terça, 26 setembro 2017

"À Mesa das Servas" com o cavaleiro tauromáquico Francisco Cortes

Escrito por  Publicado em Entrevistas terça, 04 agosto 2015 13:30
Cavaleiro estremocense regressa à praça da sua terra natal a 5 de Setembro Cavaleiro estremocense regressa à praça da sua terra natal a 5 de Setembro Ivo Moreira
Na semana em que se ficou a saber que voltaria a tourear na praça da sua terra natal, o cavaleiro tauromáquico estremocense Francisco Cortes concedeu ao “Ardina do Alentejo” a sua primeira grande entrevista sobre essa matéria. Mas a conversa foi mais além da corrida de 5 de Setembro. O balanço dos 20 anos de alternativa, os objectivos ainda por concretizar, a possibilidade de marcar presença no Campo Pequeno ainda esta temporada, e o porquê de não aparecer em mais cartéis foram alguns dos temas abordados em mais um “À Mesa das Servas”, o espaço nobre de entrevistas do “Ardina do Alentejo”, que conta com a especial, e muito saborosa, colaboração do restaurante “Herdade das Servas”.
 
Ardina do Alentejo - Que balanço fazes destes teus 20 anos de alternativa como cavaleiro tauromáquico?
Francisco Cortes - O balanço para mim é extremamente positivo, porque quando sonhei em ser cavaleiro tauromáquico, sonhava em poder vir a ser profissional da tauromaquia e poder viver da minha actividade, e felizmente consegui atingir esse objectivo.
É claro que ficaram alguns objectivos por cumprir porque em determinados momentos da minha carreira dei privilégio, ou tornei como prioridade se preferirem, em ter uma vida mais sólida e tendo uma família para criar tive que prescindir de alguns dos meus melhores cavalos para fazer face ao dia-a-dia e isso indubitavelmente prejudicou-me artisticamente. 
A actividade tauromáquica, enquanto cavaleiro tauromáquico, é bastante dispendiosa e não é fácil conseguirmos viver só desta actividade e muitas vezes temos de encontrar outros recursos para poder seguir em frente.
Estou feliz porque ao longo destes 20 anos consegui uma postura de verticalidade, seriedade e honestidade que me mantém as portas abertas em qualquer sítio da tauromaquia. Para mim é das coisas mais importantes que podemos ter é um nome limpo e respeitado, e isso eu consegui.

Há objectivos por cumprir mas isso até é bom porque nos continua a fazer lutar cada dia mais e mantém as nossas ilusões e expectativas em alta.
 
Ardina do Alentejo - Quais é que são esses objectivos que te faltam concretizar?
FC - Os objectivos passam por conseguir singrar mais ainda na parte tauromáquica. Sinceramente, e sem fugir à questão, é tentar alcançar uma posição de maior destaque no panorama tauromáquico, não só em Portugal, mas também a nível internacional.
Penso que podia ter alcançado mais rapidamente esse patamar se não tivesse prescindido de alguns dos meus melhores cavalos ao longo destes anos. Algumas das quadras das nossas primeiras figuras são constituídas por um ou dois cavalos que fui eu que coloquei a tourear.
Sou muito aficionado ao cavalo e dedico-me a preparar os cavalos logo desde poldros até eles terem um alto nível. Muitos desses cavalos que consegui colocar com esse alto nível acabei por os dispensar a colegas meus que têm singrado com eles nas arenas, o que também me deixa muito feliz. É mais uma forma de me sentir realizado.
Apesar de que com isso não estou com o destaque que gostaria de ter estado, mas assumo que fiz uma opção pelo bem-estar da minha família e por esta postura de seriedade e de verticalidade que me orgulho de ter, e que é apanágio de toda a minha família.
Sinto-me feliz com a minha trajectória. Podia ter tido uma maior dimensão, mas teve a que teve, e estou orgulhoso do meu percurso.
 
Ardina do Alentejo - Achas que podias ter aparecido em mais cartéis? Podias ter toureado mais ao longo destes 20 anos? Tens condições para isso?
FC - Acho que sim e por muitas razões. Primeiro porque, conforme já disse, tenho tido a capacidade de colocar os cavalos a um alto nível, cavalos que depois vejo a brilhar com os meus colegas ao mesmo nível que brilhavam comigo. Isso é um indicador que tenho capacidade para preparar bem os cavalos e depois explorar as suas capacidades dentro da praça.
É acima de tudo difícil manter uma estrutura. Temos que manter uma quadra com 10 ou 12 cavalos, tourear vacas, manter uma pessoa que nos ajude, rações, veterinários, camiões de cavalos… É uma estrutura muito pesada que muito poucos conseguem aguentar só com a tauromaquia.
Infelizmente não tive a habilidade que outros têm para encontrar alguns patrocinadores ou padrinhos que os ajudam e que lhes permitem fazer outro tipo de extravagâncias. Gosto de passar os meus dias, de manhã à noite, dedicado aos cavalos. Sobra-me pouco tempo para dedicar-me a tentar encontrar esse tipo de situações.
 

Sinto que a carreira que fiz até aqui foi toda ela graças ao meu esforço e à minha dedicação. Estou muito feliz porque tem sido uma carreira digna, séria.

 
Sinto que a carreira que fiz até aqui foi toda ela graças ao meu esforço e à minha dedicação. Estou muito feliz porque tem sido uma carreira digna, séria. É claro que me sinto capaz, porque quando toureio com todos os outros meus colegas tenho um nível semelhante a eles. Ainda no ano passado, e a título de exemplo, ganhei o prémio para a melhor lide em Portalegre, numa corrida com seis cavaleiros, dos principais do nosso país, e isso é o exemplo de que estou à altura deles. Naquela noite, e graça a Deus, até tive superior a eles, daí ter ganho o prémio.     
Não me sinto de forma nenhuma inferiorizado, antes pelo contrário. E sem me querer colocar em bicos dos pés, eu “fabrico” os meus próprios cavalos, ainda vendo alguns, e consigo manter um determinado nível. A maior parte dos meus colegas não só não vendem, como ainda compram, e o nível que eles conseguem muitas vezes é semelhante ao meu. Não tenho razões para me sentir inferior a eles. E como já disse, eu tenho conseguido ser profissional da tauromaquia, enquanto que a maior parte deles, a grande, a larga, a larguíssima maioria dos meus colegas não vivem só da tauromaquia, tendo outras actividades que lhe permita fazer face às despesas que têm.
 
Ardina do Alentejo - Olhando para trás, qual foi a tua melhor lide até hoje?
FC - Isso é muito complicado responder. As lides têm várias condicionantes, tem o toiro, tem o cavalo, tem nós próprios… Posso dizer-te que há corridas que me marcaram pela sua envolvência, como foi a última corrida que o meu pai toureou cá em Estremoz, numa praça desmontável, numa altura em que a praça estava em obras. Foi o último toiro que o meu pai toureou em público, e estavam presentes as grandes figuras como o Álvaro Domecq, o Gerald Perroin, o José Samuel Lupi, o Emídio Pinto, o Paulo Caetano, o Rui Fernandes e o João Ribeiro Telles. A corrida a mim correu-me bastante bem, mas para além da parte da minha lide, teve toda aquela envolvência de ser a última corrida do meu pai, de ser em Estremoz, na minha terra, e essa é uma corrida inesquecível para mim.
 
Ardina do Alentejo - Está resolvido o diferendo com o Presidente da Câmara Municipal de Estremoz. Como é que tudo ficou resolvido, se é que nos podes dizer…
FC - Foi um episódio dos mais desagradáveis da minha carreira. E preferia nem sequer… Acho que a vida se faz de olharmos para a frente e para o futuro e não estarmos a olhar para trás, e para quem teve razão, e o que é que se passou e estar agora a esmiuçar.
 
Ardina do Alentejo - Foi um diferendo que não foi bom para ninguém…
FC - Penso que não foi bom para ninguém e não vale a pena estarmos agora a atribuir culpas a uns e a outros, e estarmos a olhar para trás. A vida faz-se de presente e futuro. Penso que as coisas estejam resolvidas e fico feliz por isso porque me prejudicou bastante. Acho que é bom para todos a resolução do diferendo. Não vale a pena estarmos a esmiuçar um passado, um passado desagradável, um passado que não trouxe nada de bom para ninguém, e espero que o futuro seja muito mais risonho do que este passado de dois ou três anos.
 
Ardina do Alentejo - Resolvido que está este diferendo, regressas dia 5 de Setembro, à praça de touros da tua terra. Com que expectativas estás para essa corrida de comemoração dos 20 anos de alternativa?
FC - Até me faltam as palavras para descrever esse momento que chegará. A praça de touros de Estremoz faz parte de mim. O meu pai foi muitos anos empresário da praça. Toureámos lá centenas de vacas, treinámos lá centenas de horas, na minha meninice. Era uma parte importante da minha vida. Nunca mais pisei a sua arena, nunca mais percorri as suas instalações… No fundo, foi ali que nasceram tantos dos meus sonhos. Será um dia que eu quero cuidar cada pormenor ao extremo, para que o dia possa ser de acordo com a expectativa que eu criei, ainda para mais agravado por esta ausência. 
Há 14 anos que não toureio naquela praça e era uma coisa que eu desejava muitíssimo. Toda a minha família esteve ligada à praça. O meu avô foi empresário da praça e toureou naquela praça, o meu pai foi empresário da praça e toureou lá, fez na praça de touros de Estremoz as comemorações dos seus 25 anos de alternativa, fez lá a sua despedida. Todas as datas importantes o meu pai comemorou na praça de Estremoz e eu tinha esta espinha atravessada na garganta o facto de não poder participar nas corridas lá, e agora estou muito feliz de o poder fazer, ainda por cima numa data tão importante para mim. Vou comemorar os meus 20 anos de alternativa no local onde tinham de ser comemorados.
 
Ardina do Alentejo - Ainda antes dessa corrida de Estremoz, há Tomar e Terrugem…
Francisco Cortes - E tenho mais algumas… Este ano até tenho uma agenda com alguma intensidade, sobretudo agora em Agosto e Setembro. Toureio em Tomar, depois na Terrugem, depois dia 15, na Idanha-a-Nova, dia 16 na Figueira da Foz, e provavelmente dia 21 em Viana do Castelo. Depois de Estremoz, irei dia 12 de Setembro, a Moura, depois irei às Caldas da Rainha, e no princípio de Outubro, a Santarém.
Há ainda a possibilidade de na última corrida da temporada do Campo Pequeno, a 1 de Outubro, uma corrida que será televisionada, e que se for de seis cavaleiros, eu também irei.
E eventualmente poderão ainda aparecer outras datas. Estou contente com a minha agenda porque hoje em dia a tauromaquia move muitos interesses, e há muita gente que não olha a meios para atingir os seus fins e eu mantenho a minha ética e as pessoas reconheceram isso, reconhecem-me algum valor e estão a dar-me a possibilidade de actuar em determinadas corridas e em praças importantes, o que me deixa muito feliz.
Quando foi da apresentação da minha quadra de cavalos, tu e o José Lameiras perguntaram-me o que é que eu esperava desta temporada e eu disse que esperava desfrutar de cada momento e de estar sem ansiedades. E é precisamente isso que está a acontecer. As coisas têm surgido naturalmente. Também tem havido um trabalho importante por parte do meu apoderado, o Sr. Fernando do Canto, que tem acreditado em mim, e que se tem disponibilizado para trabalhar, provavelmente uma das lacunas da minha carreira, a falta desse trabalho de fundo por parte de um apoderado. 
 

Há ainda a possibilidade de na última corrida da temporada do Campo Pequeno, a 1 de Outubro, uma corrida que será televisionada, e que se for de seis cavaleiros, eu também irei.

 
Ardina do Alentejo - Qual era para ti o cartel de sonho em que gostavas de estar presente?
FC - O cartel de sonho penso que será este que se prevê para Estremoz. O João Moura, que para além de ser um amigo de toda a vida e de existir uma ligação familiar muito forte, eu desde pequeno que me habituei a admirá-lo, a vê-lo como o ídolo de várias gerações e provavelmente por ser o melhor cavaleiro da história da tauromaquia em Portugal. É uma pessoa que por todo o seu historial é muito relevante a sua presença neste cartel.
O António Ribeiro Telles, para além da ligação familiar que nos une desde sempre, desde o tempo do meu avô e do Mestre David Ribeiro Telles, é um expoente máximo da nossa tauromaquia, e da forma portuguesa de tourear. Será provavelmente aquele que mais defende as nossas tradições.
Dificilmente seria um cartel mais do meu agrado. 
 
Ardina do Alentejo - Existe alguma expectativa no ar de ver o teu pai, José Maldonado Cortes, nas cortesias da corrida do próximo dia 5 de Setembro, em Estremoz. Vai ser uma realidade?
FC - O meu pai está um pouco apreensivo em relação a essa situação, por todas as polémicas que aconteceram, em relação à reinauguração da praça de Estremoz… e isso levou a que houvesse uma certa hesitação por parte do meu pai em relação a esta sua participação.
Ele foi convidado e para mim seria indescritível o prazer que me daria, voltar a vê-lo vestido de toureiro e a fazer as cortesias num dia tão especial para mim. O estar dentro da arena comigo, acompanhar-me a fazer as cortesias, seria uma forma de ele manifestar solidariedade e apoio para comigo.
Mas por outro lado eu entendo que o meu pai também não esteja a querer ser interpretado de outra forma com esta sua presença. Eu espero que ele acabe por entender que será uma homenagem que me fará e que me deixaria extremamente feliz porque foi a pessoa que ao longo de toda a minha carreira, sempre esteve a meu lado, em todos os momentos, nos bons e nos maus, e sobretudo nos maus, porque nos bons é mais fácil termos as pessoas ao nosso lado. Naqueles momentos em que as coisas nos correm mal, em que as pessoas não acreditam e em que toda a gente diz mal, ele foi a única pessoa que me apoiou e sempre acreditou em mim, e obviamente que é a pessoa que eu mais gostaria que de ter ao meu lado nesse dia. Espero que seja possível e que ele também se sinta desejado nesse dia, que sinta que as pessoas querem e gostam que ele lá esteja.
 
Ardina do Alentejo - A quem for ler esta entrevista que mensagem lhes deixas, quer sejam aficionados ou não?
FC - Para os não aficionados, uma palavra de respeito para eles, sobretudo se tiverem algum conhecimento do que é a tauromaquia. Se não tiverem sugiro que tentem perceber e aproximarem-se um pouco mais da tauromaquia e depois criarem a sua própria opinião.
Para os aficionados, e sobretudo para os de Estremoz e da região, a mensagem que lhes deixo era que se associassem a esta corrida dos meus 20 anos de alternativa. Não posso solicitar pessoalmente a presença de todos e o vosso apoio nesse dia, mas gostaria que percebessem o quão importante seria para mim, que todos os meus amigos e as pessoas que desde pequeno me conhecem, poderem partilhar esse dia tão especial e importante para mim.
Que entre todos nós façamos um dia inesquecível. O público também faz uma corrida de touros, não são só os cavalos, os touros e os toureiros.
Seria a cereja no topo do bolo poder contar com o vosso calor humano ao meu redor.
 
Os Sabores das Servas
Mais uma vez, a equipa do "Ardina do Alentejo" e o nosso convidado comprovaram que o profissionalismo dos irmãos Baía e de toda a sua equipa são merecedores de cinco estrelas. Esta foi a nossa ementa. 
Entradas: Pão, Presunto fatiado, Sonhos de Farinheira (Paparatos), Manteiga e Manteiga de Farinheira
Pratos Principais: Rosbife, Bacalhau à Servas e Salmão Folhado
Sobremesas: Gelado com Molho de Chocolate, Sortido de Doces (Pudim das Servas, Encharcada, Maravilha de Chocolate e Pudim de Ovos)  
Vinho: Monte das Servas Branco 2014
 
 

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