terça, 17 outubro 2017

Luís Parente

Quase 12 anos

Quase 12 anos

Há quase 12 anos, durante o mês de Agosto, o meu telefone tocou. Do outro lad ...

MORE

Mais ou menos um poema

Escrito por domingo, 12 fevereiro 2017 12:44
Gosto de verbos! Gosto de os conjugar, 
de brincar com eles, de os entrelaçar noutros, 
gosto que o verbo me agarre e me sujeite ao significado, que me empurre e derrube no tempo…
gosto de, com eles, fazer misturas como se de tintas numa tela se tratassem… 
gosto de ver neles submissão, mas também ditadura (como se uma palavra e outra não estivessem intimamente ligadas…)…
gosto quando o verbo me dá tudo e quando nada me traz …
gosto dos regulares, dos irregulares…
gosto deles no passado, no presente e mais ainda no futuro…
gosto quando o cantar traz o dançar, quando o comer traz o prazer, quando o saber traz o lugar…
gosto quando o verbo ir me leva incerteza, quando arriscar me obriga à coragem…
gosto de gostar que o amar traga o sonhar, que o desejar traga o amar
gosto de ver nos verbos os sentidos… gosto de os observar, de os cheirar, de os saborear, gosto não só de lhes tocar mas também de os ouvir
gosto deles em português, em inglês, em espanhol, francês, italiano e até alemão, e só não gosto em japonês porque a minha língua não me levou tão distante…
gosto quando o dar me leva a mim, quando o kiss vem com o beijo, quando ao reír se segue a gargalhada ou até quando o avoir traz a coisa, quando o sentire traz o coração e quando o haben vem com a saúde…
gosto sempre que o abraçar traga o sorrir e que nascer traga o crescer
gosto que no divertir esteja o saltar e no ajudar o merecer
gosto de beijar só por beijar, de namorar sem hesitar
gosto da junção do criar com o surpreender e do imaginar sem limitar
gosto do cozinhar sem o esturrar e do beber sem o tombar
gosto que no desfrutar esteja a amizade e nela o partilhar…  
gosto de chorar só com o rir e de pensar sem me obrigar
gosto de me passar com o golo e de enlouquecer com a vitória…
gosto de observar o luar, de contemplar o pôr do sol, de analisar o desenho das nuvens, de desenhar o que vejo no emaranhado de ramos de uma árvore despida…
gosto de dormir sobre um sonho de cheiro a mar e nesse mar encontrar respostas a para tudo o que me incomodar
Mesmo com o adjectivo, o substantivo, o advérbio ou o pronome por perto, gosto que o verbo seja verbo… Há até palavras que não são verbos mas que eu gostava que fossem… Saudade, por exemplo, não sei porquê mas gostava que saudade fosse um verbo, não imagino sequer como se conjugaria…
Mas… há verbos e verbos, para mim gosto dos bonitos mas se bonitos não são, talvez não goste deles não…
não gosto do sofrer muito menos para morrer, do perder para a seguir se ganhar
não gosto do chover junto com o trovejar, do escutar sem opinar, do cair e magoar
não gosto do correr para cansar nem do ocultar para não assumir
quase nunca gosto de ver nos verbos o levar para nunca mais trazer, o fazer sem a acção, o roubar sem o prender
não gosto do gritar sem o escutar, do obedecer sem questionar, do escaldar até queimar…
não gosto do hesitar sem decidir, do dividir para reinar nem do ingrato esquecer
gosto de acreditar, de estar, de ficar, de entregar… gosto de me emocionar, de proteger, de acompanhar, de estimular, de querer, de confiar… gosto de estimar, de respeitar, de apreciar, de entender, de ter, de oferecer… mas fundamentalmente gosto de gostar, de amar, de sonhar, de viver e gosto mesmo muito de ser… o que seria o Ser sem ser?
Felizmente são mais os verbos que gosto do que aqueles que não gosto… dependendo da perspectiva muitos dos que gosto não gosto e dos que não gosto, gosto. 
No fundo… eu gosto mesmo é de verbos, pronto!
* Professor Luís Parente

Estremoz e o turismo

Escrito por sábado, 28 janeiro 2017 16:11
É quase um crime nunca ter escrito sobre turismo. Imperdoável, tendo em conta que é por demais conhecido o meu gosto por fazer turismo. É algo que está para mim como a luz está para o dia e, por isso, já há muito que me devia ter debruçado sobre este tema.
 
O turismo, ou melhor, as viagens que faço, têm-me permitido conhecer outras paisagens, culturas diferentes, lugares que nunca pensei existirem e realidades muito distintas daquela em que vivo, algumas melhores, outras muito piores.
 
Tenho-me deparado com lugares cheios de vida, onde reina a ordem, a harmonia e a beleza, mas também com sítios que, ainda que carregados de simbolismo ou bem colocados nas preferências dos demais turistas, não me provocaram nem um único arrepio quando os visitei. Quando viajamos, é muito vulgar criarmos expetativas em relação aos lugares que ainda não conhecemos e isso acontece-me frequentemente. Faço sempre uma pesquisa exaustiva acerca dos sítios onde vou e, a dada altura, parece-me que já os conheço muito bem, ao ponto de falar sobre esses lugares como se já lá tivesse ido muitas vezes. Que ilusão… apesar de hoje em dia as novas tecnologias nos colocarem muito mais próximos de tudo e de o Google Earth até nos permitir “passear” virtualmente pelas ruas de uma cidade ou pelas salas de um museu, a verdade é que, quando lá chegamos, nunca nada é igual àquilo que tanto imaginámos.
 

Pergunto-me muitas vezes, que expetativas, que preconceitos terão os turistas que visitam Estremoz. O que os faz visitar Estremoz? O que esperam encontrar aqui? Porquê Estremoz e não outro lugar qualquer? Como partem de Estremoz? Satisfeitos? Desiludidos? Com vontade de regressar?

Isso acontece porque todos os momentos são únicos e porque todos os espaços se transformam e se apresentam diferentes aos olhos de cada observador. A luz, as cores, os sons, os cheiros, as sensações de frio ou calor, os sabores, o nosso humor, a forma como olhamos para as coisas, tudo se altera e, por isso, é natural que experimentemos diferentes impressões daquilo que idealizámos.
 
Pergunto-me muitas vezes, que expetativas, que preconceitos terão os turistas que visitam Estremoz. O que os faz visitar Estremoz? O que esperam encontrar aqui? Porquê Estremoz e não outro lugar qualquer? Como partem de Estremoz? Satisfeitos? Desiludidos? Com vontade de regressar?
 
Será que vêm pelo património construído? É inegável a riqueza patrimonial do concelho de Estremoz. Três castelos com séculos de História e de estórias, monumentos que abarcam diversos estilos arquitetónicos e várias épocas, a riqueza e a particularidade que o mármore confere às inúmeras construções… são tantas as razões pelas quais os edifícios históricos de Estremoz cativam visitantes, que o difícil é não encontrar razões para os visitar.
 
Ou vêm pelo património imaterial? Porque ouviram dizer que aqui viveu e morreu a Rainha Santa Isabel, porque aos sábados de manhã, no Rossio, a cidade se enche de vida para receber o campo no mercado tradicional ou porque tiveram notícia de que em Estremoz há uns Bonecos de barro que são candidatos a Património Cultural Imaterial da Humanidade? Sim, apesar de alguns (poucos) não estarem atentos, tem sido feita uma extraordinária promoção a esta arte, que é tão nossa e que todos queremos que seja Património da Humanidade. Só mesmo quem seja do contra, por não poder ser mais nada, é que não reconhece o trabalho que tem sido feito na promoção do Figurado em barro de Estremoz.
 
Talvez venham pela gastronomia… Em Estremoz come-se bem e isso não é novidade. Vários restaurantes mantêm nos seus pratos a autenticidade e as características da cozinha alentejana, outros restaurantes optaram por inovar e dar um toque de contemporaneidade, não descurando os sabores da tradição e o Município continua a apostar na Cozinha dos Ganhões como espaço de transmissão e promoção de saberes. No conjunto, foram criadas condições propícias para que o turista regresse a Estremoz, à procura de uma gastronomia variada e de grande qualidade. Não é à toa que, pelo segundo ano consecutivo, a cidade de Estremoz foi nomeada como Destino Gastronómico do Ano pela Revista Wine – A Essência do Vinho.
 
Aliás, por falar nisso, os vinhos de Estremoz são cada vez mais uma referência nacional e internacional. A aposta dos nossos empresários na produção de vinhos de qualidade e a forma como têm sabido posicionar-se no mercado, criar rótulos apelativos e fomentar o enoturismo, muito tem contribuído para a promoção turística do concelho de Estremoz no nosso País e além-fronteiras.
 

Não devia isto ser um orgulho para todos nós? Em minha opinião, sim. Mas como sei que há quem não pense assim, não me admira nada que qualquer dia não se diga por aí que Estremoz só tem hoje mais encanto, porque isso já estava projetado…

Vêm pela paisagem, pelo espaço aberto, pela luz da Cidade Branca do Alentejo? Pela calma e pela paz que se respira em cada cantinho? Vêm porque ouviram falar de Estremoz na telenovela? Vêm pela FIAPE? Vêm participar em provas desportivas? Ou porque souberam da existência de Estremoz numa das muitas ações promocionais que têm sido feitas pelo Município? Porque nos viram no site ou no Facebook? Porque Estremoz tem mais encanto?
 
Não sei responder e também não interessa. O que é certo, é que vêm e são cada vez mais os turistas que nos visitam. Mais 13% do que no ano anterior, para ser mais preciso. Pode não parecer muito, mas é imenso para Estremoz! E esta percentagem refere-se apenas a atendimentos no posto de turismo! Não estão aqui incluídos os milhares que nos visitam sem sequer precisar de informação turística… Todos devíamos orgulhar-nos do patamar a que Estremoz chegou, enquanto destino turístico.
 
Não vale a pena alguns tentarem atirar-nos areia para os olhos e fazer crer que nada se faz ou se fez para alcançar estes resultados. Normalmente, quem fala do que não sabe, daquilo que desconhece, arrisca-se a dizer muitas asneiras. Aqueles que não acreditam, os que duvidam e os eternamente insatisfeitos “só porque sim”, não podem é esquecer que os números não mentem e muito menos mentem os resultados, que estão à vista de todos e que se traduzem no crescente fervilhar de pessoas que diariamente passeiam pela nossa cidade. 
 
Não devia isto ser um orgulho para todos nós? Em minha opinião, sim. Mas como sei que há quem não pense assim, não me admira nada que qualquer dia não se diga por aí que Estremoz só tem hoje mais encanto, porque isso já estava projetado…
 
* Arquiteto Paisagista António Serrano

De regresso às crónicas...

Escrito por quinta, 26 janeiro 2017 00:43
De regresso às crónicas, perdoem-me a ousadia mas esta tem a ver com o meu percurso profissional. Não podia deixar passar a oportunidade de o publicar.
 
É verdade, passaram-se 18 anos, desde que cheguei ao Centro Social Paroquial de Santo André de Estremoz. No dia 9 de Fevereiro de 1999 iniciava um percurso que me trouxe ensinamentos e vivências únicas, que guardo na memória afetiva mas também nos cadernos, agendas e afins.
 
Guardo as pessoas com que me cruzei e que permanecem comigo, guardo situações que vivi, repletas de emoção, sorrisos, lágrimas, medo, dúvidas e certezas. Cresci como pessoa e como profissional, já o disse em várias ocasiões. Aprendi que o Ser Humano é muito mais que as situações que os fazem procurar o apoio de uma instituição como esta, aprendi que o Ser Humano é repleto de dons e qualidades por descobrir independentemente de tudo e de todos, aprendi que o Ser Humano não poderia nunca estar sozinho porque aprendi a aprender com todos quanto fizeram parte deste meu caminho, desde os mais pequenos com quem tive o privilégio de partilhar momentos e sentimentos que não são possíveis de relatar no papel ou relatar apenas, como também já disse algumas vezes, há “coisas” que só nos são permitidas sentir, para o pior e para o melhor, até superiores, colegas que se transformaram em família, utentes, entidades e seus responsáveis que se transformaram em aliados e amigos.
 

Este meu “Encontro com Freud” não é uma despedida mas apenas um virar de página no “livro” da minha história, e quando se vira uma página, soltam-se as expectativas, os anseios, os medos, as dúvidas, as certezas, as buscas e solta-se igualmente a esperança de me colocar, uma vez mais, ao serviço do Ser Humano, com todas as minhas limitações e com tudo o que ainda terei de aprender para continuar a “escrever”, dia após dia, o meu trabalho e desta vez com os mais idosos.

No dia 31 de Janeiro cessarei as minhas funções de psicóloga nesta casa, que levo como parte de mim e como referência de um trabalho que amo e que todos os dias me ensina que é preciso sonhar para depois realizar, que é preciso procurar para depois encontrar e que é preciso ouvir para depois entender.
 
A vida pode ser uma missão e neste caso, creio que foi isso mesmo que aconteceu, o cumprimento de uma missão, se bem ou menos bem não me caberá aqui avaliar ou justificar. 
 
A mudança acarreta sempre sentimentos ambivalentes mas quando sonhamos, e enquanto sonhamos, a vida nos coloca oportunidades únicas e pessoas especiais (novamente) no nosso caminho, a resposta é dada pelo que só nos é permitido sentir… Tenho o privilégio de me renovar e de continuar a aprender muito mais sobre o Ser Humano e os seus dons e qualidades, e de “beber” o que ainda não sei, que é imenso e o que ainda não vivi, que espero viver e desfrutar com a mesma alegria e amor à minha profissão e com isso desempenhá-la sempre da melhor maneira.
 
Este meu “Encontro com Freud” não é uma despedida mas apenas um virar de página no “livro” da minha história, e quando se vira uma página, soltam-se as expectativas, os anseios, os medos, as dúvidas, as certezas, as buscas e solta-se igualmente a esperança de me colocar, uma vez mais, ao serviço do Ser Humano, com todas as minhas limitações e com tudo o que ainda terei de aprender para continuar a “escrever”, dia após dia, o meu trabalho e desta vez com os mais idosos. Um desafio imenso e um privilégio poder partilhar e de novo em equipa, um mundo cheio de vidas com vida, cada uma feita à sua maneira e vivida da maneira possível, tantas vezes!
 
E não existe “no meu tempo” porque o nosso tempo é hoje, agora, aqui e daqui partiremos juntos na viagem mais longa, que é dignificar toda e qualquer Vida.
 
* Psicóloga Helena Chouriço
 
 

A culpa é sempre dos mesmos

Escrito por quinta, 12 janeiro 2017 12:13
Como costumo dizer, o futebol é sempre um bom espelho da sociedade. Nem toda a gente gosta, é um facto, mas toda a gente acaba por ter uma opinião, umas vezes mais fundamentada que outras. Os árbitros, ou as equipas de arbitragem, são e serão sempre os "elos" mais fracos da cadeia. É caso para dizer que sobra sempre para eles e a sua margem de manobra é sempre curta e até por vezes nula. 
 
Para isso, têm sido pensadas muitas soluções para acontecer "a verdade desportiva" de que tantos falam. No Campeonato do Mundo de Clubes, a experiência com o vídeo-árbitro foi muito útil, na minha opinião, para confirmar que tal inovação não cabe no futebol. A ideia até poderia ser boa mas o facto é que o jogo não pode, ou não deve, parar para se decidir um lance pela televisão...e ainda por cima a decisão ser errada. Todos nós já vimos jogos em cafés ou em casa com amigos e num lance duvidoso, após dez repetições, ainda se mantém a dúvida e a discussão sobre se de facto foi ou não falta. Se por um lado sou um defensor do chip dentro da bola para acabar com dúvidas sobre a linha de golo, sou totalmente contra o vídeo-árbitro pois só vai servir para tirar ritmo ao jogo e para criar ainda mais polémica.
 

São raros os casos em que ouvimos "jogámos mal" ou "poderiamos ter feito muito mais". Não me lembro mesmo de ter ouvido algum dia um treinador dizer: " Errei nas alterações que fiz e não montei bem a equipa para este jogo" ou  "não estava preparado para esta equipa e acho que tenho ainda de trabalhar muito para ser um bom treinador". Geralmente, a culpa é sempre de "certas coisas que aconteceram no jogo e que nos têm prejudicado semana após semana" ou "daquele lance duvidoso que fez com que perdessemos o jogo".

O erro faz parte do futebol. No futebol, e também nas outras modalidades, erram os árbitros, os jogadores, os treinadores. Erra toda a gente e, acreditem, os adeptos mais indignados errariam muito mais que aqueles que têm a responsabilidade de decidir em segundos um lance polémico. Já imaginaram o que é estar, por exemplo, a "tirar foras de jogo" quando uns jogadores correm para um lado e outros para outro? Pois, alguém já se insurgiu contra um jogador que tem "jeito" especial para enganar os árbitros? Claro que não, a culpa é dos árbitros que passam o tempo a ser enganados.
 
Eu tenho uma teoria em relação a isto. Em Portugal, por exemplo, os três chamados "grandes", não podem, nem devem, atribuir ao árbitro uma derrota perante uma equipa, considerada, mais pequena. Mesmo existindo lances duvidosos, e há sempre para os dois lados, os orçamentos e as condições deveriam obrigar os protagonistas a olharem para o que de facto correu mal sem apontarem logo o dedo à equipa de arbitragem. Os jogos demoram 90 minutos e é tempo mais que suficiente para que um "grande" assuma a responsabilidade do jogo e marque golos a um "pequeno". Isto é, claro, a teoria, pois na prática não funciona assim e o futebol não é uma ciência exacta. Durante o jogo, há várias condicionantes que podem mudar o rumo dos acontecimentos, como por exemplo a motivação de cada equipa e a competência dos seus jogadores nas alturas decisivas. 
 
Com isto, quero eu dizer que acho "curto" quando o discurso, após um resultado negativo, é sempre para apontar o dedo aos árbitros e levantar desconfianças. Eu sei que vivo num país em que aconteceu um processo chamado "Apito Dourado" e as escutas estão no Youtube. Eu também já disse várias vezes entre amigos que o meu clube foi roubado e que é uma vergonha isto ou aquilo. Isto é futebol e faz parte da paixão que os adeptos têm pelo jogo. É perfeitamente normal que num jogo, levados pela emoção, os adeptos critiquem os árbitros e os dirigentes lhe peçam explicações. Acho mesmo, que isto alimenta o futebol, até ao ponto em que a discussão é civilizada.
 
São raros os casos em que ouvimos "jogámos mal" ou "poderiamos ter feito muito mais". Não me lembro mesmo de ter ouvido algum dia um treinador dizer: " Errei nas alterações que fiz e não montei bem a equipa para este jogo" ou  "não estava preparado para esta equipa e acho que tenho ainda de trabalhar muito para ser um bom treinador". Geralmente, a culpa é sempre de "certas coisas que aconteceram no jogo e que nos têm prejudicado semana após semana" ou "daquele lance duvidoso que fez com que perdessemos o jogo".
 
É claro que os árbitros não estão imunes à crítica. Na vida, e em todas as actividades, todos temos de as aceitar. Alguns são profissionais e não estão acima de críticas, desde que civilizadas e nos locais certos. No entanto, devem estar acima de ofensas e ameaças pessoais, de serem perseguidos e de verem exposta a sua privacidade. Isto, além de cobarde, é crime. 
 
* Jornalista José Lameiras
Permanentemente, o atual Governo e os partidos que o suportam acusam o anterior Governo do PSD / CDS de atrasos na aplicação dos fundos comunitários. A crítica mais recorrente está relacionada com atrasos no arranque do Portugal 2020 (novo pacote de fundos para o período 2014-2020).
 
Na realidade, os argumentos apresentados refletem uma das muitas mentiras que sistematicamente nos bombardeiam. Mentem com demasiado à vontade. Infelizmente é uma triste realidade!
 
Vamos então demonstrar que estávamos perante uma evolução positiva em 2015 e que, agora sim, estamos com graves atrasos na execução dos fundos comunitários.
 

Quando os atuais governantes e partidos que os suportam referem que o Governo anterior deixou uma péssima herança no que respeita à execução dos fundos (principalmente do Portugal 2020), mentem deliberadamente.

Quando é referido que PT - Portugal 2020 apresentava um índice de pagamentos baixo, é totalmente ignorado que neste mesmo período era encerrado o QREN – Quadro de Referencia Estratégico Nacional, em simultâneo com a execução do PT 2020. Note-se que existe uma regra comunitária (n+2) que permite estender por mais 2 anos a execução de um programa comunitário.
 
Só para se ter uma ideia bem realista, foram pagos às empresas através do QREN 600 Milhões de euros em 2014 e 400 Milhões de euros em 2015.
 
Pela primeira vez em toda a história da gestão dos fundos comunitários, foi possível executar a totalidade das verbas dentro do período negociado.
 
Quando os atuais governantes e partidos que os suportam referem que o Governo anterior deixou uma péssima herança no que respeita à execução dos fundos (principalmente do Portugal 2020), mentem deliberadamente. Vamos procurar demonstrar passo a passo toda a verdade:
 
1 – Em 2014 e 2015 o País encontrava-se em pleno encerramento do QREN, encerrando, nesse mesmo período, as negociações do PT 2020. Desenvolveram-se nesta fase: Balcão Único; Adaptação do Sistema informático; Criação de apenas 5 regulamentos para todos os fundos (substituindo quase uma centena da anterior programação); preparação de um conjunto de exigências da Comissão Europeia, nomeadamente: a) Mapeamentos de Infraestruturas; b) Contratualização com as Comunidade Intermunicipais e Áreas Metropolitanas do Pactos de Coesão; c) Desenvolvimento dos PEDUS – Planos Estratégicos de Desenvolvimento Urbano; d) Arranque das AIDUS – Ações Integradas de Desenvolvimento Urbano Integrado; e) Auditoria Energética; f) Arranca das DLBC – Desenvolvimento Local de Base Comunitária, etc, etc, etc).
 
De referir que foram completamente inéditas estas novas exigências da Comissão Europeia.
 
2 – Arranque bastante significativo na Agenda da competitividade, sobretudo através dos sistemas de Incentivos às empresas. Arranque fortíssimo ao nível de concursos para projetos nos territórios de baixa densidade.
 
3 – Recordemos a vergonhosa herança que o Governo anterior recebeu em 2011 ao nível da péssima execução dos fundos comunitários. O País em 4 anos passou a liderar o ranking daqueles que tinha maior execução. Um esforço notável! 
 
4 – Não era por acaso que o investimento ganhava níveis históricos de recuperação. Mas também o nível de confiança melhorava significativamente. Respirava-se uma nova esperança! E agora o que temos com a esta governação?
 
É incontestável que num período de mudanças entre Quadros Comunitários (Pacotes de Fundos) existem sempre dificuldades. É sempre assim! Mas para quem valoriza a verdade, o que importa mesmo saber é se a aplicação dos fundos comunitários estava a funcionar bem, mas também, qual o ponto de situação atual. 
 
É aqui que esta temática se torna muito curiosa. Porque na realidade a execução atual dos fundos comunitárias está a correr muito mal (ao contrário do que acontecia há um ano atrás), isto porque este Governo já conseguiu a proeza de inverter a trajetória de crescimento, atingindo os níveis negativos do período homólogo do QREN, em 2009.
 

Tendo em conta o nível de execução, que é praticamente inexistente, colocam-se várias questões:  O que se passa neste domínio? Este não é um Governo do “mundo rural”? Este não é o governo da descentralização? Este não é o Governo amigo das autarquias? Este não é o Governo amigo do ordenamento do território e da qualidade ambiental? Este não é o governo amigo da regeneração urbana, património e mobilidade sustentável e inteligente?

Apresenta-se de uma forma objetiva alguns dados da responsabilidade desta governação:
 
1 – Utilizando os únicos dados oficiais do presente ano (1º semestre), a taxa de execução do Domínio da Sustentabilidade e o Uso Eficiente dos Recursos é de 0,9%. 
 
Exemplos de Tipologias no âmbito deste domínio: Regeneração Urbana; Eficiência Energética, Património Natural e Cultural, Mobilidade Sustentável, Ciclo Urbano da Água, etc. 
 
Muitas desculpas do Governo para o justificar, mas os resultados são francamente horríveis.
 
Tendo em conta o nível de execução, que é praticamente inexistente, colocam-se várias questões:  O que se passa neste domínio? Este não é um Governo do “mundo rural”? Este não é o governo da descentralização? Este não é o Governo amigo das autarquias? Este não é o Governo amigo do ordenamento do território e da qualidade ambiental? Este não é o governo amigo da regeneração urbana, património e mobilidade sustentável e inteligente?
 
Tantas respostas por dar!
 
2 – No que respeita à execução no âmbito do domínio da Inclusão Social e Emprego, esta é bastante desastrosa. Rondava os 7,3%. É aqui que se encontra as medidas para apoiar os mais desprotegidos.
 
Apresentam-se algumas das tipologias com uma taxa de execução zero: Equipamentos Sociais, DLBC (projetos de investimento para PME´s em territórios de baixa densidade, etc.
 
3 - Os domínios com maiores valores financeiros executados no primeiro semestre de 2016 foram o Capital Humano e a Competitividade e a internacionalização. Ainda assim, o domínio Competitividade e Internacionalização apresentava neste período uma taxa de execução na ordem dos 3,8%. Lembram-se da propaganda do Plano 100 (cem dias, cem milhões). Tanta propaganda para tão maus resultados.
 
4 – No domínio Desenvolvimento Rural a taxa de execução andava na ordem dos 18,6%. Simpática, é verdade! Mas curiosamente, sobre esta matéria os atuais governantes e partidos que os suportam criticam o anterior Governo por ter comprometido demasiado o Programa Operacional. Afinal é um dos instrumentos que mais puxa pelo PT 2020! Ironias do destino.
 
Se tirarmos o PDR 2020, para podermos comparar com período homólogo do QREN (junho 2009 sem PRODER), temos uma taxa de execução de 6,1%. Péssimo! Pior que a Taxa de Execução da governação socialista em 2009.
 
Infelizmente ainda não estamos a discutir os resultados do Portugal 2020. Na prática, o que importa saber é se o Estado Português está a cumprir aquilo que contratou com Bruxelas. 
 
E sobre esta matéria é um deserto absoluto. Ninguém apresenta quaisquer resultados.
 
* Deputado António Costa da Silva

Tudo o resto são paisagens

Escrito por sexta, 23 dezembro 2016 11:23
Mais um ano se aproxima a passos largos e a paisagem continua a evoluir, nas suas constantes mutações.
 
O Natal, festa alta do calendário cristão, cada vez é menos aquilo que devia ser e, ano após ano, se afunda mais no consumismo desmedido dos presentes, na falsidade das mensagens de amizade e amor que trocamos uns com os outros e na total ausência do seu significado original. Ainda assim, o Natal é tempo de reflexão sobre aquilo que somos e sobre aquilo que desejamos para nós, para a nossa família, para os nossos amigos e para o Mundo em geral.
 

Como qualquer outro ser humano, no topo da minha lista de desejos estão a saúde, a paz, a amizade e o amor, pois acredito que tudo o resto vem por acréscimo. Os meus desejos são iguais aos de milhões de outras pessoas, eu sei, mas não me interessa. 

Enquadro-me naquele grupo de pessoas para quem o Natal não diz nada. Não é de hoje, é de sempre, pois desde que me conheço e que consigo formular uma opinião sobre aquilo que me rodeia, lembro-me de sempre ter detestado o Natal. Nos últimos 15 anos o Natal apenas teve algum significado para mim porque tenho tido o dever de fazer com que alguém que amo muito acredite mais do que eu nesta quadra. Espero sinceramente ter conseguido incutir na minha filha uma opinião contrária à minha sobre o Natal, para que daqui a vinte anos não a veja escrever artigos de opinião a dizer que não gosta desta época do ano.
 
Prefiro pensar no Natal apenas como uma breve passagem para o novo ano que se aproxima, como tempo de reflexão sobre o que aconteceu até aqui e sobre aquilo que poderá vir a acontecer no futuro. Para mim, é tempo de renovação. De adeus ao ano velho e de receção ao ano novo que aí vem. Tempo de formular desejos.
 
Como qualquer outro ser humano, no topo da minha lista de desejos estão a saúde, a paz, a amizade e o amor, pois acredito que tudo o resto vem por acréscimo. Os meus desejos são iguais aos de milhões de outras pessoas, eu sei, mas não me interessa. É nisso que acredito e é por isso que continuarei a lutar em 2017, ainda que os meus desejos sejam mais do que óbvios e não venham carregados de qualquer tipo de novidade.
 
Dentro do óbvio, e a pensar na saúde, gostava muito que as pessoas se começassem a respeitar mais umas às outras. Todos temos o direito de ser diferentes e de pensar de forma distinta dos demais. Por essa razão, desejo que 2017 nos traga mais respeito pelos outros, pelas suas ideias, pelas suas opções de vida, por pensarem de forma diferente, por tentarem ser únicos. Mais respeito pelo facto de não se limitarem a subjugar às ideias dos outros ou à forma como os outros gostariam que fossem, traçando o seu caminho e as suas vidas sem imposições alheias. Tenho a plena convicção de que ao agir desta maneira, a saúde do ser humano, pelo menos a psíquica, sairá claramente beneficiada, pois assim as pessoas terão muito mais tempo para pensar nos seus próprios problemas, ao invés de se preocuparem tanto com a vida dos outros. Desejo, por isso, que 2017 nos traga muita saúde.
 
No que toca à paz, desejo imensamente que as pessoas acreditem mais nas suas capacidades. Tantas pessoas que dizem “é impossível” sem sequer pensar uma única vez no caminho para conseguir fazer possível. E tantos projetos que saem frustrados exatamente porque nem sequer nos esforçamos por acreditar neles. Desejo que em 2017 todos acreditemos nas nossas potencialidades, na nossa capacidade para fazer mais e melhor, para fazer bem, para dar mais de nós aos outros e aos projetos em que nos envolvemos. Sem contrapartidas, sem vantagens e sem esperarmos que o fazer bem implique necessariamente receber o que quer que seja. Acredito que a paz, nem que seja a paz interior, se consegue alcançar se nos entregarmos de corpo e alma às nossas empreitadas. Se emprestarmos a cada uma delas um pouco de nós, da nossa dedicação e se agirmos de acordo com aquilo que dita o nosso coração. Que 2017 nos permita alcançar esta paz.
 
A amizade encontra-se facilmente através da partilha. Desejo sinceramente que todos saibamos partilhar melhor os conhecimentos, as emoções e as experiências. Não falo, claro, na partilha de emoções através das redes sociais. Nisso somos todos exemplares! Curiosamente vivemos numa era em que valem mais mil amigos no Facebook do que dois ou três bons amigos com quem conversar, conviver ou partilhar conhecimentos. E vai de partilhar tudo o que temos, o que não temos, os nossos anseios, as nossas frustrações e as nossas experiências com todos esses “amigos” virtuais. Em troca recebemos “likes”, comentários tipificados (“que se passa ‘migo?”, “que lindos!”, “parabéns. Bjs”, <3, ;) …) e, de vez em quando, se o assunto justifica, partilhas das nossas partilhas. Com tanto “share”, “what’s on your mind?”, “favs” e “tweets”, era de esperar que todos tivéssemos mesmo muitos amigos. Infelizmente sabemos que não é assim, por muito que nos esforcemos por o negar. Com as redes sociais perdeu-se todo o sentido de convívio e de partilha, em favor de uma amizade virtual. Até quando nos juntamos com amigos reais, na mesa do café ou no jantar de aniversário, somos incapazes de deixar de parte os amigos virtuais. Como acontece com tudo aquilo que é virtual, mais cedo ou mais tarde havemos de nos cansar e voltar a preferir amizades reais. Espero que em 2017 comecemos a traçar o caminho que nos devolva a verdadeira amizade.
 
Por fim, o amor. Já várias vezes visitei o amor nestas paisagens e não me canso de o revisitar. É o amor que lubrifica as engrenagens da vida, que faz com que ela valha a pena ser vivida. Para mim, amor é sinónimo de entrega. Por isso, desejo que em 2017 continue a entregar-me, como sempre o tenho feito, às duas mulheres da minha vida e que consigamos, sempre, sobreviver a todas as contrariedades. Felizmente, temos sido bafejados pela sorte e conseguido contornar os vários obstáculos que, por vezes, nos aparecem no caminho. Mas não basta ter sorte. Tem que haver entrega à causa. Para nós, a causa são os outros dois. Viver para os outros dois. Desejo, mais do que tudo, que 2017 nos traga ainda mais amor do que até aqui nos tem proporcionado.
 
Como já perceberam, para mim não é preciso muito mais do que estes quatro ingredientes na minha receita para ser feliz. Respeitar para ter saúde, acreditar para ter paz, partilhar para ter amizade e entregar-me para ter amor. Tudo o resto, como já disse, há de vir por acréscimo. Como se costuma dizer, tudo o resto são paisagens…
 
Feliz Natal e um Ano Novo repleto de saúde, paz, amizade e amor!
* Arquiteto Paisagista António Serrano

Esperança... e mais esperança!

Escrito por sexta, 09 dezembro 2016 17:09
A palavra Esperança foi a última que utilizei no texto do mês anterior. Com a aproximação da época natalícia e do final do ano, a mesma palavra tem uma força em si só ainda maior. Num ano difícil como este parece-me ser de bom-tom realçá-la como forma de ambicionar um novo ano muito melhor do que este de 2016.
 
Este ano trouxe, de facto, muitas complicações ao mundo, trouxe muitas perdas de gente, famosa ou não, que sempre fez parte das vidas de cada um de nós, mas, na realidade, também trouxe coisas boas. Veja-se por exemplo o desporto. Como amante do futebol em particular e do próprio desporto em geral, ainda que possa ser criticado por ocultar outros feitos do desporto nacional, devo realçar cinco acontecimentos marcantes neste ano, a conquista do Tri Campeonato de futebol do meu BENFICA, a conquista inédita do Campeonato Europeu de Futebol por parte da selecção de PORTUGAL, a conquista, também por PORTUGAL, do Campeonato Europeu de Hóquei em Patins, algo que não acontecia há 18 anos, a conquista de uma medalha olímpica no Rio de Janeiro por parte da judoca Telma Monteiro, que na realidade, para o nosso país soube a pouco, e finalmente o primeiro apuramento de sempre da selecção portuguesa de futebol feminino para uma grande competição internacional que, no caso, se trata do Campeonato da Europa a realizar na Holanda no próximo ano.
 
Para ser sincero, a nível pessoal, este ano não me vai deixar saudades nenhumas, tive saúde é certo, mas a nível familiar essa mesma saúde não esteve como todos esperávamos. O mês de Janeiro foi, quanto a mim, o pior de todos, aquele que mais “abalo” deu ao psicológico da família.
 

Dizem que a esperança é a última a morrer, que é verde e que é a que faz superar o desespero. Eu digo que a esperança não tem cor, ou então que tem todas as cores, não só é verde, é azul, amarela, vermelha, branca, laranja, ocre, anil, violeta, púrpura, carmim, bordeaux. A esperança pode sim fazer superar o desespero mas acredito que, para muitos, os que sofrem de incessantes dores físicas mas também de dores psicológicas, seja o fim da vida a derradeira esperança. Se calhar teríamos que dividir aqui a esperança em boa e má mas como isso é de tal forma subjectivo, se calhar é melhor nem continuar este assunto e parar por aqui.

Uma coisa é certa, já tenho idade suficiente para começar a perceber que a vida nem sempre é como esperamos e que a todos os segundos que passam estamos com mais idade. Não quero nunca pensar que os meus “velhotes”, um dia, caminharão rumo a outras paragens, eu juro que me tento mentalizar que isso um dia acontecerá mas não consigo não ter esperança que seja só um dia muito, muito longínquo. Sim, eu sei que quanto mais idade temos mais maleitas nos aparecem e a esperança de vida vai diminuindo. Mas não diminui ela todos os dias? todas as horas? todos os minutos? todos os segundos? toda a vida? Eu tenho essa consciência, no entanto quero acreditar que todos viverão até, pelo menos, aos 150 anos com qualidade de vida.
 
Irracional! É verdade, às vezes (muitas) consigo ser assim, irracional mas, na verdade, é também essa irracionalidade que faz com que tenha bem viva a luz da esperança. É essa irracionalidade que me faz acreditar que o mundo viverá em paz, com as iguais diferenças de cada um, com o respeito mútuo por opiniões divergentes, com justiça, com responsabilidade, com alegria, amizade… é essa irracionalidade que me faz ter a confiança no equilíbrio, naquilo que tem faltado nos dias de hoje que é sabermos colocar-nos no lugar do outro, olharmos para o outro e não só para o nosso umbigo… é essa irracionalidade que me faz crer que as pessoas vivam as suas vidas e não as dos outros, que me faz ter a expectativa de não haver preconceitos, que me faz ter a ilusão de vivermos todos unidos e embriagados de um amor infinito. Talvez seja utópico da minha parte pensar desta maneira mas, de certa forma, a esperança também é utopia, fantasia, sonho. No entanto está mais que provado que há sonhos que se realizam, certo? Também é certo que diariamente a esperança é posta à prova pelos inúmeros acontecimentos quase irreais do nosso mundo. Muitas vezes chego a pensar se não será pela esperança que surge a infelicidade, por exemplo por não se conseguir almejar algo que sonhávamos e para o qual a esperança fez o favor de nos alimentar a expectativa, mas depois há sempre uma nova esperança que surge, que faz voltar a alimentar a ilusão e me faz desacreditar daquele pensamento. É como que uma espécie de ciclo que vive de esperança em esperança.
 
Dizem que a esperança é a última a morrer, que é verde e que é a que faz superar o desespero. Eu digo que a esperança não tem cor, ou então que tem todas as cores, não só é verde, é azul, amarela, vermelha, branca, laranja, ocre, anil, violeta, púrpura, carmim, bordeaux. A esperança pode sim fazer superar o desespero mas acredito que, para muitos, os que sofrem de incessantes dores físicas mas também de dores psicológicas, seja o fim da vida a derradeira esperança. Se calhar teríamos que dividir aqui a esperança em boa e má mas como isso é de tal forma subjectivo, se calhar é melhor nem continuar este assunto e parar por aqui. Nem consigo sequer imaginar, e para ser sincero também não quero, a enorme dificuldade de quem sofre e a quem a esperança insiste em empurrar a vida para a hora ou para o dia seguinte. É como que um ciclo dentro de outro ciclo, dentro do outro tal ciclo das esperanças. Não sei se me fiz entender com esta confusão toda.
 
Mas eu sou positivo, e como positivo que sou, entendo a esperança presente mas com ambição de futuro. No fundo quase que me considero um “vendedor” de esperança. Talvez vendedor não seja o termo correcto, se calhar é mais transmissor de esperança. Sim porque eu acredito veementemente e tenho esperança num futuro melhor para todos e como o futuro deste estranho ano de 2016 é o mesmo de todos os anos, terminar em 31 de Dezembro, só há a esperança que o próximo seja bem melhor do que o anterior.
 
A todos um Feliz Natal e um ano de 2017 cheio de boa? esperança.
 
* Professor Luís Parente

Um dia, poderá ser bem pior

Escrito por sábado, 19 novembro 2016 15:35
Tratamos, hoje em dia, as coisas com muita descontração. Quem utiliza as redes sociais com frequência, rapidamente discordará da primeira afirmação deste texto. Abrimos o Facebook, por exemplo, e todos têm uma opinião. Muitos se atropelam para serem os primeiros a criticar e a dizer que isto ou aquilo se devia fazer desta ou de outra maneira. Depois, fora do ecrã, a conversa é outra.
 
Quantos dos que criticaram a eleição de Trump, na América, vão votar em Portugal quando há eleições? Quantos conhecem claramente as ideias e intenções do novo presidente americano? Quantos acompanharam toda a campanha e não têm a opinião formada apenas por aquilo que nos chegava já filtrado? Quantos criticam apenas por ver os outros criticar? 
 
Eu não conheço bem o programa de Donald Trump, tal como não conhecia o de Hilarry Clinton. Se tivesse que votar na América, escolhia Clinton e nem sei bem explicar porquê. Talvez tivesse sido influenciado pela campanha que foi feita para a vitória de Hillary ou talvez não simpatize mesmo com a postura de Trump e com algumas das suas ideias disparatadas. 
 

...quem somos nós, que já elegemos em Portugal vários "artistas", para agora dizermos que os americanos estão ou são malucos? Nós vivemos num país onde o "Tino de Rans" teve 150 mil votos. Com todo o respeito que o Vitorino Silva merece, ficámos a saber que em Portugal há cerca de 150 mil pessoas que gostavam que o "Tino de Rans" fosse Presidente da República.

O que é certo é que Donald Trump ganhou. Ganhou porque quem quis a sua vitória foi votar e mobilizou-se para que outros votassem. Dito assim, até parece fácil. Viver em democracia é isto mesmo. Apesar de Hillary ter mais votos na urna, manda o sistema eleitoral que assim seja. Contra tudo e quase todos, Trump ganhou.
 
E ganhou porquê? Ganhou porque alguém votou nele. Trump é o exemplo do que hoje muitas vezes acontece em muitas eleições em muitos países. Lançam-se candidaturas que parecem "mortas" à nascença, seja pela opinião pública ou até pelos mais altos entendidos, mas depois toda a gente se esquece que é preciso ir votar. Eu, de um modo geral, confio em sondagens. No entanto, parece que cada vez mais elas são desmentidas no dia do acto eleitoral. Há candidatos vitoriosos antes do "jogo" começar e muitos possíveis derrotados. Depois, mandam as máquinas de mobilização e de contra-informação. Muitas vezes, o jogo vira-se e o fetiço atinge mesmo o feiticeiro.
 
Fiquei muitas vezes incrédulo a ouvir certos discursos de Donald Trump. No entanto, quem somos nós, que já elegemos em Portugal vários "artistas", para agora dizermos que os americanos estão ou são malucos? Nós vivemos num país onde o "Tino de Rans" teve 150 mil votos. Com todo o respeito que o Vitorino Silva merece, ficámos a saber que em Portugal há cerca de 150 mil pessoas que gostavam que o "Tino de Rans" fosse Presidente da República.
 
Olho para Trump como um produto da nova sociedade para a qual caminhamos, onde o "parecer" se torna bem mais importante do que o "ser". Este estado de coisas, onde o desinteresse político é preocupante e onde o populismo se instala rapidamente, é que faz eleger Trump's. A comunicação social tem aqui muita responsabilidade. Este é o veículo que leva as mensagens e que, naturalmente, forma opinião. A tal opinião, que ridicularizava Trump e que chegou a preconizar um passeio para Clinton. A candidatura do bilionário, na parte inicial, nunca foi levada muito a sério e esse foi, para mim, o seu grande trunfo.
 
O resultado é uma lição. É uma lição que não deve ficar só na América. É que, um dia, poderá ser bem pior.
 
* Jornalista José Lameiras

Coitado do Donald... Duck!

Escrito por segunda, 14 novembro 2016 00:13
Parecia que estava a adivinhar… esperei até hoje para escrever o texto deste mês e, por coincidência ou não, muitos de nós acordaram com a mais surpreendente das notícias, o anúncio da eleição do novo presidente dos Estados Unidos. Não sou analista político nem sequer almejo vir um dia a sê-lo, no entanto, e mesmo não gostando muito de comentar os assuntos “do momento” entendo que hoje devo fazê-lo.  
 
Em outras ocasiões eleitorais daquele país era, para nós portugueses, mais ou menos indiferente que quem fosse gerir os destinos da maior economia do mundo fosse democrata ou republicano. No entanto, este ano de 2016, já de si estranho, revelou aquilo que todos já sabemos… ainda não terminou e “até ao lavar dos cestos é vindima”, o que quer dizer que muito pode ainda acontecer ao enfermo mundo em que vivemos, aliás diariamente surgem notícias que nos fazem duvidar se algum dia o conseguiremos regenerar. 
 

Estas eleições revestiram-se de uma importância acrescida pelo facto de haver um candidato com um discurso, na minha opinião, deplorável, absolutamente demente e completamente fora do tão propalado discurso do politicamente correcto, um sujeito que, pelo seu raciocínio, podemos classificar de xenófobo, misógino, incitador de violência e ódio, homofóbico e preconceituoso. Nunca tal havia sido observado no mundo moderno e nem mesmo a campanha a favor do Brexit do ex Mayor de Londres e membro do partido conservador Boris Jonhson, ou do eurocéptico líder do Partido da Independência do Reino Unido, mais conhecido por UKIP, Nigel Farage, chegou ao baixo nível da campanha eleitoral norte americana. 
 
Em Agosto último escrevia nestas linhas do ARDINA o seguinte excerto: “Nos Estados Unidos da América, por exemplo, foi recentemente nomeado pelo partido republicano, como candidato à presidência do país, uma pessoa que, na minha opinião, é desprovida de qualquer tipo de sensibilidade e como consequência sem capacidade para presidir um dos países mais influentes do mundo. Pior do que isso é a sociedade que foi criada para que essa situação fosse hoje possível, não se conseguindo discernir um propagandista, aproveitador e ainda por cima xenófobo que se arrisca a ser presidente (lagarto… lagarto… lagarto) daquele que por muitos é considerado o país mais multicultural e multiétnico do mundo.” Passados três meses a minha opinião sobre o senhor continua a ser a mesma. No entanto, àquilo que escrevi, pode agora ser adicionada uma nova variável, a sua efectiva eleição para presidente dos Estados Unidos da América. Ainda assim, continuo a achar que não tem capacidade para presidir os destinos do seu país e considero mesmo que não tem sequer a noção do que lhe aconteceu nem daquilo que lhe foi “oferecido” pela livre vontade dos americanos expressa em votos nas urnas de cada um dos 50 estados daquele país. As notícias que hoje nos chegam da terra do “tio Sam” dão-nos conta de uma vitória absolutamente esmagadora do candidato republicano que consegue a maioria no Senado e no Congresso. 
 
O resultado destas eleições reflecte agora, mais que nunca, que as pessoas estão efectivamente descontentes com a forma como os políticos gerem as suas vidas. Quem sabe, tudo isto do Brexit e das eleições norte americanas, não seja até bom para que os decisores políticos reflictam e comecem a pensar efectivamente nas pessoas e não só na economia. É que as pessoas têm necessidades… muito maiores que a economia… é que as pessoas são pessoas e é para elas que os governantes devem governar. Se essa reflexão for célere quiçá não se chegue a tempo de evitar mais preocupações do género das que aconteceram hoje noutros países do mundo.
 
Durante o dia de hoje (9 de Novembro) dei-me ao trabalho de ir lendo os comentários que iam surgindo nas diferentes redes sociais sobre a inesperada vitória do candidato republicano, onde nem as próprias sondagens lhe davam algum tipo de vantagem, daí a vitória se revelar surpreendente e inesperada. As opiniões que surgiram foram inúmeras e parece que toda a gente tinha uma sobre o assunto do dia. Umas mais sarcásticas, outras furiosas, umas mais tristes (a maior parte), outras muito divertidas, umas a favor, outras contra, umas que comparavam a série de desenhos animados dos Simpsons com a realidade, outras irónicas, outras ainda sobre teorias da conspiração, enfim, uma panóplia de opiniões que continuarão a proliferar nos próximos tempos por essa web fora. 
 
Na minha opinião nenhum dos dois candidatos tem o perfil para ser presidente dos Estados Unidos, nem Trump nem Clinton. O primeiro por demonstrar tudo o que já aqui referi e a segunda não só por eventualmente se subjugar a interesses obscuros que quiçá lhe tenham financiado a própria campanha eleitoral como por não lhe reconhecer capacidade decisória para o exercício do cargo. 
 
Dos muitos comentários que li, ainda antes destas eleições, o mais consensual, se assim lhe posso chamar, foi o “de um ao outro venha o diabo e escolha”. No entanto também li muitos a preferir o “sistema” de Hillary ao abuso de autoridade de Trump a quem muita gente considerou de perigoso. Talvez eu próprio também preferisse o mal menor do sistema instituído. 
 

Na minha opinião nenhum dos dois candidatos tem o perfil para ser presidente dos Estados Unidos,nem Trump nem Clinton. O primeiro por demonstrar tudo o que já aqui referi e a segunda não só por eventualmente se subjugar a interesses obscuros que quiçá lhe tenham financiado a própria campanha eleitoral como por não lhe reconhecer capacidade decisória para o exercício do cargo.

Eu tenho para mim que o agora eleito 45º Presidente dos Estados Unidos não vai concretizar a maior parte das promessas eleitorais que fez. Concordo com o escritor Miguel Esteves Cardoso que escreveu um artigo de opinião sobre o assunto que diz que Donald Trump "conseguiu o que queria. Há-de voltar as costas ao eleitorado que o elegeu logo que perceba que a única coisa que esse eleitorado tinha para lhe dar já foi dado: os votos de que ele precisava para ser eleito. Já fez o elogio de Hillary Clinton. Já disse que vai representar todos os americanos. Vai-se tornar lentamente um republicano moderado e liberal. Os oportunistas têm sempre essa vantagem da metamorfose". Aguardemos então essa metamorfose, talvez Trump se transforme em Donald Duck para animar isto um bocadinho mais. Não! Coitado do Donald Duck! (Walt Disney de certeza que se viraria na tumba só de pensar nisso).
 
Não costumo ser muito pessimista mas confesso que este acontecimento de hoje me deixou algo apreensivo e, no deslizar do dedo pelo meu smartphone, encontrei, através de uma amiga e colega, um pequeno texto, que quero aqui partilhar convosco, de uma entrevista de Al Berto à revista Ler em 1989 que reflecte um pouco daquilo que é o meu sentimento no dia de hoje: "Este Não-Futuro que a Gente Vive -
Será que nos resta muito depois disto tudo, destes dias assim, deste não-futuro que a gente vive? (...) Bom, tudo seria mais fácil se eu tivesse um curso, um motorista a conduzir o meu carro, e usasse gravatas sempre. Às vezes uso, mas é diferente usar uma gravata no pescoço e usá-la na cabeça. Tudo aconteceu a partir do momento em que eu perdi a noção dos valores. Todos os valores se me gastaram, mesmo à minha frente. O dinheiro gasta-se, o corpo gasta-se. A memória. (...) Não me atrai ser banqueiro, ter dinheiro. Há pessoas diferentes. Atrai-me o outro lado da vida, o outro lado do mar, alguma coisa perfeita, um dia que tenha uma manhã com muito orvalho, restos de geada… De resto, não tenho grandes projectos. Acho que o planeta está perdido e que, provavelmente, a hipótese de António José Saraiva está certa: é melhor que isto se estrague mais um bocadinho, para ver se as pessoas têm mais tempo para olhar para os outros". É um facto que me preocupa muitíssimo esta ausência de valores mas também me preocupa a pouca consciência que temos dos trilhos por onde andámos para chegarmos aqui, ao ponto em que estamos, ao mundo que temos. Ainda assim, e como sou uma pessoa de fé, tenho esperança que o mundo mude para melhor.
 
Do que li, a propósito do resultado destas eleições para a “Casa Branca” quero ainda destacar o que Gabriela Ruivo Trindade, vencedora do Prémio LeYa em 2013, a viver no Reino Unido, escreveu no seu Facebook:  
Não fossem os teus olhos, o mundo seria hoje um lugar muito mais feio.
(Devíamos enviar mensagens de amor. Eu dedico esta a todos os que amo. Hoje ganhou, mais uma vez, o ódio. Aconteceu o mesmo aqui com o Brexit e a doença vai continuar a espalhar-se. O pior é que já vimos este filme, e não sabemos como pará-lo: quanto mais inseguras e assustadas, quanto mais desesperadas, mais as pessoas se tornam presas fáceis do discurso do ódio. Porque é tão mais fácil arranjar bodes expiatórios do que procurar em si o que está mal. Dá tanto jeito arranjar culpados, desde que sejam os outros. O outro. É a união, a solidariedade, a empatia, o amor pelo outro que estão ameaçados. E contra o ódio, só existe um remédio: amor. Muito amor.)
 
É verdade! Estão ameaçados… mas há defesas e essas não vivem só no amor, elas vivem também na palavra ESPERANÇA. 
 
* Professor Luís Parente
 

Mais Populares