quinta, 26 novembro 2020
A Equipa Comunitária de Suporte em Cuidados Paliativos (ECSCP) presta cuidados de saúde no domicílio do doente, que necessariamente tem um cuidador, habitualmente um cônjuge ou filho/a. Muitas vezes este cuidador informal está sozinho na tarefa de cuidar e é frequentemente uma pessoa idosa ou doente, também ela a precisar de cuidados. Mesmo nos casos em que é alguém mais jovem, torna-se difícil gerir o cuidado, a ocupação laboral e a sua própria família com filhos.
 
A elevada esperança média de vida no nosso país, é reveladora do desenvolvimento, acesso e qualidade dos cuidados de saúde e melhoria da qualidade de vida, condiciona no entanto o aumento das doenças crónicas, muitas vezes incapacitantes, tornando esta população dependente. Ao mesmo tempo assistimos no entanto ao desaparecimento das redes tradicionais de cuidado e ao isolamento frequente da população idosa e dependente.
 
A melhor resposta será então implicar a comunidade no cuidado destas pessoas com doença grave avançada, ajudando o cuidador a assegurar cuidados de saúde a estes doentes, apoiando ao mesmo tempo as suas famílias e cuidadores, até o final da vida.
 

Uma comunidade compassiva facilita a resiliência e diminui a exaustão quer do doente, quer dos cuidadores, para que possam cuidar no domicilio, se for este o seu desejo, e ter mais qualidade de vida até ao final.

 
O processo de morrer é algo natural, faz parte do percurso da vida, devemos encará-lo não como um problema médico ou de saúde mas sim como um processo normal, inerente ao ser humano. Como tal não pode ser deixado apenas nas mãos dos sistemas de saúde mas sim de toda a comunidade, é uma responsabilidade de todos ajudar nestes momentos difíceis. É esta a visão das comunidades compassivas.
 
Uma comunidade compassiva reconhece as necessidades da pessoa em fim de vida e implica nos cuidados todos os sectores da sociedade, diminuindo assim o impacto negativo deste processo. As comunidades compassivas surgem assim como um movimento de cidadania que responsabiliza mais a comunidade na promoção da sua própria saúde, capacitando-a para o cuidado do indivíduo, sua família, cuidadores e amigos, numa atenção centrada na pessoa, tornando a pessoa cuidada responsável pela toma de decisões. 
 
Motivadas pela compaixão, promovem planos de acção para o desenvolvimento de redes de cuidado que integrando os serviços de cuidados paliativos comportam os vários planos da pessoa: físico, espiritual, psicológico, religioso e social. 
 
Uma comunidade compassiva facilita a resiliência e diminui a exaustão quer do doente, quer dos cuidadores, para que possam cuidar no domicilio, se for este o seu desejo, e ter mais qualidade de vida até ao final.
 
A verdadeira compaixão faz com que sejamos empáticos com o sofrimento do outro e torna-nos activos na tarefa de o aliviar – compaixão é acção.
 
A compaixão pode ser cultivada nestas comunidades compassivas, motivo pelo que surgiu a “Associação Borba Contigo Cidade Compassiva” (ABCCC), uma associação sem fins lucrativos, que se juntou à “Amadora Compassiva” e “Porto Compassivo”, numa caminhada conjunta para um Portugal Compassivo.
 
Até lá queremos continuar a crescer para fazer um Alentejo Compassivo.... Juntem-se a nós!
 
Bibliografia:
1- http://phpci.info/become-compassionate-cities
2- Charter for Compassion, disponível em: https://charterforcompassion.org/images/menus/charter/pdfs/CharterFlyer10-30-2012_0.pdf
3- Joan Halifax  La compasión y el verdadero significado de la empatia TED women 2010 https://www.ted.com/talks/joan_halifax?language=es
4- Atención sociosanitaria integrada en cuidados paliativos, Silvia Librada Fundation New Health, Emilio Herrera Fundation New Health, Tania Pastrana Uruena Universidad técnica de Aquisgrán Alemania. Abril 2005 Fundación Caser.
Modificado em domingo, 22 novembro 2020 01:27

Unidas no Cuidar...

terça, 27 outubro 2020 22:07
Equipa Comunitária de Suporte em Cuidados Paliativos (ECSCP) e
Equipa de Cuidados Continuados Integrados (ECCI) Portel
 
Cuidar no domicílio ascendeu, em tempos de pandemia, a um patamar de primazia.
 
A evidência internacional mostra que a maioria das pessoas preferiria ser cuidada e morrer em casa, se lhe fosse permitido escolher, sendo as pessoas com 75 e mais anos as que mais desejam morrer em casa (66,2%).1
 
A prestação de Cuidados no domicílio, além de estar associada a menores custos e menor utilização de serviços de saúde, permite à pessoa doente ser cuidada no seu ambiente privado, rodeada da família, dos amigos e dos seus objetos significativos, aspetos promotores de maior bem-estar e qualidade de vida.
 
As Equipas de Cuidados Continuados Integrados (ECCI), que emergem das Unidades de Cuidados na Comunidade (UCC), têm um papel preponderante na manutenção dos doentes no domicílio. Direcionam a sua intervenção multidisciplinar a pessoas em situação de dependência funcional, doença terminal ou em processo de convalescença, sempre que exista um cuidador.2
 
A ECCI Portel, ativa desde 2017, integra a Unidade de Cuidados na Comunidade de Portel, pertencente ao Agrupamento de Centros de Saúde (ACeS) Alentejo central e abrange o concelho de Portel, com uma área geográfica de 600,2 km2 e oito freguesias: Alqueva, Amieira, Monte do Trigo, Oriola, Portel, Santana, São Bartolomeu do Outeiro e Vera Cruz.
 

Trabalhar em cuidados paliativos é uma aprendizagem constante, a nível profissional e pessoal. Passamos a encarar a vida de outra forma, a relacionarmo-nos de outro modo, adoptamos uma atitude muito mais reflexiva em relação à morte, ao sentido da vida e ao propósito da nossa existência. Aprendemos a viver intensamente cada momento e a ser gratos por cada pormenor. 

 
Esta ECCI é constituída por uma equipa multidisciplinar composta por 3 enfermeiras, apoio médico, assistente social, psicóloga, assistente técnica e assistente operacional. Recebe até 8 utentes, integrados após referenciação das equipas de saúde familiar, hospitais ou da própria RNCCI. Os utentes são maioritariamente pessoas com dependência funcional; pessoas idosas com critérios de fragilidade; pessoas com doença crónica evolutiva e dependência funcional grave por doença física ou psíquica, progressiva ou permanente; ou pessoas que sofrem de uma doença em situação terminal.
 
Os cuidados paliativos proporcionam o alívio da dor e outros sintomas geradores de sofrimento, afirmam a vida e consideram a morte como um processo natural pelo que não a adiantam nem atrasam. Integram as componentes psicológicas e espirituais do cuidar, assim como oferecem um sistema de suporte para ajudar os doentes a viver tão ativamente quanto possível até à morte e ajudar a família a lidar com a doença do seu ente assim como no seu luto. Utilizam o trabalho de equipa como metodologia mais adequada para a satisfação das necessidades do doente e família, promovendo a melhoria da qualidade de vida e, como tal, podendo influenciar positivamente a trajetória da doença.3
 
Durante os últimos anos, muitos foram os utentes com doença incurável e/ou grave e com prognóstico limitado, ou em situação terminal que tivemos o privilégio de acompanhar, permitindo cumprir-lhe o seu desejo de permanecer no seio familiar.
 
Trabalhar em cuidados paliativos é uma aprendizagem constante, a nível profissional e pessoal. Passamos a encarar a vida de outra forma, a relacionarmo-nos de outro modo, adoptamos uma atitude muito mais reflexiva em relação à morte, ao sentido da vida e ao propósito da nossa existência. Aprendemos a viver intensamente cada momento e a ser gratos por cada pormenor. 
 
A complexidade e a exigência deste contexto requerem a intervenção de equipas interdisciplinares diferenciadas, com formação de alto nível que conjuguem o saber técnico e científico, com o uso de habilidades interpessoais e emocionais.
 
A articulação estabelecida com a equipa comunitária de suporte em cuidados paliativos (ECSCP) Ametista tem sido preponderante neste processo, partilhando a sua especialidade, com ciência, arte e empenho e contribuindo para a dignificação e significação da vida humana até ao fim. 
 
A ECSCP é para nós um pilar que nos transmite a ciência e o pormenor de cada momento. Fazem-nos sentir a nós, ECCI, o que os utentes/ família necessitam que transmitamos em cada momento. À distância de um telefonema ou de uma visita programada ou inesperada, são as mãos que confortam, o olhar que apazigua, as palavras que nos acalmam e confirmam que estamos no caminho certo, o caminho da dignidade da vida humana, do valor de pequenas grandes conquistas e da humanização dos cuidados de saúde.
 
Obrigada ECSCP por serem uma equipa estrela que nos ilumina, nos inspira e nos faz ter a certeza que estamos juntas em prol de um só objectivo, o bem estar do utente e família.
 
Fica o compromisso de fazermos a diferença na vida de quem cuidarmos!
 
Enfermeira Carmen Horta - Coordenadora da ECCI Portel
 
 
1. Gomes B, Sarmento VP, Ferreira PL, Higginson IJ. Estudo epidemiológico dos locais de morte em Portugal em 2010 e comparação com as preferências da população Portuguesa (Epidemiological study of place of death in Portugal in 2010 and comparison with the preferences of the Portuguese population). Acta Med Port. 2013;26(4):327-34. Portuguese
 
2. Decreto-Lei nº 101/2006, de 6 de junho. Diário da República. 1ª série-A(109)
 
3. https://www.apcp.com.pt/faq/o-que-sao-cuidados-paliativos.html
Modificado em quarta, 28 outubro 2020 10:14
Cuidar não é apenas o desempenho de uma tarefa, é uma forma de estar na vida; um gesto solidário que envolve respeito, cumplicidade e reciprocidade”.
Sequeira (2007)
 
A Equipa Comunitária de Suporte em Cuidados Paliativos (ECSCP) iniciou a sua função oficialmente no dia 1 de Março de 2018 e desde então tem vindo a aumentar os apoios aos utentes do Distrito de Évora e o apoio às diversas equipas prestadoras de cuidados de saúde primários.
 
A missão da Equipa Comunitária de Suporte em Cuidados Paliativos (ECSCP) é responder às necessidades globais do doente e sua família com necessidade de cuidados paliativos, de forma personalizada, promovendo a dignidade e qualidade de vida, apoiar a família na morte e no luto bem como trabalhar em equipa transdisciplinar.
 
Podemos esperar da ECSCP uma:
* Avaliação minuciosa, especializada e holística de doentes com doença crónica avançada e progressiva; 
* Avaliação das necessidades físicas, psicológicas, sociais e espirituais respeitando os princípios éticos; 
* Colaboração no Controle Sintomático; 
* Consultadoria clínica às equipas de Cuidados de Saúde Primários e Cuidados Continuados Integrados;
* Formação base em Cuidados Paliativos aos colegas;
* Articulação com a EIHSCP e cuidados diferenciados;
* Colaboração com as equipas prestadoras na definição do plano de cuidados avançado.
 
Estes cuidados são prestados habitualmente no domicílio do doente, idealmente em regime de assessoria aos profissionais de prestação directa, podendo ser também prestado nas várias Unidades Funcionais, Unidade de Cuidados Continuados, ERPI (Estabelecimento Residencial para Idosos) e outras instituições da área de abrangência da ECSCP.
 
Os utentes que podem beneficiar do apoio por parte da ECSCP são:
* Doentes com alteração de tratamento de intenção curativa para a intenção paliativa;
* Doentes com múltiplas comorbilidades onde o tratamento curativo não é mais possível;
* Doentes com descontrolo sintomático decorrente de um tratamento (curativo ou paliativo);
* Doentes com doença crónica avançada (pulmonar obstrutiva cronica, insuficiência cardíaca, insuficiência renal, cancro, demência); 
* Doentes com síndromes neuro-degenerativas, desde o seu diagnóstico.
 
Podemos definir como critérios de admissão na ECSCP:
* Domicílio na área de intervenção da ECSCP;
* Diagnóstico de doença crónica avançada e progressiva;
* Cuidador capacitado; 
* Doente e família aceitarem a referenciação para Cuidados Paliativos;
* Doente sem capacidade de mobilização/dependência;
* Descontrolo sintomático.
 
A ECSCP (Equipa Comunitária de Suporte em Cuidados Paliativos) é constituída por profissionais de várias áreas. São eles: 
  • Cristina Madeira – enfermeira ECSCP - Pólo de Évora;
  • Helena Chouriço – psicóloga a exercer funções em ambos os pólos;
  • Joaquina Guerra – enfermeira a exercer funções no Pólo de Estremoz
  • Liliana Teixeira de Sousa – médica a exercer funções no Pólo de Évora e coordenadora da equipa; 
  • Raquel Lopes – enfermeira a exercer funções em ambos os pólos; 
  • Rosa Carvalho – médica da equipa do Pólo de Évora;
  • Sílvia Villar – médica do Pólo de Estremoz;
  • Susana Gomez – médica do Pólo de Estremoz.
Qualquer profissional de saúde das Unidades Funcionais da área de abrangência da ECSCP, Unidade de Cuidados Continuados, ERPI e familiares podem sinalizar-nos utentes que beneficiariam do acompanhamento desta equipa. 
 
 “Se a nossa vida é provisória, que seja linda e louca a nossa história, pois o valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem.
Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis”.
        Fernando Pessoa
 
Ninguém é perfeito sozinho…
Mas uma Equipa pode sê-lo!
 
Atendimento telefónico ECSCP Ametista:
2.ª a 6.ª feira - das 16h00 às 20h00
Fins de Semana  e Feriados - das 9h00 às 13h00
 
Pólo de Évora - 266 760 014 ou 961 964 367
Pólo de Estremoz - 268 337 700 ou 969 350 542
 
Mail: Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.
Modificado em segunda, 26 outubro 2020 16:01

Cuidados Paliativos na Comunidade

quinta, 08 outubro 2020 00:45
No mês do Outubro assinala-se o mês dos cuidados paliativos, celebrando-se este ano no dia 10 o dia Mundial dos Cuidados Paliativos.
 
A Equipa Comunitária de Suporte em Cuidados Paliativos do ACES Alentejo Central, não quis deixar de se juntar a toda uma equipa mundial que trabalha, reflete, aprende e partilha a essência dos cuidados paliativos e a sua mais valia, na qualidade de vida dos nossos utentes e famílias.
 
Segundo a definição da OMS os cuidados paliativos são “…uma abordagem que visa melhorar a qualidade de vida dos doentes – e suas famílias – que enfrentam problemas decorrentes de uma doença incurável e/ou grave e com prognóstico  limitado, através da prevenção e alívio do sofrimento, com recurso à identificação precoce e tratamento rigoroso dos problemas não só físicos, como a dor, mas também dos psicossociais e espirituais”.
 
Ao contrário do que ainda se verifica e devido à falta de esclarecimento, os utentes e as suas famílias ainda fogem destes cuidados por acharem que estão associados ao fim de vida e que depois de terem o apoio destas equipas a morte estará mais próxima. Falar acerca destes cuidados permitirá abordar estas questões de forma mais clara e esclarecedora, para que todos possam exigir aquilo a que têm direito e melhorar desta forma a sua qualidade de vida, e assim aliviar o seu sofrimento.
 

O sofrimento dos utentes e das suas famílias, desde que identificado pode ser minorado, cabendo também a estas equipas de cuidados paliativos identificar aquelas necessidades e sempre que possível articular-se com as restantes equipas prestadoras de cuidados de saúde e comunidade, de forma a proporcionar medidas de conforto para aquela pessoa e família.

Os Cuidados Paliativos pressupõem um alívio do sofrimento, o que nem sempre é fácil. O sofrimento é uma experiência pessoal, egocêntrica e complexa que envolve um evento intensamente negativo ou uma ameaça percebida, pode fazer-se acompanhar de componentes físicos, cognitivos, afetivos, sociais e espirituais o que justifica a sua complexidade (Rodgers & Cowles, 1997).
 
O sofrimento dos utentes e das suas famílias, desde que identificado pode ser minorado, cabendo também a estas equipas de cuidados paliativos identificar aquelas necessidades e sempre que possível articular-se com as restantes equipas prestadoras de cuidados de saúde e comunidade, de forma a proporcionar medidas de conforto para aquela pessoa e família.
 
O que destrói o Homem não é o sofrimento, é o sofrimento sem sentido.” Vitor Frankl
 
Um doente mal cuidado na sua doença crónica e progressiva, fica muito mais dispendioso ao estado, assim fará mais sentido apostar e valorizar cada vez mais estes cuidados, centrados no acompanhamento dos utentes e das suas famílias no decurso da sua doença crónica e progressiva, sempre visando a melhoria da sua qualidade de vida, sendo cada vez mais importante dar mais vida aos dias e não mais dias à vida.
 
Os cuidados paliativos não visam prolongar a vida ou antecipar a morte, pretendem proporcionar conforto e bem estar aos utentes e suas famílias.
 
Os cuidados paliativos só fazem sentido em rede, em equipas que se complementam e que trabalham conjuntamente. O verdadeiro trabalho em equipa é um processo contínuo interativo, de um grupo de pessoas, que visa alcançar metas e objetivos específicos como suporte a uma missão comum, através de um processo de aprendizagem, de crescimento e trabalho independente, na próxima semana a equipa descreverá com maior rigor a constituição da equipa, a sua missão no ACES Alentejo Central e os critérios de admissão na mesma, bem como quem poderá beneficiar destes cuidados. Certamente que todos nós conhecemos alguém em franco sofrimento e podemos ajudar se utilizarmos os recursos existentes na comunidade.
 
* Equipa Comunitária de Suporte em Cuidados Paliativos - AMETISTA do Alentejo Central
Modificado em sexta, 09 outubro 2020 14:43

O Sentido da Vida…

sábado, 03 outubro 2020 00:27
Integrar a própria morte, com todas as dúvidas e dificuldades, com receios e inseguranças, mas com a certeza de nunca sabermos quando é o dia, apenas sabemos que esse dia chegará. Faz cada vez mais sentido em qualquer fase da vida de alguém, aprender a viver, para que possa também saber morrer. “Aprenda a viver e saberá como morrer; aprenda a morrer e saberá como viver” - Morrie Schwartz, (2006).
 
Tenho boas memórias do tempo em que via os doentes numa longa varanda ao sol e onde as equipas de profissionais faziam o que de melhor sabiam com os recursos que dispunham, ouviam as preces dos que sofriam e rezavam com as famílias que, muito pouco podiam esperar daqueles que visitavam e que muitas vezes sucumbiam às malvadas doenças que teimavam em aparecer. De cuidados paliativos, em 1990, pouco se ouvia falar no Alentejo, onde cresci, morria-se maioritariamente de Doenças Cardiovasculares, e a morte era negada e encarada como derrota para muitos profissionais de saúde, um fracasso, uma frustração, eram essencialmente profissionais treinados para a doença aguda. “A morte não é pois, uma possibilidade, algo de eventual, mas um facto inexorável da própria vida e um facto com o qual as sociedades, em geral, e os profissionais de saúde, em particular, deverão aprender a lidar” - António Barbosa, et all (2016).
 
Aprofundar a essência da vida e aquilo que de fato faz sentido e marca toda a diferença, os pormenores, o querer dançar quando já se perdeu a mobilidade dos membros, as emoções sentidas, o medo de envelhecer, o perdão e até o dizer adeus aqueles que mais amamos, a nossa família.
 
Comecei a questionar a minha existência, a minha vida e obriguei-me a tomar decisões conscientes e com um único sentido, o alívio do sofrimento, porque mesmo sem doença podemos estar descontentes com a nossa existência e com algumas escolhas que fomos fazendo. Tantas vezes ouvimos nos últimos dias de vida de uma qualquer pessoa, questões como ”porque não fiz aquilo que devia quando era novo”, “porque não tomei aquela atitude na altura certa”, “porque não investi naquilo que mais sentido fazia para mim”, tantas questões se colocam quando percebemos que a nossa vida é finita e essencialmente, se achamos que a proximidade a esse dia chega. Cuidar pessoas com doença crónica e progressiva, dá-nos uma visão diferente daquilo que somos e daquilo que queremos ser. Permite-nos tentar viver a nossa vida de uma forma mais autêntica e com sentido.
 

Cuidar pessoas com doença crónica e progressiva, dá-nos uma visão diferente daquilo que somos e daquilo que queremos ser. Permite-nos tentar viver a nossa vida de uma forma mais autêntica e com sentido.

 
A OMS em 2002,“definiu os cuidados paliativos como uma abordagem que visa melhorar a qualidade de vida dos doentes – e suas famílias – que enfrentam problemas decorrentes de uma doença incurável e/ou grave e com prognóstico limitado, através da prevenção e alívio do sofrimento, com recurso á identificação precoce de tratamento rigoroso dos problemas não só físicos, como a dor, mas também dos psicossociais e espirituais”.
 
Perceber que o sofrimento de alguém está agravado por ter longe o filho que reside no estrangeiro, ou aquela mãe que cortou relações com a filha por ciúmes do irmão, ou simplesmente aquela utente que sempre viveu sozinha e que agora não tem ninguém que cuide dela, faz-nos pensar sobre as atitudes que habitualmente temos durante a nossa existência, que a atitude de quem ajuda o outro pode ter um impacto positivo ou negativo na que recebe, determinando a sua recetividade à oferta.
 
Quando a doença surge, percebemos que estamos aqui de passagem e que a finitude é real e pode não estar assim tão distante quanto aquilo que sempre achamos. Para Marie de Hennezel, os que vão morrer ensinam-nos a viver. “A morte, essa que todos havemos de viver um dia, a que fere os nossos próximos ou os nossos amigos, talvez seja o que nos leva a não contentarmos em viver á superfície das coisas e dos seres, o que nos move a penetrar na sua intimidade e na sua profundeza” - Marrie de Hennezel (2000).
 
Ser enfermeiro é para mim um enorme prazer na dedicação e na valorização do outro como alvo dos meus cuidados de forma única e individual. Cuidar de alguém, é uma tarefa de grande importância para o outro porque ele confia em nós para que lhe seja aliviado o sofrimento que advém de uma alteração no decurso da sua vida, com o aparecimento de uma doença grave que o irá levar á morte. É para todos, difícil conviver diariamente com a morte, a perda, a finitude daquilo que sempre achamos ser para sempre. A morte é, efetivamente, aquilo que quando nascemos temos mais certo na nossa vida, porque todos iremos morrer, só não sabemos como, nem em que condições. 
 

É para todos, difícil conviver diariamente com a morte, a perda, a finitude daquilo que sempre achamos ser para sempre. A morte é, efetivamente, aquilo que quando nascemos temos mais certo na nossa vida, porque todos iremos morrer, só não sabemos como, nem em que condições. 

 
Cabe-nos a nós profissionais de saúde cultivar um ambiente acolhedor e livre de sofrimento para que esse momento inevitável seja o menos doloroso para quem parte e também para quem fica que terá que conviver com a ausência daquele que fazia parte da sua vida e que inevitavelmente terá que morrer.
 
Conviver com a morte quotidianamente não é banaliza-la, mas sim viver a vida intensamente e valorizar cada minuto, como se fosse o último, aproveitando tudo o que é belo e nos faz sentido, como tal é para mim muito importante a comunicação com o doente mas também com a família, que experimenta momentos difíceis e muito angustiantes sem saber o que fazer, nem tão pouco o que dizer, porque tudo acarreta muito sofrimento, porque a inevitabilidade da perda existe.
 
Cada doente deixou o seu ensinamento na minha vida e ajudou-me a tentar ser cada vez melhor e procurar conhecimento para prestar cada vez melhores cuidados com base na evidência e na ciência. “Aqueles que passam por nós não vão sós nem nos deixam sós” - Antoine de Saint-Exupéry (2009). Por tudo isto: “Vivo, sem dúvida, mais intensamente, com uma consciência mais aguda, aquilo que me é dado a viver, alegrias e tristezas, mas também todas essas pequenas coisas quotidianas que são óbvias, tal como o simples facto de respirar ou de andar” - Marrie de Hennezel (2000).
 
Viver é sem dúvida um desafio, o corpo é apenas uma parte, porque somos muito maiores do que a soma das partes físicas, somos valores, pensamentos sobre o bem e o mal, temos emoções, discernimento e intuição e sem dúvida que as nossas vivências são também uma parte muito importante na construção do nosso ser único e individual e viver a trabalhar com estes doentes deu-me uma visão unificada de cada pessoa e de cada momento.
 
* Cristina Madeira - Enfermeira na Equipa Comunitária de Suporte em Cuidados Paliativos do ACES Alentejo Central
Enfermeira desde 2001, com formação avançada em Cuidados Paliativos pela Faculdade de Medicina de Lisboa
 
 
 
Modificado em sábado, 03 outubro 2020 01:51

Nunca te escrevi uma Carta de Amor

sábado, 01 agosto 2020 12:56

Hoje é o teu dia de Aniversário e resolvi dar-te uma prenda diferente. Nunca pus por escrito o quão importante és na minha vida. Já to disse milhares de vezes mas nunca o passei para o papel. Amo-te desde a primeira vez que te vi. Se dizem que não há amores à primeira vista, estão realmente enganados e tu és a prova disso mesmo. Teríamos 12, 13, 14 anos quando, ao ver-te passar na Travessa da Rua de São Pedro, o meu coração bateu a mil. Naquela altura tu eras somente um sonho impossível de alcançar. A miúda mais linda da cidade interessar-se por mim era verdadeiramente uma utopia. Todas as vezes que ia para a explicação de Matemática da Mariazinha, eu olhava para aquela pequena porta da casa onde vivias, que mais tarde soube que chamavas “Casa das Formigas”, sempre na esperança de a mesma se abrir e de trocar um simples olhar contigo. Tinha a noção que, algo mais do que isso seria sair-me o totoloto (na altura não havia euromilhões). Só de te imaginar a abrir aquela porta justo no momento em que eu passava fazia-me um frio na barriga e uma tremedeira de pernas que nem queiras saber. Aqueles teus cabelos longos, soltos e sempre bem penteados… aquele odor que emanavas ao passares por mim nos corredores da escola, tudo era para mim um sonho. “Baixinha” era assim que te chamavam os teus amigos… As minhas esperanças em relação a ti eram quase nulas, tu nem olhavas para mim quanto mais dirigires-te a mim para falarmos.

 

Conhecemo-nos aí com 17 anos, nas grades do Rossio que dividiam a praça de táxis do resto do estacionamento ainda de terra batida… mesmo em frente ao “Convívio” e ao “Águias D’Ouro” onde meia cidade se sentava a passar o tempo, a esparvoar… era o ponto de encontro de muita gente nas saídas à noite. Quem nos apresentou foi o Susi numa noite de Verão… a partir daí a minha esperança renasceu e cresceu exponencialmente, pelo menos nos meus sonhos. Passámos a trocar “olás” nos corredores da escola, encontrámo-nos algumas vezes, por mero acaso (ou não…) nas instalações da Rádio Despertar onde ambos fazíamos programas e, pelo menos, já havia alguma conversa entre nós. Entretanto fui trabalhar para o “Kimbo” e tu passaste a aparecer por lá a beber café com a Elsa e o resto do pessoal. De facto o ambiente daquele “Kimbo” era fantástico, não sei até se o João terá tido alguma vez uma equipa como aquela com o Takana à cabeça, o João, o Tó-Zé, a D. Luzita, a D. Laura, a Ana e eu. De certa maneira, também vocês passaram a fazer parte daquela mobília. Durante aquele período tirei a carta e comprei ao Sr. Emiliano, que era o meu patrão, o meu primeiro carro… um lindo Honda 600 branco... consigo até hoje saber a sua matrícula… BN-73-62. Curiosamente o teu pai era também cliente do Kimbo e cada vez que me pedia um café e um cheirinho perguntava-me se não lhe vendia o “boguinhas”, dizia ele que “Era mesmo bom para a minha Zézinha!”… eu pedia-lhe sempre mais do que me havia custado… mal sabia ele que de vez em quando te dava umas boleias. Foi o único carro que consegui vender mais caro do que o que me custou… mas tenho pena de o ter vendido e tu sabes que é verdade.
 
Grosso modo, a partir dessa altura começámos a falar mais e a partilhar gostos. De certa forma aí também nos começámos a aperceber que entre nós havia algo mais em comum, o gosto um pelo outro… se bem que o meu já existia, tinha era estado até aí adormecido numa qualquer esperança. Por entre peripécias de escritos nos vidros do carro e saudáveis e divertidas perseguições de carro pela cidade, sempre respeitando as regras de segurança e as leis do trânsito, chegámos ao dia 10 de Novembro de 1994, o dia em que a nossa história de amor em conjunto começou a sério… ainda hoje me lembro daquele beijo que trocámos no carro estacionado ao cimo da Rua dos Telheiros e que terá selado aí o início da nossa linda história. Tu costumas dizer na brincadeira que se não fosses tu eu ainda andava às voltas ao Rossio… provavelmente sim, mas certamente seria à tua procura meu amor. A partir daí as histórias dentro da nossa história foram e têm sido imensamente felizes, mesmo as mais complexas que exigiram de nós mais empenho e energia.
 
Sempre te disse que tinhas sido feita para mim, que os nossos pescoços encaixavam na perfeição do nosso abraço. Ainda hoje me surpreendo quando, em determinado instante, estamos a pensar o mesmo e o dizemos quase em simultâneo. Quem não nos conhece pode dizer que “Já se conhecem há tanto tempo que é natural!”, mas não! Sempre assim foi, sempre completámos as frases um do outro… sempre pensámos em quase tudo da mesma maneira… sempre tivemos os mesmos sonhos, as mesmas ambições, os mesmos objectivos de vida.
 
De 1994 a 1999 os nossos alicerces foram sendo construídos e nem a separação física de um Curso Superior nos afastou dos nossos objectivos de vida em comum e, quase no final do século XX, unimos o nosso amor num matrimónio muitíssimo molhado. Até parecia que tinha sido combinado com Deus, sairmos da Igreja e começar a chover desalmadamente durante todo o resto desse dia 18 de Setembro. Dizem que quando o casamento é molhado é também abençoado e o nosso tem-no sido, felizmente, até aos dias de hoje e espero que continue a sê-lo.
 
Desde essa altura tem sido só crescer, e da parte que me toca até para a frente e para os lados isso aconteceu, se bem que essa não é a parte mais importante desse crescimento. Crescer a saber viver em união é muito mais importante… viver com cumplicidade, com partilha, com fé, com justiça, com responsabilidade, honestidade, humildade, com respeito, solidariedade, paz e essencialmente com amor. Aliás, tenho para mim que o amor transporta consigo todos os predicados e que é só deixá-lo fluir e tudo o resto vem atrás. Bem sei que há quem não consiga encontrar o amor mas no fundo isso não é bem verdade, quanto a mim o amor está em tudo… numa simples flor que apanhamos… num gesto que temos… num olhar que partilhamos… num bolo que fazemos, enfim, é o amor que comanda o mundo (já ouvi isto em algum lugar)… à parte de tudo isto eu acrescentaria que a falta dele, nos nossos dias, também o comanda.
 

... quase no final do século XX, unimos o nosso amor num matrimónio muitíssimo molhado. Até parecia que tinha sido combinado com Deus, sairmos da Igreja e começar a chover desalmadamente durante todo o resto desse dia 18 de Setembro. Dizem que quando o casamento é molhado é também abençoado e o nosso tem-no sido, felizmente, até aos dias de hoje e espero que continue a sê-lo.

Fruto, precisamente, do nosso amor chegámos ao dia 11 de Setembro de 2002, um dos dias mais felizes das nossas vidas. Quem nos haveria de dizer que na primeira noite que ia passar em Sabóia me irias ligar às 11 da noite a dizer que estavas com contrações e que se elas se intensificassem eu teria que regressar a Estremoz. Pois… às duas da manhã, já do dia 11, entrei no carro a caminho de casa e às quatro e meia estávamos em Évora. Nesse dia nasceu o nosso primeiro grande amor, a Mariana. Daí para cá tudo mudou, e para muito melhor. Vivemos a inexperiência dos primeiros dias até encontrarmos a aprendizagem do real ao adaptarmo-nos a esses novos ritmos, aos novos sons, aos novos cheiros, aos novos sabores, aos novos sorrisos, às novas palavras. Depois veio o 15 de Agosto de 2007, outro dos dias mais felizes das nossas vidas. Nunca me esquecerei que na véspera às 9 da noite andavas, com um barrigão enorme, completamente descontraída em cima de um escadote na garagem e eu e a Isaura a ralharmos contigo e passadas tão somente 3 horinhas já a nossa princesa Matilde cá estava.
 
Sempre te achei uma guerreira, uma Mulher com “M” maíúsculo que não vira a cara à luta nem a qualquer desafio, que tem uma força descomunal na defesa dos seus e dos seus princípios. Tenho aprendido tanto contigo meu amor, tanto mesmo! Posso até dizer que sou um felizardo por te ter na minha vida.
 
Cinco anos depois, no dia 24 de Setembro, quando nada o fazia prever, recebi uma mensagem tua a dizer: “Estou grávida! E agora?”… acho que os meus olhos brilharam de felicidade e eu respondi-te: “Agora, quem cria dois cria três!”. Perante a tua insegurança e surpresa por se revelar falso o pensamento de estares precocemente a entrar na menopausa, choraste bastante mas, como em tudo, assumiste o destino e preparaste-te com todo o amor para o dia 18 de Maio de 2013, altura em que o nosso príncipe e reguila Miguel veio ao mundo qual Super Homem a voar pelos céus de Smallville ou Metrópolis. O facto de ter assistido ao nascimento dos nossos três filhos fez-me, ainda mais, perceber que os nossos corações estão divididos ao meio e que metade do meu está no teu e metade do teu está no meu. A sensação de ver nascer um filho é absolutamente indescritível e, para mim, foram três momentos incríveis que, ainda que fique mais desmemoriado do que já sou, nunca esquecerei. Quando menos esperávamos as fraldas regressaram, os biberões também e, pela primeira vez, passámos dois anos e meio sem dormir uma noite inteira porque o reguila não nos deixou. Ainda assim, mesmo com todas as experiências que vivemos andámos sempre de mão dada, juntinhos, a tentar fazer o nosso melhor para nada faltar aos nossos “M’s”.
 
Sabes tão bem quanto eu que nenhuma relação é perfeita… a nossa, apesar de andar lá perto, também não o é. Uma coisa é certa, temos sempre sabido, em conjunto, resolver os problemas que se nos deparam. Ambos partilhamos a ideia de que o mal dos casais dos dias de hoje é não conseguirem conversar, acabando as relações por se extremarem sem que façam a coisa mais simples do mundo que é ouvir o outro e tentar colocar-se no seu lugar. Felizmente sempre soubemos fazê-lo e sempre cumprimos o conselho do Padre Júlio no dia do nosso casamento: “Nunca vão dormir zangados um com o outro nem sem darem um beijinho um ao outro!”. Gostando de beijos como eu gosto não é nada difícil cumprir o conselho e os nossos feitios também não são para grandes zangas.
 
Na verdade podemos dizer que somos felizes juntos há “práí” 26 anos ou mais… temos crescido juntos, aprendido juntos, continuamos a gostar do mesmo género de música, do mesmo género de filmes, continuamos a gostar mais do Verão do que do Inverno e de termos o quintal cheio de amigos nas noites quentes, continuamos a gostar muito de praia, tu do sol, eu da água.
 
Devo dizer-te que a coisa que mais me surpreendeu em ti ao longo destes anos, e continua a surpreender, é o facto de seres uma mãe incrível, de uma sensibilidade brutal para com os nossos filhos, sendo rígida e firme quando tens que ser e permissiva (muito mais do que eu…) quando também tens que ser. Consegues saber, de forma inata, como agir na altura certa, o que para ser franco me faz pensar: “Como é que consegues?”. Ainda hoje me surpreendes pela forma como és e como ages.
 
Apesar de eu ser gordo e tu seres magra, adoro ver-nos juntos, adoro os momentos só nossos e os que, obviamente não são só nossos… adoro o teu sorriso, o teu carinho, os nossos segredos… adoro a tua pele, o teu cheiro, o teu toque… e fundamentalmente adoro a forma como desenhámos o nosso amor e o transformámos em três seres absolutamente lindos e, para além disso termos tido a capacidade de assumir esse desafio extraordinário que é a humildade de vivermos primeiro a dois, depois a três, a seguir a quatro e ainda a cinco. Não somos iguais, ninguém o é. Tu és tu, eu sou eu mas juntos, os cinco, somos um só ainda que cada um com a sua personalidade, especificidade e forma de agir e pensar. Sei que, por exemplo, tu nunca publicarias nenhum texto sobre nós, mas eu… eu acho que nem que seja somente uma parte, a nossa história de amor deve ser contada… quem sabe não sirva de exemplo para outros amores, até porque NUNCA TE ESCREVI UMA CARTA DE AMOR e, agora que o faço (se é que isto pode ser considerado uma carta de amor) acho que deve ser lida por toda a gente de forma a demonstrar a saudável estupidez, “bacôca” e apaixonada de quem a escreve. Se calhar todas as cartas de amor são assim, “bacôcas”, lamechas, pirosas e cheias de coraçõezitos e cupidos e outras coisas mais. Já que nunca fui muito romântico, ainda que tu esperasses que eu fosse um bocadinho, deixa-me agora sê-lo e dizer todas as baboseiras (no sentido positivo do termo) que se dizem quando se é romântico (acho eu…). Até as nossas filhas acham que eu não sou nada romântico quando perguntam como te pedi em casamento e lhes digo que não pedi… decidimos casar. O que é que se há-de fazer? Eu sou assim!
 
   
 
Eu acho que o nosso amor é perfeito, até nas imperfeições isso se nota. Desde que começámos a crescer juntos, a remar no mesmo barco para o mesmo lado, eu com um remo e tu com o outro, temos percebido que o nosso amor segue o rumo dos imortais, qual Cleópatra e Marco António, qual Romeu e Julieta ou Baltasar Sete-Sóis e Blimunda, ainda que, espero, sem o dramatismo associado a cada uma dessas personagens literárias e da história mundial. O nosso final, que espero longínquo, tem que ser feliz como nós somos, o nosso amor merece que assim seja. Este nosso amor é um poema, é uma prosa, diria que é um soneto, é uma estrela, uma flor, um campo de papoilas saltitantes, outro de girassóis, é um gato, é o mar, a chuva, é tudo e é mais alguma coisa… o nosso amor és tu, sou eu, somos nós. O teu amor é a minha luz, aquela que me faz andar para a frente e olhar o mundo com os teus olhos, pisando os teus passos. Por isso, o que te prometo é o mesmo que sempre te prometi, amar-te para lá do fim dos nossos dias, e mesmo quando um de nós rumar a essa outra dimensão, teremos sempre a nossa outra metade do coração. Sobre este assunto sabes que quero ser eu o primeiro, quero sempre ser eu o primeiro. Não! Não é egoísmo! É o entender que tu és muito mais importante no nosso núcleo familiar do que eu e… uma mãe é sempre uma mãe e as mães não deviam morrer nunca. Mas não falemos disso agora até porque, por tudo o que temos vivido, merecemos ser todos até nós sermos velhinhos e andarmos de bengala. Falemos da felicidade que é termos a nossa família tal como é e da forma imperfeita com que temos criado os nossos filhos, acho que é mesmo isso que os faz perfeitos, pelo menos aos nossos olhos. Já me perguntei muitas vezes quais serão as recordações que eles terão de nós quando formos embora? O que lhes ficará marcado na memória e no coração a nosso respeito? Certeza temos que tudo temos feito para lhes deixar bons valores para que os seus vôos pela vida se façam sem grandes vendavais ou pelo menos, que possam ter a capacidade de ultrapassar as dificuldades desses vôos, com tudo o que têm aprendido ao longo das suas vidas, para que se esses mesmos vôos se tornem calmos mas firmes. Continuaremos a fazê-lo da forma que achamos correcta e, enquanto o fizermos, podemos dizer que temos a nossa consciência tranquila. Ninguém tirou nenhum curso de como criar os filhos, acho que tudo tem a ver com equilíbrio e com a bagagem trazida, que é como quem diz, tudo o que nos foi transmitido pelos nossos próprios pais, avós, outros familiares e através das nossas vivências que mais não fizeram do que dar-nos também a capacidade para dividir o nosso amor.
 
Não sei se isto é uma carta de amor. Se calhar as cartas de amor são mais curtas mas como nunca te tinha escrito nenhuma, o tamanho desta é proporcional às que te devia ter escrito ao longo destes 26 anos se fosse uma pessoa romântica.
 
Já te disse que te amo? Já te disse que te amo cada vez mais? Talvez já to tenha dito mais do que um milhão de vezes, aí não tenho falhado, ainda assim há algo que não te disse tantas vezes e deveria ter dito… OBRIGADO MEU AMOR por cada momento contigo, por cada hora, por cada minuto, por cada segundo… OBRIGADO MEU AMOR por seres quem és… OBRIGADO MEU AMOR por partilhares a tua vida comigo… OBRIGADO MEU AMOR… por tudo… OBRIGADO MEU AMOR por guardares a minha metade do coração contigo… simplesmente OBRIGADO!!!
 
Como diz o nosso Miguel, “Amo-te… até ao pote de ouro do Arco-Íris e até ao teu mundo!”
 
AMO-TE e AMAR-TE-EI SEMPRE!!
 
* Professor Luís Parente
 
 
 
 
 
 
Modificado em sábado, 01 agosto 2020 13:31

O Governo Anti Touradas

sábado, 13 junho 2020 11:51
Talvez poucos se lembrem, por volta de outubro de 2018, ainda se encontrava há pouco tempo como titular da pasta da Cultura, a ministra Graça Fonseca provocou a primeira grande polémica do seu mandato, quando afirmou que o IVA das touradas não seria reduzido: "Não é uma questão de gosto, é uma questão de civilização". "Todas as políticas públicas têm na sua base valores civilizacionais. E as civilizações evoluem", referiu a governante.
 
Apesar de ter tentado esclarecer que não chamou "incivilizados" aos adeptos da tauromaquia, Graça Fonseca, disse manter "exatamente" o que tinha afirmado: "Quando eu afirmo que há valores civilizacionais que diferenciam políticas, é verdade - posso dar como exemplo o debate do uso dos animais em circo. Não é uma questão de gosto, isto não é individual".
 

Logo, quando se escolhe para a pasta da cultura, alguém que é contra a tauromaquia, significa que o Governo é contra essa mesma atividade

 
Não é segredo nenhum, a Ministra da Cultura, Graça Fonseca, é contra a tauromaquia. Logo, quando se escolhe para a pasta da cultura, alguém que é contra a tauromaquia, significa que o Governo é contra essa mesma atividade.
 
Muita gente está pasmada pela forma como este Governo está a tratar a Festa Brava. Mas não devia estar. Também não se pode estranhar a inibição da realização de touradas no seu palco principal que é o Campo Pequeno, e permitir a realização de outras iniciativas naquele nobre espaço. O Governo é claramente contra a realização de touradas.
 
Nós é que não podemos aceitar esta leviandade de tratar as coisas e desrespeitar milhares de cidadãos portugueses. Quando não há debate há imposição, logo não há democracia.
 
Também não é de estranhar a reação da Ministra da Cultura, Graça Fonseca, quando o Grupo de Forcados de Évora tentou falar com ela e tentou entregar-lhe um barrete de forcado, mas a governante não aceitou a oferta, nem quis falar com os integrantes do protesto.
 
É a reação de alguém que despreza a atividade tauromáquica. Não só detesta esta atividade, como a despreza!
 
Mas a Ministra da Cultura, Graça Fonseca, está errada, porque a Tourada também é cultura. Por muito que não lhe agrade a tauromaquia esta é uma atividade cultural centenária e merece ser respeitada.
 
É injusto os espetáculos tauromáquicos estarem proibidos e outros espetáculos serem permitidos nos recintos de tradição tauromáquica.
 
As mesmas regras dever servir para todos. Os mesmos direitos e deveres também para todos.
 
Por isso mesmo, temos que ser exigentes, e obrigar este Governo a cumprir as regras democráticas.
 
* Vereador na Câmara Municpal de Évora, António Costa da Silva
Modificado em sábado, 13 junho 2020 12:02

Dias 8 e 9 de Maio - Datas marcantes

sábado, 16 maio 2020 14:55
8 DE MAIO - O DERRUBE DO REGIME NAZI
No dia 8 de Maio do presente ano foi possível comemorar os 75 anos do fim do regime nazi. Infelizmente, tendo em conta o contexto em que vivemos, não foi possível festejar da melhor forma tão importante data. A situação de afastamento provocada pelo COVID 19 foi efetivamente inibidora para quaisquer práticas de celebração de tão importante data. Claramente compreensível!
 
No dia 8 de maio de 1945, a Alemanha nazi capitulou, dando fim ao maior conflito mundial vivido pela humanidade. Não podemos esquecer as atrocidades do regime de Hitler, muito menos esquecer uma das maiores vergonhas da humanidade. Tal como escrevia o escritor francês Olivier Guez: “A cada duas ou três gerações, quando a memória se estiola e as últimas testemunhas dos massacres anteriores morrem, a razão se retrai e homens voltam a propagar o mal.” Realisticamente, os fantasmas do passado nunca desapareceram totalmente, e no contexto da atualidade preservar a memória se torna ainda mais importante do que nunca.
 
9 DE MAIO - O DIA DA EUROPA
No dia 9 de maio festeja-se a paz e a unidade do continente europeu. Esta data assinala o aniversário da histórica «Declaração Schuman». ´´Num discurso proferido em Paris, em 1950, Robert Schuman, o então Ministro dos Negócios Estrangeiros francês, expôs a sua visão de uma nova forma de cooperação política na Europa, que tornaria impensável a eclosão de uma guerra entre países europeus.
 
A sua visão passava pela criação de uma instituição europeia encarregada de gerir em comum a produção do carvão e do aço. Menos de um ano mais tarde, era assinado um tratado que criava uma entidade com essas funções. Considera-se que a União Europeia atual teve início com a proposta de Schuman.``
 

Tal como aconteceu com o fim da II Grande Guerra Mundial, esta crise, provocada pelo COVID 19, deveria tornar-se numa grande oportunidade para a União Europeia se fortalecer, mas sobretudo para fortalecer os seus povos, para fortalecer as suas gentes.

É neste contexto que são criadas as Comunidades Económicas, dando origem ao que hoje denominamos de União Europeia. É neste contexto, com o objetivo de garantir a paz entre nações, que se foi criando este grande projeto que une atualmente 27 estados membros.
 
DESAFIOS:
Vivemos uma era em que o projeto Europeu (entenda-se União Europeia) enfrenta grandes desafios e fortes contradições: As consequências e resultados do processo do “Brexit” ainda deixam muitas incertezas quanto ao novo modelo europeu; A crise dos imigrantes e refugiados têm provocado muitos desentendimentos e falta de solidariedade entre povos; A emergência e crescimento dos populismos e do radicalismo de extrema-direita e extrema-esquerda, têm sido um dos maiores fatores desagregador do ``modelo europeu´´. E muito grave, tal como se tem visto na crise provocada pelo COVID 19, existe uma gigantesca dificuldade em se tomar decisões rápidas. Decisões estas que poderiam ajudar a avançar de forma sólida o processo de construção europeia, eliminando muitas das dúvidas de credibilidade que as instituições europeias padecem, perante grande parte dos cidadãos europeus.
 
Tal como aconteceu com o fim da II Grande Guerra Mundial, esta crise, provocada pelo COVID 19, deveria tornar-se numa grande oportunidade para a União Europeia se fortalecer, mas sobretudo para fortalecer os seus povos, para fortalecer as suas gentes.
 
Ainda tenho essa esperança!
 
* Vereador na Câmara Municpal de Évora, António Costa da Silva
Modificado em sábado, 16 maio 2020 15:00

Este ano não há FIAPE

quinta, 30 abril 2020 20:20
Quem me conhece sabe que não sou pessoa de guardar saudade por aquilo que não aconteceu. Tento viver o dia-a-dia, aproveitando ao máximo o agora e aprendendo com o passado, tentando não pensar muito no futuro e, como disse, nas coisas que nunca chegam a acontecer-me. Tento seguir à risca aquilo que, desde muito cedo, sempre ouvi o meu pai dizer: “Quem vai, vai e quem está, está”.
 
Mas hoje tenho que confessar uma coisa. Hoje bateu-me a saudade por algo que não chegou a acontecer. Hoje (e nos últimos dias, para falar a verdade) senti em mim um enorme vazio, pois apercebi-me que este ano não iria ter a minha FIAPE.
 
Sim, a minha FIAPE. Já a considero minha e não me censurem por isso, pois ontem teria começado a sua 34.ª edição e eu já convivo com ela há pelo menos 19 anos, por isso posso perfeitamente dizer que é um bocadinho minha. Um bom bocadinho…
 
Lembro-me tão bem das primeiras edições da FIAPE, no Rossio, quando ainda nem sequer imaginava que um dia viria a ser a minha FIAPE… Nos primeiros anos de escola em Estremoz adorava atravessar a feira e ver os animais e a maquinaria agrícola, quando fazia o meu trajeto diário até à antiga Rodoviária, no regresso a Évora Monte. Depois, já no secundário, a minha formação em agropecuária fez-me olhar para ela ainda com mais atenção. Os panfletos nos stands (sempre adorei beber informação), a maquinaria e os animais que estudávamos nas aulas, as visitas à feira com a professora de produção vegetal e zootecnia… Sinto que talvez a FIAPE tenha contribuído muito para a escolha da minha primeira formação zootécnica , ou provavelmente não, mas atrevo-me a pensar que teve alguma culpa no cartório.
 
Regressei a Estremoz em fevereiro de 1998 e logo aí me colocaram nas mãos programar alguns aspetos da animação cultural e desportiva da FIAPE desse ano. E desde aí, tenho estado (quase) sempre lá. Acompanhei de perto as diversas evoluções que ainda teve no Rossio, a sua mudança para o Parque de Feiras (então resumido ao Pavilhão Central) e as sucessivas adições que ganhou ao longo do tempo, fruto do enorme investimento municipal naquele que muitos consideraram um elefante branco à época, mas que hoje reconhecem orgulhosamente como um dos melhores parques de feiras e exposições da região.
 
Involuntariamente, interrompi por três anos a minha presença assídua na organização da FIAPE. Tal como noutras situações, também aí não tive saudade, porque não aconteceu. Mas regressei novamente (a vida não é tramada?) e desde então gosto de acreditar que eu e a minha equipa das feiras temos acrescentado muito ao certame, fruto obviamente daquilo que têm sido as opções do executivo municipal e a aposta forte que tem tido na projeção da FIAPE e de outros eventos temáticos como forma de valorização social e económica do concelho. Claro que sem os ovos que o executivo nos proporciona não conseguiríamos fazer as omeletes que têm sido feitas e agradeço todos os dias por nos ser dada essa possibilidade de poder fazer sempre mais e pela confiança que em nós depositam nesta tarefa.
 
Ontem teria sido inaugurada mais uma edição. A tal que estava planeada e que não chegou a acontecer. Estaria a mentir se dissesse que não me deixa pena não a podermos realizar. Por muito trabalho que desse, por muitas dores de cabeça e noites mal dormidas que proporcionasse, por muita entrega que tivesse que acontecer da nossa parte, por muitos quilómetros que tivessem que ser percorridos, valeria sempre a pena, pois é sempre com muito agrado que vemos a nossa feira crescer e ganhar a projeção que hoje tem nas nossas vidas e na de milhares de pessoas. Basta olhar para o número de pessoas, visitantes e expositores, que já manifestaram nas redes sociais a sua tristeza por este ano não terem a sua FIAPE.
 
Como disse há pouco, lembrei-me muito da minha FIAPE nos últimos dias: “Hoje estaria a receber os senhores da montagem das tendas e a explicar que ainda não tinha conseguido acabar a planta, porque há sempre alterações de última hora”; “Hoje já teriam vindo montar o palco e a tenda dos espetáculos. Não me podia esquecer da suspensão dos equipamentos de som na estrutura…”; “Hoje começavam a chegar os primeiros expositores e, com eles, os primeiros pedidos de mudança de lugar”; “A equipa do som chegaria hoje”; “Hoje estaria a ter a reunião com a equipa de segurança e a lidar com os stresses do responsável por essa área”; “Por esta altura, já me teriam pedido dezenas de vezes para ir ver o stand da câmara e lá estaria a minha equipa num frenesim. Eventualmente já teria torcido o nariz também uma dezena de vezes, mas no final daria sempre o braço a torcer quando visse o resultado”; “A reunião com a ASAE e as novidades legislativas que há todos os anos. Qual seria este ano?”; “Os prémios dos concursos…”; “O alinhamento da cerimónia de inauguração… Como sempre, metade dos convidados não iria confirmar e depois não teriam lugar sentados…”; “O telefone já tinha tocado milhares de vezes”; “As pulseiras…os bilhetes… os trocos…”; “Os expositores… os 400 expositores, cada um a puxar para o seu lado. Arranjar 400 soluções para 400 problemas”; “A chuva, a sempre presente chuva”... Parece complicado? Sim, é mesmo complicado.
 

Acredito que este ano teria tido uma grande FIAPE. Estavam reunidas todas as condições: as datas, os espetáculos programados, as inscrições que já havia em todos os sectores económicos da feira, o investimento que estava previsto na melhoria de algumas áreas da feira, a promoção que estava delineada, a boa fase que o sector agropecuário atravessava e algum poder de compra que as pessoas ainda tinham… Estou convencido que tudo isto iria contribuir para mais um grande sucesso.

Mas depois teríamos a inauguração e todas estas complicações se desvaneceriam. A inauguração, que, como quase sempre e este ano não teria sido exceção, viria acompanhada da chuva. Mas a partir daí tudo fluiria normalmente e durante cinco dias Estremoz teria a sua FIAPE. Graças a um conjunto de pessoas (executivo, técnicos, administrativos, operacionais, expositores e fornecedores de serviços) que trabalham de forma incansável para que tudo corra bem e que estão lá a dar o seu melhor para que tudo funcione e garanta experiências únicas aos visitantes. É claro que há sempre, neste conjunto de pessoas, um conjunto mais restrito, com quem lido diretamente e que, se lerem isto, saberão perfeitamente que é deles que falo e que de certeza já sentiram muitas saudades do meu mau feitio…
 
Acredito que este ano teria tido uma grande FIAPE. Estavam reunidas todas as condições: as datas, os espetáculos programados, as inscrições que já havia em todos os sectores económicos da feira, o investimento que estava previsto na melhoria de algumas áreas da feira, a promoção que estava delineada, a boa fase que o sector agropecuário atravessava e algum poder de compra que as pessoas ainda tinham… Estou convencido que tudo isto iria contribuir para mais um grande sucesso.
 
Mas, sem nos pedir autorização, o Covid entrou nas nossas vidas e tudo isto e muito mais nos retirou. Já nos tirou a FIAPE, vai-nos tirar o Festival da Rainha e muitas mais iniciativas que estavam previstas para animar o verão na nossa cidade. Está a tirar rendimentos a quem vive da restauração, dos bares, das cafetarias, dos alojamentos turísticos e de tantos outros pequenos negócios que foram obrigados a encerrar; a quem se vê obrigado a ficar em casa em layoff ou a acompanhar os filhos nos seus estudos, devido ao encerramento das escolas. Está a tirar saúde mental a quem tem que estar em casa em teletrabalho e a retirar os poucos anos de vida que restam aos milhares de idosos que estão em isolamento e privados de verem os seus familiares. Priva-nos da companhia de todos aqueles que infelizmente já partiram por sua causa. Priva-nos daquilo que tanto gostamos de fazer: conviver com os nossos familiares e amigos, de circular livremente, de passear, de viajar e de conhecer coisas novas.
 
Todas estas privações acabam por matar-nos aos poucos, devido à insegurança em que vivemos e à impotência que sentimos perante esta ameaça invisível e sem fim à vista. Mas irão ajudar-nos a olhar para o futuro com outros olhos, pois certamente todos tiraremos uma grande lição desta experiência negativa, que mais não seja a de passarmos a dar mais importância às pequenas coisas das nossas vidas e aprendermos a dar-nos mais tempo para as vivermos. Afinal, com tudo isto, todos já nos apercebemos que é possível viver mais devagar e privados de bens não essenciais.
 
O Covid já nos roubou dois meses das nossas vidas. Dois meses que não nos serão devolvidos. Dois meses que não foram vividos intensamente, que não deviam ter acontecido e que, por isso, também eles não me deixarão saudade…
 
Como o Covid ainda não me retirou a possibilidade de fazer atividade física ao ar livre, fui correr, como se ontem tivesse sido uma quarta-feira normal. Casualmente, ou talvez não, passei pelo Parque de Feiras. Lá estava ele: vazio, silencioso e sem movimento. Apenas um ou outro pardal chilreava nas olaias, naquele fim de tarde que despertava após uma chuvada intensa. 
 
E voltei-me a lembrar que este ano não há FIAPE, pois faltava ali o movimento das pessoas, o barulho dos carrinhos de choque, o teste de som no palco principal e a luz acesa no gabinete que costumo ocupar no pavilhão. 
 
Não sei bem se aquela coisa salgada que rolou pela minha face foi suor da corrida ou uma lágrima de tristeza. Mas sei que saí dali a correr como nunca, de regresso a casa, e a pensar: “Este ano não houve… Mas para o ano vai haver, será muito melhor e irá compensar tudo aquilo que perdemos.” Fica a promessa…
 
* Arquiteto Paisagista António Serrano
 
Modificado em sexta, 01 maio 2020 22:47