domingo, 21 janeiro 2018

Estremocense Rita Guerreiro continua a dar cartas no mundo da ciência

Escrito por  Publicado em Estremoz domingo, 31 dezembro 2017 01:42
Decifrada a assinatura genética de uma forma comum de demência Decifrada a assinatura genética de uma forma comum de demência Brian Benson
É costume ouvir-se dizer que a ciência está em constante evolução e começa a ser igualmente uma constante ouvir-se falar na estremocense Rita Guerreiro, sempre que a ciência dá um passo em direcção ao desenvolvimento de novos fármacos ou na descoberta de perfis genéticos relacionados com as doenças neurodegenerativas.
 
E voltou a acontecer. Mas agora em forma de casal. A equipa coordenada por Rita Guerreiro e pelo seu marido José Brás, um casal de investigadores portugueses que dirige um laboratório no Instituto de Investigação de Demência na University College de Londres (UCL), e que envolveu 65 investigadores de 11 países, publicou na revista The Lancet Neurology, um estudo que pode ajudar a desenvolver novos fármacos que tenham como alvo os marcadores identificados para a demência dos corpos de Lewy. Além da parceria profissional e científica com quase 20 anos de história, Rita e José são também marido e mulher há cinco anos.
 
A denominada demência dos corpos Lewy, apesar das muitas semelhanças com a doença de Alzheimer e de Parkinson, não é a mesma coisa. Esta equipa internacional confirmou isso mesmo com um trabalho que resultou numa identificação mais precisa do seu perfil genético único que revela alguma das diferenças entre estas doenças neurodegenerativas.
 
Os corpos de Lewy são agregados de proteínas que se desenvolvem no interior de células nervosas em algumas doenças neurodegenerativas. Uma dessas doenças chama-se precisamente demência dos corpos de Lewy e representará entre 10 a 15% de todos os casos de demência. O actor Robin Williams, que se suicidou há três anos, tinha esta doença.
 
Numa entrevista conduzida por Andrea Cunha Freitas, do jornal Público, José Brás, investigador na UCL que coordenou o estudo publicado este mês na revista The Lancet Neurology explicou que “esta doença tem algumas características da doença de Alzheimer e outras da doença de Parkinson, o que faz com que o diagnóstico seja difícil e que historicamente tenha sido pouco estudada enquanto uma entidade clínica independente”.
 
José Brás assinala que o abrangente estudo genético realizado com Rita Guerreiro, que envolveu 1743 pessoas com demência dos corpos Lewy, 1324 amostras patológicas avaliadas pos mortem e 4454 participantes em grupos de controlo, clarifica “a assinatura genética distintiva da doença”.
 

É como se estivéssemos a lidar com vários elementos da mesma família com muitos dos mesmos apelidos mas às vezes com um nome trocado de sítio. Mas que, note-se, são “pessoas” (leia-se doenças) diferentes e com nomes muito longos, com muitos apelidos. As diferenças são marcadores genéticos e podem ajudar a melhorar os ensaios clínicos e levar a tratamentos mais direccionados.
 
Os cientistas olharam para os lugares fixos num cromossoma onde está situado determinado gene ou marcador genético, denominados loci. Ou seja, procuraram encontrar o lugar dos apelidos na assinatura da demência dos corpos de Lewy. Assim, perceberam, por exemplo, que dois dos loci genéticos (nos genes APOE e GBA) estavam significativamente associados a esta forma de demência e partilhavam as mesmas associações para a Alzheimer (no caso do APOE) e para a Parkinson (no caso de GBA). Outro dos loci identificados para a demência dos corpos de Lewy, do gene SNCA que está ligado à produção de uma proteína (alfa-sinucleína), está também fortemente ligado à doença de Parkinson, mas (neste caso) de uma forma diferente: o estudo revelou que uma parte diferente do mesmo gene está vinculada a esta outra forma de demência.
 
A equipa de investigadores também percebeu que alguns loci associados à doença de Alzheimer e à Parkinson não parecem estar associados à demência dos corpos de Lewy. Não estão na assinatura desta doença. “Como os loci de genes que anteriormente estavam associados a demência dos corpos de Lewy também estavam implicados na Alzheimer e na Parkinson, não era claro se as raízes genéticas desta forma de demência eram simplesmente uma combinação das outras duas doenças. Confirmamos que, em vez disso, tem seu próprio e único perfil genético”, explica Rita Guerreiro, que é a primeira autora do artigo científico.
 
Tornar a assinatura genética desta doença mais clara e nítida pode ajudar a diagnosticar esta forma de demência e distingui-la da Parkinson e da Alzheimer? “Para já, não”, responde José Brás que explica que “os efeitos de cada um destes marcadores genéticos no risco para o desenvolvimento da doença são pequenos” e não são suficientes para dizer que uma pessoa com estas versões pode vir a ter esta doença.
 
A clarificação feita no estudo pode, no entanto, ajudar a explorar novas terapêuticas permitindo “distinguir e categorizar indivíduos para ensaios clínicos de fármacos para estas doenças”, sublinha o investigador que integra a Sociedade de Alzheimer do Reino Unido que financiou este estudo que contou também com o apoio da Sociedade Corpos de Lewy. “Se um ensaio clínico de um fármaco para Alzheimer incluir indivíduos com demência dos corpos de Lewy, por exemplo, os resultados vão ser ‘contaminados’ pela inclusão destes indivíduos com uma doença, que, embora semelhante, é uma entidade distinta”. Esta investigação oferece, portanto, mais um “filtro” de informação – genética – para ajudar a fazer a distinção entre estas doenças neurodegenerativas.
 
Os resultados do estudo também levaram os cientistas a chegar até uma estimativa de heriditabilidade desta forma de demência que será de 36%. “Este resultado não quer dizer que há 36% de hipóteses da doença ser herdada por gerações mais novas. Quer dizer que, na nossa amostra de indivíduos, a diferença entre casos e controlos tem 36% de explicação pela componente genética”, esclarece José Brás.
 
Um dos aspectos mais importantes do trabalho foi identificar uma componente genética nesta doença. Algo que até agora não era tido como certo”, resume o cientista, que acredita que as implicações mais imediatas deste trabalho poderão ser observadas “na caracterização e inclusão de indivíduos em ensaios clínicos de novos fármacos para demência dos corpos de Lewy”. Os resultados revelaram também genes e proteínas envolvidos na doença que podem agora ser estudados e explorados para compreendermos melhor o seu papel exacto e poderão ser usados como alvos para o desenvolvimento de fármacos específicos.
 
c/ Andrea Cunha Freitas - Público

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