domingo, 19 agosto 2018

A premiada cientista estremocense Rita Guerreiro confessa: "Sinto muita falta da serenidade do Alentejo"

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"É difícil ter financiamento para investigação em qualquer parte do mundo, mas é particularmente difícil em Portugal" "É difícil ter financiamento para investigação em qualquer parte do mundo, mas é particularmente difícil em Portugal" DR
A cientista estremocense Rita Guerreiro é investigadora da University College London e recebeu recentemente, em Paris, o “Prix Européen Jeune Chercheur”, o Prémio Europeu do Jovem Investigador, numa votação levada a cabo por um comité científico europeu.
 
Desde a atribuição do prémio, foram várias as entrevistas dadas pela Rita, quer à imprensa nacional, mas também à imprensa regional e local.
Destacamos esta por ser a última. Numa entrevista assinada por Martha Mendes, e publicada hoje no “Porta351”, uma revista digital de informação geral, que pretende ser “uma porta para comunicar com os portugueses espalhados pelo mundo”, Rita fala do prémio, do trabalho desenvolvido até aqui, de Portugal, da emigração, e como não podia deixar de ser, do “seu” Alentejo.
 
Rita Guerreiro é a cientista portuguesa que recebeu recentemente o “Prix Européen Jeune Chercheur” (Prémio Europeu do Jovem Investigador), cuja votação foi feita por um comité científico europeu. Investigadora da University College London, em Londres, Rita saiu de Portugal há oito anos e, para já, não pensa regressar, apesar das saudades “da comida, do bom tempo e, principalmente, da serenidade do Alentejo”. A trabalhar na área das mutações do gene TREM2 – indicado como possível fator de risco da Doença de Alzheimer e de outras doenças degenerativas como a Demência Frontotemporal – Rita vai usar o dinheiro do prémio “para expandir os projetos e estudar mais famílias com formas raras de demências”. Um dos objetivos futuros é “identificar as causas genéticas de doenças neurológicas em famílias Portuguesas”. Em conversa com a Porta351 Rita Guerreiro falou do seu trabalho, das políticas de apoio à investigação científica, do trabalho de equipa, do presente e do futuro. Em cinco respostas.
 
1. Recebeu, recentemente, o “Prix Européen Jeune Chercheur” (Prémio Europeu do Jovem Investigador), cuja votação é feita por um comité científico europeu. Sente-se recompensada pelo seu trabalho?
R.G.: Não sinto que seja tanto uma recompensa, mas mais um reconhecimento do trabalho que temos vindo a desenvolver. É um prémio individual, mas resulta de um trabalho de equipa, não só do grupo com o qual trabalho diretamente na University College London (UCL), como também dos colaboradores que temos a nível nacional e internacional.
 
2. Pode explicar-nos, resumidamente, o trabalho que tem desenvolvido sobre as mutações do gene TREM2, indicado como possível fator de risco da Doença de Alzheimer e de outras doenças degenerativas?
R.G.: Inicialmente identificámos mutações no gene TREM2 ao estudar famílias de origem turca com formas recessivas de demências. Em três famílias identificámos alterações neste gene que causavam demência frontotemporal. Quando testámos o mesmo gene noutras formas de demência, verificámos que ao compararmos doentes com doença de Alzheimer com controlos saudáveis, o grupo de doentes apresentava um maior número de alterações neste gene. Uma variante em particular (R47H) era significativamente mais frequente nos doentes do que nos controlos. Concluímos, assim, que mutações no gene TREM2 causam formas raras de demência frontotemporal e que uma variante no mesmo gene aumenta o risco para o desenvolvimento da doença de Alzheimer.
 
3. Faz parte do Departamento de Neurociência Molecular do Instituto de Neurologia da University College London. Porque é que decidiu emigrar para desenvolver o seu trabalho? Portugal não dá as condições necessárias aos seus investigadores?
R.G.: Vim para Londres após terminar o doutoramento nos EUA, porque tive a oportunidade de vir trabalhar diretamente com um dos maiores nomes internacionais em neurogenética. Esta é uma área muito específica e não existem muitas oportunidades destas. Neste momento é difícil ter financiamento para investigação em qualquer parte do mundo, mas é particularmente difícil em Portugal. O investimento que foi feito há uns anos não teve continuidade e grande parte do dinheiro investido não teve retorno para o país, porque não foram criadas estruturas capazes de atrair muitos dos investigadores que saíram para concluírem ou melhorarem as suas formações.
 
4. Saiu de Portugal em 2006. Como é que descreveria estes anos de emigração? Pensa regressar? Sente falta de Portugal?
R.G.: Saí de Portugal para os Estado Unidos (Washington DC) e, posteriormente, vim para Londres. É sempre muito difícil deixarmos a família e os amigos. Tive a sorte de partilhar este caminho a nível pessoal e profissional com o meu marido [José Miguel Brás divide com Rita Guerreiro a chefia do Departamento de Neurociência Molecular do Instituto de Neurologia da University College London]. Os primeiros anos foram mais complicados, mas neste momento temos financiamento para mantermos o nosso laboratório e podemos seguir as linhas de investigação que consideramos mais importantes, o que seria muito difícil de conseguir em Portugal. Por esta razão não pensamos em regressar num futuro imediato, apesar de sentir muita falta da comida, do bom tempo e, principalmente, da serenidade do Alentejo.
 
5. O Prémio Europeu do Jovem Investigador tem o valor financeiro de dez mil euros. Já sabe como é que vai aplicar este dinheiro?
R.G.: Vou usar este dinheiro para expandir os projetos que temos a decorrer no laboratório, de forma a conseguirmos estudar mais famílias com formas raras de demências. Temos, neste momento, várias colaborações com grupos em Portugal e espero que este dinheiro nos ajude a identificar as causas genéticas de doenças neurológicas em famílias Portuguesas.
 
c/ Martha Mendes (Porta351)

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