sábado, 25 novembro 2017

Sobre rodas, "Sorrindo às Dificuldades"

Escrito por quarta, 01 abril 2015 01:16
Francisco Alegria Chouriço, "Zé da Gata", Januário Gonçalez, António "Puskas", João Pedro Cascais, Mário Lagartinho, Zé Miguel, Adriano Chouriço, Ângelo Madeira, Jorge Nunes, Emanuel Caldeira. Mais recentemente, Joaquim Serra, José Alberto Fateixa, José "Sapo", Francisco Alberto Chouriço, Rui Serrano, José Gonçalez, "Tonico", João e Rui Mata. Faltam aqui muitos. As minhas deculpas aos que não são aqui referenciados mas não cabem aqui todos. Quem tem acompanhado o Hóquei em Patins em Estremoz, rapidamentente percebe o porquê de surgirem aqui estes nomes.
 
Fico triste. Acompanho a modalidade há quase 30 anos e tenho sensação de que esta é uma chama que se tem apagado. Noutros tempos, o dia em que havia hóquei em Estremoz era, para a cidade, um dia especial. As conversas nos cafés andavam em redor do adversário ou daquelas que deveriam ser as apostas iniciais. Esclareço, desde já, que não acompanhei os tempos da primeira divisão. Pelo que me contam, "isso era uma loucura". Garantiram-me que era o público que fazia a diferença. Além das sticadas fortes do "Chouriço", das defesas impossíveis do "Zé da Gata" e do Emanuel, dos desarmes do "Serrinha" e da técnica do Januário, era o público que na grande parte das vezes empurrava a equipa para a vitória. 
 
Jogar em Estremoz não era para todos. Tanto na "Esplanada" como no Pavilhão, quem nos vinha visitar estava consciente de que levar daqui uma vitória era uma tarefa difícil. Dizem-me, alguns adeptos desses tempos, que "os que cá vinham, começava logo a perder, só de perceberem o ambiente que os esperava". Os estremocenses eram conhecidos pela sua garra e pelo seu talento. Diziam-se que em Estremoz se nascia com "jeito" para o Hóquei. Todos os jovens queriam experimentar. Jogava-se nos bairros, principalmente no que está mais próximo do Pavilhão, hóquei na rua, utilizando as sarjetas como balizas. Os que já jogavam, tentavam levar amigos e vizinhos para o pavilhão. Os pais que tinham jogado, incentivavam os filhos a começar. 
 
Noutros tempos, ser jogador de hóquei do "Estremoz" era uma honra. Era para todos um orgulho vestir aquela camisola. Os que jogavam menos, não baixavam os braços e esperavam ansiosamente uma oportunidade. Poderia dar vários exemplos, mas prefiro generalizar. O Pavilhão e a "Esplanada" receberam grandes jogos, grandes craques. Muitos dos estremocenses não têm noção que já por aqui passaram os melhores de Portugal e alguns dos melhores do Mundo. Ainda há bem pouco tempo, há cerca de 14 anos, o nosso Pavilhão ia "rebentando pelas costuras" com a recepção ao Benfica para a Taça de Portugal. Nessa equipa encarnada estavam alguns dos melhores de sempre: Panchito Velazqués, Luis Ferreira, Filipe Gaidão, Vitor Fortunado, Ricardo Pereira, Zé Carlos Califórnia. Todos estes já foram Campeões do Mundo. Estavam cerca de quatro mil pessoas nas bancadas.
 

Este texto pode ser entendido como um alerta. Uma chamada de atenção de quem está por dentro e vê um futuro difícil para a modalidade nesta terra

 
Há dois anos atrás, a equipa principal esteve perto de regressar à 2ª Divisão. Jogava em casa e tinha de pontuar para que tal acontecesse. O público respondeu à chamada e o pavilhão voltou a ter ambiente. A equipa falhou, perdeu de forma clara, e muitos dos que compareceram nunca mais voltaram. Esta época, já vi um jogo da equipa principal que acabou com cerca de uma dúzia de adeptos nas bancadas. Os jogos das camadas jovens têm, claramente, mais público.
 
Já ouvi várias teorias sobre o facto de hoje tudo ser diferente. Até agora, nenhuma delas me convence. Primeiro como praticante e agora como treinador, tenho acompanhado de perto todos os acontecimentos. "Estamos no interior e aqui é difícil". É verdade, mas há equipas aqui perto que estão descansadamente na segunda divisão e outras a fazerem prestações dignas na terceira. "Os jovens depois vão para a universidade". Pois vão, e felizmente, mas os das outras equipas também vão. "Estremoz é uma cidade pequena". Turquel, tem cerca de 4500 habitantes e tem uma equipa na 1ª Divisão. "Isto só ia para a frente se houvesse dinheiro para ir buscar jogadores fora". Podia ser uma solução. No entanto, os de cá, se quisessem, devem bem conta do recado. 
 
No que toca à formação, sendo suspeito para opinar, penso que o caminho é o que está a ser seguido. No entanto, era preciso mais gente para trabalhar e, também, para patinar. Na iniciação, estão cerca de 20 crianças. É um número bom, mas deviam ser 40 ou 50. Entendo que este não é um desporto fácil em várias vertentes, mas acreditem que os frutos aparecem. Aprender a patinar correctamente e aliar isso ao manuseamento de um stick e uma bola, não é fácil e leva tempo. Um jogador de hóquei não se faz de um dia para o outro. É certo, também, que não é um desporto barato. No entanto, com boa vontade de pais, direção do clube e das empresas que colaboram, tudo se pode resolver. É preciso é vontade.
 
Este texto pode ser entendido como um alerta. Uma chamada de atenção de quem está por dentro e vê um futuro difícil para a modalidade nesta terra. No caso dos mais jovens, cabe aos pais e treinadores incutir-lhes que o respeito que os adversários têm por esta camisola demorou muitos anos a construir. Todos são poucos para ajudar. É preciso que os que por lá passaram, façam pelos outros aquilo que um dia alguém fez por eles. Também esses, deveriam ir mais vezes ao Pavilhão apoiar os sucessores. Está nas nossas mãos. Vamos todos, sobre rodas, sorrir às dificuldades.
 
* José Lameiras - jornalista

Mulher é Vida

Escrito por quarta, 25 março 2015 23:27
É incontornável e inevitável da minha parte, porque não me consigo demitir de formular uma opinião muito própria sobre este assunto, a abordagem a um tema que infelizmente ainda não está esgotado na sociedade portuguesa, os maus tratos praticados sobre as mulheres. Ainda recentemente, numa iniciativa de um conhecido jornalista da nossa praça, foi lançado um tema musical que juntou oito vozes femininas, conhecidas do grande público, que dão voz a um hino da APAV- Associação Portuguesa de Apoio à Vítima- para o qual se tentam despertar consciências para a problemática da violência doméstica. Segundo as estatísticas, o número de mulheres assassinadas em Portugal nos últimos 10 anos ascende quase aos 400. Arrepiante!... aterrador como por ano morrem cerca de 40 mulheres às mãos de autênticos “animais”, se é que assim lhes posso chamar.
 
Questiono a falta de humanismo, a falta de respeito… questiono a ausência de tolerância e a ausência dos valores mais básicos do ser humano.
 
Questiono os motivos que fazem alguém sucumbir mentalmente à barbaridade de tirar a vida a um ser brilhante como a mulher.
 
É certo que a sociedade está em constante mutação, aliás… sempre esteve. Talvez o facto de evoluir muito rapidamente seja um dos factores que fazem com que a consolidação das mudanças não seja feita estruturalmente e o próprio Ser definhe, enfraqueça. Na minha perspectiva, nos dias de hoje, e em muitas circunstâncias, o Ser e a própria sociedade está enferma, consegue viver, sem aparentes preocupações, de acordo com valores completamente distorcidos do humanismo.
 
Onde é que está a amizade? Onde está o diálogo? Onde está o conceito de família?
 

Questiono os motivos que fazem alguém sucumbir mentalmente à barbaridade de tirar a vida a um ser brilhante como a mulher

 
Arrisco-me a dizer que, perante isto, e para enfrentar este nosso doente mundo é preciso ser-se corajosa para se ser mulher. Invejemos, porque não, a sua coragem… reconheçamos a sua sinceridade, a sua verdade, a sua firmeza, sabedoria, bondade, a sua justiça, exigência, paciência, a sua responsabilidade e resistência… respeitemos a sua interioridade, a sua complexidade, a sua impulsividade, a sua particular inteligência, respeitemos a sua superioridade, a sua ponderação, a sua protecção, a sua honestidade intelectual, a sua capacidade de resiliência e de superação, o seu incansável trabalho… deixemos que sejam mães, irmãs, meninas, amigas, que sejam fogo, que sejam gelo, deixemos que sejam selvagens, inocentes, atrevidas, maravilhosas, que sejam vaidosas, enigmáticas, extraordinárias, graciosas, ordenadas, deixemos que sejam boas, chatas, complicadas, pragmáticas, poderosas, abstractas… respiremos as suas formas, os seus aromas…
 
Dir-me-ão que é difícil entendê-las… reconheço… é um facto!… ainda assim é impossível viver sem elas. Tenho a plena consciência que, ainda que escrevesse um milhão de coisas sobre a mulher, era insuficiente para a definir e compreender. O próprio Oscar Wilde já dizia que “As mulheres existem para que as amemos, e não para que as compreendamos”. Mesmo sem nunca conseguirmos compreendê-las, é imperativo que o tratamento seja cordial, de amizade, amor, entreajuda, solidariedade, partilha, lealdade, honestidade e essencialmente de respeito pelos seus direitos fundamentais.
 
Que cesse, de uma vez por todas, a violência gratuita e repugnante sobre as mulheres!
 
Orgulhemo-nos das suas especificidades!
 
Orgulhemo-nos da mulher enquanto mulher!
 
Mulher é amor… é alma… é alegria… MULHER É VIDA!
 
* Luís Parente - Professor
 

Os desafios do novo PDM de Estremoz

Escrito por terça, 17 março 2015 23:54
A arte e ciência de ordenar o espaço exterior ao Homem, tal como foi definida por um dos grandes nomes da arquitectura paisagista portuguesa, Gonçalo Ribeiro Telles, é mais do que o simples desenho de jardins e espaços verdes. Pelo contrário, é uma profissão que nos permite ter uma maior atitude crítica perante o Mundo e antever ou planear os resultados das constantes interacções entre o Homem e a Natureza, com o objectivo de construir, de uma forma ordenada e sustentada, os habitats que suportam a vida, nas suas mais diversas manifestações. Devido à abrangência desta arte/ciência, que me leva muitas vezes a pensar que tirei um curso de "cultura geral", os arquitectos paisagistas estão aptos a realizar uma série de estudos, projectos e planos, os quais lhes permitem intervir a diversas escalas da paisagem.
 
Uma dessas escalas é, precisamente, o Plano Director Municipal (PDM), um dos principais instrumentos de gestão territorial que vigoram no nosso País e que abrange toda a área territorial de um concelho, estabelecendo o modelo de organização espacial desse território, bem como a estratégia de desenvolvimento que lhe está implícita, através da classificação do solo e das regras e parâmetros que se aplicam à sua ocupação, uso e transformação. É, por isso, um instrumento fundamental para definir a forma como a paisagem vai ser intervencionada pelo Homem e, ao mesmo tempo, o modo como as gerações actuais tiram o melhor partido possível das potencialidades do território, garantindo a sua manutenção para as gerações futuras.
 
É um processo que não diz respeito apenas aos políticos ou aos técnicos. É um processo que diz respeito a todos os cidadãos, na medida em que todos somos actores no vasto palco que é o território, porque nele vivemos e com ele interagimos. Muito menos o PDM pode ser encarado como um simples documento em que se descrevem normas ou índices urbanísticos, pois a gestão do território e a sua estratégia de desenvolvimento não se esgota nas questões relacionadas com a construção. O PDM define também estratégias relacionadas com a defesa do património cultural, com a salvaguarda dos valores naturais, com a protecção civil, com a regulação do ciclo hidrológico, com o desenvolvimento económico e social, com o desenvolvimento turístico, entre outros.
 
Está neste momento a decorrer a discussão pública da revisão do PDM de Estremoz. Trata-se de um processo que dura há já algum tempo e o actual PDM está francamente desactualizado (vigora há precisamente 20 anos), face à constante evolução das condições sociais, económicas e ambientais. Por essa razão, é importante que o novo PDM de Estremoz, que vai estar em vigor durante os próximos 10 anos, seja um documento que reflicta a realidade actual, que defina objectivos para o concelho e que, acima de tudo, estabeleça as principais linhas de intervenção que permitam que Estremoz encare positivamente os desafios que o futuro vai impor e que, como sabemos, são cada vez mais exigentes.
 

(...) o documento que está em discussão pública permitirá ao concelho de Estremoz dar mais um passo em frente (...)

 
É necessário que as linhas de orientação estratégica do PDM garantam que Estremoz seja um concelho competitivo, tirando partido das enormes potencialidades endógenas que possui, a diversos níveis - turismo, vinhos, produtos agro-alimentares e mármores, só para citar algumas.
 
Tenho acompanhado esta revisão do PDM e, em minha opinião, o documento que está em discussão pública permitirá dar uma boa resposta à maior parte destas questões, permitindo ao concelho de Estremoz dar mais um passo em frente, a caminho do desenvolvimento sustentado, contrariando a tendência de despovoamento do interior do País. Assim saibamos todos tirar partido das opções que o plano proporciona e consigamos antever as oportunidades que nele estão apontadas.
 
A participação de todos neste processo é fundamental. É este o momento certo para todos formularem questões, apresentarem sugestões e reclamações. Mas que esta participação não seja apenas centrada na velha questão "posso construir no meu terreno?", como tenho assistido na maioria das sessões públicas de esclarecimento que já decorreram... é preciso ir mais além e apresentar também sugestões ou soluções para dinamizar a economia ou para garantir a sustentabilidade dos sistemas naturais e humanos.
 
Já que nos é dada esta possibilidade de participar, o maior desafio que se coloca à participação pública é o de apresentar sugestões para o desenvolvimento global do concelho, ao invés de, como sempre, vivermos apenas preocupados com a nossa pequena "quintinha", com a nossa "parcela de paisagem". 
 
Percebamos, de uma vez por todas, que apenas conseguiremos ser mais competitivos e mais desenvolvidos se começarmos a olhar para a paisagem do geral para o particular, pois o futuro, também ele se constrói de forma global.
 
* António Serrano - Arquitecto Paisagista
 

Com a saúde não se brinca

Escrito por quinta, 12 março 2015 00:31
Que país temos quando se poupa na saúde? Em plena sala de espera de um hospital público, dou por mim a pensar que, com toda a certeza, nenhum governante passa por isto. Não acredito que, quem tem a responsabilidade de decidir, passe algum tempo nas salas de espera de hospitais públicos. Corro o risco de ser injusto, eu sei, mas mesmo assim arrisco, pois não posso concordar com o que vejo.
 
Os médicos e os enfermeiros são verdadeiros heróis. Trabalham horas a fio e não podem falhar. Se eu falhar no meu trabalho, não será, à partida, uma falha grave e poderei remediar a situação. Se eles falharem, pode não haver segunda oportunidade. Eles, esses heróis, mexem com vidas humanas. Como é possível terem de fazer tantas horas seguidas? Como é possível serem tão poucos? Como é possível haver gente nos corredores e tempos de espera absurdos? Faz-me confusão, admito.
 
Gostaria que um governante, daqueles que mandam alguma coisa, passasse, incógnito, umas horas numa qualquer sala de espera de um hospital e tivesse a capacidade de olhar em seu redor. Gostaria que visse o desespero de um filho porque a mãe está lá dentro há dez horas. Gostaria que visse um espaço onde cabem dez macas e estão lá cinco ou seis a mais. Gostaria que visse a correria de médicos e enfermeiros para que nada falte aos doentes. Gostaria que visse a cara das pessoas que esperam, ansiosamente, que alguém as chame para que sejam atendidas.
 
Não posso concordar, nem pouco mais ou menos, com cortes no SNS. A Saúde e a Educação são áreas onde se deve investir e não cortar. Fiscalizem mais e cortem menos. Apertem com aqueles que não cumprem e gratifiquem os que cumprem. Estão em causa vidas humanas. Isso não será suficiente para acabar, de vez, com estes cortes absurdos? Estimulem os médicos e os enfermeiros a ficar por cá. Os bons têm de estar em Portugal. Fará algum sentido estarmos a formar médicos e enfermeiros e depois eles emigrarem? Não há verba? Basta olhar para o batalhão de assessores que se fabricam neste país, para se perceber quantos se poderiam trocar por médicos ou enfermeiros. 
 

Basta olhar para o batalhão de assessores que se fabricam neste país, para se perceber quantos se poderiam trocar por médicos ou enfermeiros.

 
É dificil, para quem utiliza o SNS, entender que tem de haver cortes no transporte de doentes, nas consultas, nos exames, no pessoal que está de serviço. Contratem mais profissionais e paguem o que é justo. Este país funciona mal em várias áreas. No entanto, com a saúde não se pode mesmo brincar. Não se pode cortar no bem-estar daqueles que passam a vida a descontar para isto, para aquilo e para o outro. Sim, porque esses são sempre os mais prejudicados. 
 
 
Um novo estudo da Universidade Nova de Lisboa indica que cerca de 10% dos portugueses não vão ao médico e 16% deixam de comprar medicamentos prescritos devido às dificuldades financeiras. É como quem diz, cerca de um millhão de pessoas em Portugal não vai ao médico porque não tem dinheiro. O SNS foi criado para que todos tivessemos acesso à saúde. Pelos vistos, ela só está ao alcance de alguns. E os que não podem comprar os medicamentos? O que lhe fazemos? Na grande maioria, são casos de desemprego ou de reformas muito baixas. São pessoas que trabalharam uma vida inteira e hoje recebem entre 200 e 300 euros por mês. Isto, quando em Portugal há quem receba seis mil euros de pensão. Sim, neste país pobre há quem receba seis mil euros para passear o cão, se o tiver. A questão é que nem todos conseguiram, enquanto estiveram no activo, serem, por exemplo, gestores de empresas públicas.
 
* José Lameiras - Jornalista
 

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