para quem está, como eu, ligado à educação o ano civil confunde-se muitas vezes com o ano lectivo. E digo mais, se calhar, quem está deste lado, até dá mais importância ao ano que inicia em Setembro do que àquele que começa em Janeiro. É certo que tudo dependerá da intensidade com que se vive a educação e da forma como a transportamos na nossa vida. Hoje começa mais um ano lectivo para milhares de crianças e jovens do nosso país. O planeamento de um ano lectivo inicia-se muito antes do mesmo ter iniciado, tudo começa ainda dentro do ano anterior com o balanço emanado de inúmeras reuniões de debate sobre o que correu bem e menos bem durante o tempo efectivamente lectivo. Quando ouço, muitas vezes, as pessoas a comentarem a “boa vida” dos docentes fico, de certa forma, triste porque não considero essas críticas justas. Só quem está na área pode, com clareza e objectividade testemunhar o que aqui descrevo. O trabalho dos professores é intenso e, muitas vezes esgotante. Quando digo esgotante refiro-me ao sem número de funções burocráticas que o docente tem que desempenhar no seu dia-a-dia, ao preenchimento de inúmeros documentos que muitas vezes não se lhe reconhece utilidade. Com isto não quero dizer que alguns não sejam, na realidade, necessários e que facilitem posteriores situações. Se o professor só ensinasse e os alunos só aprendessem tudo seria menos complicado e menos esgotante. O que eu critico é o tempo que o professor dedica aos alunos. Na minha opinião o docente gasta demasiado tempo com essas tarefas burocráticas e administrativas e deixa para segundo plano aquilo que, no meu ponto de vista é essencial, o trabalho para e com os alunos. Eu que até reconheço e valorizo as virtudes das novas tecnologias chego a pensar que em muitos casos elas vieram dificultar ao invés de facilitar. Mas a realidade da educação nos dias de hoje é esta mesmo e é com ela que temos que viver, o que não quer dizer que não tenhamos opinião e não a possamos manifestar.
 

Ainda há dias aqui em casa, em conversa com amigos, alguns deles também ligados à educação, eu barafustei, resmunguei com o papel que o professor hoje desempenha, com o facto de haver colegas desterrados e longe das suas famílias e cheguei mesmo a manifestar a intenção de abandonar “tudo isto” se porventura o futuro me afastar do mais importante da minha vida que é a minha família.

Desde que iniciei a minha carreira já vi “passar” pela tutela da educação mais de uma dezena de ministros. Cada equipa que chega muda tudo e mais alguma coisa, de mandatos para mandatos andamos de experiências em experiências e a consolidação dessas mesmas experiências nunca é feita e nunca se sabe a médio/longo prazo o resultado das mesmas. Talvez por aí também o trabalho dos docentes não seja beneficiado em prole dos seus alunos e comece a haver uma certa desmotivação no próprio corpo docente. Quando ainda recentemente li que grande parte dos docentes, se pudesse, mudava de vida, reflecti e cheguei à conclusão de que o que acabei de descrever podem ser alguns dos motivos para que isso aconteça. Confesso que às vezes eu próprio também me apetece “sair”. Ainda há dias aqui em casa, em conversa com amigos, alguns deles também ligados à educação, eu barafustei, resmunguei com o papel que o professor hoje desempenha, com o facto de haver colegas desterrados e longe das suas famílias e cheguei mesmo a manifestar a intenção de abandonar “tudo isto” se porventura o futuro me afastar do mais importante da minha vida que é a minha família. Mas depois caio na real e penso que existem milhares que gostavam simplesmente de estar no meu lugar e, para ser sincero, não sou pessoa de desistir assim às primeiras. Vou lutar! E vou lutar porque gosto disto, não das papeladas e burocracias que me passam pela frente a toda a hora mas dos alunos e da relação que se estabelece com eles. Nós, muitas vezes conhecemos melhor as crianças e jovens que passam os seus dias connosco do que propriamente as suas famílias. Quando há pouco falava das injustas acusações com que muitas vezes os professores são confrontados referia-me ao papel, muitas vezes invisível que o professor desempenha no seu dia-a-dia. A educação não é só ensinar e aprender, a educação de hoje tem um sem número de vertentes e variáveis que se devem ter em conta. O descrédito dado aos docentes, a sua perca de autoridade, a forma como muitas das vezes os mesmos são tratados na opinião pública, pelos meios de comunicação social, por alguns pais, famílias, encarregados de educação e até mesmo pelas sucessivas equipas ministeriais não valoriza nem credibiliza a complexa miríade de funções que o docente desempenha junto dos seus alunos. Ser professor é ser professor, é ser psicólogo, pai, mãe, tio, avó, amigo, vizinho, assistente social, juíz, transmissor de afectos, educador, confidente… ser professor é ser um guia, um confessor, um sociólogo, um analista… ser professor é ser dono do tempo, é viajar até ao fim do mundo, é rir, chorar, cantar, dançar, correr… ser professor é perguntar, responder, transformar, pintar, crescer… ser professor é motivar, é ensinar a lidar com os sucessos mas também com os fracassos… é ter convicção, inovar, abraçar, é alargar horizontes, é mostrar caminhos… ser professor é lidar com bons comportamentos mas também com comportamentos disruptivos, é mediar expectativas, é trabalhar para resultados, é usar distintas terminologias, é falar de diferentes formas… ser professor é trabalhar sem recursos, é trabalhar com manuais, com recursos multimédia, é avaliar processos, fazer introspecção, é ter a capacidade de fazer uma constante auto-avaliação, é ser capaz de trabalhar tanto com métodos quantitativos como qualitativos, é fazer formação para melhorar estratégias de acção, é viver com rotinas, sem rotinas… ser professor é ultrapassar obstáculos, é trabalhar com turmas grandes e com turmas pequenas, é trabalhar com brancos, pretos, amarelos, ciganos, russos, árabes, é trabalhar com ricos, com pobres, com pessoas com dificuldades cognitivas, de locomoção, com deficiência visual e auditiva… ser professor é tudo isto e mais uma panóplia de coisas. Digam-me agora que a profissão docente não é intensa, muitas vezes esgotante e de uma enorme exigência! Acredito piamente que mais de noventa por cento dos professores têm a preocupação em dar tudo isto aos seus alunos, acredito que eles dão o melhor de si, não só transmitindo-lhes os seus conhecimentos mas dando-lhes, inúmeras vezes, a tal orientação de que as famílias muitas vezes se “esquecem” de dar. Sobre tudo isto até me podem dizer que, como sou professor, estou unicamente a defender a minha classe. Meus amigos, se há classe mais desunida, é a nossa. Basta vermos a quantidade de sindicatos que existem para nos defender. Se fossemos realmente unidos um bastava para defender os nossos interesses.
 

Uma vez que os docentes têm a capacidade de fazer tudo isto, têm que ter a capacidade para também entenderem que cada vez mais as aulas não podem ser iguais para todos os alunos. Cada pessoa é uma só e os alunos não fogem à regra. Cada vez mais me convenço que o ritmo de cada um é distinto e a experiência tem-me revelado precisamente isso. O professor não pode fechar-se no seu “ninho” e ousar pensar e acreditar que é sempre eficaz nas suas decisões e na forma como vive a sua Educação. Também erramos, também falhamos mas uma coisa é certa, temos que ter a capacidade de nos renovarmos. Não estou aqui, de forma alguma, a pôr em causa as capacidades e a competência pedagógica de cada um, unicamente acho que temos que ter a capacidade de reconhecer o erro.
 
Fala-se muito na educação da Finlândia como sendo a que melhores resultados apresenta em todo o mundo. Acerca disto às vezes ponho-me a pensar: Será que os nossos alunos não estarão fartos do nosso tipo de ensino com demasiado tempo na escola, com um currículo demasiadamente cheio e sem tempo para poderem sequer brincar, tal não é o conjunto de actividades escolares e extra escolares que eles têm? Será que não seria mais benéfico se lhes dessemos a liberdade de os deixarmos brincar até chegarem ao ponto de se “aborrecerem” para que eles próprios sentissem individualmente a necessidade de procurar saber mais e mais? Será que resultava num tipo de ensino mais apelativo? Será que no nosso país funcionaria? Se querem que vos diga também não sei mas com tantas experiências que já foram feitas não me chocava nada se apostassem numa desta natureza.
 

O sucesso dos nossos alunos não pode passar só pela parte académica, esta é importante, sem dúvida, mas o que nos interessa sermos superinteligentes e saber tudo e mais alguma coisa se depois não temos a capacidade de sermos humildes e ajudar os outros, de reconhecermos erros, de assumirmos responsabilidades, de sermos bem-educados, cordiais, simpáticos.

A este propósito e dado o extenso currículo do ensino em Portugal parece-me que por vezes se dá pouca importância àquilo que considero primordial que é a aposta na formação pessoal de cada um dos alunos que nos passam pelas mãos, o tentar fazer com que sejam pessoas equilibradas, responsáveis e assumam sem subterfúgios e receios as suas responsabilidades… o tentar fazer com que sejam honestos e humildes, dinâmicos, activos, trabalhadores e esforçados, respeitadores e justos, solidários e empreendedores. No fundo tentar fazer com que sejam boas pessoas.
 
O sucesso dos nossos alunos não pode passar só pela parte académica, esta é importante, sem dúvida, mas o que nos interessa sermos superinteligentes e saber tudo e mais alguma coisa se depois não temos a capacidade de sermos humildes e ajudar os outros, de reconhecermos erros, de assumirmos responsabilidades, de sermos bem-educados, cordiais, simpáticos. Na minha opinião a humanização da educação é tão importante quanto a importância que se dá aos currículos e às metas.
 
É certo que não há maior satisfação profissional como aquela que sentimos quando vemos que os alunos que um dia estiveram connosco a partilhar também os seus conhecimentos (sim porque eu não consigo ensinar sem deles também aprender todos os dias) – a partilhar as suas dúvidas, as suas alegrias, tristezas, os seus segredos, as suas birras, os seus primeiros namoricos, no fundo a infância e a adolescência das suas vidas, não há, efectivamente, maior satisfação para nós do que vê-los vencer na vida… dá-nos um gozo especial, é certo, quando entram na Universidade mas, quer entrem na faculdade e se tornem investigadores, médicos, enfermeiros, gestores, professores, arquitectos, quer façam um percurso diferente e sigam a vida militar, as artes, a música, quer criem o seu posto de trabalho ou trabalhem por conta de outrem, quer sejam cozinheiros, empregados fabris, agricultores, sapateiros ou até varredores, a maior satisfação é vê-los pessoas… pessoas na verdadeira acepção da palavra com todos os verbos, substantivos e adjectivos que a si se podem agregar.
 
Sabemos que deixamos “marcas” nos nossos alunos quando nos encontram em qualquer lugar e se dirigem a nós para nos cumprimentar e falar um pouco sobre as conquistas das suas vidas.
 
Li algures que ser professor também é isto… “sentir-se realizado e feliz com as conquistas dos nossos alunos”
 
Para o ano lectivo que hoje se inicia desejo a todos: docentes, técnicos que colaboram nas escolas, alunos, assistentes operacionais e técnicos (que desempenham um papel importantíssimo no dia-a-dia das escolas) parceiros e famílias um Feliz Ano Lectivo!!!
 
* Professor Luís Parente
 

Este mundo está uma “merda”!

Escrito por quinta, 18 agosto 2016 15:46
Quem lê um título como este imagina que a pessoa que o escreve é uma pessoa triste, desiludida com a vida, que liberta fel por todos os poros, ou então que está cansada, chateada, stressada, sozinha ou mesmo desiludida com o seu mundo. Na realidade, apesar de ser o oposto de tudo isto, sinto-me efectivamente magoado com este mundo. Depois de ver e ouvir as constantes notícias de barbaridades que se passam por este planeta fora, pergunto-me muitas vezes… que mundo é este em que vivemos?... o que está a humanidade a criar?
 
Vejamos então… Ainda que cada pessoa deva ter a sua 
forma de pensar e ter o direito de usar o seu pensamento para aquilo que lhe aprouver, não consigo compreender como é que as pessoas têm dificuldade em utilizar essa maravilhosa capacidade de pensarem por si próprias e preferem enveredar pelo fácil seguidismo. Nos Estados unidos da América, por exemplo, foi recentemente nomeado pelo partido republicano, como candidato à presidência do país, uma pessoa que, na minha opinião, é desprovida de qualquer tipo de sensibilidade e como consequência sem capacidade para presidir um dos países mais influentes do mundo. Pior do que isso é a sociedade que foi criada para que essa situação fosse hoje possível, não se conseguindo discernir um propagandista, aproveitador e ainda por cima xenófobo que se arrisca a ser presidente (lagarto… lagarto… lagarto) daquele que por muitos é considerado o país mais multicultural e multiétnico do mundo. Será que as pessoas não vêem que o mundo não é um reality show? Aliás, esse fácil seguidismo parece que é uma regra e existe por todo o espectro político-partidário, pelos vistos, e obviamente, não só no que à realidade nacional diz respeito. É por isso que a política cada vez mais me desilude. Porque é que uma proposta de lei que beneficia os cidadãos e é apresentada por um partido seja de direita ou de esquerda não permite ao cidadão eleito pelas pessoas, “vulgo” deputado, decidir em sua consciência e não ir atrás do que o seu partido quer? Poder-me-ão dizer que são as regras dos partidos e que o cidadão/deputado quando foi eleito já as conhecia e teria que as cumprir. E pergunto eu… mas afinal não é uma pessoa que é eleita? É mais importante um partido ou as pessoas? Mudem-se as regras dos partidos então! A própria palavra “partido” já nos diz que há algo que está fragmentado, dividido. Então se assim é porque não pode expressar o cidadão/deputado o seu voto em plena liberdade de consciência, mesmo que “o seu fragmento” seja diferente dos do seu partido? Na minha singela opinião, todo o mundo teria a beneficiar se assim fosse. Dir-me-ão que assim os partidos políticos não faziam sentido, talvez seja verdade. Mas as pessoas quando são eleitas não servem para tentar resolver os problemas dos eleitores? Porque será então que muitas vezes os complicam só para fazerem oposição partidária?
 

O mundo não é perfeito, meus amigos, não é mesmo! A este propósito ouvi ou li, não posso precisar, uma frase que ficou retida na minha memória, é qualquer coisa deste género: “Nós nunca veremos um mundo perfeito nem justo”. Na realidade isso não vai mesmo acontecer, mas o que é certo é que foi neste mundo que nós nascemos e é aqui que podemos e devemos enfrentar o que nos incomoda…

Quando verificamos que há na nossa sociedade valores tão simples que estão completamente distorcidos, e posso abordar alguns dos mais básicos como são, por exemplo, o cuidar… o tão simples e puro gesto de cuidar do outro, que nestes tempos tem passado muitas vezes para um plano quase invisível, vemos efectivamente que há algo que não está bem neste mundo. Exemplo disso mesmo é o facto de na nossa própria Assembleia da República ter sido aprovada uma lei que penaliza o abandono de animais, da qual eu concordo em absoluto, e não ter sido aprovada uma outra que penaliza quem abandona os idosos. Meus amigos, desde quando é que os animais são mais importantes que as pessoas? Por muito que se goste de animais, as pessoas têm sempre que estar primeiro. Até me podem dizer que não conheço a proposta dos partidos “X” e “Y” sobre este assunto. A minha resposta é simples: “Estou-me lixando para os partidos!” O que sai cá para fora é a penalização de quem abandona um hamster e o fechar dos olhos, como que fingindo que não se vê, quando um velhote é abandonado num qualquer lar, no seu próprio lar, em hospitais, casas de repouso ou outros sítios que nem quero imaginar. Não me venham com a história das propostas muitas vezes utópicas das esquerdas ou das muitas vezes radicais das direitas. Para a “pessoa” não interessam esquerdas nem direitas, à “pessoa” só interessa que até ao fim dos seus dias lhes seja dada dignidade e afecto.
 
A nossa sociedade está de tal forma doente que, há relativamente pouco tempo, cheguei a ler comentários de pessoas que, muito bem, defendem os animais em qualquer circunstância, mas que depois têm a rudeza ou a crueldade (para não lhe chamar estupidez) de se vangloriar com a morte de uma pessoa numa praça de touros. Meus amigos, o extremismo não é bom nem para um lado nem para o outro, aliás, os próprios tempos dizem-nos que nunca o foram. Há que haver equilíbrio e esse é um dos grandes problemas deste mundo, a falta de equilíbrio. E a falta desse equilíbrio leva precisamente ao extremismo que pode trazer o ódio, o egoísmo, que pode abarcar inúmeros substantivos e adjectivos mas todos com uma conotação negativa.
 
Pelo mundo há pessoas que, em nome de um qualquer Deus, são capazes de criar um terror de tal maneira atroz que repugna só de se pensar no sofrimento causado por atrocidades que nem o pior dos vilões criados pela dramaturgia ou pela literatura eram capazes de imaginar. Os ataques terroristas têm crescido exponencialmente de ano para ano e desde que apareceu o “daesh” as atrocidades têm crescido ainda mais.
 
MAS O QUE PRETENDE DO MUNDO ESTA GENTE? Criar o medo? Radicalizar tudo e mais alguma coisa? Potenciar o terror? Criar tensão? Paralisar tudo e todos? Controlar a moral das pessoas? PORQUE MATA ESTA GENTE? Porque os acha imorais? Porque os sente como almas perdidas? Porque os acha inimigos do seu Deus? DEUS NÃO TEM INIMIGOS!!! Acredito que nem mesmo o demónio é Seu inimigo!!! COMO É QUE ALGUÉM É CAPAZ DE MATAR EM NOME DE DEUS? Não acredito que algum Deus, se é que existe mais do que um e, seja ele qual for, mande, nos seus ensinamentos matar alguém e espalhar o terror.
 
O mundo tem, de facto, as prioridades trocadas. Naturalmente que a Europa também se enquadra neste rol. Como diz o meu irmão “Enquanto a Europa brinca aos castigos” dos países “incumpridores” há atrocidades como as de Paris e de Nice em França, como as de Bruxelas, na Bélgica, como as que acontecem diariamente na Síria, como as que aconteceram no Mali, na Tunísia, no Líbano, no Quénia, na Nigéria, no Kuwait, na Indonésia, no Burquina Faso, na Turquia e até nos Estados Unidos, como as que regularmente acontecem no Paquistão, no Afeganistão e no Iraque.
 
Desculpem-me os mais sensíveis mas este mundo está, na realidade, uma “merda”! Hoje mesmo li que o dia 8 de Agosto de 2016 foi a data limite, deste mesmo ano, em que a humanidade consumiu os recursos naturais de que o planeta é capaz de produzir ao longo de um ano, ou seja de Janeiro a Agosto gastámos tudo o que devíamos gastar em 12 meses. Mais recentemente, no que ao nosso país diz respeito, e infelizmente de há demasiados anos a esta parte, assistimos, Verão após Verão, a um país a ficar em cinzas, grande parte das vezes devido a encapuzados interesses económicos ou a mentes completamente enfermas que pelo simples prazer de ver tudo a arder, realizam deliberadamente acções absolutamente revoltantes como as que aconteceram na lindíssima ilha da Madeira e que provocam o sofrimento de centenas de pessoas ao verem as suas casas e os seus pertences a serem levados com o vento, no fumo que leva também os sonhos e as recordações dessas mesmas pessoas. É triste ver, nestas circunstâncias, a impotência das populações e das heróicas corporações de bombeiros, completamente exaustas a lutarem, muitas vezes em vão, para salvar pessoas e bens dos terríveis incêndios que a política, seja de esquerda ou de direita, continua insistentemente a enviar para segundo plano, não fazendo o “trabalho de casa” para tentar evitar tragédias como estas que todos os anos acontecem de norte a sul do país.
 
Enfim, é o que temos, um mundo de abusos e desigualdades. Mas apesar deste mundo estar como está, e de eu próprio me sentir magoado com ele, é nele que vivemos e é aqui que temos que fazer o que estiver ao nosso alcance para o podermos melhorar um pouco. Nós não somos donos do mundo mas temos o dever de o proteger, não só para nós mas sobretudo para o deixarmos melhor para os nossos filhos.
 

A nossa sociedade está de tal forma doente que, há relativamente pouco tempo, cheguei a ler comentários de pessoas que, muito bem, defendem os animais em qualquer circunstância, mas que depois têm a rudeza ou a crueldade (para não lhe chamar estupidez) de se vangloriar com a morte de uma pessoa numa praça de touros. Meus amigos, o extremismo não é bom nem para um lado nem para o outro, aliás, os próprios tempos dizem-nos que nunca o foram.

O mundo já esteve pior, é certo. Apesar do caos que hoje se vive, tenho a noção de que antes era bem pior, basta recordarmo-nos daquilo que a história nos ensinou, da agressividade da forca ou do chicote, por exemplo. Sim porque a sociedade já “patrocinou” penalizações horríveis ao longo dos tempos. Felizmente o mundo foi evoluindo, lentamente, é verdade. Mas se observarmos o que o mundo era e o que é, se fizermos uma análise bem mais abrangente, entendemos que essa evolução existe, ainda que aqui e ali vejamos situações que nos fazem duvidar disso mesmo.
 
O mundo não é perfeito, meus amigos, não é mesmo! A este propósito ouvi ou li, não posso precisar, uma frase que ficou retida na minha memória, é qualquer coisa deste género: “Nós nunca veremos um mundo perfeito nem justo”. Na realidade isso não vai mesmo acontecer, mas o que é certo é que foi neste mundo que nós nascemos e é aqui que podemos e devemos enfrentar o que nos incomoda… há claramente algo que nós podemos fazer, escolher a forma para podermos precisamente enfrentar esses incómodos. Uma das formas com que enfrento os meus é com um sorriso, não um sorriso sarcástico ou de indiferença, um sorriso de acção, de contágio. Sabem, eu sou daquelas pessoas que acredita que o contágio pode ser bom. Ora, se o mal, como dizem, pode ser contagioso, o sorriso também o será… e se o sorriso também o é, acredito que a bondade também seja. O mundo está assim mas reconheçamos que também há milhões de coisas boas no mundo, há que as aproveitar e desfrutar, tudo com o equilíbrio necessário. Há que equilibrar o mundo, meus amigos… Há que ter esperança num mundo melhor.
 
* Professor Luís Parente

Estremoz: uma paisagem de sensações

Escrito por sábado, 06 agosto 2016 16:43
Acabadinho de chegar de férias, de regresso à cidade que tem mais encanto, decidi fazer uma das coisas que me dá mais prazer: caminhar pela paisagem urbana de Estremoz. E, descansem, não o fiz à procura de Pókemons, pois orgulho-me de a minha sanidade mental ainda estar intacta.
 
Caminhar pela cidade é algo que sempre me deu muita satisfação. Faço-o com o intuito de proporcionar a mim mesmo uma vida saudável, mas também porque gosto de apreciar os encantos que se escondem para além de cada rua, de cada edifício e de cada pedra. Quando o faço, gosto de olhar e ver, não gosto de apenas olhar. Às vezes olhamos muito para as coisas e não vemos nada. E em Estremoz há tanto para ver…
 

Começo por percorrer a Avenida Rainha Santa Isabel, o novo passeio público da cidade, e delicio-me com o vai-e-vem de pessoas, umas a pé, outras de bicicleta, que diariamente passeiam pelo calçadão de mármore. Sigo, consciente de que a conceção daquela ciclovia foi a única possível, dadas as circunstâncias em que foi projetada, mas se calhar penso assim porque compreendo em pormenor essas circunstâncias e não porque me apeteça simplesmente armar em conhecedor da verdade absoluta sobre tudo e mais alguma coisa.

Começo por percorrer a Avenida Rainha Santa Isabel, o novo passeio público da cidade, e delicio-me com o vai-e-vem de pessoas, umas a pé, outras de bicicleta, que diariamente passeiam pelo calçadão de mármore. Sigo, consciente de que a conceção daquela ciclovia foi a única possível, dadas as circunstâncias em que foi projetada, mas se calhar penso assim porque compreendo em pormenor essas circunstâncias e não porque me apeteça simplesmente armar em conhecedor da verdade absoluta sobre tudo e mais alguma coisa. Ao caminhar, reparo na satisfação dos transeuntes por terem aquele espaço de lazer e vejo que é isso que realmente importa quando projetamos paisagem, pois de nada servem espaços extraordinariamente bem concebidos se não forem do agrado dos seus utilizadores.

 

Depois, subo a Avenida de Santo António e fico maravilhado com a beleza que a calçada de mármore e os canteiros ondulantes de arctotis e ginkgos, conferiram a uma das principais vias de acesso ao centro da cidade e que outrora mais pareceu a triste entrada de uma cidade fantasma. Em boa hora se fez esta reabilitação, que tanto serviu para adicionar mais encanto a Estremoz.
 
Passo pelo Rossio, detenho-me frente-a-frente com a imponência da Igreja dos Congregados e sinto esperança. Esperança de que seja possível, através do Plano Estratégico de Desenvolvimento Urbano de Estremoz, recentemente aprovado pela Câmara Municipal, dar continuidade à recuperação da Grande Praça. Da praça que, todos os sábados, é palco do nosso mercado tradicional, aquele que é constantemente referido em publicações nacionais e internacionais, como um dos mais pitorescos e encantadores mercados do Mundo, pelas suas características únicas, pela explosão de sensações que proporciona a quem o visita e pela forma como faz relacionar o campo com a cidade. O Rossio merece uma intervenção paisagística que lhe confira ainda mais valor e estou convicto de que é esta a oportunidade para a concretizar. 
 
Sigo em direção ao castelo, pela Porta da Frandina, e o meu coração bate mais forte. Não devido ao cansaço da subida, mas pela emoção que sinto a cada vez que entro no Largo D. Dinis, o núcleo medieval de Estremoz – a acrópole, como gosto de lhe chamar. Inspiro o ar que ali se respira e sinto a história e as estórias que são transmitidas por cada bloco de pedra mármore que dá sustento às paredes da Torre de Menagem. É impressionante a harmonia existente entre cada edifício naquele espaço. É quase indescritível a vista panorâmica sobre o vale da Ribeira de Têra e a Serra d’Ossa, com o (meu) castelo de Evoramonte a coroar a sua extremidade ocidental, enquadrado pelo verde-escuro dos montados de sobro e de azinho, pelos tons quentes de um pôr-do-sol ou pelas centenas de pontos brilhantes que, à noite, dão mais luz àquele vale, que de dia se veste do amarelo-torrado das pastagens estivais e, cada vez mais, do verde vivo das vinhas donde se extrai o excelente vinho de Estremoz.
 
Enquanto ali estou, lembro-me que mesmo ao lado, no Museu Municipal, mora a Coleção Reis Pereira de Bonecos de Estremoz, que também acredito que um dia será classificada como Tesouro Nacional, assim como a Produção de Figurado em Barro será Património da Humanidade. No cantinho da Praça, escondida por detrás de um trabalhado portão de ferro, vejo a Capela da Rainha Santa, a Isabel de Aragão, que ainda hoje continua a inspirar os estremocenses. Por vezes, dou uma espreitadela à cidade a partir de uma janela que ali foi deixada propositadamente naquele miradouro e não me admira nada se ela estiver ocupada por um casalinho qualquer, tão apaixonado pelo seu par como pela vista que tem à sua frente.
 
Desço quase sempre pelo Bairro de Santiago, deixando para trás a Porta do Arco de Santarém. Encanta-me a Rua Direita e a matriz ortogonal das restantes ruas, com a Igreja de Santiago ao fundo e o casario abraçado pelas fortificações seiscentistas. Um bom exemplo, que ainda hoje se conserva, de cidade medieval planeada, tão ao estilo das bastides francesas.
 
Algures pelo caminho, já não me lembro bem onde, mas também não tem qualquer importância, há um cheiro de grelhados no ar. Na cozinha ou no quintal de uma habitação ou de qualquer restaurante, assam-se carnes ou peixes, temperados com ervas aromáticas e acompanhados de sabores e saberes ancestrais. Também na gastronomia Estremoz é rainha.
 
Depois de me refrescar na fonte do Espírito Santo, que ali está no largo do mesmo nome, à sombra das Torres da Couraça, lamento que esta última tenha sido sacrificada para dar lugar à Rua D. Afonso III. Sei de que nada vale lamentar-me, pois isso faz parte da normal evolução dos lugares, mas confesso que gostava de poder ter caminhado também por entre as paredes desta estrutura medieval, que há de ter sido impressionante.
 
Chego ao Lago do Gadanha e logo a presença da água me dá novo ânimo. A luz que emana do plano de água, o enquadramento que proporciona ao castelo lá no alto e o som da água em movimento constante nos repuxos, faz do Gadanha um dos espaços que considero mais espetaculares em Estremoz. Nunca me canso de por ali passar, de olhar para todo aquele espaço aberto, enquadrado pelo verde da vegetação, pela singular fachada da Igreja de São Francisco e pelo mármore. Sempre o mármore…
 
A minha caminhada por Estremoz continua sobre as calçadas do mesmo mármore, adornadas com dezenas de motivos, algumas evocando marcos históricos da vida estremocense ou das suas tradições. Aceno de fugida ao Teatro Bernardim Ribeiro, rodeado de bonitos exemplares de edifícios Art Noveau e alcanço a Avenida 9 de Abril, quase no fim deste meu périplo pela urbe.
 

Podem até achar estranho que goste muito da minha cidade e que tenha a minha opinião sobre este ou aquele assunto. Podem insurgir-se das mais diversas formas, mas as emoções e opiniões são minhas. Não as tenho por fazer parte de qualquer tipo de entourage com que me identifique. Espelharão sempre os sentimentos de alguém que nunca se cansará de apregoar que Estremoz tem mais encanto!

Terminada a caminhada, enquanto regresso a casa e já ao volante do meu carro, penso nas boas sensações que experimentei durante esta hora em que olhei para a cidade com olhos de ver. Também experimentei sensações menos boas, é verdade, pois Estremoz também as tem, como qualquer cidade. Registo-as e denuncio-as no sítio certo, sempre com a intenção de lhes pôr um fim ou de as melhorar. Nunca com qualquer outro tipo de motivação. Para isso, já cá temos os do costume.
 
Prefiro fazer uma abordagem positiva, pois Estremoz assim o merece, pela sua excecional singularidade, pela diversidade de estilos artísticos que está presente na sua arquitetura e urbanismo, pela monumentalidade dos espaços e edifícios, pela forma como é vivida pelas pessoas. Mas merece-o principalmente porque é nela que experimentamos a sensação de habitar. É ela o palco em que se desenrolam as nossas vidas e é a ela que retornamos sempre. Merece, por isso, o nosso respeito e que gostemos dela.
 
Podem até achar estranho que goste muito da minha cidade e que tenha a minha opinião sobre este ou aquele assunto. Podem insurgir-se das mais diversas formas, mas as emoções e opiniões são minhas. Não as tenho por fazer parte de qualquer tipo de entourage com que me identifique. Espelharão sempre os sentimentos de alguém que nunca se cansará de apregoar que Estremoz tem mais encanto!
 
* Arquiteto-paisagista António Serrano
 

A sorte, que a França não teve

Escrito por terça, 12 julho 2016 23:24
Acreditar, como já por aqui escrevi, vale sempre a pena. Não tínhamos a melhor seleção nem jogámos o melhor futebol, é verdade, mas ganhámos e é isso que fica para a história. As críticas à qualidade do nosso futebol valem o que valem. Quando vêm de gente parcial e ressabiada, então não valem mesmo nada. Valem o número de golos que Portugal sofreu nas meias-finais e final do Euro (zero).
 
É claro que não podemos dizer que apresentámos um grande futebol desde que a competição começou. É claro que não "massacrámos" nem dominamos os jogos todos, é claro que não mostrámos a tão falada "nota artística". No entanto, fomos eficazes e a Taça já cá está.
 
É verdade que empatámos os primeiros três jogos. No entanto, é bom recordar, que empatámos com quem mandou a Inglaterra para casa e participámos num dos melhores jogos do Europeu, no sofrido empate com a Hungria. A meu ver, o menos conseguido foi mesmo o nulo com a Áustria. Depois, entendemos que a Croácia tinha uma grande equipa e já tinha derrotado a campeã Espanha. Tapamos-lhe os caminhos e esperámos um erro deles. Fomos cínicos, dizem. Cá para mim, fomos realistas.
 
Depois veio a Polónia, uma equipa sem a qualidade da Croácia mas que tinha pouco a perder. Até sofremos primeiro mas fomos em busca do empate. Aí, voltámos a não nos destapar e vieram os penaltis. Fomos competentes e não falhámos nenhum. Rui Patrício defendeu um e Quaresma depois não tremeu. Seguiu-se outra das surpresas da prova. O País de Gales mandou para casa uma Bélgica que mostrava sinais de ser um "outsider" de respeito. Nesse jogo, soubemos respeitar o adversário mas também resolvemos bem e depressa depois do intervalo. A final voltava mesmo a ser uma realidade.
 
Como se não bastasse a motivação de jogar uma final, os nossos adversários fizeram questão de nos motivar ainda mais. Não há coisa que motive mais do que ser desvalorizado. No jogo decisivo, táticamente entendemos a França, tivemos um enorme Rui Patrício e um espírito de equipa fantástico. Fernando Santos lançou Éder na altura certa, passámos a ter bola na frente e o "patinho feio" resolveu. Irónico, pelo menos.
 
Há momentos que marcam esta caminhada e que em muito contribuíram para este final em festa. Desde logo, a união bem patente no grupo e a liderança exemplar de Cristiano Ronaldo. O sacrifício do capitão em prol do grupo, do primeiro ao último minuto da competição, foi decisivo. Os jogadores, entendendo humildemente a importância de Ronaldo, seguiram a sua crença e a sua enorme vontade de dar um título a Portugal. Foram grandes discípulos e uniram-se ainda mais na final, após a saída em lágrimas do capitão. Isto, foi decisivo.
 

Como se não bastasse a motivação de jogar uma final, os nossos adversários fizeram questão de nos motivar ainda mais. Não há coisa que motive mais do que ser desvalorizado. No jogo decisivo, táticamente entendemos a França, tivemos um enorme Rui Patrício e um espírito de equipa fantástico. Fernando Santos lançou Éder na altura certa, passámos a ter bola na frente e o "patinho feio" resolveu. Irónico, pelo menos.

Agora, Fernando Santos. Que cara terão feito agora aqueles que se riram quando ele disse que voltaria para casa só dia 11 de julho e seria recebido em festa? Pois. Para muitos, pareceu arriscado e até caricato Fernando Santos dizer que queria ser campeão. Aqueles que diziam que era Jorge Mendes que treinava a seleção desapareceram ou mudaram o discurso? E aqueles que diziam que o Ronaldo não joga na seleção metade do que joga no Real Madrid? E aqueles que diziam que Renato Sanches nem deveria ser convocado para o Europeu? Já nem vale a pena falar dos que dizem que Éder é um pino. Atenção que agora Éder não passou a ser, para mim, um grande ponta de lança. É o que temos e, pelos vistos, serviu muito bem. 
 
Aqueles que começaram o Europeu a dizer que Portugal não jogava nada, agora não têm a humildade de reconhecer que a equipa cresceu durante o torneio? Não há coragem para dizer que Fernando Santos foi realista e à sua vasta experiência se deve em grande parte este Europeu? Tivemos sorte? Sorte de quê? Tivemos sorte em ter o melhor guarda-redes da competição, o melhor jovem, o bola de prata, um dos melhores centrais, um dos melhores avançados e o melhor lateral esquerdo? Tivemos sorte em ter sofrido apenas um golo nos quatro jogos da fase a eliminar? Tivemos sorte em ter os emigrantes sempre por perto? Ah, já sei, tivemos sorte porque calhámos do lado que "não tinha tubarões até à final", "porque a Islândia marcou um golo nos descontos". O que é certo, é que derrotámos a equipa que passou pelo meio dos "tubarões", se é que eles existem mesmo.
 
Não sei se tivemos sorte ou não. O que sei é que a França não teve sorte em nos encontrar na final. 
 
* Jornalista José Lameiras
 

Património, valor e salvaguarda

Escrito por sexta, 08 julho 2016 14:52
Património… Termo frequentemente utilizado para designar algo que é herança dos nossos antepassados. Móvel ou imóvel, material ou imaterial, natural ou cultural, muitas são as tipologias de património presentes na paisagem e com as quais nos deparamos todos os dias.
 
Não é preciso percorrermos uma grande distância para experienciarmos uma viagem pelas múltiplas formas de património. Comecemos pelo património que nos define e diferencia dos demais – o nosso património hereditário. De seguida, olhemos para os nossos pertences – a casa, os móveis, os elementos decorativos, os utilitários, o jardim e a sua vegetação, o carro, a bicicleta, os patins e a bola de futebol… e finalmente, deliciemo-nos com a imensidão do património que é comum e propriedade de todos aqueles que já o viveram, daqueles que agora o vivem e dos muitos que ainda o viverão depois de nós – a paisagem e os seus elementos naturais e construídos. 
 
A maior parte das pessoas apenas entende como património aquilo que, à partida, tem um valor especial, tendo em conta um determinado número de critérios definidos por alguém que não conhecemos. Muitas vezes, confundimos património com “monumento” e nem sequer nos questionamos se realmente há razões para atribuir a qualquer bem esse valor especial. Deixamo-nos levar por pré-conceitos e deslumbramo-nos com o alegado valor atribuído pelos outros, o que, naturalmente, não significa que o valor não exista. Contudo, a apreciação desse valor é subjetiva, dependente da sensibilidade e das vivências individuais, razão pela qual é imperativo que olhemos sempre para todas as manifestações de património com uma atitude crítica em relação ao seu valor. 
 

Na minha opinião, mais importante do que a venda do edifício ou do que as vozes, sempre contrárias, que se levantam, é o facto de que finalmente este património, com mais ou menos valor, será reabilitado, devidamente valorizado e, respeitando também um pouco da sua memória, terá uma utilidade no presente e contribuirá para garantir algo para o futuro da cidade e das suas gentes.

É assim que olho para o património. Nas minhas viagens tento sempre conhecer mais para além daquilo que vem nos guias e que é normal todos conhecerem, procurando outras formas de interagir com o património, seja ele de que tipo for. Por exemplo, de que me serviria ter visitado a Basílica de São Pedro, se não tivesse tido também a oportunidade de espreitar a sua cúpula a partir de um buraco de fechadura no Aventino? Banal, dirão alguns, despropositado, dirão outros. Andar alguns quilómetros só para isso? No entanto, se assim não tivesse acontecido, a minha experiência pessoal com a Basílica teria sido muito semelhante à de milhões de outras pessoas. É inegável o valor patrimonial per si da Basílica de São Pedro, mas o valor que lhe atribuo é ainda maior graças àquela minha simples vivência de espreitar e vê-la, ao longe, pelo buraco de uma fechadura...
 
Se víssemos mais vezes aquilo que nos rodeia, ao invés de apenas olharmos, talvez não nos deslumbrássemos tão facilmente com aquilo que foi definido como valor patrimonial pelos outros. Damos facilmente valor ao Património Mundial e a outros tipos de património classificado, esquecendo ou não dando importância ao nosso património - aquele que pode não ter valor para a humanidade, mas que certamente se reveste de uma enorme importância nas nossas vidas diárias.
 
É certo que a classificação do património é importante, mas não o deve ser apenas por uma questão de valorização, devendo sê-lo principalmente pela sua salvaguarda. Contudo, muitas vezes a classificação de bens é feita pura e simplesmente para lhes aumentar valor e, não menos vezes, para alimentar o ego de quem promove o processo de classificação. 
 
A classificação de um bem na categoria de Património Mundial, na grande maioria dos casos, nada tem a ver com a necessidade da sua salvaguarda para a humanidade e para as gerações vindouras, mas sim com a intenção de satisfazer uma necessidade presente de exaltação do seu valor perante os outros, motivada pela procura de daí retirar dividendos económicos, à custa do turismo. 
 
Não sou contra que se explore o património através do turismo. Pelo contrário, acredito que o turismo, quando planeado e estrategicamente estruturado, é um fator de desenvolvimento sustentado de uma região. No entanto, desenvolvimento sustentado significa conjugar eficazmente três vetores: social, económico e ambiental. No caso do desenvolvimento sustentado do turismo associado ao património, significa olhar para todos os tipos de património e fazer interagir todas as suas potencialidades, conferindo-lhe mais valor e, ao mesmo tempo, salvaguardando a sua utilização no futuro. Para além disso, é fazer com que o valor possa ser visto a partir de diferentes perspetivas e não apenas da mais óbvia, igual a tantas outras e que não marca pela diferença ou pela inovação.
 
Sobre este propósito, reparei que circula pela Internet uma petição contra a venda da Antiga Casa do Alcaide-Mor de Estremoz, vulgarmente e erradamente conhecida como Antiga Casa da Câmara. Trata-se de um imóvel situado na Rua do Arco de Santarém, e que foi, também por erro, classificado como Monumento Nacional. Hoje é uma ruína em pleno núcleo medieval da cidade, ameaçando a segurança de pessoas e bens, mas sobretudo atentando contra a boa imagem da acrópole estremocense.
 

Além disso, salvaguardar património é também dar-lhe um uso adequado às exigências dos tempos que correm. A paisagem e o património evoluem. Não podemos viver apenas agarrados às memórias. Neste caso e em muitos outros, o passado é como uma roupa que já não nos serve.

Não me interessa discutir de quem é a culpa do estado de degradação a que o edifício chegou, até porque já alguém o fez recentemente e, em minha opinião, muito bem. O que interessa é que, em boa hora, a Câmara Municipal decidiu vendê-la, com a condição de que a sua utilização futura apenas poderia ser afetada à atividade turística. Aplaudo esta decisão, pois parece-me a mais adequada para o caso do património em questão. Há muito que se perdeu o seu eventual valor, a classificação como Monumento Nacional nunca lhe adiantou muito e não vai deixar de existir, a Câmara livrou-se de mais um problema no centro histórico, a recuperação e utilização por privados criará dinâmicas sociais e económicas (mais empregos e receitas turísticas), criar-se-á mais um estabelecimento hoteleiro (que tanta falta faz a Estremoz) e, principalmente, não terão que ser todos os contribuintes a pagar por isso.
 
Embora aceite a existência de outras possibilidades para o edifício, em minha opinião a que é apontada pelos subscritores da petição nada acrescenta de novo a Estremoz. É mais do mesmo. Outro espaço museológico, desta feita sobre a história medieval da cidade, mas cuja recuperação e construção teriam de ser pagas por dinheiros públicos, bem como a sua manutenção futura.
 
Além disso, salvaguardar património é também dar-lhe um uso adequado às exigências dos tempos que correm. A paisagem e o património evoluem. Não podemos viver apenas agarrados às memórias. Neste caso e em muitos outros, o passado é como uma roupa que já não nos serve.
 
Na minha opinião, mais importante do que a venda do edifício ou do que as vozes, sempre contrárias, que se levantam, é o facto de que finalmente este património, com mais ou menos valor, será reabilitado, devidamente valorizado e, respeitando também um pouco da sua memória, terá uma utilidade no presente e contribuirá para garantir algo para o futuro da cidade e das suas gentes.
 
* Arquitecto-Paisagista António Serrano

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