quarta, 28 junho 2017
Corria o ano de 2011, quando foi diagnosticada a Joaquim Rosado uma Leucemia Linfoblastica Aguda "T".
Durante os últimos quatro anos, este gerente bancário agarrou-se à vida e lutou contra a adversidade.
Quando se sentia mais em baixo, "desabafava" com o computador. E são precisamente esses desabafos que agora estão em livro.
"Episódios da minha vida - Quero viver" é o nome do livro que Joaquim Rosado lançou e que já se encontra praticamente esgotado.
Na semana em que regressa às suas funções de Gerente Bancário do balcão de Estremoz do Montepio Geral, Joaquim Rosado concedeu ao "Ardina do Alentejo" esta entrevista que tem leitura obrigatória.
Lúcido, sempre a olhar em frente, com pensamento positivo, e constantemente com a esposa e os filhos no pensamento. Joaquim Rosado na primeira pessoa.
 
Ardina do Alentejo - Ao contrário de muitas outras pessoas, que tentam esconder ou quem sabe esquecer que a "Leucemia" lhes bateu à porta, o Joaquim, pelo contrário, quer contar episódios da sua batalha contra esta maldita doença. Porquê? O porquê de surgir este livro "Episódios da minha Leucemia - Quero viver"?
Joaquim Rosado - Nunca escondi a doença que me tinha sido diagnosticada, sempre falei abertamente sobre o assunto e ainda hoje mantenho essa postura. Quando escondemos algo, é sinal de medo ou receio e não me podia permitir logo de início deixar cair nessa armadilha. Esconder o diagnóstico que estava traçado, era uma forma de não aceitar a doença e iniciava aí um processo de rejeição ou revolta sobre o destino.
Quando nos surge um problema, a qualquer nível na vida, a solução não é, de certeza absoluta, esconder o problema, “empurrar o lixo para debaixo do tapete, não é solução”. Estes problemas não se esquecem, mesmo que se tente essa manobra, tenham a certeza que o corpo vai lembrar-nos todos os dias. 

Durante longos períodos de internamento, como disse anteriormente, estes problemas não se esquecem, estão na solidão do quarto, e sempre que sentia necessidade de chorar, reflectir ou falar, escrevia para uma pasta que tinha no computador, à qual dei o nome de “desabafos”. Escrever abertamente sobre a doença, sobre o que queria “lutar ou desistir”, era a melhor forma de encontrar o meu equilíbrio interior. Foi assim que carregava as baterias emocionais ou motivacionais. Existiam pessoas que sabiam desse ficheiro, enfermeiros, alguns familiares e, em especial, a Dra. Clotilde, assistente social do Montepio Geral, que leu e referiu que era importante a muita gente com problemas idênticos ter conhecimento da minha força de vontade e estratégia utilizada. Após muita insistência, enviei um e-mail a três editoras e a resposta foi quase imediata. 
Por esse facto, ainda hoje não considero todas essas páginas um livro, mas sim simples relatos da minha luta. Se com as minhas palavras conseguir ajudar alguém a não desistir e a acreditar na vitória, fico muito feliz.
 
Ardina do Alentejo - E como estão a decorrer as vendas?
Joaquim Rosado - Os livros foram divulgados nas redes sociais em 12/03/2015. Ainda hoje não acredito que, passados nove dias somente, existem em minha posse cerca de 25 livros.
 
Ardina do Alentejo - Como e onde é que se pode adquirir o livro?
Joaquim Rosado - Na secretaria dos Bombeiros Voluntários de Estremoz, contactando-me pelo Facebook, ou também na Papelaria Livraria Aníbal.
 
Ardina do Alentejo - É um Joaquim Rosado diferente daquele que existia antes de lhe ser diagnosticada a doença?
Joaquim Rosado - Hoje sinto-me mais forte, mais maduro e muito motivado. Quero viver com muita intensidade. Aprendi que não posso desperdiçar tempo com pensamentos negativos. Hoje, sempre que sou confrontado com qualquer situação menos agradável, tento sempre compreender o que de bom posso retirar daí. Hoje sei que não vale a pena perder tempo com o que e com quem nada acrescenta à minha vida.
 
Ardina do Alentejo - Alguma vez pensou que o fim estava próximo?
Joaquim Rosado - Sim. Algumas vezes senti que chegara ao fim da linha, outras vezes não me lembro de ter partido, mas lembro-me de ter regressado. O caso mais grave foi já pós transplante, com um estado de coma prolongado. 
 
Ardina do Alentejo - E como está o Joaquim Rosado agora? Está vencida esta batalha? Está ultrapassada esta montanha que se lhe deparou no caminho?
Joaquim Rosado - Actualmente não estou curado, mas sim numa fase chamada “Doença do Enxerto contra Hospedeiro”. De uma forma simples, no transplante de medula recebi novas células que não são totalmente iguais às que eu tinha anteriormente. O meu corpo está sobre o efeito de imunossupressores (medicamentos utilizados para a prevenção e tratamento da rejeição de um órgão transplantado). Até tudo parece estar bem, mas nada está garantido. Esta é mais uma batalha que quero e vou vencer, mas estou consciente que, com este tipo de leucemia, muitos infelizmente ficam pelo caminho. Vivo numa corda bamba mas tranquilo e equilibrado.
 

Ardina do Alentejo - A família, a sua mulher e os seus filhos, foram parte importante em todo este processo. Eram eles o seu "porto de abrigo"?
Joaquim Rosado - Para vencer qualquer batalha é preciso lutar e eu sempre lutei, nunca desisti. Mas engane-se quem pensa que consegue vencer qualquer batalha desta natureza sozinho. Só foi possível chegar até aqui, porque a esposa sempre acompanhou de perto toda a situação. Foi ela que me deu todo o apoio, conforto, ânimo. Hoje, digo com muito orgulho, que foi ela que me prendeu à vida.
Quanto aos filhos, foram exemplares. No início do meu primeiro internamento iniciaram a vida académica na cidade de Évora. Conseguiram neste últimos anos fazer sozinhos a gestão das próprias vidas. Estudantes, gestores da própria casa em Évora, sempre apoiaram a mãe na empresa de que era proprietária e visitavam-me regularmente em Lisboa. Foram na realidade simplesmente crianças que se tornaram adultos e deram sempre a mão à mãe. 
Todos eles foram a minha âncora, que me permitiram estar estável num porto de abrigo de águas agitadas.
 
Ardina do Alentejo - Que mensagem deixa a todos aqueles que lerem esta entrevista?
Joaquim Rosado - Acreditem na vida, nunca desistam e lutem com determinação pelos seus sonhos. Sejam felizes hoje, porque nada está garantido no amanhã e o passado é isso mesmo… passado.
 
 

Mais Populares